A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 37 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo XV · A Primeira Conquista

 

Dobravam os sinos do mosteiro de Odivelas. A Rainha morrera. Querida e venerada por todos, o choro e o luto não podiam ser em Portugal uma hipocrisia imposta pela pragmática real. Não eram.

Mas um vento de sonho, de maior poder que o aquilão favorecedor, levava para longe as almas guiadoras da Nação remoçada, e naquele lance de aventura já não havia dor que chegasse para trajar de luto a página em branco de uma nova História.

Despiram-se os trajes de dó, cingiu-se ao peito o ferro brunido dos arneses e, como numa aleluia, após um dia de paixão, as bandeiras e os pendões subiram aos topes dos mastros da armada que atravancava o Tejo.

Embarcar, partir, transmudar em voadeiras as velas dos navios, em constelações de eterno fulgor, para uma civilização mais alta num Mundo maior, os faróis das armadas, era a sina e o destino histórico daquela Raça.

A peste uivava nas ruas estreitas e nos bairros em que havia maior enxame de gente, o sol sumira-se num eclipse igual ao de 1384, mas o estado de alma era outro e ninguém acreditou no vaticínio lúgubre daquele ofuscamento de luz (*).

 

[(*) Foi em 7 de Julho aquele eclipse de 1415. Não era total em Lisboa e começou ao romper do dia.]

 

Da extinta Ala dos Namorados quantos haveria para embarcar naquela armada?

Ruy de Vasconcelos, o Magriço e Vasco Eanes tiveram o cuidado de o indagar. Eram ainda vinte e três, metade deles já com os cabelos brancos a denunciarem a passagem do seu meio século de vida.

Na praia do Rasteio se fizeram as últimas despedidas. Estava coberta de gente. Madalena foi também. Aquela armada levava-lhe o marido e o filho.

Foi então que o Rasteio começou a ser prata das lágrimas, como longos anos depois lhe chamou um marinheiro cronista. E de lágrimas era ainda um século mais tarde, quando os sinos de Lisboa, num dobre de avença, tangiam dolorosamente pelos que partiam.

Nos batéis da armada muitos expedicionários vieram a terra. O Magriço acompanhou Ruy de Vasconcelos e o afilhado.

— Não vos amargureis, senhora minha — disse Álvaro Coutinho para Madalena — Isto há de ser ida pela volta. Estavam-se já as espadas a enferrujar. Os Castelhanos ficaram arrumados, e como os Mouros já nos não querem visitar, vamos nós pagar-lhes à sua casa marroquina as muitas visitas que durante séculos nos fizeram.

Era piedoso intuito do Magriço amortecer nestes dizeres despreocupados a amargura que estava lendo nos olhos da envelhecida noiva de 1385.

— Senhora minha, que remédio agora senão trazerdes vós, as namoradas de há trinta anos, umas bênçãos de boa fortuna para estes avelhentados da ala jovem que se acabou? Sentimos todos que isto precisa de ser maior, e os ruços de Aljubarrota — disse, apontando para os seus cabelos brancos — têm de acompanhar por aí fora os jovens como o vosso filho, namorados de outra ala, que talvez um dia venha a ser de navegantes. Seria vergonha que ficássemos, nós os que apenas começámos a ser velhos, quando ali, a bordo, está um fidalgo que ninguém chamou e ninguém queria levar, porque já fez noventa anos. Era aos quinze anos escudeiro de armas na batalha do Salado, e vai! O vosso marido tem cinquenta e dois e o vosso filho dezoito. Senhora minha, não choreis. A Nação precisa de nós, e as velas daqueles navios são asas com que a nossa bandeira pode voar, Deus sabe, senhora, até onde!

— Assim será... Assim... — volveu-lhe, afogada em soluços — Ruy, adeus! Filho da minha alma! Nossa Senhora vá convosco!

Levantaram ferro os duzentos e quarenta navios da armada, galés, naus, fustas, navios de combate construídos nos estaleiros de Lisboa e do Porto, embarcações de transporte fretadas na Galiza, na Biscaia, na Inglaterra, na Alemanha, e em Génova.

Levavam milhares de embarcadiços e vinte mil homens de guerra.

Nunca talvez das Espanhas saíra uma frota de cristãos assim poderosa. Aquela era a primeira cruzada marítima desse escasso povo, que mal tinha um milhão de almas e trinta anos antes apenas tivera seis mil e quinhentos homens para lhe vencerem a mais gloriosa e a mais santa das suas batalhas!

Como as outras esposas e as outras mães, Madalena ficara na praia.

A armada descia um pouco para o mar, mas ainda não sairia a barra naquele dia.

Ruy e o filho, com os outros que tinham sido da ala imortal, iam na divisão da grande esquadra que era diretamente comandada pelo Infante D. Henrique.

Percebia-se bem qual era. Os pendões e a libré dos vintaneiros e soldados tinham as cores distintivas do chefe — branco, preto e verde.

O que Madalena ignorava era que o grupo dos antigos Namorados se alistara naquela divisão da armada por saber que D. Henrique pedira e obtivera do pai o favor de ser o primeiro a desembarcar e acometer.

Iam no ar, como asas esguias, as velas latinas das fustas, levantavam turbilhões de espuma os remos longos das galés, enfunava-se o pano das naus; o aço resplandecia sob o fogo doirado do sol e os balsões voavam altos, como bandos de aves marinhas de alguma estranha fauna.

Foi no dia de S. Tiago que todo aquele poder se meteu ao mar.

Para Granada, para a Holanda, para a Normandia, para Sicília?

Para aonde quer que fosse, até à volta. Era aquele o primeiro embarque da alma portuguesa para uma história maior nos destinos do Mundo.

E foi talvez de então, que em cada lar de Portugal, ao cerrar da noite, depois da ceia, se começou a rezar piedosamente um Padre Nosso e uma ave-maria pelos que andavam sobre as águas do mar.

 

* * *

 

Era para o sul que eles navegavam. Seria, então para tomar Granada ou para conquistar a Sicília? Não era. A frota entrou na ampla baía de Lagos e ali souberam todos que iam tomar ao Mouro de Marrocos a cidade mais culta e mais opulenta que tinha o império mauritano.

Contra Ceuta é que era o cometimento.

Chave do Estreito, golilha moura na garganta do Mediterrâneo, onde o Turco ia aparecer ovante, Ceuta era então, pelas riquezas e pelo esplendor, a Veneza de África, como pelos encantos da paisagem, planuras marchetadas de pomares, colinas cingidas de vinhedos, era também irmã de Granada.

Dali viera a perdição da monarquia visigoda, dali as invasões temerosas da Península e do meio-dia da França, torrentes colossais de soldados e de sectários, que transbordavam sobre Gibraltar, o cais muçulmano das Espanhas, e tudo alagavam. E assim durante mais de seis séculos, bem que do mar de sangue das batalhas emergisse a grande e rútila civilização dos califados árabes.

Lida aos soldados a bula de indulgências da Santa Cruzada, a frota navegou para o Estreito, depois de uma arribada a Faro.

A cidade moura de Algeciras apavorou-se, e Gibraltar, moura também, preparou-se para uma vigorosa defesa.

Depois de ter recebido mantimentos em Tarifa, porto da Espanha cristã, a armada surgia a 12 de Agosto diante de Ceuta. Já de sobreaviso, Salat-ben-Salat, governador da cidade, tinha chamado no seu auxílio as tribos guerreiras, os tigres brancos dos aduares e das montanhas sertanejas.

A cidade, abroquelada de formidáveis torres e muralhas, tinha lá dentro uma sinistra multidão de homens de guerra. Travaram-se escaramuças nas praias, mas o ataque em forma não se pôde efetuar então.

Ao desabrigo, num ancoradouro pouco seguro, açoitado por um levante rijo de temporal, a esquadra teve de levantar ferro e sair para ir abrigar-se em Algeciras.

Ainda pouco experimentados no mar, os nossos mestres e a maruja das naus não puderam aguentar-se com o vento e as correntes e foram dar com elas a Málaga.

Parecia mal agourada aquela primeira aventura, e não faltou quem esmorecesse. Estavam pouco afeitos às bravezas do mar. Alguns propuseram que se optasse pela conquista de Gibraltar; outros que se voltasse a Portugal. O maior número instava pelo feito planeado, seguindo o propósito inabalável do Rei, dos Infantes e do envelhecido Condestável.

Afinal, a 20 de Agosto, a armada tornava a surgir em Ceuta, então desoprimida de receios e sem uma grande parte dos seus tigres auxiliares, já regressados ao sertão.

A simular-se tranquila, a cidade iluminou-se naquela noite. Acendia as luzes para o seu próprio funeral.

Ao amanhecer do outro dia se fez o desembarque, e logo ali se travou encarniçada luta. O mouro de Marrocos foi sempre um batalhador de arrebatada bravura e na cidade ainda ficara uma forte guarnição.

Nas primeiras arremetidas, sobre a praia lambida de ondas, um sudanês de retinto negrume, fundibulário atlético, de toda a mourama se destacava, derribando os homens de arcaboiço de ferro com os seixos enormes que a sua funda de Hércules fazia zumbir nos ares. Valia por muitos e era ali ele só, como se fosse uma estranha figura mística, o combatente de mais temerosa intrepidez para os Portugueses. Dir-se-ia o gigante vindo de alguma fabulosa caverna daquele Atlântico Tenebroso, que as lendas árabes tinham cercado de pavores para além da costa ocidental de Marrocos.

Varou-lhe o peito nu a lança de Vasco Martins de Albuquerque, e o colosso foi a terra.

Então mais bravia arrancada dos Portugueses, e os Mouros começaram a recuar, enovelados. Na frente da sua hoste, com denodada bravura, o Infante D. Henrique apertou mais com eles. Cederam de ânimo espavorido e fugiram para as portas de Almira, abertas para lhes dar entrada e abrigo. Entrou de roldão com eles a vanguarda do Infante.

Já tinham desembarcado também o povo de armas dos Infantes D. Duarte e D. Pedro e do Conde de Barcelos, bastardo do Rei.

Arrombaram a machado outra porta da cidade. Nas ruas estreitas e nos terreiros dos bazares e das mesquitas, o combate volvera-se em nevrose de desespero para os Mouros vencidos. Muitos tinham logrado fugir pelas portas que davam para o sertão e Salat-ben-Salat com eles; muitos, porém, ainda ficaram para morrer.

O saque era da pragmática guerreira do tempo, ainda que fosse cristã a cidade vencida, quanto mais ali, ao impulso de um ódio imenso que vinha da religião, da raça, e das chacinas históricas de seiscentos anos.

A mortandade dos vencidos foi maior que a dos Castelhanos em Aljubarrota; enorme o espólio daquele empório mercantil, que na opulência precedera Veneza.

Pisavam brocados de ouro e alcatifas de palácios magnificentes e punham ao pescoço colares de pérolas e de corais os homens broncos da peonagem, filhos dos esfarrapados épicos de Aljubarrota.

Da soberba alcáçova, donde se viam bem as terras de Espanha, toda a guarnição fugira. Quando os Mouros voltaram do sertão, num arranque de saudade e numa tardia resolução de combater, entoando cânticos de guerra, já na torre albarrã do castelo flutuava, sacudida pelas lufadas do sertão, a bandeira de Lisboa, erguida ali pelo alferes da cidade, João Vaz de Almada.

Escaramuçaram inutilmente. Era já tarde para reaver a cidade perdida.

Mudou-se logo em templo cristão a mesquita maior, sob a invocação da nossa Senhora de África, simbolizada numa imagem que o Rei trouxera a bordo de Lisboa.

E tanto em Portugal se acrisolara o culto da mulher, que até para o Rei e para o Condestável era a divina mulher de Nazaré a sua padroeira dileta. O mosteiro da Batalha tinha a invocação de Santa Maria da Vitória e o mosteiro do Carmo, havia vinte e cinco anos inaugurado por Nuno Álvares, fora consagrado a Nossa Senhora do Vencimento.

Depois da sagração, a solenidade brilhante da cavalaria romanesca.

Os Infantes pediram ao Rei que os armasse cavaleiros. Mereciam-no. Tinham sido egrégios batalhadores e dignos filhos do envelhecido leão de Aljubarrota.

Depois tocou aos Infantes a vez de armarem cavaleiros os novos das suas hostes.

Os Namorados tinham vindo com D. Henrique e foi a ele que Ruy de Vasconcelos pediu lhe desse ao filho a investidura de cavaleiro.

Foi uma coisa comovedora. Em frémitos de comoção, os ruços da ala jovem de 1385, como dizia o Magriço, tinham os olhos rasos de água. Eram juventudes apagadas daquela eterna data.

E no minarete da mesquita dois sinos, que os piratas mouros tinham trazido de Lagos como troféus e os Portugueses tinham guindado para lá, repicavam festivamente.

Para os vencedores uma vibração de gritos triunfais; mas para os vencidos, a caminho dos aduares distantes, num esmorecimento de alma, era uma voz de amarguras, como se aquele bronze dos nazarenos pudesse soluçar as mágoas e as saudades que eles levavam!

Estavam agora imensamente mais fáceis para a Espanha a expulsão do mouro dos rochedos de Gibraltar e a conquista da terra paradisíaca de Granada.

E o que a Europa nem sequer ainda podia sonhar era que por aquela parte da África misteriosa se abrira o caminho prodigioso de uma nova civilização.

Naquele feito de um dia apenas, fazia-se a génese de uma Renascença que a cronologia ligou a outro facto histórico,(*) mas que ali realmente alvoreceu.

 

[(*) A tomada de Constantinopla pelos Turcos em 1453]

CAPÍTULO XVI

OS DERRADEIROS DA ALA

 

Nos últimos dias de Agosto começava o reembarque do exército para voltar para Portugal. Em Ceuta ficava uma forte guarnição.

Na praia, o grupo dos Namorados esperava a sua vez para embarcar.

— Olhai que o senhor Infante D. Henrique traz algum grande cometimento de segredo! — disse o Magriço para Ruy de Vasconcelos.

— Por que o supondes?!

— Porque em dois dias seguidos esteve encerrado com certo mercador judeu e mais dois escravos negros. Tive curiosidade de indagar porque seria, e disseram-me que os dois negros eram escravos do judeu e vinham a ser de uma tribo a que chamam azenegues. Pelos modos, o judeu muito costuma jornadear para os lados da costa donde se vê o Mar Tenebroso. Heis de ver que o senhor Infante quer embarcar Portugal e que ainda nós outros, os ruços da Ala dos Namorados, teremos de andar à cata das ilhas encantadas, da terra do fogo e do reino dos gigantes, até ir dar com os ossos a esse cabo do Mundo donde vêm os melhores brocados, as mais lindas pérolas, as pedrarias de maior brilho!

— Pois se assim for — volveu-lhe o Vasconcelos entusiasticamente — para isso mesmo ainda temos nós, os ruços de Aljubarrota, o primeiro moto da nossa bandeira velhinha de namorados. E eu dou mais um para fidalgo-navegador — disse, apontando o filho.

Nisto chegaram dois criados de Ruy com uma arca.

— Vá; ide com isso para bordo e que não fique lá de modo que se suma.

— O vosso tesouro com os despojos do saque? — perguntou de gracejo um fidalgo conhecido pelos ditos mordazes.

— O mais opulento tesouro dos envelhecidos Namorados — retorquiu-lhe o Vasconcelos.

— Brocados de ouro, rubis, diamantes?

— Despojo de maior valor! Foi nos palmares de Ceuta que fizemos o saque. Vai esta. Arca cheia de palmas.

— Essa agora! — objetou-lhe com um sorriso de incrédulo.

— Podeis ver — acudiu o Vasconcelos, mandando abrir a arca.

Estava cheia de grandes ramos de palmeira.

— Já sei. Para as festas do dia de Páscoa na nossa terra — disse-lhe o gracejador a duvidar do juízo do Vasconcelos.

— Para uma devoção piedosa, antes do dia de finados, estas palmas da nossa primeira conquista pelos mares.

Foi promessa dos que ainda restam de certa ala jovem que há trinta anos acabou.

Disse-lho comovidamente com os olhos rasos de água. O gracejador afastou-se.

Pouco depois os Namorados estavam a bordo.

E a 2 de Setembro a armada largava para Portugal.

 

* * *

No dia 7 de Setembro de 1415, onze cavaleiros da nobreza do reino, quase todos eles já grisalhos, apeavam-se no terreiro do convento de Alcobaça, o maior e o mais opulento dos que tinha Portugal.

Pediram licença para falar ao Dom Abade.

Foram recebidos, e momentos depois iam ajoelhar na grande e altiva igreja dos monges Bernardos. Ouviam missa pelas almas dos tantos que a sua ala perdera na batalha real.

Dali foram como em piedosa procissão ao grande claustro onde se tinham sepultado os seus companheiros em 1335. Levava cada um no braço um feixe de palmas, daquelas palmas africanas que tinham trazido de Ceuta.

Na frente de todos, o Vasconcelos com a bandeira desbotada e em farrapos, a bandeira verde dos seus heroísmos e dos seus amores, asa esgarçada de uma águia que voara alto e ovante, desde os muros de Lisboa aos dois maiores campos de batalha da guerra contra Castela.

Espalharam-se pelo claustro e foram ajoelhando e cobrindo de palmas as pedras das sepulturas.

Depois o Vasconcelos, de pé, disse alto numa tremura de comoção:

— Aceitai-nos esta homenagem, mortos da ala jovem de Aljubarrota! Destes a vida como heróis pela vida da nossa terra, e Portugal salvou-se e Portugal é já maior! Escutai bem: É já maior! Da sua primeira conquista, nós, os velhos da ala, não trouxemos outro saque nem quisemos trazer para vós senão estas palmas, que vos eram devidas, mal-afortunados da ala jovem em que éramos todos irmãos. Foi na onda do vosso sangue juvenil que se afogou a iníqua ambição de Castela, e foi essa onda que nos levou para Ceuta, e quem sabe ainda até aonde, pobres Namorados a quem a morte não deixou noivar! Santa memória a vossa! — disse numa tremura maior em que as palavras tinham um arranque de soluços.

E aqueles envelhecidos guerreiros, arrogantes como leões, choravam como crianças.

No dia seguinte foram para Aljubarrota. O que eles recordaram com envaidecida saudade por aquela charneca fora! Ainda se encontravam ossadas a branquejar por entre as urzes bravias, ferros partidos de lanças, arneses carcomidos de ferrugem.

Subiram ao outeirozito que os Chamorros tinham tornado Sinai redentor de uma Nacionalidade.

Já lá estava a pequenina igreja votiva do Condestável, aquele templozinho rústico da evocação de S. Jorge, com a sua torrezita ameada, a simbolizar o feito.

O que a fantasia lhes sonhou ali, como se dali se pudesse ver o Mundo!

— Olhos enganadores os meus! — disse o Magriço — Agora até me parece que daqui se avista o mar e que se descobre a bandeira de Lisboa sobre a torre maior do castelo de Ceuta!

Era apenas a visão dos últimos trinta anos. A outra, de um futuro imensamente maior, pela amplidão de dois séculos, essa deixá-los-ia num êxtase de assombro, se naquela hora a pudessem ver. Nem sequer sonhá-la, por mais desvairado que o sonho fosse.

Mas tanto um dia a história havia de altear aquele outeiro, que dali se descobrissem as escarpas do promontório de Sagres o Atlântico misterioso que ia dar à América e aos gelos do Pólo Norte; o Cabo dos confins da África na extrema do Mar Tenebroso, o mar lendário da índia, o mar bíblico de Suez, as amplidões do Oceano Pacífico, os mares do Japão e da China; todos esses longos caminhos por onde os filhos e os netos dos Chamorros de Aljubarrota tinham de navegar imensamente mais que os Fenícios e os Cartagineses, ir além dos trinta mil soldados de Alexandre com os dois mil de Albuquerque, descobrir a metade que faltava ao Mundo medievo e traçar por essas remotas fronteiras um império igual ao da morta Roma dos Césares.

Mas se ali algum daqueles Namorados velhos tal pudesse adivinhar sonhando, os outros teriam piedade dele como o de um rematado louco.

De tarde foram para o mosteiro de Santa Maria da Vitória da Batalha, ainda incompleto. Era o grande templo votivo do rei de Avis.

Estava edificado no sítio denominado Apar da Canoeira, a curta distância do outeirozito de S. Jorge.

Diante do pórtico de puro estilo ogival, um encanto de linhas e ornatos singelamente belos, os ruços da ala pararam numa emoção que lhes punha lágrimas nos olhos.

— Pedra branca, de uma brancura que lembra aqueles ossos esparsos na charneca! — disse o Magriço.

— E reparai — acudiu o Vasconcelos — reparai naquela janela alta e linda, naqueles colunelos gentis, na altivez e donaire dos botaréus! Digno padrão da batalha! Falam, cantam como troveiros de sonho, num cantar que a minha alma ouve e entende, todas estas pedras brancas, a recordarem o manto de um cavaleiro de Avis.

— Esfarrapada velhinha, saúda esta linda igreja que também ali se ergueu por ti — disse o Magriço, inclinando para o chão os trapos desbotados da bandeira.

Entraram. Ali ainda mais profunda emoção.

O sol a declinar batia em cheio na alta janela rendilhada e alastrava, através dos vitrais de cores, pela nave central, de majestosa simplicidade, uns suaves fulgores como de íris, em quem a púrpura e o ouro tivessem uma preponderância evocadora.

— Sente a gente necessidade de ajoelhar, mal entra aquela porta! — observou o Magriço comovidamente.

— Mereciam bem que as trouxessem para aqui aquelas ossadas do claustro de Alcobaça — disse Vasconcelos.

— Mereciam.

Espalhou-se entre os pedreiros e lavrantes da obra que estavam ali uns fidalgos que tinham sido da Ala dos Namorados, e logo muitos deles largaram o trabalho para os ver. Alguns tinham sido soldados jovens em Aljubarrota, outros eram filhos de veteranos da hoste real.

— Deus vos acompanhe, senhores cavaleiros — disse alto o mais velho, num tom de saudação que lhe tremia nos lábios — De nós outros alguns há aqui que foram convosco na batalha real e, pela nossa fé, que ainda não tornámos a ver jovens de mais destemido ânimo.

Num alvoroço de enternecimento e de orgulho, os velhos da ala foram para eles e agradeceram-lhes.

— Com que então — disse-lhes o Magriço — ajudastes a vencer a batalha e agora ajudais a erguer-lhe este santo padrão?

— Trabalha a gente nisto com dobrada alma e até nos regala ouvir cantar a pedra que vamos afeiçoando — respondeu o mais idoso dos lavrantes — É um cantar que os nossos corações entendem bem!

A saída, já sol-posto, todos os outros operários tinham também despegado do trabalho e todos eles se foram juntando no terreiro da igreja.

— Homens jovens — disse o velho lavrante para os colegas noviços — foi assim por esta hora que se salvou a nossa terra! E vão ali alguns da ala que mais batalhou nesta hora.

Num fervor de devoção patriótica todos aqueles rústicos enfarinhados de pó branco da pedra, levantaram fervorosos vivas aos envelhecidos Namorados.