A Ala dos Namorados
Capítulo XI · Terra de Portugal
Três léguas a passo, e nem sequer tropel longínquo dos ginetes do Munoz!
Era manhã clara; vinha rompendo o sol.
— Já não deitam cá — disse o Magriço — Lá vem o teu lampadário de ouro, santa bandeira! — exclamou, erguendo-a mais.
Fizeram alto, saudaram-na com as lanças comovidamente, e entoaram a trova que o Provençal compusera em louvor de Aljubarrota.
— Agora, amigos, à rédea solta! — gritou o Magriço.
E aquele belo esquadrão de devaneadores deitou por ali fora numa desfilada romanesca.
Era já noite quando encontraram os noivos e a sua pequena comitiva. Iam já oprimidos de receio pela demora.
* * *
Tinham seguido pela margem esquerda do Douro, evitando as grandes povoações.
Ao cabo de três fatigantes jornadas, de dia e de noite, entraram pela raia de Miranda.
Ao outro dia celebrava-se na pequenina igreja de uma aldeolazita trasmontana o casamento de Ruy de Vasconcelos com Madalena de Mendonça.
O velho pároco tinha oposto escrúpulos ao casamento assim de afogadilho, mas Ruy resumiu-lhe lealmente a história dos seus amores e os Namorados, três de entre eles, fidalgos ilustres daquela província, deram pelos noivos a abonação da sua palavra jurada.
Nem seria preciso tanto. O velho padre era homem apaixonadamente dedicado à causa de Portugal e a simples solitação daquela ala gloriosíssima de Aljubarrota, Chegaria talvez para lhe vencer todos os escrúpulos e desconfianças.
O casamento foi de manhã cedo, ao nascer do sol. Começavam a fumegar as chaminés do povoado; estavam brancos de geada os telhados da igreja e os cabeços dos montes.
Assistiram os que restavam da ala, com a sua bandeira esfarrapada pelos virotes e desbotada pelo sol. Apenas trinta e enchiam a navezita.
Foram padrinhos Mendo Rodrigues e Álvaro Coutinho; D. Maria de Mendonça era uma das madrinhas, a outra foi a Senhora da bandeira, aquela pequenina imagem antiga que o Magriço oferecera em 1384. Tocou por madrinha, como ainda hoje se diz.
Foi uma coisa comovedora. Tinha lágrimas de enternecido júbilo aquela noiva, cada vez mais linda. A mãe chorava como tantas vezes choramos nalguma hora de suprema ventura.
Madalena fez promessa de bordar a ouro um manto novo para a Senhora da Boa Fortuna, padroeira da aldeiazita.
— Parece que já estou a ouvir o primeiro beijo destes casados — segredou para outro o cabecinha de vento do Lobeira.
— Chilreado como o que tu roubaste a certa rapariga de Porto de Mós — acudiu o outro, sorrindo.
— Ora! — disse-lhe quase ao ouvido — De Badajoz até Valverde de Mérida roubei eu mais de três dúzias de beijos a três carinhas de castelhanas, que eram de beijar e chorar por mais.
À saída, o Vasco Eanes disse, apontando os telhados brancos da igreja:
— Até esta velhinha se vestiu de noiva!
— E acabou em casamenteira a nossa Ala dos Namorados! — acudiu, pesaroso, o Álvaro Coutinho.
No dia seguinte, as despedidas. O esquadrão minúsculo iria para o Porto a juntar-se à hoste do Condestável. Ruy partiria para Lisboa com a esposa, D. Maria e o tio Mendo.
Vinte dias depois, no velho palácio de Vasconcelos, a Santo Elói, D. Dulce abraçava com igual fervor o filho queridíssimo e a sua encantadora nora e ao fundo da escada nobre, o velhinho Gonçalo Vasques gaguejava umas palavras de infantil jovialidade, com os olhos rasos de água.
* * *
Foi um mês de encantos, com fulgores e enfloramentos de Abril, aquele Novembro de 1385 para os apaixonados noivos do palácio de Santo Elói. Como alheios a tudo no Mundo de sonho que para si tinham criado em êxtases de inexcedido amor, nem o sol que eles viam e sentiam era como o dos outros, nem para os seus lábios famintos de beijos tinha frialdades agrestes aquele melancólico esmorecer do Outono. Traziam na alma uma primavera lucilante e cálida, com alvoradas ébrias de luz e noites alagadas de luar! Ela ainda mais linda que dantes; ele trovador enamorado como nunca.
Mas naquele viver paradisíaco, de febre e de sonho, em que a imaginação, quase omnipotente, cria nas suas visualidades e arroubamentos alguma coisa de maior prodígio que as mais belas realidades do Mundo; naquela vida intensa e absorvente, os dias passavam breves como horas escassas e Novembro acabou de surpresa para eles. E por sinal uma entristecida surpresa.
Terminava a licença que o Condestável tinha concedido ao noivo afortunado e era dever partir. A hoste do Condestável juntara-se à de El-rei. A guerra continuava e as forças principais do País iam concentrar-se em Trás-os-Montes para cercar a vila forte de Chaves, ainda em poder dos partidários de D. Beatriz, e cada vez mais arrogante com o apoio que lhe davam os homens de armas de Castela.
Reclamava mais sangue a liquidação do dote da rainha juvenil, e para segurar melhor a coroa na sua cabeça de triunfador era preciso que D. João I de Portugal conquistasse uma parte, ainda importante, da sua pequena monarquia.
Nos primeiros dias de Dezembro, Ruy de Vasconcelos partia para Trás-Os-Montes. Pode imaginar-se a amargura da separação e a dor enorme de Madalena. Para as longas noites daquele Dezembro a tortura das saudades e a outra, ainda maior, dos receios por essa ausência, que podia ser para sempre!
Aquela guerra era de sanguinário enfurecimento e de implacáveis ódios. Ir para ela era como ir para lúgubres jornadas pelo caminho da morte.
A 25 de Dezembro começava o cerco de Chaves. Naquele dia, com o coração confrangido de saudades, duas mulheres choravam amargamente no palácio de Santo Elói.
D. Dulce e Madalena. Foi assim a sua consoada naquele ano de tamanhas glórias para a Pátria e de tão efémera ventura para a rainha, dos Namorados.
É que também as mulheres dão um pesado tributo para a guerra. O tributo das suas lágrimas para esse longo mar de sangue, esparso no Mundo pelos ódios dos homens e pelas iníquas ambições dos estados.