A Ala dos Namorados
Capítulo XIII · A Última Investida
O dia seguinte, ainda não era sol fora, saiu Afonso Eanes da sua casa com um servo seu, antigo mouro saloio, e tomou para o casebre da tia Lourença.
A regateira já tinha aviso para os esperar. O tanoeiro cumpria a promessa da véspera. Levaria para sua casa a desventurada Leonor e aquela que misericordiosamente lhe dera abrigo.
Pelo caminho ia Afonso Eanes pensando nas condições angustiosas da cidade, naquela situação horrorosa de um povo faminto, que teria de capitular, ao desamparo de qualquer oportuno auxílio.
— E o reino, tirando o Porto e uma dúzia de povoações maiores — pensava — todo na sujeição dos Castelhanos ou dos traidores Portugueses que estão por Castela! Nuno Álvares talvez não chegue a tempo! Um assalto de quinze ou dezoito mil Castelhanos e Franceses, e não será com oitenta ou cem homens de prole e a peonagem esfaimada e rota, que Lisboa lhes poderá resistir. E aqui, dentro da cidade tomada, se enterrará para sempre este pequeno reino com tanto esforço criado! Doutro modo, só se for por um milagre de Deus, a ajudar outro milagre que venha do sangue da nossa gente!
Deitou para trás de arremesso o capelo do seu saio de grã. Atormentavam-no aquelas esmorecedoras previsões.
— Até me parece de mau agouro esta quietação dos Castelhanos! Há quatro dias nem uma escaramuça às portas de Santa Catarina ou dos lados do rio! Só se a peste entrou mais com eles e andam agora mais esmorecidos. E esta pobre cidade adormecida como se não tivesse dobrados perigos de morte em volta dos seus muros!
Encontrou logo dois lúgubres desmentidos. Lisboa, com a sua gente de maior infortúnio, já tinha despertado. A fome e as mágoas davam-lhe a sua trágica alvorada primeiro que o sol.
Bandos de criancitas semi-nuas vagueavam já pelas ruas, pedindo esmola, ou esperando a chorar que se abrissem as portas das casas onde ainda podia haver a opulência de uns pedaços duros de pão negro de bagaço.
Ao dobrar uma esquina, quatro pequenitos correram para ele, e de mãos postas, ajoelhando a chorar, lhe pediram esmola numas palavras que as mães lhes tinham ensinado e eles ainda mal sabiam dizer, de pequeninos que eram.
O Juiz do Povo levantou-os, fez-lhes carícias e disse ao servo mouro que os guiasse a casa para lhes darem lá alguma coisa. E que voltasse depressa.
Mas ainda os pequenos não iam distantes, e logo outra cena pungidora se lhe deparou.
Uma procissão de penitência, exclusivamente de mulheres. Esposas que tinham os maridos feridos nos hospitais, viúvas que tinham deixado em casa os filhos roídos de fome, mulheres juvenis numa viuvez da alma pelos noivos mortos nos muros e às portas da cidade, defendendo-a.
Uma ladainha dolente, rezas numa enternecedora melopeia de soluços.
Iam para a Senhora da Escada, que era, naqueles dias trágicos, a Senhora de mais incendida devoção para as mulheres de Lisboa.
Afonso Eanes apressou o passo, confrangido.
E o sol lá vinha a romper, por entre as suas magnificências de oiro rutilante na mesma triunfal indiferença por essa terra de tão lancinantes dores e de tamanho infortúnio, onde para tantas almas seria sempre noite cerrada e lúgubre, por mais luz que ele trouxesse.
* * *
A tia Lourença esperava-o à porta.
— Santo dia, mestre Afonso Eanes — disse-lhe mal que o avistou.
— Para nós todos seja. E a desventurada?
— Levou a noite toda numa grande inquietação, nuns ais abafados e num choro que ela queria encobrir; mas eu estava a sentir-lho como se fosse de uma filha minha.
— Já sabe que vai mudar de casa?
— Logo ontem de tarde lho disse, quando a vi numa daquelas suas horas em que o juízo lhe volta, assim como se nunca o tivesse perdido! Disse-me que estava com vergonha de ir dar a saber a sua desgraça a pessoas que talvez não quisessem crer na traição que a perdeu.
— Em minha casa ninguém lhe falará em tal.
— E fez-me muitas perguntas a respeito... Daquele jovem cavaleiro que veio aqui.
— E olhai cá, já está erguida?
— Vestida com os seus trapos de seda e a dormitar em cima do almadraque(*) de estopa, que foi a coisa melhor que eu tive para lhe dar.
[(*) Enxerga de palha. Também assim se denominavam os colchões e os coxins das casas ricas.]
— Pois vamos então lá dentro buscá-la.
Mas não foi, porque o surpreendeu a gritaria dos mareantes e galeotes da Ribeira.
E logo na ruazita próxima uns alvissareiros correndo, nuns clamores de alarme:
— Gentes, arriba! Arriba, que vêm aproando à Ribeira as galés de Castela!
Um pouco enfiado pela surpresa, o tanoeiro correu para a escada exterior do eirado de uma casa próxima, desabitada e em ruínas.
Subiu rapidamente. Dali via-se bem a Ribeira e a praia onde as galés portuguesas estavam varadas, por não haver guarnições para as trazer no rio, opondo-as à numerosa frota das galés castelhanas.
O sol subia, doirando a cidade, e nas águas vivas da maré que enchia, vinte galés inimigas vinham arrancando rio acima.
Percebia-se bem a chusma dos homens de armas amontoados nos pequenos castelos e no convés baixo das galés, metendo de proa para aonde estavam as de Portugal, imobilizadas na areia.
E nos flancos da frota um enxame de batéis com gente armada, provavelmente os batéis das sessenta naus atracadas em frente de Santos.
Até se distinguiam os fidalgos pelo resplendor das armaduras, pelos pendões multicores, pela arrogante plumagem dos bacinetes.
— Vêm tomar-nos as galés! — pensou Afonso Eanes.
Desceu rapidamente.
— E daí, senhor Juiz do Povo? São os lobos gadelhudos de Castela?
— São. Ide vós com o meu servo mouro, que não pode tardar. Eu vou avisar o Mestre.
E deitou de corrida para o paço do Limoeiro.
* * *
— Não, pois aqui é que eu me não fico — dizia consigo a tia Lourença — Vou ver se ela adormeceu, e a nossa Senhora que vele por ela. A minha chuça não há de ficar ao canto da lareira enquanto esses malditos javardos vêm às focinhadas contra a cidade.
Foi para dentro. Leonor dormia profundamente.
— Nossa Senhora seja contigo, que tanto tens padecido! E até a dormir chora! — disse comovidamente, reparando em duas lágrimas, soltas das pálpebras cerradas de Leonor de Gusmão.
Saiu do cubículo pé ante pé e foi a um recanto da lareira buscar a chuça, longa haste de tojo com uma ascuma de ferro como as lanças curtas.
— Vamos lá, rapariga, que temos hoje bailado com os dançadores de Castela — disse de galhofa para a chuça — Eia, como estão já a badalar os sinos da Sé!
Correu à porta. Já não eram só os sinos de Santa Maria, mas os de todas as igrejas da cidade e as sinetas das muralhas e de quantas ermidas tinha Lisboa.
— Vamos lá ver se arrebanho a minha ala de saias.
Não era preciso. Mais de sessenta mulheres, armadas de chuças ou com arregaçadas de pedras, vinham de corrida gritando, numa gesticulação violenta. Eram das ruas altas da cidade.
— Eh! Mulheres de Deus! — exclamou a tia Lourença, indo ao encontro delas — Assim é que eu gosto de vos ver, animadas! E em jejum, raparigas?
— Desde ontem — disse uma.
— Pois pudera — acudiu outra.
— Em os sinos badalando assim, parece que fica a gente cheia e farta como no tempo em que havia pão! (*)
[(*) Refere-se ao repicar dos sinos dando sinal de alarme para que a gente válida corresse aos muros e portas da cidade.]
— Dá-nos a febre no sangue — explicou a tia Lourença — e a febre também sustenta.
— Os castelões às portas de Santa Catarina! — gritou um homem que vinha correndo de cima — E ouvi que também apareceram muitos para outros lados da cidade!
— Pois vamos lá para as portas de Santa Catarina a dar-lhes os bons dias — resolveu a regateira — Mas vede-me primeiro se aí vem alguma criatura caridosa, que me queira ficar em casa a tomar conta de uma doentinha que eu ali tenho.
— Aqui está esta, que anda doente e mal pode consigo — disse uma rapariga desempenada e forte, apresentando uma mulher de cabelos brancos, ressequida, as faces da cor do pergaminho antigo. — Quereis ficar, que vos agradeço eu e vos pagará Deus? — perguntou-lhe a tia Lourença.
— Se nisso vos dou aprazimento, fico — volveu-lhe em voz dolorida.
— É uma obra de caridade para eu ir descansada.
E fez-lhe umas breves recomendações.
— Olhai os sinos que estão a chamar por nós! — disse uma das mais impacientes.
— Vamos já — respondeu-lhe a regateira — Sabei que mais os estou eu sentindo no coração que nos ouvidos. Vá, mulheres! S. Jorge e Portugal! E cada uma fará de conta que defende a sua casa e os seus filhos.
— Viva a tia Lourença!
— Viva a nossa capitã!
— Para as portas de Santa Catarina, mulheres! — gritou a regateira.
Mas do lado de baixo da rua um barqueiro velho clamava:
— Correi à Ribeira, que está lá o poder maior de Castela! Querem tirar-nos as galés, as nossas! Já se aferraram a uma!
— Pois seja lá para a Ribeira — clamou a tia Lourença — Calai-vos lá, velhinhos, que nós cá vamos para eles — disse de mão espalmada no ar, voltada para as torres da Sé.
E lá foram todas de golfada pela rua abaixo.
* * *
Resumamos nós agora o plano dos Castelhanos, segundo a sincera informação desse grande e adorável cronista que foi Fernão Lopes, patriarca dos historiadores portugueses.
Não podendo levar a cidade de vencida, el-rei de Castela planeou tomar-lhe as galés, varadas então na praia fronteira às Portas do Açougue.
Seria cometimento para levantar os ânimos da gente castelhana, a quem a intrépida constância da cidade e, muito mais ainda, os horrores da peste, tinham amortecido a coragem.
Não o diz Fernão Lopes, mas parece plausível que fosse este o objetivo de D. João de Castela.
A el-rei pesava-lhe despegar-se dos arredores de Lisboa e não faltava já da alta nobreza quem o instasse para levantar o cerco. O próprio príncipe Carlos de Navarra lho aconselhava insistentemente.
Compreende-se que o bom êxito do feito — o apresamento das galés — levando o esmorecimento aos sitiados, daria ao rei um argumento triunfal contra os pedidos daqueles que pediam o levantamento do cerco.
E, provavelmente, lhe haveria de ter parecido cometimento fácil e de segura realização, vista a grande superioridade naval da sua armada.
E tanto que, num conselho em que o plano se estudou e resolveu, lhe propuseram os alcaides e patrões das suas galés, como façanha rápida, a queima das galés de Lisboa e el-rei lhes rejeitou o alvitre, pois queria para aumento do seu poder aqueles navios como coisa sua, adstrita à herança da coroa de Portugal.
Assentou-se então neste plano: Que durante a noite de 26, cautelosamente, sem ruído que desse alarme aos sitiados, se fossem metendo a bordo das galés quantos besteiros e homens de armas elas pudessem conter, depois de reduzida a tripulação de galeotes. Que em todos os grandes batéis da armada se fizesse o mesmo, para acompanhar as galés e que as naus, apercebidas para combater, dessem apoio à frota de ataque.
Ao romper da manhã, com águas vivas e a maré a encher, as galés e batéis meteriam rio acima para a investida.
Entretanto, o conde de Mayorga, à frente de um forte corpo de tropas, talvez não menos de cinco mil homens, atacaria as portas de Santa Catarina até Cataquefarás para dividir os esforços dos sitiados. Para a Ribeira destacaria um troço de homens que ajudassem a arremetida dos outros das galés.
Vamos nós agora ver como este plano se executa e a gente de Lisboa se defende.
* * *
Mal recebeu aviso de Afonso Eanes, o Mestre mandou chamar a sua gente de prole e armou-se. Vestiu a cota de armas com a cruz floreteada da Ordem de Avis, os braçais, cingiu a espada de combate e a adaga, entregou a um pajem o bacinete, a outro a lança e subiu de afogadilho ao eirado do paço donde a amplidão do Tejo se descobria perfeitamente.
Já então as galés castelhanas e os grandes batéis arrancavam de proa contra a Ribeira.
Desceu rapidamente a estreita escada de mármore grosseiro, em que as sapatas ferradas e as rosetas dos acicates dourados faziam um ruído estridente, e foi montar o negro corcel de batalhador.
Não esperaria por ninguém. Iria com os cavaleiros que já tinham chegado, quase todos eles a pé, porque em toda a cidade já não havia senão vinte cavalos de batalha.
Entre os poucos cavaleiros de preclara linhagem que ainda não tinham chegado, notou que um deles era Ruy de Vasconcelos.
— Muito me admira! — disse baixo ao Juiz do Povo — Quereis ver que adoeceu de amores! — acrescentou, pondo o bacinete e tomando a lança das mãos do pajem.
— Senhor, certo não tardará — respondeu-lhe Afonso Eanes.
— Ides vos lá ter — disse para os cavaleiros a pé e, fazendo sinal para o seguirem aos catorze que estavam a cavalo, deitou a galope para a Ribeira na direção das tercenas.
Já duas galés inimigas tinham aferrado duas das nossas, e dos batéis, muito próximos da praia, os besteiros castelhanos crivavam de virotes o arcaboiço dos navios portugueses, pondo em risco de vida os poucos galeotes que as guardavam e tornando difícil que alguém se lhes metesse dentro para as defender.
E a investida com uma gritaria ensurdecedora de fanfarronadas, de insultos, de obscenidades, como se neste desafogo tivessem já o antegozo da vitória!
Os galeotes portugueses faziam esforços desesperados para rebater os atacantes; muitos, porém, já feridos, mal podiam aguentar-se dentro dos navios.
E do lanço da muralha, por cima da Porta do Açougue, dos terraços, dos mirantes, dos quintais altos da pinha de casaria, quase empoleirada no monte do Castelo, a populaça bramia cóleras inúteis.
— E a gente aqui presa! — gritava a tia Lourença, do alto do muro, agitando a chuça no ar — Pois vai mesmo daqui à pedrada sobre esses gadelhudos. Vá, mulheres, para cima deles, mas tende cuidado não vades ferir os nossos pobres galeotes. Mão firme e certeira e gana contra os das gadelhas!
E foi ela quem atirou a primeira pedra com tal pulso e destra pontaria, que deitou a terra um besteiro inimigo, que mais se aproximada do muro a fazer-lhe gestos de provocação insultuosa.
Mas o Mestre chegou, mandou abrir a porta que dava para a tercena e atrás dele, em brados de aclamação, correram para a Ribeira, com a ala ia tia Lourença, cerca de trezentos homens armados e uma centúria de besteiros com o anadel-mor.
Era tempo. Com os seus virotes e dardos esbraseados, a gente dos batéis varejava a curta distância os defensores dos navios encalhados, e já a galé castelhana de Vasco Martins de Meira tinha arpoado e segura a galé de que era patrão Fernão Nunes Homem, comendador da Ordem de Avis.
Também era esta a única em maior perigo de se perder, apesar do heroico esforço com que a sua gente a defendia; e, excedendo a todos, o Castelhano Alfonso Gutierres de Padilla, que havia tempo se passara, tornando-se parcial do Mestre de Avis.
Outra que estava sendo rudemente investida por duas galés castelhanas — a de Afonso Furtado — essa com bom êxito se defendia, porque, estando varada de través com uma das bordadas para o rio, mandara o patrão que à força de peso, com toda a sua gente sobre a outra borda, a fizessem adornar para o lado da cidade e deste modo lhes servia de trincheira o costado volvido para o Tejo e de parapeito a respetiva amurada.
O Meira da galé castelhana, com o rosto golpeado por quatro virotões, tinha-se de pé já à sobreposse, mas ainda lutava, e foi ao enristar a lança para um supremo esforço que um dardo esbraseado lhe entrou por debaixo do braço.
Aquele era de morte. O Meira levantou os braços numa agonia que o desfigurara e tombou da proa da galé sobre a areia húmida, embebendo-se nela com a sua pesada armadura, como se no derradeiro alento quisesse ser o seu próprio coveiro.
O Mestre andava pela Ribeira dirigindo a defesa contra a gente dos batéis, que a espaços fazia tentativas de desembarque. E com os fidalgos e a peonagem que D. João opunha aos batéis, lá estava a tia Lourença com as suas mulheres de armas.
— Machados de arrombar! — gritou um galeote ferido — Ou dali nos levam aquela nossa galé.
— Machados de arrombar! — bradaram homens e mulheres para os que estavam nas seteiras da muralha — Baldeai-vos cá para baixo.
— Para fazer em lenha aquela galé maldita, que vai arrastar consigo a outra, a nossa!
— Mas enquanto os machados não chegam se perde a galé! — bramiu João Rodrigues de Sá, o famoso Sá das galés.
E saindo da sua, que ainda não fora atacada, deitou a correr para a que estava já com os Castelhanos dentro, numa batalha doida de alucinados.
Apenas quis trazer consigo um homem. Já pela proa da galé, segurou nos dentes a haste da lança e marinhou como se fosse um embarcadiço. E assim que firmou o pé na tolda, investiu de lança em riste contra a chusma dos inimigos, num arranque leonino.
Houve um reboliço louco a bordo. De cima do muro a populaça via-o bem e aclamava-o febrilmente. Os Castelhanos disparavam-lhe insultos e dardos, mas a lança do Sá das galés levava-os diante de si, num ímpeto de assombro, como se da ascuma de aço fuzilassem relâmpagos fulminadores.
Era a empreitada épica de um batalhador de lenda!
Assegurada a defesa contra a gente dos batéis, o Mestre, a conter a algazarra dos mais expansivos e as imprudências dos mais destemidos, metera o cavalo na água até aos peitos, muito na dianteira de todos, gravemente exposto.
Alguns de Castela teriam percebido quem ele era, outros o adivinharam. A grande cruz de Avis da sua cota de armas era quase uma denúncia, e o caso foi que para ele convergiram os tiros dos besteiros castelhanos.
Subitamente, a tia Lourença gritou para os que estavam empenhados na luta contra as tripulações dos batéis:
— O Mestre! A sumir-se na água!
— Afoga-se! — clamou outra.
— Talvez o ferissem de morte aqueles malditos! — lembrou a velha regateira, metendo-se à água.
Houve uns momentos de desânimo e muitos ficaram num estonteamento de mágoa.
Por instantes se lhe não descobriu ao de cima daquelas águas, em que o sol se espelhava, senão a cimeira do bacinete e as plumas adejando como as asas de alguma ave marinha.
Mas de repente, num impulso que às mulheres se afigurou miraculoso, o bacinete do Mestre emergiu de chofre e todos viram o rosto de D. João e em todos se fixou o seu olhar dominador.
— Não o mataram! — disseram as mulheres num grito de júbilo.
— Vamos todos para ele! — exclamou a tia Lourença.
— Tende-vos! — mandou D. João, com admirável serenidade de ânimo, a água a dar-lhe pelo pescoço.
Sob uma impressão de ansiedade e de pasmo, viram então que o Mestre vinha avançando para a praia.
Acorreram para ele alguns homens de armas.
— Senhor, estais ferido?
— Não. Olhai os batéis de Castela que com mais audácia vêm para aqui! — avisou.
— Viva o Mestre, o Defensor da nossa terra! — exclamou a arraia-miúda.
— Não desperdiceis tempo em vozearias — recomendou, já todo a descoberto, apoiado à rija haste da sua lança.
De uns poucos de batéis que abicavam à praia revoaram brados de afrontoso desafio e com estridor formidável o famoso grito de guerra da gente inimiga:
— Santiago y Castilla!
— Gentes, vá! O nosso brado e apertai com eles! Não os deixeis pôr pé em terra — gritou o Mestre na sua voz de comando, já na praia, a cota de armas a escorrer água, os coxotes e os sapatos de ferro sujos de limos.
— S. Jorge e Portugal! — clamaram centenas de vozes.
Uma chuva de virotes e uma saraivada de pedras caíram sobre as tripulações dos batéis que mais se tinham aproximado da praia.
— Vá, mulheres, mais pedras sobre eles! — incitava a regateira velha.
E a cada grito de Santiago y Castilla opunha a tia Lourença este seu repto de patriota:
— E mais o demo que vos leve, canzoada gadelhuda! Mulheres, olhai que de Castela nem os santos!
— Aí! — excitava o Mestre — Mais com eles, que já lhes tendes ferido muitos.
Efetivamente as tripulações dos batéis castelhanos tinham tido já avultadas perdas, pois que os besteiros e a gente da plebe, empoleirados nas galés encalhadas e um tanto no resguardo dos castelos de popa como por detrás de uma trincheira, muito ao seu salvo visavam os atacantes por forma que raras pedras e virotes se perdiam.
Com tal energia se manteve a defesa, que os batéis se fizeram ao largo; os remadores num esforço desesperado, as guarnições a ulularem bravatas e ameaças pueris.
— Pois sim — comentava a regateira — ide alanzoando, mas o caso é que vos pondes ao largo.
Tinham ido buscar uma mula para o Mestre montar e, enquanto esperava por ela, singelamente contou a um dos seus fidalgos como lhe sucedera afundar-se. Um virotão lhe ferira o cavalo; endoidecido pela dor, o animal nadara de repente, sem obedecer ao freio, mas a ferida era de morte e em pouco o sentira estrebuchar entre os joelhos. Segurara contra si a haste da lança e logo se destribou, auxiliando-se com as mãos nos joelhos para se aliviar do peso das grevas. Depois, firmando o couto da lança numa cascalheira do fundo, que afortunadamente encontrara, se pudera erguer ao lume de água e assim fora tomando pé.
A batalha continuava com acesa fúria do outro lado da praia, não só contra a galé portuguesa que estava de través, tombada sobre a areia, mas, principalmente, dentro da outra que fora aferrada pela do Meira e a sua gente abordara e tinha quase tomada quando Rodrigues de Sá lá entrou.
O Mestre montou na muar que um cavalariço lhe trouxera da cidade numa arrancada.
Daquele lado o combate fora favorável à sua gente; mas era ali ainda o posto de maior perigo por ser o local da praia aonde mais facilmente os batéis podiam aproar. Um desembarque dos quatrocentos ou quinhentos homens de luta que traziam a bordo bem podia valer o bom êxito do cometimento inimigo e a perda inevitável das galés de Portugal.
Ia o Mestre para acudir ao navio em perigo com um reforço de besteiros, quando chegou esbaforido um pajem de armas, que vinha trazer-lhe informações.
— De onde vindes e que notícias trazeis? — perguntou-lhe D. João, numa impaciência de receios.
— Da galé que os Castelhanos tinham tomado.
— E daí? Dizei depressa!
— De lá expulsou os Castelhanos aquele vosso cavaleiro, a quem o povo chama o Sá das Galés. Correndo sobre eles, entrou já na outra galé de Castela.
— Pois grande nova me trazeis! — disse-lhe, num alvoroço de júbilo.
— Senhor Mestre, mas vem com a boa nova outra que é de mágoa.
— Dizei.
— Está-se a esvair em sangue João Rodrigues de Sá, tantos são os ferimentos que lhe têm feito naquela sua arremetida! — disse com pesar.
— Pois vamos lá ajudá-lo ou acabar a sua tarefa.
Ia meter a mula a trote, quando dos lados da cidade veio para ele um cavaleiro à desfilada.
— Mestre e Infante — disse o cavaleiro, sofreando o cavalo de repente.
— Vós, Ruy de Vasconcelos!
Voltou-se para o anadel-mor dos besteiros e disse-lhe rapidamente que fosse com o seu troço de gente a socorrer o Sá das Galés. Lá seria com ele em breve.
E logo, a meia voz, para o Vasconcelos:
— Tanto haveis tardado, que cheguei a supor-vos enfermo!
— Mestre, vinha a buscar-vos quando, em grande gritaria, uma multidão, correndo, avisava que o povo de Castela estavam atacando as portas de Santa Catarina e que outra hoste mais numerosa se acercava da torre de Álvaro Pais. Soube que para lá tinham ido os meus companheiros do esquadrão dos Namorados e para lá corri, crendo que o perigo seria ali maior.
— E era?
— Mestre, não. Breve foi a escaramuça com os de Castela e há pouco desceram como se o seu propósito fosse atacar as estacarias da Ribeira. Aqui venho trazer-vos aviso, e dali vêm chegando os meus companheiros.
— Está bem — respondeu-lhe o Mestre, sorrindo — Razão de honra havia de ser a vossa para não estardes aqui de princípio.
E alongou o olhar para onde Ruy lhe indicara.
Vinham já para aquém das portas, em filas cerradas, a pé, os cavaleiros do esquadrão dos Namorados. Na frente destacava-se bem a figura do Magriço com o pendão verde, a haste aprumada, a esvoaçar alto na aragem da manhã.
— Pois agora ide para os vossos companheiros e com eles acorrei à estacaria.
— Mestre, para lá vamos e, pela minha fé, que por ali não hão de entrar os de Castela enquanto Deus nos der vida para combater. Deitou o cavalo a trote para a frente dos Namorados.
Percebia-se o ruído da investida nas estacarias da Ribeira; revoavam alto,, de parte a parte, os reptos de afronta e o brado pelos santos padroeiros de Portugal e de Castela.
O Mestre fizera recomendações a um dos seus capitães para que se não desguarnecesse e desacautelasse aquela orla da praia e meteu a trote para o lado da galé castelhana do Meira.
Na arremetida de aferrar a nossa de Fernão Homem, o navio inimigo chegara a roçar a proa pela areia e à outra se prendera para a levar consigo, desencalhando-se à força de remos.
Mas dera-se o feito em revés. Da galé aferrada varrera João de Sá a chusma que a tivera pela sua presa e agora a levava de vencida, já dentro do próprio navio inimigo e com meia dúzia de homens atrás de si, como se fosse um batalhador romanesco.
A escorrer sangue, numa palidez cadavérica, sem bacinete, o rosto arregoado, o Sá chegara quase ao castelo da popa da galé inimiga, abrindo uma lúgubre clareira na tripulação, que o terror fora amontoando à ré.
— A ello! — gritou um Castelhano, tomando alento.
— Santiago y Castilla! — bradaram setenta vozes.
— S. Jorge e Portugal! — replicou o herói num grito enrouquecido.
Mas tinham chegado do outro extremo da praia os besteiros do anadel-mor, e trinta virotões que foram cravar-se de revés naquela pinha de Castelhanos. Vibraram gritos de dor e imprecações de desespero.
Alguns se atiraram à água numa alucinação de pavor por aquele ataque, absolutamente inesperado.
— João de Sá! — chamou o Mestre, de pé nos estribos, a uma dezena de passos da galé — Cavaleiro de gloriosa alma, sois o nosso orgulho!
Iluminou-se de súbito o olhar amortecido do herói. Tinha-lhe conhecido a voz.
— Mestre! — disse num supremo esforço — A minha vida pela nossa terra.
Saíram-lhe sumidas, numa trágica intonação, estas últimas palavras.
Deu uns passos para diante como para uma nova arremetida, mas a vista desvairou-se-lhe, os joelhos dobraram-se-lhe, e o batalhador de lenda caiu exausto, com a mão ainda enclavinhada no punho da espada.
Acudiu-lhe o pajem de armas e dos inimigos ninguém ousou arremeter para ele, como se um grande terror os houvesse imobilizado.
A galé roçagava pela praia dentro puxada pela outra a que se aferrara e à qual o povoléu tinha amarrado cabos e ia arrastando, para que a dos Castelhanos viesse com ela. Homens e mulheres puxavam os cabos com aporfiado esforço.
E para mais espavorida surpresa dos Castelhanos, com este arrastar sinistro do navio, à trela da outra galé pelo areal dentro, coincidia uma segunda batida dada pelos nossos besteiros.
Não tiveram ânimo para mais. Atiraram-se abaixo pela borda fora como enlouquecidos. Muitos foram feridos na fuga e alguns se afogaram.
Revoou pela praia uma atroadora gritaria de triunfo e o mulherio combatente veio de roldão para junto da galé apresada, enorme tumba de muitos mortos.
— Esta cá fica pelas custas! — gritava a tia Lourença — E hemos de lhe dar varejo, pois que lá terá dentro algumas côdeas do almoço desses ladrões, que vieram para nos roubar a terra.
As outras aplaudiram freneticamente em brados febris.
Entretanto, de bordo da galé castelhana vinham três galeotes e um pajem de armas trazendo nos braços João de Sá.
— Acudi à estacada! — veio clamando um esfarrapado, que levara uma lançada no rosto.
Correram muitos para lá. O Mestre chegou as puas dos acicates aos ilhais da muar e deitou à desfilada para a estacaria da Ribeira.
— Vamos nós lá, atrás do Mestre! — gritou uma das mulheres combatentes.
— Esperai lá, que, entrementes se reza um credo, para ele iremos — disse-lhe a tia Lourença com os seus ares de capitoa.
Estava então a descer da galé tomada o corpo desfalecido de João de Sá, retalhado de golpes, a escorrer sangue.
A tia Lourença ajoelhou na areia esbraseada de sol. E todo o mulherio da sua hoste ajoelhou enternecidamente.
— Destemido cavaleiro de Portugal! — invocou a regateira — Nossa Senhora vos dê vida, homem de prole, que assim honrastes e defendestes a nossa terra!
— Ámen! — entoaram as outras como num cantochão das suas almas tocadas de piedade e de mágoa.
Os galeotes passaram com o herói para o levarem ao hospital. A tia Lourença ergueu-se de repente e exclamou:
— Mulheres! Acorramos à estacada, que não hão de faltar lá pedras contra os javardos de Castela.
Soltaram os brados de guerra como gritos agudos de aves selváticas e partiram de carreira.
Entretanto, do rio vinham vozes altas dos Castelhanos, clamando:
— Ala! Ao largo, que vai minguando a maré!
* * *
As forças do conde de Mayorga tinham descido das portas de Santa Catarina para a Ribeira, depois de umas escaramuças em que os da cidade facilmente os rebateram. O intento era apenas sobressaltar e dividir a gente dos sitiados, evitando que a maioria dos homens de armas deixasse os muros e as portas para ir ajudar os que defendiam as galés.
Na estacada, atacando os nossos de revés, é que os cinco ou seis mil homens do conde podiam auxiliar com eficácia os esforços dos seus que vinham a bordo da armada para tomar os navios portugueses.
E contra este poderoso reforço seria quase certa a derrota do nosso punhado de homens, se os batéis e as galés sé não houvessem já feito ao largo com os seus dois mil homens de desembarque.
Todavia, a batalha estava travada com enfurecido ardor e à soberbia do conde repugnava uma retirada logo às primeiras investidas, que os chamorros tinham repelido intrepidamente. Quem sabe até se, alguns dos traidores portugueses que vinham com ele, lhe não teriam lisonjeado a vaidade, lembrando-lhe a empresa de entrar na cidade por aquele lado?
O caso era que, nas suas arremetidas, os Castelhanos redobravam de fúria à medida que o ardor e a intensidade de defensa iam sendo maiores.
De parte a parte com maior rancor os impropérios e com mais fervoroso entusiasmo a invocação dos santos batalhadores, seus patronos, e da pátria pela qual jogavam a vida.
Os jovens cavaleiros do pendão verde faziam prodígios, expondo-se temerariamente. Empoleirado num barrotão da estacada, o Magriço agitava a signa dos Namorados, desafiando os de Castela a que lha viessem tomar.
Ruy batia-se como se fosse um enlouquecido. Ao lado dele, bacinete sobre os longos cabelos brancos, arnês curto sobre um burel de monge, um velho de compridas barbas lutava também. Era Mendo Rodrigues.
De repente vibraram para trás da estacada uns gritos doloridos de mulher e rumorejaram vozes feminis numa expressão de surpresa.
Os combatentes não ouviram e, ainda que ouvissem, não poderiam atendê-los, pois que a batalha recrudescia violentamente.
O Mestre havia chegado e animava os besteiros e a peonagem de farroupilhas. Maravilhava a energia daqueles homens, que andavam a cair de fome!
Num arremesso maior, os Namorados treparam ao troço da estacaria para uma sortida de desvairados.
— Jovens, menos alardo de valentias! — recomendou o Mestre na sua voz dominadora, de pé nos estribos.
Eles podiam lá ouvi-lo? Nem sequer tinham dado pela chegada desse a quem o povo chamava o Messias de Lisboa.
— Para aqui, Antão Gonçalves! — bramiu Ruy de Vasconcelos, de olhos fitos num cavaleiro que andava a incitar o esquadrão dos mouriscos de Andaluzia a galgarem com os seus ginetes, ágeis, nervosos, de ardente sangue, por cima daquela estacaria, que não chegava a dar pelos ombros a um homem de meã estatura.
— Para aqui, para mim, ralé dos traidores, cobarde ladrão de mulheres! — gritou-lhe ainda numa voz convulsiva, áspera e rouca, suprema expressão do ódio inexcedível que o turbava, desfigurando-o.
— Um virote contra aquela boca — mandou Antão Gonçalves aos besteiros.
E logo para os mouriscos:
— Vá, ginetes de um salto para tomarmos aquilo!
— Deixa os mouros, poltranaz vilíssimo! Vem tu, homem para homem, cachorro que te vendeste ao rei castelhano.
Uma chuva de virotes foi bater no bacinete e na cota de armas do infortunado jovem. Nenhum, porém, logrou feri-lo.
— Jovem, tende-vos! — gritou o Mestre.
— Ruy, que é uma loucura! — admoestou Mendo Rodrigues, procurando contê-lo.
— Tio, deixai-me! Está a fugir-me!
— Mouriscos, vamos! Aquele dom cavaleiro quer morrer por desenganos de amor — gritava Antão Gonçalves.
Numa alucinação de cólera, Ruy saltou para fora da estacaria de espada erguida.
— A mim! Para mim só! — gritou-lhe — Antão Gonçalves, vergonha de poltrões!
Uma mulher nova, que momentos antes se havia aproximado da estacada, desprendendo-se dos braços da tia Lourença, recurvou as mãos brancas, nervosas, no topo agudo de duas estacas de pinho e alteou o corpo como se também quisesse saltar.
— Namorados! — gritou o Magriço — Pelo mais valente dos nossos!
E todos eles saltaram fora da estacada.
— Loucos! Loucos! — rouquejava o Mestre, de rosto avincado.
Entretanto, de olhar fito no Gonçalves, soltos, revoltos os seus cabelos de madona, o seio a arquejar sob os farrapos de damasco, a mulher juvenil gritava para as outras mulheres que tentavam desviá-la dali:
— Deixai-me. Aquele! Aquele!
E cada vez alteava mais o busto com uma energia nervosa, que lhe dava forças excecionais.
A cavalaria dos ginetes da Andaluzia fora de arrancada para o troço dos Namorados, à frente dos quais Ruy de Vasconcelos avançava com arrogância leonina.
— Estão perdidos aqueles loucos! — disse consigo o Mestre de Avis, entre desesperado e pesaroso — Besteiros! — gritou — Sobre aqueles mouriscos os vossos virotes!
— Mulheres, à pedrada contra aqueles chamuscados! — gritou a tia Lourença — Querida Menina, qual é ele, o bilhostre? — perguntou à desventurada.
— Aquele! — respondeu, apontando-o com a sua mão de fidalga, mimosa, escultural.
Uma forte coluna dos Castelhanos corria a reforçar os ginetes da Andaluzia. Os Namorados batiam-se como leões, rodeados pelo enorme esquadrão inimigo, de turbantes com cimeiras pontiagudas de ferro e albornozes brancos adejando como asas.
— Requestador infeliz! — gritou o Gonçalves, metendo o seu morzelo espanhol direito a Ruy de Vasconcelos — Madalena será minha!
— Primeiro te matarei eu, vilanaz! — replicou-lhe, abrindo caminho a golpes de espada.
Os mouriscos apertavam com eles numa algazarra de brados, que lembravam uivos de feras.
De repente um calhau bateu na boca de Antão Gonçalves, que, como quase todos os cavaleiros portugueses, trazia bacinete sem cara, conforme o dizer de Fernão Lopes.
E logo um virote ao acaso se lhe foi cravar na face.
A dor violentíssima entonteceu-o; desequilibrou-se e foi a terra, sem poder falar.
— Menina, aquele já não torna a morder — disse a tia Lourença para Leonor.
— Rui! Não o vejo!
— Estão de volta dele aqueles lobos tostados a ladrar! — respondeu-lhe a tia Lourença.
Tinham chegado mais besteiros à estacada, iam pelos ares nuvens de virotes; centenas de pedras, arremessadas pelas mulheres, voavam contra os mouriscos. Os Namorados defendiam-se com admirável intrepidez, mas agora, na desigualdade de um para vinte, eram forçados a recuar contra a estacada.
Do lado dos Castelhanos uma voz espavorida gritara:
— As galés vão rio abaixo!
E outras vozes de timoratos acrescentaram:
— Vão fugindo!
Estes dizeres vieram repetidos por muitas bocas e foi então que o conde de Mayorga mandou tocar as trombetas, dando o sinal de retirar.
Já com enormes perdas, os mouriscos foram sacudidos pela doida suspeita de que estavam cortados, e meteram para a retaguarda numa desfilada fantástica, enovelando consigo uma parte das outras tropas castelhanas.
* * *
— Vencemos nós! Vencemos nós! — bradavam os da Ribeira.
— Pela nossa Pátria e pelas nossas damas! — clamava o Magriço, agitando o pendão verde dos Namorados, entre os quais havia nove gravemente feridos, três deles com ferimentos de morte.
— Namorado viúvo — disse-lhe sumidamente Ruy de Vasconcelos — pela nossa Pátria somente.
E de si para si:
— E foge-me ainda aquele bandalho da minha raça!
Mas da estacada as mulheres tinham acudido aflitivamente a alguém que a tia Lourença, de joelhos no areal, amparava nos braços.
Era Leonor de Gusmão. Um virote dos Castelhanos em retirada viera cravar-se-lhe num ombro.
— Coitadinha da minha querida Menina! — lamentava a regateira com os olhos rasos de lágrimas.
— Não choreis por mim, mãe Lourença.
E logo, sumidamente, com os olhos nela:
— Bendito sangue, se for... Para ele ter maior dó de mim.
— Valha-me Nossa Senhora! Eu podia lá sonhar que a Menina havia de ir de casa, por aí abaixo!
— Tia Lourença — avisou uma das mulheres — olhai que está a velar-se.
— Com ela já de caminho para o hospital e eu com ela — disse numa grande mortificação — Ajudai-me.
Mais três a levantaram nos braços, carinhosamente.
O esquadrão dos Namorados passava. Ruy de Vasconcelos reparou naquela mulher de formas gentis, que a velha regateira e mais três mulheres levavam nos braços desmaiada, e reconheceu quem era.
Apartou-se dos seus e foi para elas tristemente surpreendido. Em poucas palavras lhe resumiu a tia Lourença o que tinha sucedido.
— Levai-a para casa de Afonso Eanes, que muito conto com a sua boa vontade em lhe dar amparo e gasalhado. Eu depressa mandarei lá o físico da minha casa ou outro que primeiro tenha a fortuna de encontrar.
E foi meter-se nas filas do seu esquadrão.
— Aquela pobre dama, linda e desventurada, que o vilanaz perdeu! — pensava em estremeções de raiva — Mas o amor que eu lhe tive para sempre se apagou. Para sempre!
E num confrangimento de alma se lembrou de Madalena, a sua malograda noiva de celestial beleza. Por essa o amor maior da sua vida, o que se não podia apagar, por mais que o coração se lhe espedaçasse e a onda vermelha do ódio lhe alagasse a vida! Como se fosse uma estrela de suave fulgor no recanto azul de um céu caliginoso, lâmpada de ouro de miraculosa luz por cima de um altar profanado, ermo, a desfazer-se em escombros.
* * *
O Infante bastardo, defensor do reino e Messias do povo, falava ao esquadrão dos Namorados, que lhe fora prestar homenagem.
Palavras ásperas de reprimenda pela sua bravura indisciplinada, e louvores enternecidos para aqueles ânimos juvenis, que eram uma das supremas esperanças da Pátria.
Entretanto, o mulherio da hoste da tia Lourença tinha invadido a galé castelhana em busca de despojos com que matasse a fome.
Encontraram alguns pães duros e celhas de peixe salgado. Mas outra coisa acharam, que foi de jubilosa surpresa. Em ferros, no fundo do porão, foram dar com alguns portugueses, prisioneiros do combate de Sortelha e entre os papéis dos Castelhanos se lhes depararam várias cartas de Sevilha para alguns dos tripulantes. Leu-as um frade dominicano que entrara com elas. Em Castela contava-se com a tomada de Lisboa como coisa segura e até se faziam encomendas e pedidos aos supostos triunfadores.
Um desses pedidos levantou clamores de indignação e protestos frementes.
Pediam algumas pessoas de Sevilha que lhes levassem “jovens chamorras que eram boas servidoras” (*).
[(*) Citação do cronista Fernão Lopes.]
Assim como quem dissesse raparigas da terra dos chamorros para serem lá criadas e serviçais, como cativas, como escravas brancas de baixo preço.
— Ora os farfantões! — comentava uma das mais loquazes — Pois deixai estar, que nós, as chamorras, vos iremos servindo de avença, a sacudir o pó aos vossos namorados e aos vossos maridos. Até essas delambidas de lá queriam servas de Lisboa! Pois lá tereis notícia da barreia que nós demos hoje à vossa gente. E há de querer Deus que não seja a última, pois que têm bom pulso os servidores de cá!
Riram as outras do gracejo e o frade, já filado a um soberbo naco de presunto andaluz, o melhor troféu dos despojos inimigos, sorria das indignações daquelas filhas de Eva, que por momentos tinham esquecido a fome para ouvir o que as cartas diziam.
* * *
O Mestre andava a ver os feridos, a dizer palavras consoladoras a uns, a fazer promessas de galardão aos que sabia mais assinalados na luta daquele dia e a tomar providências para que os socorros cirúrgicos se lhes não demorassem.
E pela cidade faminta, onde a água envenenava e as ervas já escasseavam, o sol espargia dadivoso o ouro magnífico da sua luz e revoavam as vibrações triunfais no arranque febril de todos os corações e no repique louco de todos os sinos.
CAPÍTULO XIV
PLANO FRUSTRADO
Três dias depois, ao anoitecer, apareceram na torre maior do Castelo de Palmeia uns grandes fogachos, que a princípio amedrontaram a gente supersticiosa da cidade. Do terraço do paço do Limoeiro também se viram bem e o Mestre disse logo, com um clarão de fé a iluminar-lhe o rosto, subitamente prazenteiro:
— Sinal será para nós e de boa nova acerca de Nuno Álvares, que já com pesar me estava tardando!
Não se enganou o Mestre. De madrugada, um batel que atravessou o Tejo dos lados de Aldegalega, trouxe a bordo e desembarcou abaixo de Sacavém, um pajem de armas, que Nuno Álvares mandara de Palmeia com recado para D. João.
O jovem paladino abandonara a sua áspera campanha do Alentejo, eriçada de perigos e dificuldades, para vir de arrancada aproximar-se de Lisboa. Era pequena a hoste com que saíra de Évora, porém, tal como era, ali estava para ajudar os defensores de Lisboa. Mas antes de intentar a travessia do Tejo, fora das vistas da armada castelhana, iria atacar Almada para limpar de inimigos aquele lado do rio.
Isto soube-se logo e a cidade teve tão jubiloso alvoroço como se a chegada do ilustre bastardo do Prior do Hospital, à frente do seu punhado de homens de armas, valesse a vinda de um poderoso exército aliado ou a boa nova de uma grande batalha vencida.
Quem primeiro deu a notícia a Ruy de Vasconcelos foi Afonso Eanes, que chegava com ela do paço na ocasião em que o filho de D. Dulce ia a casa dele saber do estado de Leonor.
— Tenho duas boas notícias para vos dar — disse-lhe o tanoeiro.
— Dizei — volveu-lhe o mancebo com aquela profunda tristeza que nunca mais o abandonara, desde que lhe tinham levado Madalena.
— O físico-mor veio esta manhã ver aquela desventurada dama e achou que o ferimento não tinha gravidade.
— Ainda bem.
— E a tia Lourença, que lá está sempre ao lado dela, contou-me que a pobrezinha já não tinha os rebates de enlouquecimento que dantes, hora a hora, a desvairavam.
— Louvores a Deus!
— Agora a outra boa nova: O senhor Nuno Álvares já está em Palmeia e esta manhã fez uma arremetida de reconhecimento contra os Castelhanos que senhoreiam Almada. Por informações recebidas de um Português que se arrependeu da sua traição e fugiu dos arraiais de el-rei de Castela ontem de noite, sabe-se que a chegada do senhor Nuno Álvares deixou de muito má sombra as pessoas da comitiva real. Conta-se que o próprio monarca dissera aos grandes da sua intimidade: «É uma lança e uma espada que valem por duas mil».
— Avaliou-o muito por baixo el-rei de Castela. Ele verá que vale muito mais esse que nos Atoleiros venceu a primeira batalha campal desta guerra. Não porque a lança e a espada de Nuno Álvares sejam diferentes das outras lanças e das outras espadas, senão porque a alma daquele batalhador não tem outra igual aqui.
— Por isso estou, bem que não hesite em também contar com a vossa.
— Mercê de amigo. À minha a tomaram para si o ódio e o ciúme, e estou a ver quê ma perdem!
— Tal não há de acontecer, senhor Ruy de Vasconcelos. Tenho eu esperança de que ainda voltará para vós, pura como era, essa a quem tanto quereis.
— E quero ainda, por mal dos meus pecados! Mas não vos empenheis em dar-me ilusões que eu nem já seria capaz de sonhar, por muito que me quisesse iludir. Para vingar e para morrer é que esta minha vida se destina. Para vingar-me no mesmo lance em que a Pátria se vingar, e para morrer pelo sonho desfeito, se antes não for preciso que morra por esta nossa oprimida terra.
— Credo! Tal não será.
— Não vejo outro desfecho, pois que, abaixo da minha devoção de Português pela sua bandeira, nenhum outro amor igual posso nem quero.
— Tudo o tempo há de mudar.
— Há mudanças com que o tempo não pode! Madalena estará em poder do pai, que é como estar em poder desse vilanaz de Antão Gonçalves, de quem será esposa, se a esta hora não é já sua amante — rouquejou, torcendo as mãos uma contra a outra violentamente.
— Esposa talvez, senhor e amigo, pois que à outra afronta se oporia ela, bem o creio, ainda que a mãe e o pai de todo a desamparassem; mas se o é, se em tão pouco tempo a lograram obrigar a tal sacrifício, é bem possível então que não tarde em ser viúva.
— Porquê, dizei?!
— Porque uma pedra britou a cara a Antão Gonçalves. Arremessou-a a tia Lourença e ela própria o viu cair em terra.
— Não seria coisa para o matar.
— Mas o Português, de quem vos falei e de lá veio, nomeou ao Mestre os principais homens que o rei de Castela tinha perdido no combate de sábado, e entre esses tais indicou Antão Gonçalves.
— O quê! Morto da pedrada de uma mulher?
— Foi já levado para Almada por causa do seu estado grave. O trânsfuga que deu estas informações conhecia-o bem e ouviu dizer a um dos cirurgiões castelhanos que, pelo choque da pedrada e por causa de um virote que lhe atravessou a face e golpeou a língua, lhe veio à cabeça uma febre que supunham de morte.
— Ora, os cirurgiões! Tantas vezes se enganam e dizem coisas impossíveis, que ninguém pode tomar por seguro o que eles a cada passo afiançam. Oxalá que desta vez também falhem!
— Oxalá, dizeis?!
— Teria imenso pesar e um horroroso desespero se soubesse que uma pedrada e um virote tinham arredado de mim, para sempre, esse verdugo de mulheres. A sua vida a quero eu para lha tirar num desforço de homem fidalgo, de que ele seria incapaz.
E logo, como se uma súbita ideia o dominasse, lhe perguntou:
— Seria possível que eu falasse a esse traidor arrependido, que tantas informações trouxe ao Mestre?
— Nada mais fácil, pois que esse homem o tenho eu à minha conta como Juiz do Povo. Assim que foi observado pelo físico-mor e se reconheceu que não estava empestado, logo o Mestre ordenou que mo entregassem.
— Aonde lhe poderei ir falar?
— Na cadeia da cidade onde o mandei o tivessem vigiado. Podia tornar-se a arrepender e fugir para lá no intento de referir o que houvesse visto aqui.
— Dais então licença que eu vá lá para lhe fazer umas perguntas?
— E terei eu a honra de vos acompanhar.
— Tanto melhor.
* * *
No cubículo do carcereiro, ao nível do pátio interior da cadeia, Ruy de Vasconcelos interrogava um homem novo com traje de escudeiro serventuário e aspeto de quem não tinha vivido a vida rude e inclemente da plebe.
A poucos passos, de pé em frente da porta, ficara o Juiz do Povo.
— Éreis então escudeiro desse nobre cavaleiro que se bandeou com os de Castela?
— Senhor, era e pelo muito que lhe devia me fui também com ele para terras de Castela vai em dois anos, afastando-me desta, que era a da minha mãe, Deus a tenha consigo. Tantas vezes ouvi que Portugal viria a tocar de herança à senhora Infanta, rainha de Castela e ao rei seu marido e que tal não contendia com o ser a gente ou deixar de ser Português, tanto isto ouvi, que me não deu remorso acompanhar meu amo e senhor, a quem muito devia desde pequenino e quase diria mesmo antes de nascer, pois que a minha mãe era uma pobre de Cristo, que na casa do fidalgo fora muitas vezes matar a fome.
— E então agora vos arrependestes?
— Já o andava há tempo, dês que vi as coisas diferentes do que me tinham dito!
— E só ontem à noite vos decidistes a fugir para cá?
— Só ontem de noite, pois que de manhã falecera meu amo e senhor.
— Faleceu de quê?
— De um golpe de espada que lhe deu certo cavaleiro jovem, na batalha de sábado, e ouvi que isto foi do lado de fora de uma estacada que há na Ribeira.
Ruy afogueou-se.
— Dizei-me agora quais homens de prole desta nossa terra conheceis lá no arraial de D. João de Castela.
— Senhor, quase todos os que lá estão. Mas a um mais que a todos, pois era o maior amigo do meu amo e senhor.
— Quem?
— Um que se chama Gil Vasques de Mendonça.
— Esse?! E não destes fé de que alguém da sua família estivesse lá com ele?
— Senhor, dei, mas só há pouco mais de uma semana é que eu lá vi a esposa desse fidalgo e a filha, de tal rara beleza que foi maravilha para as damas da senhora Infanta, rainha de Castela, e para os grandes fidalgos que estão com el-rei.
Ruy volveu um longo olhar entristecido para o Juiz do Povo.
— A elas as conhecia eu bem aqui de Lisboa. A dama ficou sendo a estrela mais linda, entre quantas damas da sua corte a rainha portuguesa dos Castelhanos trouxe consigo.
— E quando foi que primeiramente as vistes?
— Logo no dia seguinte àquele em que o sol se apagou.
— E logo com as damas da senhora infanta D. Beatriz, rainha de Castela?
— Não, meu senhor. Com as damas da rainha só há quatro dias foi que eu a vi. Quando o pai a pôde roubar aqui de Lisboa, por não sei qual caminho encoberto e de segredo, ouvi que ia mais morta do que viva.
— Junto do pai, entre as damas da rainha, admirada pelos grandes de Castela e de Gasconha — dizia-lhe com um grande travo de amargura — certo devia de estar leda e prazenteira.
— Senhor, não. Bem se percebia que estava ali por obediência. Muito desmaiada, os seus olhos pisados pareciam dizer que tinham chorado muito. Ninguém sabia lá porquê, mas olhai que tanto se admiravam daquela sua formosura como da sua tamanha tristeza. Eu vi-a bem, meu senhor. Muitos carinhos lhe fazia a senhora Rainha, ainda muito mais nova do que ela, como haveis de saber...
— Sei — rouquejou, como se este monossílabo fosse o desafogo de um soluço.
O preso não lhe notou aquela amargurada perturbação e continuou:
— Pois nem com os afagos da Rainha se lhe mudou a tamanha noite de tristezas que trazia no olhar! É verdade que também a senhora D. Beatriz é a mais entristecida menina que eu tenho visto! Por lá se dizia que até a própria Rainha a pedira ao pai para sua dama. Não passaria de boato mas o certo é que lá a vi nos outros dias, sempre com ela como se muito se entendessem as suas almas, cheias de tristeza.
Profundamente impressionado com estas notícias do preso, Ruy ficou por instantes emudecido, de olhar vago, como se fosse atrás de um sonho.
De súbito sacudiu os ombros e disse-lhe bruscamente:
— Antão Gonçalves é parente muito chegado de D. Madalena. Sabeis?
— Primos direitos, ouvi eu contar que eram.
— A filha de Gil Vasques havia de ter sentido grande pesar pelo desastre desse homem. Era natural que tivesse — disse numa voz abafada, que parecia tremer.
— A isso não vos sei eu dar resposta — volveu-lhe o preso, pondo no Vasconcelos um olhar de estranheza — Sois talvez parente de Antão Gonçalves, senhor cavaleiro?
— Não! — replicou asperamente — Dessa ignomínia me livrou Deus! Alguma vez ouvistes que o pai de D. Madalena estivesse no intento de casar a filha com Antão Gonçalves?
— Senhor, nunca em tal ouvi falar, e só uma vez o vi ao pé dela, que nem para ele erguia os olhos.
— Está bem. Por essas respostas vos darei todo o amparo que for possível.
— Favor pelo qual muito vos ficarei agradecido.
— Pero Domingues, aqui tendes pelas vossas informações — disse dando-lhe umas moedas de prata.
— Senhor cavaleiro, aqui vos recebo o vosso dinheiro, pois que só comigo trouxe algumas moedas castelhanas, que ninguém me aceitaria cá em paga de uma sede de água que fosse. No que vós quiserdes me podeis mandar como a criado vosso.
— Talvez um dia seja. Resgatai lealmente a traição que fizestes a esta nossa terra.
— Senhor, por acompanhar o amo a quem tanto devia foi que eu fui para Castela, como já vos disse, e não sabia então as voltas que as coisas tinham de dar! Meu amo dizia que era pela senhora infanta de Portugal, rainha herdeira da coroa do seu pai, e contra os parciais de D. Leonor Teles. Eu sabia lá, meu senhor, de que lado estavam aqueles que maior mal podiam fazer à nossa terra?!
— Os que foram para Castela e com o povo do rei castelhano invadiram Portugal, esses foram os que maior mal lhe fizeram, como os filhos malditos, aparceirados com bandoleiros para matarem sua própria mãe — a Pátria.
— Senhor, eu não passava de um escudeiro sem nobreza e nunca peguei numa espada ou numa lança contra a nossa gente! — alegou, comovido.
— Pois pela vossa terra o podeis e deveis fazer, agora que ela precisa de todos os seus neste perigo de morte em que está.
— Senhor, homem de armas serei quando quiserem que o seja. Pela alma da minha mãe vos juro.
— Eu tomarei para mim o encargo de vos tornar fácil o cumprimento dessa jura. Aqui virão buscar-vos, dentro de poucos dias.
Fez sinal a Afonso Eanes para mandar chamar o carcereiro.
Minutos depois saía da cadeia com o tanoeiro. Vinha menos acabrunhado. Dir-se-ia que um consolo íntimo lhe estava rarefazendo no rosto as enormes sombras de tristeza que lho traziam desfigurado; assim como, em certas noites de Inverno, as nuvens de imenso negrume um pouco se rarefazem, sob a luz branca e fria do luar, que é, todavia, a mais acariciadora luz dos sonhos.
* * *
— Vede agora, senhor Ruy de Vasconcelos, como eu estava adivinhando a verdade! — ia-lhe dizendo pelo caminho mestre Afonso Eanes.
— Uma parte da verdade, que me foi alívio consolador. Sinceramente vos confesso.
— Já podeis tomar para vós o mote completo do pendão verde dos Namorados:
Pela vossa terra e pela vossa dama
— Madalena está em poder do pai e nos arraiais castelhanos.
— Em tal pesar que a todos dá na vista. Tristeza por vós, mortificada porque vos tem amor. Logo se entende.
— O pai pode obrigá-la a casar com o vilanaz do sobrinho.
— Isso dizeis, porque já vos esqueceu a informação de Pero Domingues. Antão Gonçalves estava desenganado, e morrerá, se não morreu já.
— Às vezes parece que o diabo se compraz em fazer milagres ao seu modo, salvando essa ralé de homens como aquele! E agora até eu desejo ardentemente esse milagre do diabo para ter depois o prazer inexcedível de o desafiar, sem que ele se possa afastar da minha lança ou do gume da minha espada. Mas dado que o infame faleça, não faltarão fidalgos de Castela que fiquem a cobiçá-la para esposa.
— A peste anda com eles; não terão ânimo para tratar noivados.
— A peste que ma pode matar também!
— Se está com a Rainha, se é sua dama, como Pero Domingues deu a entender, então andará mais resguardada da pestilência que os fidalgos das hostes reais. E se a levarem para Castela, talvez Deus permita que possais ir buscá-la, dado que a nossa gente haja de lá entrar.
— Estais sonhando acordado, mestre Afonso Eanes!
— Não era coisa de milagre que os nossos não tenham já feito, desde os tempos do senhor rei D. Afonso Henriques.
— Bem sei, mas a poucas léguas para além da raia. E agora porque milagre, com um punhado de homens de armas para ir sobre essa grande hoste que tem o rei invasor, levando-a de batida até ao coração de Castela?! Eu iria, fosse como fosse, outros iriam também; mas o mais seguro será ir buscá-la ao arraial do rei castelhano.
— Isso agora é que eu julgo pior sonho, e perdoai a ousadia de vos dizer!
— Veremos, mestre Afonso Eanes. Talvez encontre quem não ponha dúvida em seguir-me neste sonho.
— Que pode apressar a perda da cidade, senhor Ruy de Vasconcelos. E agora, meu senhor e amigo, perder Lisboa seria perder Portugal, sem nenhum remédio. Nenhum!
— Quarenta ou cinquenta homens de bom ânimo para morrer, bastariam pela calada da noite. E se lá ficassem, não era por eles faltarem que Lisboa se perdia.
— Se fossem de bom ânimo, então muito grande e grave seria a sua falta.
— Aqui teremos em pouco os homens de armas de Nuno Álvares, e ele valendo por muitos. Mas veremos, e deixai-me sonhar. Até de tarde ou até amanhã, se os Castelhanos não quiserem que nos juntemos antes.
— Ides já para vossa casa?
— Não; vou daqui a casa do Magriço saber notícias dos meus companheiros que ficaram feridos naquele rude combate de sábado. O tanoeiro afastou-se dele, dizendo consigo:
— Vai com o seu louco intento para o outro, um temerário, e serão capazes de alguma grande loucura os dois e todas aquelas cabecinhas de vento que andam a idear glórias e amores. Será dever de lealdade e ação benfazeja para eles próprios ir pôr o Mestre de sobreaviso. Ele saberá como há de tomar as suas precauções, sem dar a perceber que foi prevenido.
E tomou apressadamente para o paço do Limoeiro.
* * *
O Magriço estava em casa. Ruy contou-lhe abertamente as informações que tinha colhido a respeito de Madalena.
— Pois iremos lá tirá-la numa arrancada, em qualquer das noites que indicardes — disse-lhe com a mais admirável singeleza deste Mundo.
Alma romanesca de cavaleiro andante, naquela época em que a lenda cavaleirosa se apagava nos próprios países onde fora criada com mais enlouquecido amor, como na Alemanha, na Inglaterra e na França, aquele feio paladino, um gascão pela palavra e um espartano pela intrepidez, morria por qualquer arrojo aventuroso, sem lhe importar muito em que trágica insensatez podia desfechar.
— Oh! Que seria para mim a suprema ventura! — acudiu Ruy calorosamente, tomando-lhe as mãos e abraçando-o num ímpeto de júbilo — Ainda que eu lá ficasse, morrendo por ela!
— E eu convosco.
— Eu, primeiro que ninguém, nem aceito o vosso generoso auxílio, sem a condição de ser para mim o cometimento de maior risco e para vós somente o de prestardes apoio.
— Sim, isso depois se veria na balbúrdia da batalha — disse-lhe, sorrindo.
— Que grande e destemido homem sois.
— E feio, louvores a Deus, pois que assim me é dado lutar pelas damas dos meus amigos, à míngua de alguma que aos seus encantos lograsse acorrentar-me o ânimo. Mas deixemos de gracejos e apreciemos o cometimento. Vossa dama está então com a Rainha?
— Assim mo deu a entender o preso.
— Ouvi que a Rainha e as suas damas tinham tomado pousada no convento das monjas de Santos.
— Assim o disseram os que de lá têm fugido. Mas eu irei sabê-lo do preso que me informou.
— O tal Pero Domingues de quem me falastes. É pena que de algum modo se não possa prevenir vossa dama.
— Talvez possa.
— Então bastará falar a uns tantos dos nossos de mais desamor à pele.
— O pior será não termos por onde nos deixem sair de noite!
— Temos, sim. Um dos nossos tem à sua guarda o postigo da torre de Álvaro Pais. Não é tão estreito que não deixe passar um homem a cavalo e por onde um passar facilmente poderão segui-lo vinte ou trinta, e depois o Mestre que nos perdoe e a Nação que conte connosco para outros feitos, se a Santo António da Sé aprouver que voltemos à cidade.
— E encontraremos companheiros nossos que nos queiram ajudar?
— Todos os do esquadrão dos Namorados, iria jurá-lo.
— E quem lhes há de pedir esse sacrifício, que pode ser de morte?
— Eu, que fui o da lembrança. Mas nem será preciso pedir-lho. Bastará que eu lhes dê conta do nosso intento para que muitos deles se disponham a seguir-nos.
— E quando tencionais falar-lhes em tal?
— Dentro em pouco será, pois estamos aprazados para aqui nos juntarmos e já não podem tardar.
— Esperarei então. Virão muitos?
— Vinte e três dos sessenta e quatro que já somos.
— Ainda poucos! Não para essa empresa de amor, para essa os vinte e três chegam, mas para os grandes cometimentos em prole da nossa terra. O meu desejo seria que tantos fôssemos, que chegássemos para formar ala numa qualquer batalha em que a sorte de Portugal se houvesse de decidir.
— Lá hemos de chegar, meu querido Ruy. Sessenta e quatro só em Lisboa. Na hoste de Nuno Álvares alguns jovens hão de vir que desejem ser dos Namorados pelo coração e pelo esforço. Do Porto e de todo o Norte conto eu com algumas dezenas deles e de toda a Estremadura, do Alentejo e Algarve muitos quererão ser dos nossos. Assim Lisboa veja pelas costas os sitiadores, assim a gente os escorrace daqui e, por Deus, que em pouco chegaremos a ser alguns centos. Jovens namorados, muitos há de ter e tem a nossa terra, e em eles sendo de sangue limpo e de ânimo destemido, pouco importará que não venham de godos ilustres ou não tenham brasão de grande e remota nobreza.
— Certamente. Aos de menos preclara linhagem não faltará ocasião de engrandecer, servindo e honrando a Pátria, e os que nenhuma tiverem, plebeus que sejam, grande e singular brasão podem conquistar agora na santa guerra em que andamos empenhados. Salvar a Nação, não deixar que no-la esmague o estrangeiro de Castela, golpear na batalha essas mãos que vieram cá para nos rasgar uma bandeira que tem mais de dois séculos, tão honrada e santa cruzada será como as outras contra o mouro e o turco. Para os nossos corações ainda maior.
— Sim, maior! — apoiou o Magriço calorosamente.
* * *
Um quarto de hora depois entravam os vinte e três que tinham combinado reunir-se em casa do Magriço. Encheram-lha.
Cautelosamente, o dono da casa foi correr o ferrolho da pesada porta da sala.
Juntavam-se ali àqueles rapazes para discutir minúcias da sua agremiação e acordar no tocante ao ingresso de alguns mancebos de honrada origem; porém sem nenhuns pergaminhos nobiliárquicos. Naquele extraordinário ciclo de uma democracia que o sentimento da Pátria afervorava, até por aquele modo se ia democratizando essa pequena ordem de cavalaria dos Namorados, à qual nenhum monarca organizara e nenhum pontífice dera consagração. Aquela tinha votos de amor, ao passo que as outras impunham votos de castidade aos seus freires.
Já que a traição à Pátria tanto havia rareado as fileiras da velha nobreza com que Portugal poderia contar, outra nova se havia de ir criando ao serviço da Nação ameaçada de morte, naquela excecional conjuntura da vida portuguesa.
Todas aquelas cabeças devaneadoras e todas aquelas almas de radiosa juventude encheram de vida buliçosa e de ideais fulgores a velha e sombria sala do palácio em que o Magriço habitava.
— Antes de entrarmos no assunto que vos traz aqui — disse-lhes o famoso cavaleiro que era seu caudilho — tenho uma informação de segredo a confiar-vos.
— Podeis dizer — acudiu logo um com alvoroço, de curiosidade.
— Certo prometeis não a divulgar, pois que, do segredo com que a guardares dependerá o bom ou mau êxito do empreendimento de que vou falar-vos.
Ainda mais impressionadora curiosidade em todos eles por aquelas palavras.
— Pelos meus votos de Namorado e pela minha honra de cavaleiro, vos prometo — disse solenemente o atlético fidalgo de Tavira, Vasco Eanes da Costa.
— E eu como vós — acudiu o trasmontano Pero de Magalhães.
— E nós todos! — disseram os mais próximos do Magriço.
— Todos! — prometeram os outros.
— Pois bem. Sabei que Ruy de Vasconcelos teve informação de que a sua dama, levada pelo traidor do pai para o arraial de el-rei de Castela, está no convento das monjas de Santos com a senhora infanta D. Beatriz, esposa do rei nosso inimigo. Sabe-se que à força para ali a levaram e lá vive oprimida, bem que muito amorável acolhimento lhe tenha dado essa excelsa dama, que é de Portugal pelo sangue e de Castela pela sua coroa de rainha. Ruy de Vasconcelos está no propósito de ir buscá-la de surpresa, e eu na decisão de ir com ele, levando os homens de guerra que tenho ao meu serviço.
— E eu convosco — disse Vasco Eanes, calorosamente.
E todos eles, a um por um, afirmaram a mesma solidariedade de resolução. O Magriço pôs em Ruy de Vasconcelos um olhar jubiloso por aquela confirmação das suas previsões.
— Muito vos agradeço, destemidos cavaleiros e os meus honrados irmãos de armas — disse-lhes o filho de D. Dulce, comovidamente — Comigo podeis contar para tudo quanto eu for capaz em serviço vosso.
— Nada haveis porque agradecer-nos — objetou Vasco Eanes — Temos de nos ajudar uns aos outros, e para além do mais, a essa dama nós próprios aclamamos rainha das belas, rainha nossa de namorados, e as bordaduras do nosso pendão de batalha pelas suas mãos gentis foram feitas. Iremos resgatá-la desse dourado cativeiro como vassalos e admiradores seus, ajudando um dos mais esforçados e ilustres dos nossos companheiros. Não há porque hesitar e nenhum de nós certamente hesita.
— Nenhum! Nenhum! — clamaram todos numa vibração entusiástica.
E nenhuma daquelas cabeças sonhadoras podia pensar na grandeza temerária e certamente trágica daquela enorme loucura!
O Mestre tê-los-ia mandado prender ali mesmo, se pudesse ouvir os desvarios daquela juventude tresvariada pela febre romanesca da cavalaria aventurosa, precisamente quando em outros países essa louca excitação medieva ia já a declinar.
Mas nenhum deles um momento sequer refletiu nos desmesurados perigos do cometimento e logo passaram a combinar minúcias para a execução do plano.
Um dos mais considerados prometia entregar as chaves do postigo da torre de Álvaro Pais e comprar as sentinelas, para não darem alarme nem conta do feito às rondas que passassem.
Ia tudo às mil maravilhas e logo instaram os mais impacientes para que naquela mesma noite, pelo quarto de modorra, fosse para o convento de Santos com os necessários rodeios, pelas veredas dos montes, de modo que mais facilmente se esquivassem aos vigias do exército inimigo.
O caso era cair de surpresa sobre a guarda do convento, espalhar o terror na gente estremunhada do arraial e persuadi-la de que era uma investida de toda a gente de armas da cidade. Na confusão e no estonteamento da surpresa, enquanto vinte com os seus escudeiros e pajens arremetessem às lançadas e à espada contra os que mais ânimo houvessem recobrado, Ruy, o Magriço e Vasco Eanes entrariam no convento, arrancariam de lá Madalena e com ela deitariam à desfilada para a cidade, avisando os mantenedores para retirarem pelas quebradas e caminhos mais escuros.
Se fosse preciso, se pelo escuro da noite os cavaleiros de Castela ousassem persegui-los, ao postigo o defenderiam eles tenazmente até que a cidade despertasse ao alarme da luta.
Estava tudo disposto e assente. Para aquelas cabeças juvenis nenhum plano mais seguro e de melhor êxito!
Trocavam impressões num alvoroço jubiloso, fantasiavam façanhas, ideavam glórias e alguns até lembravam a possibilidade de trazer também a rainha portuguesa, quando um bater pressuroso à porta da sala os despertou daqueles devaneios.
— Quem bate aí?! — perguntou o Magriço torvamente.
— Agora chegou e vos quer falar sua senhoria o senhor Mestre e Defensor do Reino! — responderam numa voz cheia de perturbação.
Entreolharam-se surpreendidos e um pouco empalideceram de surpresa aqueles galos loucos, que tinham acabado de resolver, como a coisa mais fácil deste Mundo, o plano de maior audácia que ainda estouvados brigões tinham podido conceber.
— O Mestre aqui!: — disse o Magriço, indo para a porta.
Puxou de repente o ferrolho, e D. João assomou logo de sorriso nos lábios.
— Mestre e senhor, esta vossa casa vindes honrar! — disse Álvaro Coutinho, curvando-se.
— Aqui venho para vos dar uma nova e para vos confiar um encargo de honra.
— Mercê, mandai!
O Mestre veio até meio da sala, pondo em todos um olhar perscrutador. Com ele vinham apenas o arcebispo de Braga, o batalhador que já conhecemos, o doutor João das Regras, o anadel-mor dos besteiros e dois pajens.
Coado pelos vitrais de uma alta janela, o sol iluminava de vivas cores a figura austera do Mestre.
Todos, a um por um, vieram saudá-lo e para todos teve afetuosas palavras de apreço.
— Convosco é que eu não contava aqui! — disse D. João para Ruy de Vasconcelos — Mas ainda bem que estais, pois que ao meu intento sois também preciso pelo ânimo sisudo e pelo esforço inexcedido.
— Senhor, grande e generosa são as vossas palavras.
— Tinha perguntado pelos meus cavaleiros enamorados, pois que nenhum hoje me aparecera, e ninguém a princípio me soube dar notícias deles! Afinal um dos meus pajens me foi levar a boa nova de que um grande número viera para vossa casa, Álvaro Coutinho.
O Mestre punha nestas palavras uma leve ironia de gracejo, que os Namorados estavam sentindo com perturbada surpresa. Não alcançavam perceber-lhe o intento.
— Tinha de sair para estes lados e logo me resolvi a entrar aqui para que, sem delongas, eu próprio vos desse conhecimento do encargo que vou confiar-vos. Embora os meus deveres de chefe e os perigos em que está a causa que defendemos, me deem taciturno aspeto de homem idoso, homem novo sou, para que me não praza aparecer entre a juventude, por muito sonhadora que seja como a vossa, leais e destemidos Namorados. E por isso aqui vim, e quase seria capaz de jurar que foi para devaneios de cavalaria aventurosa que viestes aqui juntar-vos.
— Mestre e senhor — volveu-lhe o Magriço, afogueando-se — para a conversa e desafogo de gente jovem aqui nos juntámos, por não termos agora cometimento em que tivéssemos de entrar, em serviço vosso e da nossa terra.
— Por essa, principalmente, por essa, que do esforço de todos está carecendo, para que as hostes de Castela não logrem torná-la sua. Por esta cidade, em que Portugal se resume agora, por ela, depois de Deus, é que todos nós devemos empenhar toda a fé da nossa alma e o amor maior dos nossos corações. Não por desvairamentos de temerária cavalaria, senão por defendê-la de um jugo estranho, que seria a morte de Portugal e a perpétua vergonha do nosso nome. Também nós temos um sonho, abençoado sonho, mas esse é de todos, velhos e jovens, homens de prole ou esfarrapados da plebe, sonho refletido e justo, que não vem de novelas de cavalaria andante e pode tornar-se realidade pelo supremo esforço da nossa vontade. Vós o sabeis, e vós o tendes no primeiro moto da vossa bandeira de campeadores e no mais santo voto da vossa alma de Portugueses. Salvar a Pátria, tirá-la da herança de el-rei de Castela para a erguer maior e mais gloriosamente diante do Mundo. O sonho é este.
A palavra do Mestre, que a princípio os enchera de acabrunhado espanto, porque parecia a censura benévola de quem tudo adivinhara ou tudo sabia, tal dominadora e calorosa vibração tinha agora, que lhes mudou o retraimento em comovida exaltação.
— Mestre e senhor! — exclamou Ruy de Vasconcelos — Perdoai aos Namorados o seu sonho de outros amores, mas o vosso é também o deles, o mais santo, o maior, o que está no primeiro dizer do seu pendão de batalhadores, e por ele hão de morrer, se todo o seu esforço não for bastante para anular a herança da rainha de Castela e erguer Portugal até onde vós entenderdes que deve erguer-se.
D. João comovia-se A alma do infante cavaleiro, juventude sonhadora como a deles, agitava-se jubilosa sob a máscara de disfarce do homem político. As palavras daquele jovem de admirável intrepidez, ardentes e sinceras, a saírem-lhe dos lábios numa golfada convulsiva, tinham um poder de sugestão enternecedora, como hoje se diria.
— Eu sei, Ruy de Vasconcelos! — disse-lhe D. João, simulando severidade de ânimo.
— Mestre, e nisto falo eu por todos.
— Por todos! — confirmaram os outros, calorosamente.
— Isso esperava de vós, e porque em tais sentimentos confiava e sabia quanto valeis, aqui vim para vos dar encargo digno de quem sois.
— Senhor, o que mandardes.
— Vou mandar meter ao rio as nossas galés. É preciso que subam até Sacavém e ali sustentem a passagem da hoste de Nuno Álvares, que vem a trazer-nos o grande auxílio da sua lança vitoriosa e dos seus esforçados homens de armas. Para evitar que os navios ligeiros de Castela cheguem até lá e com o seu maior poder levem de vencida as nossas galés, importa que a bordo delas estejam homens de excecional valia de ânimo, para darem maior alma aos outros. Sois vós os que prefiro para tal defensa.
— Mestre e senhor, para tudo! — acudiu o Magriço.
— Para tudo! — apoiaram os outros num grito de entusiasmo.
— Mandai, senhor! — disse-lhe Ruy de Vasconcelos — Ou contra o próprio arraial inimigo, se quereis pôr em prova o primeiro moto do nosso pendão.
— Não é preciso! — volveu-lhes serenamente — Nas galés será de maior serviço e de menos louca empresa o vosso coração intrépido. Depois será o resto, depois. Mandai aviso aos restantes do vosso esquadrão que faltam aqui e ide vós já para junto das galés que esta noite, ao encher da maré, irão rio acima.
— Mestre, dai-nos só o tempo que baste para irmos pôr nossas armas de combate.
— Decerto. Ao pôr do sol vos irei ver à Ribeira.
— Como se alguém o tivesse prevenido do nosso intento — pensava Ruy de Vasconcelos — ou ele próprio tudo houvesse escutado.
Não podiam adivinhar como, por lealdade patriótica, o tanoeiro Afonso Eanes havia levado ao Mestre o aviso de segredo a respeito do projeto que julgara surpreender duas horas antes, em conversa com o seu grande e desvairado amigo, Ruy de Vasconcelos.
A si próprio o prometera o honrado Juiz do Povo, para evitar uma trágica temeridade, cujas consequências podiam ser funestíssimas para os próprios destinos da Pátria.
— Ah! — disse o Mestre, ao pé da porta, como recordando-se — Ia já esquecido da nova que vos prometera. Fugindo à peste, el-rei de Castela ontem à noite se passou para a vila de Almada e para lá o acompanhou a senhora Infanta de Portugal, rainha de Castela, com todas as suas damas.
Entreolharam-se os Namorados com uma grande expressão de espanto. Ruy baixou o olhar amargurado.
Agora cada vez era mais fugidia a esperança de buscar a sua malograda noiva.
— Parece que a Rainha foi para lá enferma e no receio de estar também atacada de peste — acrescentou o Mestre, observando-lhe a perturbação.
Confrangeu-se a alma do infortunado Vasconcelos.
Com um sorriso afetuoso, o Defensor do Reino deu-lhes a despedida e saiu.
— Meu Deus, para derradeira tortura só faltava agora que a morte ma levasse! — disse de si para si o Vasconcelos esmorecida mente.
CAPÍTULO XV
A DESPEDIDA
O aviso confidencial que Afonso Eanes levara ao Mestre acerca de qualquer aventura dos Namorados, aviso vago e de simples suspeita por umas palavras de Ruy de Vasconcelos, inspirara a D. João aquele ardil bem intencionado.
O caso das galés era apenas um pretexto, um estratagema para segurar o esforço temerário dos jovens aventureiros. Mas no invento do ardil achara o Mestre a noção de um plano a seguir, logo que as galés estivessem suficientemente preparadas para a defesa do rio, acima de Sacavém, e fossem oportunidade apropriada para se efetuar a passagem da hoste de Nuno Álvares Pereira.
Muito propositadamente, para ir moendo tempo, no desencalhe e nos aprestos das galés se gastaram dois dias. E o esquadrão dos Namorados lá esteve de noite e de dia acampado na Ribeira como sua guarda.
Nem era preciso afinal manter o estratagema por causa dos rapazes. O Mestre soubera mudá-los, falando ao seu coração de patriotas e, ainda que os não houvesse chamado à razão e ao dever, eles próprios desistiriam do louco intento, mal soubessem, como souberam, da transferência da Rainha com as suas damas de Santos para Almada.
Ainda João das Regras manifestou ao Mestre o receio de que os rapazes pudessem idear loucura maior, assim que se rissem a bordo das galés; mas de tal insubmissão e desvario os não supôs capaz o grande bastardo de el-rei D. Pedro.
Seria transpor as raias da mais doida aventura ir arremeter contra Almada dentro de meia dúzia de galés mal guardadas, tendo a certeza de que lhas meteriam a pique as sessenta e duas naus e vinte galés de Castela com os seus quatro mil tripulantes e homens de guerra. Seria a desvairada arremetida de um contra setenta.
* * *
O rei de Castela fez ainda nova tentativa para alcançar do Mestre um armistício, avenço como lhe chama Fernão Lopes; mas o defensor de Lisboa energicamente lhe rejeitou a proposta.
Conta o nosso glorioso cronista que, às perguntas do rei de Castela a respeito da resposta dada pelo chefe dos chamorros, o mensageiro lhe dissera:
— Dai-o ao demo, senhor, que nunca em ele outra razão pude achar de quantas coisas lhe falei, nem outra resposta que respondesse, salvo não, não, não!»
E não só o despachou desta forma, mas em conselho com os seus capitães de maior representação e com os mecânicos da Casa dos Vinte e Quatro deliberou dispor para mais demorada resistência todos os meios de defesa que a pobre cidade faminta e já oprimida de sede, ainda lhe poderia dar.
Tal não foi preciso, por fortuna dos sitiados.
Parece que o bom conselho dos prudentes e o pavor da peste lograram enfim quebrar a soberba teimosia do rei de Castela, e movê-lo a buscar no afastamento de Lisboa a trégua que os chamorros lhe não queriam conceder.
Vencia afinal o voto insistente do infante D. Carlos de Navarra, talvez por causa da doença da Rainha, que a 2 de Setembro manifestara sintomas de empestada.
Deram os vigias e atalaias das torres por certos movimentos do exército sitiante, e logo pela cidade se espalhou com febril alvoroço que dos lados de Santos já os Castelhanos estavam retirando.
Os sinos repetiram a nova em repiques festivos, e os homens de armas, o povoléu, os esfarrapados e as mulheres correram para as portas das muralhas, numa ânsia belicosa de ir saldar as contas do cerco num combate final.
O Mestre soube logo daquele alvoroço, e saiu do paço no temor de alguma ida funesta. É que podia ser um movimento de concentração, para alguma investida a qualquer ponto mais fraco da cidade, aquele deslocamento de forças que o povo supunha o começo de uma marcha de retirada.
O Mestre lembrou-se logo dos Namorados e mandou a um dos seus capitães que fosse dar-lhes ordem terminante para não abandonarem as galés. A bordo delas deviam de estar precavidos para qualquer investida da armada inimiga.
Ia já na rua Nova quando um anadel de besteiros veio de corrida para ele.
— Mestre e senhor!
— Que há?
— Está o povoléu todo às portas de Santa Catarina, e quer por força que o deixem ir para ir contra o arraial dos Castelhanos.
— Não saem, que não quero eu! — disse, de rosto avincado, metendo o cavalo a galope para a ladeira que ia dar às portas de Santa Catarina.
Já ali se ouvia distintamente a vozearia convulsiva da multidão. Uma galopada mais e logo esbarrou com as primeiras ondas da populaça. Frades em filas com as mais variadas armas, esfarrapados bramindo impaciências, bandos de mulheres em gritos como uivos.
— O Mestre! O Mestre! — exclamaram os que primeiro o viram.
E todo aquele mar revolto um pouco se acalmou.
— Que tendes e quereis? — perguntou-lhes numa voz dominadora.
— Senhor Infante e Mestre — disse um mesteiral — pedimos que nos mandem abrir as portas para irmos dar as nossas despedidas aos castelões.
— Heis de ir quando eu entender proveitoso que vades — respondeu-lhe com firme energia.
— Mas não é bem que eles se vão escapulindo, sem que a cidade se vingue do tanto mal que esses cães lhe têm feito — replicou o mesteiral.
À frente da sua hoste de mulheres, todas elas com arregaçadas de pedras ou molhos de lenha debaixo do braço, a tia Lourença interveio respeitosamente acercando-se do Messias de Lisboa.
— Senhor Infante, senhor Mestre, deixai que o povo saia a vingar as tantas misérias e o tanto mal que tem padecido. E nós, as mulheres, Mestre e senhor, o mar de lágrimas que temos chorado.
— Pelo voto de todos fui escolhido para vosso Defensor...
— E nenhum outro queremos! — interrompeu a regateira num arrebatamento entusiástico.
— Nenhum outro! — clamou a multidão.
— Pois que o sou, o mando é meu! — disse o Mestre com benevolente energia.
— Mestre, mandais vós e nós pedimos! — instou a regateira.
— Gentes, o que pedis?
— Que nos deixeis-ir lá matar a fome e matá-los. Se vão retirar ao seu salvo, hão de queimar primeiro a fartura que têm, e então antes nós lha vamos tomar. E para lhes deitar fogo ao arraial aqui trazemos a lenha.
— Deita-se fogo a tudo aquilo! — clamaram outras.
— E acaba-se com a peste que eles lá têm no choco.
— Isso é desvario! Quem vos afiança que eles vão retirar e que não é ardil contra nós isso que vos parece retirada?
O Mestre antes queria impor-se-lhes pela persuasão do que por alguma dura energia do seu mando, e neste propósito conciliador os ia ouvindo. Era aquele o seu povo e tinha sido ele a vida, a força, a esperança da Nação ameaçada de morte. Bem sabia que só por um milagre de constância e de intrepidez, feito por aqueles esfaimados, por aqueles rotos, por aquelas mulheres de tão admirável abnegação, que tocava as raias da heroicidade, Lisboa se pudera manter diante do poder formidável de Castela.
E Lisboa era naquela conjuntura o coração e o cérebro de Portugal.
Compreendendo e sentindo isto, o Mestre comprazia-se em prestar a grata homenagem da sua benevolência àquela soberania de farroupilhas, multidão faminta que não regateava à Pátria o seu sangue vermelho de plebeus!
— Mestre, deixai — solicitaram muitos.
E logo, muito para a frente, revoaram gritos rouquejantes de ameaça da gente que tumultuava ao pé das portas.
— Gentes, arredai-vos! Aquela porta a vou eu guardar.
A plebe abriu-lhe caminho respeitosamente, e numa galopada o Mestre chegou junto das portas, cuja guarda de besteiros e homens de lanças começava a oprimir-se diante da populaça irrequieta.
* * *
Conta Fernão Lopes que D. João ali se manteve por largo tempo, contendo os assomadiços.
Não deixou sair a multidão, não consentiu que as portas fossem abertas e por elas se efetuasse um reconhecimento ao arraial inimigo; mas, para dar desafogo às impaciências da multidão, permitiu que por outra porta menos exposta aos ataques dos Castelhanos e mais arredada das maiores forças do arraial inimigo — as de Santo Antão — num extremo quase ermo da cidade, saíssem para observar o movimento dos sitiantes uns vinte e tantos cavaleiros que ali tinha montados nuns esfaimados corcéis e muares.
Foi a turbamulta atrás deles e pelos adarves do muro se aglomerou, seguindo em olhares impacientes aquele punhado de temerários, que arrancara das estreitas portas de Santo Antão para sondar as intenções dos sitiantes.
O Mestre subira à quadrela de Santa Catarina. Dali poderia observar um pouco a marcha daqueles cavaleiros de aventura.
Ora se lhe escondiam à vista nas pregas do terreno acidentado, ora os divisava em galopadas pelas clareiras dos olivedos nas ásperas encostas. Por instantes os perdeu de vista.
— Estou a desconfiar que o povo foi adivinho e que os Castelhanos vão realmente em retirada! — disse para o anadel-mor.
Desceu e foi outra vez montar a cavalo.
— Fernão Rodrigues — disse para o Comendador de Juromenha, que tinha então o comando da guarda do posto de Santa Catarina — por aqui ninguém sai, sem que eu esteja convosco. Vou à torre de Álvaro Pais para ver o que é feito dos nossos cavaleiros que saíram.
— Senhor Mestre, podeis ir confiado na minha obediência. Por aqui ninguém sairá, pois que estas portas a ninguém se hão de abrir enquanto vivo for.
— Está bem.
E deitou numa galopada para o sítio onde é hoje o Largo de S. Roque. Apeou-se e subiu à torre de Álvaro Pais.
Mas ele a chegar ao pé das ameias e a estrondear de lá de um outeiro o brado de alarme dos Castelhanos, chamando às armas, gritando o seu pregão de guerra. E logo o toque vibrante de muitas trombetas, num tocar mal seguro, truncado, como se estivessem gaguejando a surpresa dos tocadores.
— Deram por eles! — disse o Mestre — Mas tantas trombetas como se para ali, por detrás daquele outeiro, estivesse toda a hoste de el-rei de Castela! — acrescentou apreensivo.
E o que ele não podia saber então era que para aquele lado se concentrara a maior parte do exército sitiante, no seu primeiro movimento de retirada.
D. João de Castela cedera ao conselho dos prudentes e à evidência do perigo, mas custava-lhe a despegar-se dos arredores de Lisboa, que as suas tropas tinham assolado. Ainda aquela demora ali, não tanto por esperar a chegada da Rainha enferma e o préstito de cadáveres dos grandes de Espanha trazidos de Sintra, como por homenagem ao seu orgulho de rei e de Espanhol. Não fosse parecer que fugia.
Em breve o Mestre viu os seus cavaleiros retirando à desfilada, na direção das portas de Santa Catarina, pois que para a de Santo Antão lho impediam mais de mil cavaleiros de Castela, que os vinham perseguindo de lança em riste.
Desceu rapidamente ao terreiro da torre, montou de um salto e numa breve desfilada chegou ao pé das famosas portas da cidade.
— A mim, homens de guerra! — gritou aos grupos de gente armada que ali estacionava.
Juntou-os em frente da porta numa formatura concentrada, que dava o aspeto de uma cunha.
— Com todos os vossos besteiros para os muros — ordenou ao anadel-mor.
Vibrava alto do lado de lá da muralha a algaraviada dos cavaleiros de Castela e os brados convulsos dos cavaleiros portugueses, pedindo auxílio.
— Fernão Rodrigues, mandai abrir essas portas e ide com a vossa gente a dar amparo a esses vinte cavaleiros nossos, se tantos são ainda, que os Castelhanos vêm perseguindo.
Abriram as grandes portas chapeadas de ferro e o Comendador de Juromenha saiu com cerca de trezentos homens. Era tempo. Quase encostados às muralhas, com os cavalos a espumejarem suor, os vinte mal podiam já defender-se das primeiras filas da cavalaria inimiga.
Corria pelas muralhas fora, como um rastilho de ódios,, gritaria fremente dos homens de armas e da populaça que subira às seteiras.
De Santo Antão refluíam ondas de povo esbravejando. A hoste de mulheres da tia Lourença correra também para os muros com as suas arregaçadas de pedras.
O Mestre contava com uma investida em forma. Enganava-se. Apenas uns seiscentos cavaleiros se tinham aproximado daquela parte da muralha.
A pequena hoste de Fernão Rodrigues avançou intrepidamente e a uns trezentos passos da porta tomou uma formatura semelhante à dos quadrados modernos. As primeiras filas puseram joelho em terra com os piques apoiados no solo, tal como tinham feito, cerca de cinco meses antes, na batalha dos Atoleiros, os fidalgos e a peonagem de Nuno Álvares.
Choviam das muralhas sobre os cavaleiros inimigos os virotes e garruchas dos besteiros e com não menos eficácia as pedras arremessadas pelas mulheres.
Já com algumas perdas de homens e cavalos, os Castelhanos desistiram da investida e meteram a galope para os lados de Santo Antão.
O mulherio fez-lhes dos muros uma assuada estonteadora e a hoste de Fernão Rodrigues recolheu, trazendo de rastos os cavalos dos inimigos que tinham caído feridos ou mortos em volta do seu cerrado.
— Gentes! — gritou a tia Lourença, indicando os nove cavalos que traziam de rastos — Temos açougue com carne fresca. Cavalos de Castela ruins hão de ser para o nosso dente, mas quem tem fome cardos come. Olhai, se o Mestre der licença, repartem-se em quinhões, irmãmente; mas primeiro para quem tiver criancinhas e doentes.
E dali a pouco a multidão faminta esquartejava os cavalos, cantando a trova revolucionária:
Esta es Lisboa presada:
Miradla e deijadla,
Se quizieredes carnero,
Qual dieron al Andero.
* * *
Aquela refrega foi a despedida de um cerco em que Lisboa padeceu misérias imensamente maiores que nos outros, muito mais breves, de 1373 e 1382.
Aquele durava havia aproximadamente cinco meses, depois que fora completamente fechado, e sete meses desde que tinham começado as hostilidades dos lados do Lumiar.
Em terra, vinte e cinco mil Castelhanos e aventureiros ilustres de França (os de Gasconha e do Bearne), no Tejo sessenta e duas naus e vinte galés com outros navios ligeiros e, provavelmente, uns quatro ou cinco mil homens a bordo; mas Lisboa não se rendera, antes brasonou com aquele feito a primeira grande página épica da sua história, para um dia servir de prólogo à maior odisseia das civilizações modernas.