A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 35 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo XII · A Emparedada

 

Em Janeiro soubera D. Dulce, por intermédio do Bispo de Lisboa, em que convento da cidade se fora asilar aquela grande amargurada que era D. Leonor de Gusmão.

A desditosa fizera o seu dito certo. Era uma emparedada.

Confrangida de dó por ela, a piedosa mãe de Ruy de Vasconcelos solicitou e obteve autorização para ir ao convento falar à pobre inclusa, que assim designavam também as emparedadas.

Foi lá, acompanhada somente pela sua antiga aia. Daquele enorme infortúnio nem uma palavra sequer dissera a Madalena.

Receberam-na com as mais cautelosas reservas, e a própria abadessa a foi acompanhar ao claustro pequeno, em que havia dois cubículos para emparedadas.

Antes, porém, lhe tinham exigido promessa jurada de não procurar dissuadir a inclusa de continuar naquela purificadora penitência. A aia ficara esperando no locutório.

D. Dulce sentiu uma singular impressão de horror quando a abadessa lhe apontou o encerro embebido na parede, a um recanto sombrio do claustro.

Nunca ali chegava o sol, por mais opulências de luz que derramasse pelos telhados altos do convento! Mergulhado sempre numa lôbrega penumbra, aquele claustro pequeno parecia o pátio estreito de uma bastilha.

No recanto da emparedada havia sempre uma triste escassez de luz como se estivesse para anoitecer, ainda que o dia fosse alto e o céu tivesse esplêndidas rutilações de ouro.

E para agravar mais as amarguras daquela penitência, até o ambiente humedecido parecia chorar! Ao meio do terreirozito central uma bica soluçava de alto a melopeia das suas águas.

Numa tremura de pavor infantil, D. Dulce inclinou-se para a abadessa e disse-lhe baixo:

— Madre, pela divina Mãe de Jesus, desligai-me da promessa que vos fiz!

— Senhora, não posso... Não devo!

— Olhai que, pelo tanto que tem sofrido, a misericórdia de Deus lhe haverá perdoado as culpas, que nem afinal foram dela. Dizei-me se a desditosa fez já algum voto?

— Aquele; o mais duro de todos.

— Desligai-me então da promessa jurada e deixai ver se posso convencê-la a sair dali.

— Não insistais, senhora!

— Sei bem que esta vossa comunidade tem voto de pobreza, mas, para maior amparo de outras monjas que venham pedir-vos abrigo neste mosteiro, oferecia eu, em resgate da promessa que vos fiz, quanto fosse preciso para aumentar as celas e acudir à ruína em que vi uma parte desta remota edificação.

A abadessa refletia de olhos no chão. Tanta era a pobreza da comunidade e tão apoucados os piedosos donativos depois que as guerras tinham empobrecido o País, que até uma parte da igreja ameaçava derruir-se e não havia recursos com que evitar o desastre. — Cem dobras de ouro que fosse preciso gastar — disse D. Dulce.

— Metade chegaria para impedir que venham abaixo a abóbada e o arco da capela-mor.

— Tem padecido muito aquela desventurada! Deixai que eu a convença a despegar-se dali. Eu sei que se têm feito deixas e legados a emparedadas. Pois seria para o vosso mosteiro o que eu de todo o coração lhe poderia dar a ela.

— Pois que Deus nos perdoe pela boa intenção — respondeu a abadessa num murmúrio de voz — e dizei-lhe, senhora, o que entenderdes de consolo para ela e para favor desta desamparada comunidade. Deixo-vos, e ali vos esperarei à porta deste claustro.

— Madre, que Deus vos aceite essa tamanha obra de misericórdia. Ela está prevenida desta minha visita?

— Está.

— Mostrou-vos estranheza?

— Disse-me sumidamente que vos falaria; mas que não tardásseis muitos dias.

— E porque dizia ela isso?!

— Porque está na esperança de que Deus em pouco a leve para si.

— Talvez por se sentir doente e enfraquecida?

— Disseram-me que muitas vezes rejeita o pão que lhe levam.

— Para acabar mais depressa! — disse D. Dulce numa violenta opressão de alma.

E de si para si, no íntimo do seu coração, sinceramente crente:

— Meu divino Jesus, se vós podeis querer que isso assim seja!

— Chamai por ela. Eu esperarei onde vos disse.

E retirou-se lentamente.

— O horror que isto é — disse consigo D. Dulce, aproximando-se daquele encerro que valia uma sepultura.

— Leonor de Gusmão — chamou numa tremura de voz, pondo na alta fresta de um palmo de largura os seus olhos rasos de lágrimas.

Não lhe respondeu.

— Deus meu, se terá morrido de fome como a filhita lhe morreu?! Chamou outra vez, numa angústia, pondo naquele nome a vibração de um grito e o intenso fervor de uma súplica.

Apesar da ténue claridade daquele recanto, viu brilhar na fresta os lindos olhos de Leonor de Gusmão. Brilho intenso que se lhe acendia na febre de longos meses, dia a dia mais devoradora.

— Leonor, que desventura! — soluçou, notando-lhe as faces encovadas, emurchecidas, num amarelecimento como o da terra que o sol ressequiu e o vento espalhou pelos caminhos.

— Senhora minha! — volveu-lhe sumidamente, num soluço — Vindes à despedida.

— Venho para vos pedir tudo, até pela memória da vossa filhinha, que Deus levou para si...

— O quê, senhora? — perguntou por entre arrancos de uma tosse áspera, a espedaçar-lhe o peito.

— Que me deis o consolo de vos ver sair daqui.

— É tarde! Agora só para mudar de cova...

— Leonor, como se a minhafilha fôsseis...

— Outra como filha mereceis. Aquela que se julgava emparedada... Na corte de Castela.

— Não, não! É por vós que eu aqui venho, para mudardes de abrigo.

— Agora... Só para mudar de cova — repetiu.

— Não credes então no dó que eu tenho de vós!

— Senhora, creio e bendigo o vosso nome. Aqui tenho pedido a Deus pela vossa felicidade... E pela boa fortuna do... O vosso filho.

Cansava; a voz sumia-se-lhe, enrouquecida.

— Há tempo... Há meses... Aqui vieram pedir-me as monjas velhinhas que rezasse também... Em ação de graças... Por uma grande batalha... Que a nossa gente vencera... E por alma dos Portugueses que lá tinham morrido.

— Depois ainda houve outra batalha em Castela.

— Perguntei se tinham morrido muitos... E disseram-me que de certa... Ala dos mais jovens... Muitos tinham sido mortos. Apertou-se-me o coração... Perdoai, senhora minha. Não estaríeis agora aqui... Se o vosso filho... Vos tivesse faltado. Melhorou... Estava lá. Era o que o meu coração depois me dizia. Deu em adivinho... O mal-aventurado! Ainda bem que o vosso filho voltou.

— Foi Deus por ele, e daquelas duas batalhas voltou são e salvo — disse numa opressão de dó.

— Pedi depois a uma das velhinhas que me contasse... O que se dizia da batalha... E ela contou-mo, falando muito de uma ala a que chamavam dos Namorados... Adivinhei logo que o vosso filho... Havia de ser dessa ala. Ainda ontem sonhei... Até aqui dentro a gente sonha!... Sobre a banqueta de madeira... Em que aos poucos se dorme!... Sonhei que via o casamento dele... Com aquela noiva que lhe levaram!

Sufocou-se num ataque violento de tosse.

— Que horror de tosse e com que resignado amor ela ainda o recorda! — pensou D. Dulce.

E logo, carinhosamente, mais encostada àquela porta empedrada por onde só a morte poderia entrar.

— Minha pobrezinha, como sofreis!

— É para ir... Mais depressa.

— Leonor! Que enlouquecimento o vosso! Não vos merecia o desapego em que me deixastes, sem nenhuma notícia vossa!

— Senhora, sofri as maiores dores da alma... Que uma mulher pode ter! Lembrai-vos bem... Tive um grande amor de sonho... E perderam-mo! Tive um imenso amor de mãe... E a filha da minha desgraça... Morreu-me de fome! Quis servir-vos numa devoção humilde... E dei-vos maiores amarguras! Não tinha mais que esperar! Se havia de ir afogar-me no rio, entendi que mais dó teria Deus de mim... Se eu buscasse a morte nesta clausura maior.

Chorou num choro convulsivo.

— Não, não faleis assim... Que não podeis. Agora só uma palavra, e essa encarecidamente vo-la peço... Por todos os que mais tendes amado. Ficareis neste mosteiro, virei eu cá ver-vos sempre que puder, estareis aqui como quem sois. Deixai que eu isto peça; auxiliai-me vós com uma simples palavra de consentimento, e amanhã virão arrancar as pedras desta porta.

— Amanhã? — rouquejou — Sim... Amanhã... Que venham tirar daqui a emparedada de maior desgraça... Que ainda terá tido esta terra!

— Nossa Senhora vos dê em resignação o pago deste consolo tamanho que eu sinto, filha adotiva do meu coração! Amanhã cedo voltarei e então saireis desse horror!

— Senhora misericordiosa, adeus. Amanhã será.

— Vou agora pedir que vos mandem algum alimento.

— Sim... Deixai-me agora uma nova... Para eu saber se o meu coração adivinhou tudo.

— Qual, minha filha?!

— Aquela noiva... Que me fez dó... Aquela que se julgava emparedada... No paço real de Castela... Voltou?

— Amanhã... Vos contarei... Tudo — disse-lhe D. Dulce a custo, arrastando as palavras numas hesitações de dó.

— Tudo! Bem percebo... Senhora da minha alma! O meu sonho foi certo. Ainda bem que foi! Consola-me que seja ditoso... Alguém que eu muito...

E, a reprimir um ataque de tosse, se despediu com amargurado esforço.

— Senhora, até amanhã.

D. Dulce disse-lhe ainda umas palavras de carinhosa piedade e afastou-se a tremer, numa grande emoção de dó. A abadessa esperava-a. Foram as duas para a casa do cartório.

Naquele mesmo dia se obteriam umas licenças indispensáveis e na manhã seguinte voltaria D. Dulce para assistir ao desemparedamento de Leonor, trazendo consigo a escritura dos donativos para os consertos do mosteiro e para o dote da reclusa.

Despediu-se, pedindo encarecidamente que, sem delongas, mandassem algum alimento à pobre emparedada(*).

 

[(*) A Inquisição também teve emparedados; mas ali o emparedamento era uma das mais monstruosas variedades de tortura que ela inventara ou tinha adotado, excedendo a fecunda atrocidade de quantos tiranos ficaram na História. A inclusão inquisitorial era logo para morrer de pé, nas agonias desesperadoras da asfixia. A inquisição de Lisboa foi instalada com a secretaria, os seus arquivos, os seus tribunais, os seus cárceres e o seu inferno de torturas nos antigos paços dos Estáos, que foram residência de príncipes e de embaixadores. Naquele mesmo local se edificou o teatro de D. Maria II. Quando se fizeram as obras desta edificação monumental ainda ali se encontraram esqueletos nos nichos dos emparedados. Nem as mais lúgubres tragédias de Shakespeare, nem os mais pungentes dramas do coração humano, agora ali fingidos no palco, valeriam sequer um pálido arremedo das outras que os trágicos do Santo Ofício levaram dois séculos a idear e a pôr em cena com aquela suprema realidade de dor e de sangue que os seus próprios arquivos registam. Cada processo um drama atrocíssimo, e assim dezenas de miliares deles!]

 

* * *

 

No dia seguinte, voltou D. Dulce ao mosteiro com a escritura, o seu primeiro donativo em dobras de ouro e o coração num alvoroço de caridade por aquela assombrosa desventurada, que fora o primeiro amor do seu filho.

Logo a abadessa lhe veio falar, mas com tal entristecido parecer, que se lhe confrangeu o coração.

— Senhora, não quis Deus que o vosso desejo fosse cumprido!

— Depressa, dizei!

— De manhã cedo a foram chamar para lhe dar alimento. Não respondeu, por mais que a chamassem! Vieram dizer-mo. Fui lá; uma das noviças subiu a um banco para a ver pela fresta alta. Estava como morta.

— Podia ter perdido os sentidos — lembrou D. Dulce num desalento de alma.

— Isso me lembrou e mandei logo chamar quem esbarrondasse as pedras da porta. Já não havia outra coisa a fazer-lhe senão ir abrir-lhe a campa. Estava morta!

D. Dulce caiu de joelhos, numa convulsão de choro. Tomara uma grande e misericordiosa amizade àquela mulher de tamanho infortúnio!

Quis assistir e assistiu ao enterro daquela que fora uma das mais belas damas do Paço.

Retirou-se, deixando o donativo que prometera para as obras do mosteiro.

Entrou em casa numa mortificação de saudade e de dó. Com aquela adorável meiguice que era o supremo encanto da sua rara formosura, Madalena estranhou-lhe a palidez e os olhos ainda húmidos de lágrimas.

— Minha filha, é de pesar por alguém de má fortuna que muito sofreu e amou.

— Morreu?

— Sim, morreu!

— Velhinha?

— Não. De pouco mais idade que vós.

— Pois, mesmo sem a conhecer, também a mim me faz dó. E só hoje o soubestes?

— Venho do seu enterro na igreja de um convento.

— Era monja?

— Era emparedada. Depois, depois vos contarei o vale de lágrimas que este Mundo foi para ela.

Tomou-a para si brandamente e beijou-a.

— Um triste conto de amarguras, que nem agora será bom dizer-vo-lo, minha querida filha.

— Não seria bom porquê, minha santa?

— Havia de entristecer-vos, e bem vos bastam as saudades, esposa sinceramente amada.

— Tantas saudades! — disse-lhe, abraçando-a.

— A outra que morreu, dama formosa do Paço, nunca teve marido e perderam-na! Dois grandes amores lhe encheram a vida. A um lho afogou a desgraça; ao outro, por uma filhinha pequenina, lho levou a morte!

— Filha pequenina... Morta! — disse com um estranho confrangimento, empalidecendo — Há de ser a dor maior da nossa alma! Maior que nenhuma outra!

E inclinando-se muito para D. Dulce, com enternecido desafogo lhe segredou alguma coisa de alvoroço que lhe enrubescia o rosto e acendeu uns fulgores de júbilo nos olhos, ainda belos, da envelhecida fidalga.

— Pois mandai-lho vós dizer — lembrou a mãe de Ruy, abrindo num sorriso a carinhosa alvorada que subitamente lhe enchera o coração — Ou nós ambas.

— Assim — acudiu Madalena a sorrir — As duas, para ele sentir melhor a boa nova. Dizem que as avozinhas são duas vezes mães.

E beijou-a com uma infantilidade encantadora.

CAPÍTULO XIII

A INVESTIDURA DE UM CAVALEIRO

 

Em fins de Abril, Chaves capitulava; em Maio, Bragança. O rei de Avis, como ainda lhe chamavam os Castelhanos, tinha de ir assim conquistando as terras carairiças onde a bandeira da união luso-castelhana, esboço dessa união ibérica, profundamente detestada pela grande maioria da Nação, ainda não fora abatida pela épica lufada que se levantara de Aljubarrota.

Em Maio, nova entrada dos Portugueses em Castela. Ciudad Rodrigo entrega-se, mas Cória resiste afincadamente a um porfiado cerco. Não tinha ainda a ressurgida monarquia recursos que bastassem para as campanhas ofensivas em território estranho e os sitiantes de Cória, sem o dispendioso material necessário para um cerco em regra, padecendo fome como se fossem eles os sitiados, tiveram de retirar para as suas terras, dizimados pelos assaltos inúteis e pelas epidemias dos acampamentos.

O Condestável ansiava por batalhas campais; era, porém, outro agora o propósito dos Castelhanos.

Encerravam-se nos seus castelos e praças fortes, preparavam a fome dos invasores, e deixavam-nos enfraquecer na demorada luta dos cercos.

O próprio rei de Castela resumia o plano adotado numa carta que de Valhadolid escreveu para a cidade de Múrcia. Era seu intento á ejemplo de lo hecho por otros reys de Espana y Francia, prolongar la guerra sin presentar batalla, para que los invasores se fuesen gastando e consumiendo.

Em fins de Junho, desfeita a hoste, cada mesnada e cada contingente dos conselhos recolhe às suas terras; El-rei volta em romaria a Guimarães e o Condestável vai em romagem, primeiro a Santa Maria do Meio, na Sertã, e depois a Ourém. Dali partiria para o Alentejo esse que foi a mais singular e prodigiosa figura de paladino que ainda teve Portugal.

Dividiram-se as três ou quatro dezenas de rapazes que ainda restavam da ala épica de Aljubarrota.

Com Ruy de Vasconcelos vieram uns poucos, incluindo o Magriço. Nos primeiro dias de Agosto, Madalena tinha uma filhita.

Uma semana depois, era solenemente batizada em Santa Maria Maior. Puseram-lhe o nome da avó.

Assistiram à cerimónia quatro Namorados.

O Magriço foi padrinho.

— Ruy, um rapazito é que se quer — segredou-lhe com a sua habitual jovialidade — Um rapaz para ser por esses tempos fora o namorado de alguma outra ala que recorde a nossa, quando já estivermos de pés para a cova.

 

* * *

 

A guerra ia-se arrastando com largas intermitências, mas não tinha fim.

Naquele ano de 1386 o Duque de Lencastre, esposo da infanta D. Constança, filha de D. Pedro, o Cruel, de Castela, saía de Inglaterra para a Galiza com uma frota de 180 navios e 5000 homens de desembarque.

Ia manter pelas armas os direitos da sua mulher ao trono de Castela. Entrou na Corunha, fez o desembarque muito ao seu salvo, e em pouco tempo se apoderou de Santiago e de outras povoações importantes. Tinha muitos partidários na Galiza por causa da sua mulher, como o rei de Castela os tivera em Portugal por causa da Infanta D. Beatriz.

No 1.° de Novembro, o duque de Lencastre e D. João I de Portugal tinham uma larga entrevista na Ponte do Mouro, entre Monção e Melgaço. Na tenda real, aquela que fora tomada em Aljubarrota, combinaram os dois uma estreita aliança ofensiva e defensiva; e o casamento de D. Filipa, filha da primeira esposa do Duque, com o monarca português.

D. João dar-lhe-ia o auxílio da sua gente de guerra para bater os de Castela, que, pela sua parte, estavam esperando o Duque de Bourbon com reforços de França.

Em troca fez-lhe Lencastre a promessa platónica de quebrar nas suas mãos, assim que fosse rei de Castela, as velhas pretensões dos seus arrogantes vizinhos e ceder-lhe Tui e outras povoações importantes do território galaico, no vale do Minho.

Em Fevereiro de 1387 efetuava-se no Porto o casamento de D. Filipa de Lencastre com D. João I, e em princípios de Abril as hostes aliadas de Inglaterra e Portugal transpunham a fronteira de Castela por Alcanizes.

D. João I de Portugal pudera reunir uns nove mil homens para aquela invasão. As forças de Lencastre é que eram já insignificantes.

As epidemias e os desregramentos tinham reduzido a mil e duzentos homens os cinco mil desembarcados na Corunha.

Cercaram e tomaram Benavente e outros lugares fortes, travaram escaramuças em campo aberto, mas nenhuma hoste real lhes ofereceu batalha. As onze letras de Aljubarrota vibravam alto por ali dentro como se fossem trombetas de guerra de um exército de trinta mil homens!

Os de Castela preferiam as arremetidas pelas fronteiras mais desguarnecidas de homens de guerra. A gente do Mestre de Calatrava respondia à tomada de Benavente com a tomada de Campo Maior.

Sem recursos de abastecimento e com os inimigos encurralados nos seus castelos e povoações muralhadas, roídos pela fome e dizimados pelas doenças epidémicas, as poucas tropas inglesas tiveram de retirar, atravessando o Douro, acima de Zamora.

Depois de um combate na Aldeia del Obispo, reentraram os nossos em Portugal por Almeida. Estava concluída aquela breve e inútil campanha.

Perdido o sonho de uma monarquia inglesa na Espanha, entendeu o Duque de Lencastre que o prémio de consolação seria levantar no mais soberbo trono da Península uma filha sua. D. Catarina de Lencastre, irmã da rainha de Portugal, seria esposa de Henrique de Castela, herdeiro presuntivo da coroa.

E assim foi. Antes dos esponsais, a soldadesca do Duque atravessou Castela com salvo-conduto para voltar ao seu País.

Mas a guerra entre Portugueses e Castelhanos, essa não terminava. Ainda havia de durar largos anos em arremetidas recíprocas pelas fronteiras, em cercos e assaltos de efémero renome, com horrorosas depredações num e noutro país.

Batalhas mais nenhuma. Os de Castela estavam amarrados ao plano adotado pelo seu rei D. João I, falecido em Outubro de 1390.

Badajoz foi tomada pelos Portugueses, Salvatierra e Tui por duas vezes. Como em 1385, Viseu foi posta a saque e incendiada.

Enfim, no princípio de Junho de 1400 contratava-se em Segóvia uma trégua de dez anos.

Era o epílogo daquelas porfiadas guerras de trinta e dois anos. E não era ainda a consolidação da paz!

O tratado definitivo só se fez nos fins de Outubro de 1411 e só em 1431 foi ratificado em Medina del Campo.

Só então o rei Carlos II de Castela reconheceu os direitos políticos da dinastia de Avis!

Custou! Apesar de todos os seus desastres, Castela levou quarenta e sete anos a convencer-se de que um contrato nupcial de dinastas não podia anular os trezentos anos de história de uma nação.

Era preciso reconhecer enfim aquele soberano e santo direito que os Chamorros tinham de ficar Portugueses dentro da sua terra de Portugal.

Ia começar agora nos fastos do Mundo o grande ciclo da geração de Aljubarrota.

 

* * *

 

Quando o tratado se assinou, tinha já cabelos brancos aquele rei que fora o Messias de Lisboa. Os rapazes imberbes da Ala dos Namorados, esses eram já cavaleiros de provada experiência e amadurecida idade.

Teria enfim chegado um largo período de repouso, se outra ala de sonhadores não viesse para substituir aquela do estandarte da cor do mar, já no caminho da velhice.

Dos sobreviventes daquele eterno dia de 1385 o mais novo tinha 43 anos.

Dos velhos que neste romance conhecemos, um só teimara em viver, apesar de quantos infortúnios lhe tinham alanceado a alma. Era Mendo Rodrigues. Mirrado, trôpego, a múmia e a sombra do que fora, mas vivia.

D. Dulce e D. Maria de Mendonça, o tanoeiro Afonso Eanes, o Gonçalo Vasques e a tia Lourença tinham falecido durante os últimos vinte anos.

Em 1405 D. Leonor Teles morrera no seu encerro de Tordesilhas, lembrada somente pelos que tinham o direito de a odiar.

Deixemos os mortos em paz e vamos procurar os vivos que mais nos podem interessar.

Entremos no velho paço de Santo Elói.

Estava-se a 14 de Agosto de 1411. Abriram-se de par em par as portas seculares e os criados vestem os seus melhores trajos; entram ali damas da maior nobreza de Lisboa, fidalgos da mais altiva estirpe com a sua comitiva de escudeiros, pajens e donzéis. Em tudo e em todos uns grandes ares de festa.

No terreiro, em frente, magotes de mendigos ê de curiosos esperam pasmados; os alvissareiros para dar fé de quem entra, os esfarrapados na esperança de alguma esmola generosa em que esse dia piedosamente se comemore.

Subamos com a inquiridora audácia de um repórter, para indagar a razão daquele aspeto festivo.

É na soberba sala de armas que se faz a receção solene. Da Ala dos Namorados estão ali alguns que já têm filhas senhoras.

De várias referências dos convidados se depreende que vão dar a investidura solene de escudeiro de armas a um filho de Ruy de Vasconcelos, que na véspera fizera catorze anos.

Do casamento de D. Madalena havia duas filhas, já senhoras, ambas muito mais velhas que o rapazito e uma delas, a que nascera em 1386, já casada havia três anos com um fidalgo do Minho.

Álvaro se chama o neófito. Fora seu padrinho o aventureiro Magriço, de quem havia largos anos se não sabia o paradeiro.

Nem dele nem de Vasco Eanes da Costa, que com outros cavaleiros, mais dez, tinham partido do Porto para acudir ao apelo de certas damas inglesas, ofendidas por algumas grosserias de fidalgos seus compatriotas.

Fora uma aventura de cavalaria andante, que a imaginação do povo já tinha envolvido no luar prodigioso das lendas.

Afiançava-se que tinha sido brilhante e de radioso triunfo para os nossos aventureiros o torneio de desforço das damas afrontadas. Todos os que voltaram deram envaidecida notícia da façanha e falavam com assombro da galhardia audaz do Magriço e de Vasco Eanes no famoso torneio de Londres.

Movidos pelo seu génio aventureiro nem todos voltaram. Dizia-se que os dois, já muito nossos conhecidos da Ala dos Namorados, tinham ido correr aventuras pela Flandres e Alemanha.

 

* * *

 

Ruy tinha ido buscar o tio Mendo. Era ele quem havia de apadrinhar o novo escudeiro.

Entretanto descerrara-se o altar, erguido de propósito no topo da sala de armas. Os pajens acenderam os círios e um padre senil, de alva e estola, ajoelhou em face daquele altar improvisado.

Ao pé da mãe, ainda formosa, e das duas irmãs, lindas como fora a mãe, Álvaro de Vasconcelos com as suas vestes de pureza, saio justo de linho, alvo como a toalha do altar e como a plumagem dos cisnes, esperava que o seu apadrinhador chegasse.

Em volta dele, as donas e donzelas da mais assinalada nobreza; donzéis e escudeiros sem penugem de barba, figuras gentis de uma grande geração de adolescentes.

Apareceu à porta, amparado ao sobrinho, a figura singular de Mendo Rodrigues, o cavaleiro monge de oitenta anos.

Do rosto amarelecido e queimado, como as estátuas dos profetas na portada das catedrais góticas, desciam-lhe a ondear sobre o peito as barbas brancas de neve.

Deram por ele num estremecimento de comoção e foram todos ao seu encontro.

Beijou-lhe a mão o noviço da cavalaria tradicional e ajoelhou-se diante dele.

— Deus te abençoe, jovem, para honra dos teus e glória maior da nossa terra — disse, inclinando-se para ele enternecidamente.

Depois D. Madalena entregou ao velho uma espada curta, pendente de uma charpa. Com as mãos numa tremura de octogenário, Mendo dependurou a espada ao pescoço do donzel.

Encaminharam-se para o altar. O neófito desprendeu a espada da charpa, a tremer de comoção, e apresentou-a ao sacerdote, ajoelhando. O padre abençoou-lha e passou-a às mãos de Mendo Rodrigues.

— Álvaro de Vasconcelos, aqui vo-la restituo para ganhardes com ela as esporas doiradas de cavaleiro — disse-lhe numa voz cansada e tremente — A do teu pai ajudou a salvar Portugal no cerco de Lisboa e a erguê-lo coberto de glória na batalha de Aljubarrota. Jovem, que pela honra do teu nome e pela santa bandeira da nossa terra, a tua pequena espada venha a espelhar o brilho da outra, que há de ser o teu maior património onde quer que for preciso manter altas as tradições da terra portuguesa.

O donzel volveu-lhe sumidamente com a voz a tremer-lhe nos lábios, numa perturbação muito comovedora:

— Tio e senhor, assim será, e pela minha alma e na presença de Deus vos prometo.

— Escudeiro de armas, Deus seja por ti. Beija as mãos da tua pobre mãe e senhora, essas mãos carinhosas que vão cingir-te a espada, símbolo de um dever entre os dois maiores amores humanos — o das nossas mães e o da nossa terra.

Bateu-lhe com a palma da mão na face, brandamente.

— Senhora, cingide-lha — disse para D. Madalena.

E foi a chorar que lha cingiu, sabe Deus com que ânsia de quebrar o cerimonial para apertar o filho contra o peito e cobrir-lhe de beijos aquele rosto que a solenidade da investidura tinha feito desmaiar.

O pai, profundamente comovido, vestiu-lhe o arnês; das senhoras presentes, as mais jovens afivelaram-lhe os braçais e foram as suas lindas irmãs que lhe puseram as esporas de prata.

— Nobres senhoras, e vós, senhores, deixai que entre um antigo da Ala dos Namorados — disse da porta alguém num vozeirão muito conhecido de Ruy de Vasconcelos.

— Álvaro Coutinho! — exclamou, indo para ele de braços abertos — Dom cavaleiro desaparecido, em boa hora vindes!

Abraçaram-se. Estavam já ao pé deles, numa grande emoção de surpresa, os quatro convidados que tinham sido da ala.

Cumprimentos breves para não demorar a apresentação do recém-chegado.

— Vasco Eanes?

— Andou a correr Mundo comigo. Não tardará cá senão algumas horas.

Fizeram-se as apresentações.

— O vosso filho, o meu afilhado — disse alegremente o Magriço — Escudeiro de armas, já sei. Disseram-mo ali fora os criados.

— E já tenho um neto pequenino — informou o Vasconcelos, sorrindo.

— Santo Deus, que muito tempo corrido! A Ala dos Namorados já tem netos!

— E mais alguns cabelos brancos — gracejou o Vasconcelos.

— E são já avós as noivas daquele tempo! — disse-lhe do lado a Madalena.

— Só se os netos o jurarem, senhora minha, pois que os meus olhos não querem crê-lo — volveu-lhe o Magriço, galanteador.

— Álvaro Coutinho, espelho de cavaleiros destemidos, honrai vós o meu escudeiro de armas, pondo-lhe o bacinete.

— Já estava para vos pedir — respondeu, jubiloso — Mas, perdoai a ousadia, senhora minha — disse para Madalena — e permiti que lembre a falta de mais uma madrinha para este gentil escudeiro, fiel retrato de outro com quem tomei conhecimento há uns bons vinte e sete anos.

— Madrinha! — repetiu ela tristemente, supondo que o Magriço aludia a D. Dulce.

— Sim, senhora minha. Aquela bandeira velhinha, que as vossas mãos bordaram e foi connosco a Aljubarrota, a Valverde de Mérida e ao noivado de Tordesilhas.

— Olhai, está ali, recatada, por detrás daquele altar.

— Pois deixai então que eu vá buscá-la, para que seja ela a padroeira do vosso escudeirinho.

— Com muito gosto — aquiesceu D. Madalena.

— Tenho saudades dela. Há de conhecer-me ainda.

E foi buscá-la enternecidamente. Tinha-se esfiampado mais e o tempo mais ainda lhe mudara a cor; era um santo farrapo desbotado.

Ergueu-a de alto por cima do escudeiro de armas.

— A tua gloriosa madrinha, Álvaro de Vasconcelos. Para a lembrares um dia, quando fores de outra ala maior, noutro Portugal de mais alta fortuna do que o nosso era antes de Aljubarrota. E assim como a imagem de um altar, por muito pequenina que seja, ou uma relíquia das nossas mães, por insignificante valor que tenha, nos lembram a religião em que nos criámos e o mais santo amor que tivemos, assim este pedaço de seda em farrapos te deve recordar, Álvaro de Vasconcelos, a maior glória que ainda teve o nosso esforço e o mais sagrado amor que ainda houve nesta terra!

Inclinou mais a bandeira e o adolescente, numa tremura de enternecido, ajoelhou e beijou devotadamente os farrapos da bandeira.

— Álvaro de Vasconcelos, faz hoje vinte e seis anos que foi Aljubarrota! Deus permita que em outro assinalado feito hajas de ganhar as tuas esporas de cavaleiro.

Impressão comovedora, enorme. As senhoras e os que foram da ala tinham os olhos rasos de água. Um frémito heroico sacudia a musculatura daqueles homens.

* * *

 

Anoitecera. Vasco Eanes já estava presente. Chegara de tarde e assistira ao banquete de gala, depois de um torneio de escudeiros jovens no terreiro do palácio.

A pedido das damas, o Magriço estivera contando os pormenores do famoso e já lendário torneio dos Portugueses em Londres. Dos Doze de Inglaterra, como se ficou denominando aquela tradição, talvez o último romance vivido da cavalaria andante.

— Fomos gentilmente favorecidos pelas ilustres damas que desafrontamos e, bem que duas delas não tivessem muito porque se ofender, pois eram desenganadamente feias, a todas prestámos homenagem pelas suas condições e fidalga origem, como bons galanteadores de Portugal. Duas me acarinharam a mim, com insigne favor e me lavaram as mãos em água de cheiro! Entendi que isto me faziam por ter sido eu quem derrubara o cavaleiro que mais as tinha desdenhado, um dos mais altos senhores da corte inglesa.

— Se foram as mais lindas... — acudiu D. Madalena, sorrindo.

E o velhaco do Vasco Eanes segredou o quer que fosse a Ruy de Vasconcelos.

— Eram as duas mais feias! — respondeu o Magriço Com um delicioso gesto cómico de pesar — Irmãs minhas tinham de parecer, se não fossem mais louras que o sol e mais brancas do que a neve. Todos os seus favores lhe agradeci de olhos baixos.

— Acanhamento vosso — lembrou Ruy por afetuoso gracejo.

— Medo meu de me julgar formoso a poder de reparar nelas. Mas não julgueis vós, senhoras minhas, que todas eram assim. Lá as vi eu lindas como arcanjos; porém essas nem para mim olhavam. Era a sina que eu tinha! E assim como de Portugal me tinha abalado por já não haver guerra que prestasse, também de Londres fui para Flandres e Alemanha por não ter já ali aventuras que me prendessem. Nem vos sei dizer a conta dos desafios que Vasco Eanes e eu mandámos e recebemos, nem os combates em que entrámos! E sempre de tão boa fortuna contra os homens como de igual desventura com as damas!

— Estou a entender que voltais solteiro — disse-lhes um dos antigos Namorados.

— Tal como fui, e mais dei comigo em Itália onde as damas são de enfeitiçar e primam em amoráveis generosidades. Deixarei, porém, estes lances da minha má fortuna para vos dizer coisas de envaidamento que ouvi por lá. Sabei que muito se fala agora da nossa terra como de Nação jovem para grandes destinos! Há anos havia lá por fora muita gente que punha em dúvida o nosso feito de Aljubarrota, e uns diziam que tinham sido ali mais de vinte mil dos nossos contra menos de trinta mil de Castela; outros inventavam que os arqueiros ingleses, muitos centos deles, é que tinham vencido a batalha. O feito de seis mil e quinhentos contra os trinta e quatro mil de Castela é o que a eles lhes custava a engolir. Em Londres tive de rasgar a pele às lançadas a um mentiroso, que dava a batalha vencida por setecentos ou mil arqueiros ingleses. Mas no Brabante encontrei um velho francês, que fora menestrel e era cronista, e esse me leu a narração da batalha como lha tinham contado e ele a pôs por escrita. Tem coisas falsas, mas justiça nos faz. A respeito de nomes de cá é que o Francês errou quase todos, logo a começar pelo da batalha, a quem ele chama de Yuberothe. Custou-me a desencantar neste embrulhado nome o nosso de Aljubarrota! Ele a perguntar-me se eu também tinha estado na grande batalha de Yuberothe, e eu de olhos pasmados nele e quase a supor-lhe intentos de jogral escarninho, a quem, pela sua velhice, me não fosse dado castigar!

Riram.