A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 16 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo II · O Mensageiro dos Namorados

 

O escudeiro de Trancoso deixou-se ficar em Lisboa e, a pedidos de Ruy, se conservou na carinhosa hospedagem do paço dos Vasconcelos. Era ele até um dos companheiros diletos do jovem cavaleiro nos seus passeios de exercício para enrijar e adestrar os músculos, emperrados e enfraquecidos pela demorada doença.

Por sua parte D. Dulce andava cada vez mais afervorada na devoção caridosa de encontrar o paradeiro da infortunada Leonor. Não era empresa fácil. Dado mesmo que tivesse ido acolher-se ao mosteiro, a que a velha Lourença fizera alusão e depois lhe designara, e tudo levava a crer que fosse, grandes e pacientes diligências era preciso fazer, movendo influências preponderantes, para obter das monjas a confirmação daquela suspeita.

A regra do mosteiro tinha excecionais severidades e os segredos e mistérios daquela clausura eram afincadamente guardados e com inquebrantável tenacidade defendidos da gente profana.

* * *

 

 

Chegara notícia de que o rei de Castela retirara do cerco de Elvas. Com as suas hostes e em Ciudad Rodrigo estava concentrando todas as forças de Castela para uma nova e maior invasão de Portugal.

E até se afirmava que o príncipe herdeiro de Navarra ajudaria o cometimento com a sua hoste, e que de Gasconha e do Bearne esperava el rei de Castela avultados reforços de fidalgos campeadores, de insigne estirpe, com os seus cavaleiros vassalos e escudeiros excelentemente armados.

Entretanto, para Portugal o socorro que os seus aliados ingleses lhe tinham mandado com destino à nova campanha era em verdade muito pequeno, certamente por causa das disseções internas e da guerra que, há largos anos, a Inglaterra mantinha com a França. (*)

 

[(*)As sanguinolentas e longuíssimas campanhas que toem na história a designação geral de «Guerra dos cem anos».]

Pela Páscoa tinham chegado ao Tejo, apesar do bloqueio, uma nau e uma barca de Inglaterra com duzentos daqueles famosos frecheiros ingleses que traziam consigo a tradição altiva das batalhas de Crécy e de Poiters (1346 1356) em que os franceses tinham sido vencidos pelas hostes britânicas de Eduardo III e do seu filho o Príncipe de Gales, conhecido na história pelo Príncipe Negro por ser preta a sua armadura de batalhador.

E com aquele diminuto reforço de homens viera também uma importante carregação de víveres e de algum armamento, lanças principalmente.

Dez galés castelhanas tentaram opor-se à entrada dos navios ingleses, mas foram repelidas depois de um breve combate.

Entretanto, no Minho, o Mestre e o Condestável supuseram que el-rei de Castela estaria no propósito de empreender a invasão pelo Alentejo, e apressadamente vieram com as suas hostes pelo caminho do Porto a Coimbra. Desta cidade seguiram para tomar e Torres-Novas, no intento de ir marchando pelo vale do Tejo até à Golegã. Ali atravessariam o rio para irem tomar o passo aos invasores.

Em um dos seus largos passeios, Ruy de Vasconcelos tomara relações com um velho cavaleiro francês de aventura, que viera com os ingleses e esperava oportunidade de ir juntar-se ao exército português em operações. Chamava-se João de Monferrat.

Falava o inglês e um pouco a língua castelhana, que lhe tornava fácil o convívio com os portugueses.

As antigas relações comerciais com Inglaterra, a aliança política dos dois países, mais íntima desde o tratado de 1378, e principalmente a camaradagem entre os guerreiros de Portugal e os ingleses do Duque de Cambridge, durante a campanha de 1381, tinham tornado conhecida a língua inglesa, especialmente entre os mercadores e embarcadiços e alguns cavaleiros da corte de D. Fernando, que mais tinham estado em contato com os capitães do Duque, um pretendente à coroa de Castela.

Ruy entrara naquela campanha, mas era então um cavaleiro noviço da comitiva de uns dos seus ilustres parentes, e raras vezes tivera convivência cora os ingleses para que lhes ficasse entendendo a língua.

Percebia apenas uma outra palavra, mas conhecia bem o castelhano e um pouco sabia falar o francês da Provença, como alguns lhe chamavam. Era esta ainda a doce linguagem dos troveiros enamorados, em que por todos os países latinos se tinham contado os rimances e as canções das maiores aventuras de amor e dos mais assinalados feitos da cavalaria andante. Se era até a que mais aparentada parecia com a língua portuguesa.

Assim não foi difícil a Ruy de Vasconcelos entender-se com o ilustre cavaleiro Monferrat, a quem o nosso Fernão Lopes mudou o nome para Monferrara. O aventuroso Monferrat fora também apaixonado cultor da poesia provençal como bom gascão que era.

 

* * *

 

Iria longe o simples resumo do que foi a Provença nos tempos medievos com os seus poetas de aventura. Não cabe aqui esse grande e peregrino capítulo da literatura e da civilização nos famosos séculos da Europa cavaleiresca.

Mas dentro da ação deste romance alguma coisas temos que se relaciona com esse país de trovadores e não será, portanto, divagação inútil bosquejar nalgumas dezenas de linhas o muitíssimo que poderia dizer se acerca da influência provençal na Europa latina.

Sob um céu de lúcido azul, acarinhada pelas brisas do Mediterrâneo e pelos perfumes dos seus laranjais em flor, muito vizinha das cumeadas brancas dos Alpes e desse ninho de flores em que Nice nasceu para a sua interminável primavera, a Provença foi a terra santa da poesia e do sonho, desde os períodos trágicos da baixa Idade Média até aos primeiros alvores dessa madrugada soberba em que a alma europeia se agitou no pesadelo da sua devoradora fé e na febre das suas insaciáveis aspirações.

Estado suserano do velho reino de Aries, depois adstrito ao condado de Barcelona, mais tarde condado autónomo e ainda depois um estado minúsculo da dinastia de Anjou, o país provençal encheu a Europa de poesia e de sonho e ajudou a criar na alma latina essa visão resplandecente donde irradiaram os primeiros clarões da Renascença.

Na sua boémia de menestréis, cantores e improvisadores errantes, vagueando de castelo em castelo e de país em país, e na sua odisseia de trovadores de aventura, a memorarem em verso os supremos amores, as mais encantadoras lendas e os mais altivos feitos, os líricos de Provença fizeram a cruzada romanesca da sua poesia devaneadora e puseram em volta da mulher, como doce idealidade, o fervor das almas rudes como um culto.

Sobre a epopeia cavaleiresca, amorosa e trágica, fulgia o suave luar das suas almas sonhadoras e na melodia dos seus cantares levavam a todos os países europeus a lenda, a história, as esparsas ambições da consciência humana, a voejarem para novos destinos.

Através de uma longa noite este fulgor de consolo, um ideal de generosidade, uma aspiração de benemerente confraternidade, que a civilização não deve esquecer.

Acolhidos em toda a parte como bem-vindos mensageiros da alegria e do sonho, nos paços dos reis, nos solares e castelos dos barões feudais e até nos mosteiros de monjas; aceitos como idealistas e como galhofeiros jograis à mesa dos nobres e no convívio das cortes, não raras vezes falou nas suas canções o coração torturado da plebe, e foram eles também os propagandistas de uma evolução social, que os despostas e os privilegiados só tarde alcançaram perceber.

Tal dominadora influência tiveram, que os próprios batalhadores e até os próprios reis se fizeram troveiros.

Quando os grandes senhores os quiseram repulsar de si, por audazes forasteiros e atrevidos idealizadores, a sua cruzada estava feita.

Os trovadores, tantos deles cavaleiros fidalgos tinham uma categoria distinta, muito acima do menestrel, cantador assalariado, entre comediante e bufão, a quem os reis e os senhores toleravam ousadias pujentes, por entre esgares cómicos nos salões e cantares libertinos nas orgias.

João Froissart, o grande cronista francês, foi um menestrel.

Poeta medíocre e cantador de aventurosa fortuna, viveu das boas graças e dos dadivosos favores de Filipa de Hainaut, rainha de Inglaterra. E tanto se afez ao parasitismo de menestrel, que até nos cinquenta anos que levou a escrever as suas crónicas se deixou sugestionar pelas opiniões dos seus sucessivos protetores, desde Roberto de Naumur, irmão da rainha de Inglaterra, a Joan na de Brabante; desde o senhor de Chimai (Gui de Blois) a Aubert de Baviera.

Sujeitara a sua pena de cronista a uma servidão quase igual à do seu alaúde de menestrel.

* * *

 

Ruy levou Monferrat ao paço de Santo-Eloy, apresentou o a D. Dulce e, ao fim de dois ou três dias, era o gascão uma das pessoas mais afetuosamente recebidas naquela casa.

Em uma das radiosas manhãs daqueles fins de junho, estava Monferrat a contar na sala de armas as sete grandes batalhas em que tinha entrado, quando Gonçalo Vasques apareceu muito alvoroçado.

— Que trazeis de novo, meu querido velhinho?-perguntou-lhe Ruy de Vasconcelos.

— Está ali aquele cavaleiro-fidalgo dos Namorados, que é muito amigo vosso e o maior de todos.

— Álvaro Goutinho?

— Esse logo me pareceu que era. O mais alto de quantos eu conheço! E disse-me que vinha de Alenquer a trazer-vos recado dos vossos companheiros.

— De Alenquer! Por vida minha, que nisso provavelmente vos enganastes, meu Gonçalo Vasques.

— Bem podia ser, meu senhor; porém Alenquer foi que eu lhe ouvi bem claramente.

— Pois a tempo estamos de tirar essa dúvida. Eu vou já ter com ele. Ide lá dizer-lho.

Gonçalo Vasques fez um gesto de homenagem e saiu.

— Senhor João de Monferrat, desculpai-me. Trata-se de um grande e valoroso amigo meu, daquele esquadrão de Namorados, gente jovem, aventurosa e sonhadora, de quem já vos falei. Aqui vos hei de trazer para o conhecerdes.

— Com o meu maior aprazimento — respondeu-lhe em castelhano.

Ia Ruy a voltar-se, quando à porta assomou a singular figura do Magriço.

— Pela nossa terra e pelas nossas damas! — disse no seu vozeirão, sem ter reparado no cavaleiro francês.

— Oh! Meu querido Álvaro! Exclamou Ruy indo para ele de braços abertos.

— Flor e glorioso lume de cavaleiros! — disse-lhe ele, abraçando o ferverosamente.

Mas reparou de relance no francês e logo acrescentou baixo:

— Demo de olhos os meus, que não deram por aquele desconhecido e entrei assim estouvadamente!

— Não tem dúvida. Eu já vos dou a saber quem ele é — disse-lhe a meia voz.

E encaminhou-se com o Magriço para o velho estrangeiro.

— Nobre e honrado cavaleiro João de Monferrat, este é o grande amigo de quem já vos falei, preclaro sangue da nobreza destes reinos, dos maiores ânimos e das melhores espadas que tem Portugal.

— Muita honra e agrado me dá conhecer-vos, senhor fidalgo cavaleiro — disse-lhe em castelhano o aventuroso batalhador.

— Álvaro Continho, — continuou Ruy concluindo a apresentação — estais diante de um experimentado guerreiro, que tem lutado em famosas batalhas. Francês da nação, fidalgo e cavaleiro de honradas aventuras, aqui veio de Inglaterra para nos ajudar na defesa desta nossa terra de Portugal.

— Senhor cavaleiro, — disse o Magriço para o gascão — em boa hora nos trazeis o auxílio da vossa lança e do vosso esforço. Que para maior glória do vosso nome venha a ser tão valioso apoio, e muita honra será a minha tendo-vos por amigo e por exemplo.

Apertaram as mãos afetuosamente e dali a instantes já os três conversavam desafogadamente, sem preocupações de etiqueta, como se o velho Monferrat fosse um íntimo e um jovem devaneador como eles.

— Podeis falar-lhe ao modo de Provença — dizia Ruy a Monferrat, indicando-lhe o Magriço — pois é de nós portugueses quem mais sabe de cór trovas e rimances provençais, de amor e de cavalaria.

— Aprendi esse modo de falar — explicou o Magriço — com certo troveiro de Provença que, na sua vida de aventuras, foi dar à cidade do Porto e por lá se ficou enamorado de uma menina de boa linhagem, que os pais aferrolharam num convento por causa dele. Canta como um rouxinol amoroso e é, ao mesmo tempo, tão destro e gentil homem de espada como se tivesse sido ele também um dos cavaleiros da Távola Redonda! Ainda há um mês o encontrei no Porto a cantar saudades e a envelhecer de mágoas, em farrapos o seu manto branco de menestrel, alaúde a tiracolo e espada à cinta, para morrer de amores cantando ou para cair trespassado por algum virote ás portas do invento onde lhe aprisionaram a dona da sua alma. Chama-se Frederico Marival. Ainda eu hei de ser um dia aventureiro assim, quando esta terra de Portugal, já não precisar de quem lhe defenda a bandeira.

— E também de alaúde a tiracolo? — perguntou-lhe Ruy sorrindo.

— Não, isso não.

— Ah! Que seria um alaúde dependurado de um cedro.

— Com a espada será que eu hei de tanger meus rimances.

— Cantados?

— Dessa me livrará Deus! — volveu-lhe galhofeiro. Não que eu já experimentei os meus cantares e não quero que os cães da Europa tenham as aflições que tiveram os de entre Minho e Douro, que se largaram a ganir e a uivar como se estivessem a ouvir as trombetas de Jericó.

O gascão ria perdidamente. O Magriço falara em castelhano e Monferrat entendera-o perfeitamente.

Até o Vasconcelos riu, a despeito dos seus pesares de amor.

— Está bem, meu futuro dom cavaleiro andante, mas olhai que neste prazer de vos ouvir, de todo me esqueci de vos pedir notícias dos nossos Namorados e o favor de me dizerdes porque milagre vos tenho aqui e me anunciam que vindes de Alenquer!

— Tal qual. De lá cheguei há pouco mais de uma hora e la tem o nosso Rei o arraial da sua hoste.

— E eu a julgar-vos para os lados de Santarém, a golpear ás lançadas os homens de armas de Castela e os traidores de cá!

— Pois visto que não sabeis a razão porque eu venho de Alenquer, escutai, que em poucas palavras vou pôr-vos ao corrente de tudo.

— De mais serei então aqui e dai licença que me retire — disse o gascão.

— Só se vos apraz sair, — respondeu-lhe Ruy, continuando a falar em castelhano — pois me parece que de nenhuma coisa de confidência irá tratar este meu amigo.

— Em coisas vou falar que todos podem ouvir, mormente vós, senhor meu e venerando cavaleiro, que sois por nós e em pouco havereis de lutar ao nosso lado. Até vos dará interesse saber o que se tem passado no tocante à guerra.

— Pois que assim é, de muito bom agrado ficarei para vos ouvir.

Sentaram-se em volta da grande mesa.

— Provavelmente já sabeis — disse o Magriço para o Vasconcelos — o mais Importante do que se fez na guerra do Minho, que tive-mos há pouco.

— Sei. Aqui chegou notícia de todos os principais cometimentos e deles falei a este venerável companheiro nosso — informou indicando Monferrat.

— Pois então muito menos será o que tenho para vos dizer, j Estava a hoste real em Braga e o Condestável com os seus repelões de ir para uma nova arremetida pela Galiza dentro, quando, súpito, nos chegou a nova de que el-rei de Castela entrara outra vez em Portugal pelos lados de Elvas, que já estava cercando. Entra-nos agora a invasão pelo Alentejo, pensou El-Rei D. João, e foi isto o que nós todos pensámos. Logo, pressurosos, nos fomos para o Porto, e de lá para Coimbra, em jornadas com que a pobre da peonagem mal podia aguentar-se. E de lá para tomar, e a seguir sobre Torres-Novas, que estava por Castela e foi tomada; depois seguimos pela borda do Tejo para irmos passar o vau de Santa Iria-Pequena, quase nas barbas dos castelhanos, que, desde o ano que passou, se tinham ficado aninhados em Santarém. Passou-se o rio, topámos com uma avançada de castelhanos, que pusemos em fuga, e só em Mugem soubemos que el-rei de Castela havia já levantado o cerco de Elvas e em Ciudad Rodrigo estava reunindo todo o seu poder de homens de armas para com ele nos entrar pela Beira.

— Pois eu só cá sabia — observou Ruy — que os castelhanos tinham levantado o cerco de Elvas e que a nossa hoste real havia passado em Coimbra, para ir dar a Santarém.

— Assim foi como vos disse. E mal daquele intento soubemos, logo nos tornámos para traz e fomos assentar arraial em terras de Alenquer. Ontem de madrugada lá chegámos e ali se espera que mais alguma gente de armas se nos reúna.

— Qual número de homens terá toda a hoste d’El-Rei? — perguntou Montferrat.

— Eu vos digo. Homens de luta, mais não serão por agora que uns quatro mil.

— Escasso número para defender um reino! — observou o gascão. E cavaleiros, quantos?

— Pouco mais talvez de mil e quatrocentos.

— Falta-vos a maior força com que as batalhas se vencem, bem que eu já visse o Príncipe Negro ganhar uma grande batalha por causa dos seus arqueiros. Em poucas horas tinham dizimado a bela e soberba cavalaria de França! Mas esse tinha consigo uma poderosa hoste de cavaleiros e muito numerosa peonagem para lhe segurarem a vitória.

— Nós temos fé — acudiu o Magriço — que em pouco se nos possam juntar mais uns dois a três mil, ao menos de peonagem. Uma grande parte do Reino está pela rainha de Castela, e não se podem juntar para uma batalha todos os nossos homens de armas, sem deixar as fronteiras em perigo e ao desamparo. E aqui está porque a hoste real assim é pequena.

— A peonagem, segundo ouvi, bisonha e mal armada. — Observou Montferrat. E afinal, ao todo, uns seis ou sete mil! Com que poder entrará el-rei de Castela?

— O ano passado cá veio com bem mais de trinta mil homens. E só aqui, a cercar Lisboa, teve vinte e cinco mil, não contando os da armada, e a cidade aguentou-se.

— Gloriosa façanha foi, por vida minha, mas combater nos muros e torres de uma cidade muita diferença faz de batalhar em campo aberto. Se el-rei de Castela voltar agora com poder igual ao do ano passado, aí teremos um dos vossos para cada quatro ou cinco dos valorosos homens de guerra que tem Castela.

— Os boatos que chegaram a Alenquer davam a entender que o poder castelhano seria agora muito maior, e com os de Castela muitos de Navarra; gascões e bearneses ainda talvez em maior número que o ano passado.

— Pois trinta mil somente, vamos que sejam, e muito será Deus pelo Reino e vós por ele, para que tenham alma e esforço que baste a rebater tão desigual poder! — voltou-lhe o gascão.

— Nos Atoleiros também foi um contra cinco dos de Castela e D. Nuno Álvares Pereira venceu — alegou o Vasconcelos. Em Trancoso, foi já neste mês, trezentos de lanças com insignificante peonagem, lutaram longas horas com mais de três mil e foram os nossos que venceram.

— Bons antecedentes são esses, por vida minha; mas raras vezes se vence com tal desigualdade, quando de um e outro lado há quem saiba mandar e os homens de guerra têm alma para morrer pela sua bandeira. Enfim, eu não vos digo isto para vos apoucar o ânimo nem porque essas informações me deem esmorecimento. Irei para aonde os vossos forem. Em batalhas tenho visto muitas surpresas; verei mais uma, e oxalá que seja das maiores.

— Que ainda se não sabe informou o Magriço — se o nosso Rei quererá arriscar-se a uma batalha com tão diminuto poder. Há iá quem seja de parecer que o mais seguro seria esperar os castelhanos nos muros de Lisboa e só lhe dar batalha em campo aberto, quando tivessem chegado mais auxílios de Inglaterra.

— Então alguns meses haveis de esperar. A Inglaterra traz a sua gente de armas muito dividida por causa da guerra de França e, por agora, o socorro certo que tendes são esses duzentos arqueiros e essas armas que aí chegaram há dois meses.

— Eu sou de parecer que se dê batalha — disse Ruy.

— E eu — acudiu o Magriço e todos os do esquadrão dos Namorados..

— Já maior, não é assim? — perguntou Ruy com devotado interesse.

— Ora! Nem sois capaz de adivinhar quantos mais! O Norte deu-nos muitos e agora, em Alenquer, ainda nos chegaram mais do Alentejo e do Algarve. Da Beira bastantes nos mandaram dizer que podíamos contar com eles.

— Mas quantos, dizei? — instou o Vasconcelos.

— Cento e quarenta lanças de gente jovem, cavaleiros namorados todos eles. Menos eu, acudiu, voltando-se para o gascão menos eu, que tenho na minha sina amar ou ser amado por inglesas, e algum dia terei de ir a Inglaterra buscar alguma que seja do meu gosto e do mau gosto dela. Foi um velho astrólogo judeu do Porto quem leu esta minha sina de amores em não sei que desvairada estrela, que ele lobrigou dos lados de Inglaterra. Se até chegou a vaticinar-me que eu havia de ser cavaleiro andante em cata de mulheres feias! A princípio me quis parecer que seria profecia de escárnio e estive vai não vai para o esganar; porém depois me lembrou que o bisbórria do judeu estaria bêbedo, e lá o deixei em paz. O que ele tem é uma filha linda como as estrelas, e se não lemos de ir do Porto para vir dar gasalhado aos castelhanos, por aquela estrela é que eu também me fazia astrólogo.

— Sois ditoso com esse vosso feitio e não vos ralam preocupações e mágoas de amor como a outros, pobres loucos que andaram atrás de um sonho, como crianças atrás de uma borboleta, e afinal por ele hão de morrer! Homem venturoso sois — disse-lhe Ruy.

— Homem feio é que eu sou, benza me Deus.

Montferrat ria com desafogado regalo.

— Mas, voltando aos nossos Namorados: Olhai que dão já uma linda hoste, em que eu me não meto na conta, e dentro em pouco darão já para uma formosa ala. Ideie-vos uma grande batalha que os nossos vencessem e em que os jovens da bandeira verde formassem uma das alas! Costaneira se chamava dantes, porém ala fica melhor, tratando-se de gente jovem. E as damas de todas essas nossas terras, donzelas com os olhos cobiçosos de amor e a cabecita cheia de sonhos, a falarem na Ala dos Namorados e todas elas a invejarem para si um quinhão naquele mote da bandeira verde: Pelas nossas damas.

— O que aí vai de sonho, meu querido Álvaro! — disse lhe o Vasconcelos num travo de amargura.

— Pois vereis que há de ser assim. Já entre os nossos se combinou pedir a El-Rei ou ao Condestável que, na primeira batalha, nos deem a vanguarda, ou sequer a honra de formarmos nós ossinhos uma ala. Já se vê, com um cavaleiro de menos verdura de anos para nos mandar. E porque assim foi decidido pela Ala dos Namorados, já lhe vou chamando assim, é que eu aqui venho em guisa do mensageiro, para de tal vos fazer ciente e saber por todos os nossos se estais recobrados de forças para serdes connosco na primeira batalha que houver.

— Para a primeira batalha que haja — respondeu-lhe calorosamente. Quando voltais a Alenquer?

— Amanhã será, depois de saber com que peonagem a cidade poderá reforçar a hoste real.

— Está bem. Irei convosco.

— E eu, se mo permitirdes — acudiu Montferrat.

— Com muita honra para nós, senhor cavaleiro disse-lhe o Magriço. Creio que irão também alguns cavaleiros e frecheiros ingleses.

— E sabei que vou com pena?

— De quê, senhor cavaleiro?

— De uns vinte anos que tive, amorosos e aventureiros. Iria pedir um lugar na vossa ala. Mas assim, para vencer convosco ou para morrer seguindo-vos, só me será dado estar tão perto de vós, que a vossa juventude valorosa me dê o sonho da minha.

— Honrada lição há de ser a vossa para nós, ilustre batalhador de Gasconha, e como leais companheiros e amigos amanhã nos partiremos para Alenquer — disse-lhe o Magriço. — Valente cavaleiro sei já que o sois. Boa estrela vá connosco e que ela seja anunciadora de glória para a vossa terra portuguesa.

— Até amanhã, querendo Deus. Por volta das 11 horas aqui estarei ou onde mandardes que vos espere.

— Aqui vos peço que seja, se a ambos não causar desprazimento voltardes aqui — disse Ruy.

— Da melhor vontade — acudiu Montferrat.

— Por mim nem vale a pena falar. Em nenhum lugar de Lisboa estaria com maior regalo da minha alma do que nesta vossa rasa, Ruy de Vasconcelos.

— Eu vos direi depois a razão do meu pedido.

— Cavaleiro Montferrat! Disse o Magriço, despedindo-se e abraçando-o. Como se fôssemos velhos amigos, e perdoai me algumas palavras de gracejo, que por desenfadamento aqui disse diante de vós-

— Velho sou, mas olhai que muito bem me sabe lidar com gente jovem e vê-la folgar, ágil como eu fui. E como sei já que destemidos sois, vós os do esquadrão dos Namorados, boa e sonhadora cavalaria como a da Távola Redonda pois que dele me tem falado o nosso nobre amigo Ruy de Vasconcelos, ainda maior prazer o meu em conviver convosco.

— Senhor, por tanta paga, grande obrigação de amigos é a nossa! — disse Ruy.

— Até amanhã — disse o Magriço.

— Nobre cavaleiro. Álvaro Coutinho — disse da Porta D. Dulce, com um sorriso afetuoso, que era disfarce de amargos receios. A mim me disseram que vínheis por mensageiro dos Namorados e logo o meu coração adivinhou que seria para me levardes o filho. Ainda que para isto seja a vossa mensagem, não quis que desta casa vos fôsseis sem convosco falar, ao menos, para vos per doar que mo leveis.

— Dona e senhora minha, desculpava-se o Magriço um pouco perturbado — por maior pecado havereis de perdoar-me, pois que, neste nosso falar de coisas da guerra, se foi espaçando a homenagem que era dever e desejo meu ir prestar-vos.

— Pela mensagem é que eu aqui estou e pelo grande apreço em que vos tenho como valoroso cavaleiro e devotado amigo do meu filho.

— Senhora minha, grande consideração para mim nessas vossas palavras; mas não me culpeis porque o vosso filho haverá de afastar-se desta casa.

— E dever seu, e a ninguém posso culpar. Não é aqui que se defende agora o Reino e o Rei. Cada qual tem de cumprir o seu dever. Até as mães, não estorvando que os filhos partam, antes dizendo-lhes de olhos enxutos que vão para acudir a outra mãe, que é de nós todos, primeiro que nenhuma: a nação. E a essa a não podem salvar as nossas lágrimas.

Numa grande surpresa por esta intervenção da mãe, Ruy não lhe percebia o intento; mas compreendia-lhe perfeitamente o sacrifício velado naquelas palavras de abnegação, que só ele sabia interpretar e sentir pelo quanto valiam de amorável devoção. Vibravam-lhe na alma com um timbre de amarguras, que os estranhos não podiam ouvir, e vinham a escorrer lágrimas, que a ninguém mais era dado ver.

— Estou a entender que adivinhei o fim da mensagem — continuou esboçando um gélido sorriso. Pois em boa hora seja que mo leveis e honrada e leal companhia terá, indo convosco. Agora vos direi, senhor Álvaro Coutinho, que de muito aprazimento seria para mim ver-vos à nossa mesa e nesta casa como se a vossa fosse para a honrardes.

— Senhora, por muito honrado e agradecido me julgo, mas amanhã, muito antes do meio dia, conto partir para o arraial de Alenquer.

— Amanhã já! — disse turbando-se. Pois que a vossa hospedagem aqui seja então pelo tempo que tiverdes livre até amanhã.

— Vosso favor recebo com insigne distinção e por ele vos beijo as mãos, ilustre senhora minha.

O Magriço dobrou o joelho como se fosse diante de uma rainha, e beijou-lhe e mão.

No seu penoso disfarce, D. Dulce disse em castelhano umas palavras obsequiadoras a Montferrat, com quem já naquela manhã linha falado.

— Cá vos espero a ambos para o nosso jantar de hoje, senhores cavaleiros — disse lhes num cumprimento de despedida.

CAPÍTULO III

A PARTIDA

 

Na véspera, o carairo-mor de Lisboa, Fernão Rodrigues de Sequeira, afirmara ao Magriço que, dali a dois dias, estaria no acampamento de Alenquer com os homens de lança e a peonagem que era possível juntar e meter a caminho, sem deixar indefesa a cidade e o concelho. E que isto mesmo podia ele afirmar a El-Rei.

Também o chefe do contingente inglês lhe afiançou que no mesmo dia havia de partir com os frecheiros e homens de lança que se tinham demorado em Lisboa.

Assim ficava concluída a missão oficial do Magriço, e do seu encargo de mensageiro dos Namorados já nós sabemos como ele se desempenhara. Com tal êxito, que até podia levar aos rapazes aquele seu dileto e arrojado companheiro, por tão largo tempo ausente com pesar de todos eles.

Bem sabia o alvoroço louco em que iam ficar e, para os ter prevenidos, lhes mandou adiante, logo de madrugada, muito em segredo, um escudeiro seu com um aviso da boa nova.

Montferrat e Álvaro Coutinho tinham jantado e ceado em casa de D. Dulce e de madrugada saíram ambos no propósito de dispor umas coisas para a jornada.

A família do Magriço estava então para uma quinta sua da província.

A hora da partida seria mais cedo do que a princípio tinham combinado, para assim evitarem a maior torreira do sol. Partiriam ás 7 horas, e pouco depois das n horas, a trote largo, teriam vencido as oitos léguas até Alenquer.

 

* * *

 

Naquela casa só uma pessoa não pudera dormir — D. Dulce teve uma noite de inquietação a pobre mãe, e todos os seus antigos padecimentos se lhe agravaram.

Alta madrugada, ainda antes de terem saído o Montferrat e o Magriço, levantou-se numas tremuras convulsivas, as lágrimas a correrem-lhe em fio pelas faces.

— Valha-me Nossa Senhora! Eu dantes não era assim! Tinha mais ânimo. Quebraram-mo as doenças e as amarguras — dizia consigo. E este meu pobre coração cada vez mais acobardado! O medo que ele tem de outras dores maiores! E eu quero e hei de ter ânimo para lhe encobrir as fraquezas, linda que ele depois me mate.

Estava vestida; foi para o aratório; rezou febrilmente, olhos afogados de choro postos na imagem da Mãe de Jesus com o filho morto nos braços, naquela hora de suprema angústia, que foi decerto a de maior dor no lance trágico do Calvário.

Interrompeu se num instante de desalento e sentou-se no estiado do oratório.

— E tem de ser, e assim havia de ter sido sempre! — murmurou quase afogada em soluços. As mais infelizes ainda não são as mães que podem perder os filhos; são as outras que não os devem chorar senão sozinhas, ocultamente, para que ninguém saiba que choram e para que nem eles próprios as vejam chorar. Como eu! Como eu agora, Mãe de misericórdia!

Pôs as mãos e ergueu-se outra vez de joelhos num fervor de súplica.

— Mãe, vós no Calvário pudestes chorar pelo vosso filho morto, sem que à vossa dor importasse quem podia ver-vos. Agora o meu vai talvez para a morte e eu tenho de fingir que me não dói vê-lo partir! Para não afrontar com as minhas lágrimas o brasão do meu solar e para que eu não pareça mais cobarde do que as outras mães que já perderam os filhos na defesa da sua terra. Senhora, ao menos ânimo para este fingimento até ao fim, e dai lhe a ele em amparo o dó que tiverdes de mim.

Levantou-se e foi buscar a um contador de cedro com embutidos de prata certa carta de pergaminho, cujo timbre de cera ninguém ainda quebrara.

— Agora é tempo de lha entregar — disse consigo. Sabendo que não foi preferido por outro, terá mais apego à vida e não irá malbaratar pelos desesperos de uma vingança o esforço que for preciso ao seu nome e à honra da sua terra «O namorado não levará o cavaleiro a doidas aventuras de morte.

 

* * *

Montferrat e Álvaro Coutinho já tinham voltado.

Vinham de bacinete e arnês. Era precaução justificada. Não raro as avançadas da gente castelhana que ocupava Santarém se adiantavam até ás proximidades de Alenquer.

No pátio do palácio os cavalariços esperavam com os cavalos à mão. Na sala de entrada os pajens e escudeiros águardavam o momento da partida.

Vinha subindo o sol, um belo e rútilo sol daqueles fins de junho.

D. Dulce tinha dito ao Gonçalo Vasques que fosse chamar o filho e viesse com ele.

Ruy estava já pronto e foi. D. Dulce esperava-o nos seus aposentos.

— Mãe e senhora, dais licença? — perguntou da porta, metendo debaixo do braço o bacinete de plumas negras.

— Filho, entra.

Mas logo lhe reparou no arnês todo preto e na plumagem do bacinete.

— Porquê mau agouro, filho, vais tu partir com essa estranha armadura, como se fosses algum descrido paladim de romance?! — perguntou lhe numa tremura de voz, o rosto a desfigurar-se-lhe cada vez mais.

— Mãe, porque entre os N-morados é esta a cor que melhor cabe a quem teve uma noiva, e se lhe perdeu.

— Vais então como um campeador entristecido para te juntares a esses jovens, teus companheiros, assim como se levasses o intento de lhe agoirentar o coração por conta das tuas mágoas! Já vejo que melhor e mais generoso ânimo é o meu.

— Mãe, dizei-me porquê?!

— Porque dentro da minha alma há maior negrume que no peito desse arnês e nas plumas desse elmo, e vê que te falo de olhos enxutos, para que as minhas lágrimas te não mortifiquem e para que ninguém suponha que houve em Portugal uma mãe tão esquecida das suas tradições de família, que se ficou a chorar o filho, cavaleiro fidalgo, jovem batalhador, preso ao mote de uma bandeira e votado à vida de uma nação. Olha que o dó pintado nessa armadura ainda é de maior fraqueza do que seriam as lágrimas nos meus olhos de mulher! E se eu não quero que as mulheres esfarrapadas, a quem levam os filhos, tenham vergonha da minha fraqueza, não queiras tu também, Ruy de Vasconcelos, que os mesteirais e os rôtos sem peito de ferro, e só Deus sabe quantos deles amargurados como tu, tenham o direito de estranhar que vista armadura de enlutado quem vai para salvar a sua terra.

— Mãe e senhora, dizeis bem; — volveu-lhe numa comoção perturbadora — mas este negrume vem da minha alma, é só meu, e quer dizer que nos dois motes que tem a bandeira verde dos Namorados só um me cabe, o primeiro. Pela nossa terra diz e por ela serei apar dos que mais fizerem, enquanto a vida me durar.

— Pois esse mote o escolhi eu também para mim e por ele te hei de ver partir como se fosses apenas para uma caçada de falcoeiros. Mas, diz-me cá, porque não é já para ti o segundo mote da lua bandeira?

— Mãe, não pode ser! Pelas nossas damas diz o voto jurado, e a dama que eu tinha, ou já de mim se esqueceu ou doutro será na corte de Castela.

— Então, se é por isso, passa pelos olhos esta carta que eu recebi de Toledo e esta outra, que veio para ti, quando estavas enfermo aí verás que não fostes esquecido.

Recebeu-lhas num alvoroço de surpresa.

— De Magdalena as duas?

— Sim, ambas. Essa para ti a guardei no propósito de só ta entregar quando te visse de ânimo seguro para a leres. A minha, que é a segunda que dela recebo, antes de ontem aqui ma veio trazer, escondidamente, um besteiro dos nossos, que lá estava cativo — E como alcançou libertar-se e chegar até cá?!

— A mim me disse que foi com a proteção da Rainha que se pode escapar, e que para cá trazer essa carta lhe tinham dado boa paga.

— A Rainha?!

— Sim. Vai para a tua câmara, lê as duas, e despe essa armadura de mau agouro. Meia hora será de sobra e, entretanto, vou eu falar com os teus dois companheiros, para que a demora lhes não pareça grande. Vai. O teu tio Mendo é provável que esteja com eles.

Creio que sim — respondeu-lhe já para sair, as cartas a tremerem-lhe nas mãos.

— Olha cá. A despedida tem de ficar feita — disse-lhe a sufocar-se. É melhor agora. Filho, adeus!

Ruy curvou se enternecidamente e beijou-lhe a mão. E ela com as mãos abertas sobre a cabeça do filho para uma carinhosa bênção, aquelas mãos brancas de rainha, que ele não via tremer, disse-lhe num esforço heroico da vontade, para que a sua pieguice de mãe se não traísse:

— Eu te abençoo, filho! Deus faça boa esta minha bênção para glória e salvação da nossa terra, e seja pela tua vida, Ruy de Vasconcelos!

— Mãe, santa mãe da minha alma, que seja vosso amparo a Mãe de Jesus! — murmurou, beijando-a com fervorosa devoção.

— E a mim me dê vida para te eu ver na volta, filho!

Beijou-o na face, mas então o propósito de fria coragem fraquejou-lhe e tanto se lhe alteou do peito uma onda maior de amargura, que lhe chegou aos olhos desfeita em lágrimas como as ondas do mar se desfazem em espumas.

— Não faças reparo, filho, e não contes a ninguém esta fraqueza de mulher. Destas bagas se fazem as letras de um mote que eu trago no coração, e que não é nenhum dos dois da tua bandeira de namorado. O tempo foge. Vai ler essas cartas. Estamos despedidos, fi lho. Vai.

Ruy beijou-lhe outra vez as mãos, queimadas da febre, e saiu precipitadamente para não fraquejar também.

— Vamos, mulher! — disse consigo D. Dulce numa ironia de amargurada. Faz de conta que é um filho de outra que tu vais ver partir para a guerra. Olhos bem secos. Chega bem para chorar este grande dia de junho. E os outros, os outros que hão de ir passando, Deus sabe quantos!... E para que outra dor maior de uma saudade que se não acabará senão comigo?!

Enxugou os olhos e saiu, tão desfigurada que fazia dó.

 

* * *

 

Na sala de armas estavam com Álvaro Coutinho e João Montferrat, o Monge que não dizia o nome, Afonso Eanes, que tinha chegado momentos antes, e a um canto, sumido, na humildade da sua dedicação, o velhinho Gonçalo Vasques.

Oprimia-se o bom do aio com pena do seu querido Ruy, que assim com esta atrevida familiaridade é que ele o tratava nas conversas que ninguém podia ouvir, entre o seu coração e a sua alma.

— Há quarenta e cinco anos — recordava o Gonçalo Vasques lie lábios cerrados — me fui eu para essas terras de Castela à cata da mourama; era rapaz, cá deixava mãe velhinha e irmãos, e pouco me custou ir. Agora...Bem certo é que os velhos ás vezes se fazem mulherengos, ou será então porque mais custa ficar!

D. Dulce entrara com a aia e ficou-se a conversar com o Juiz do Povo, simulando uma frieza de ânimo que a ninguém iludia. E com as rugas de amargura, entre as quais tremiam uns lábios embranquecidos, supunha ela que fingia os vincos de um sorriso.

— Coitadinha! Dissera de si para si o Gonçalo Vasques, de olhos nela. Com aquele rosto de desenterrada e aqueles olhos que estão mesmo a pedir a esmola de os deixarem chorar, e a crer que engana a gente!

Minutos depois entrava Ruy. A carta de Magdalena tivera o condão de o transfigurar. Iluminara-se lhe a fisionomia em fulgores de juventude forte e aventurosa; via-se lhe no olhar a expressão triunfal de um galã profundamente amado. Substituíra já pela armadura dos seus tempos ditosos aquela outra negra, que havia largos meses, num esmorecimento de alma, tinha mandado fazer.

— Perdoai a demora — disse desculpando-se.

— Filho, assim melhor vais e não serás como cavaleiro de noite agoirenta entre os jovens teus companheiros. Agora essas tuas garridas plumas hão de dizer bem com o estandarte verde dos Na morados. Não vos parece também assim? — perguntou em castelhano, voltando-se para o gascão e para o Magriço.

— Senhora, muito bem o dizeis respondeu-lhe Montferrat.

— Fazia-me pesar que ele fosse com aquela armadura negra, de dó, para essa hoste onde não há olhos para ver senão as cores com que se figuram esperanças de amor e sonhos de gloriosa fortuna.

E, de si para si, com os olhos nele:

— Como aquelas cartas o mudaram! Parece agora outro, e ainda bem.

— Creio que vai sendo tarde — lembrou Ruy.

— Em boas trotadas — volveu o Magriço cedo chegaremos à veiga de Alenquer.

— Melhor será que evitem as horas de maior calma disse D. Dulce numa secura de voz artificiosa, que tremia. Filho, adeus! — acrescentou indo para ele. Dou-te a minha bênção e Deus seja pela tua vida, que pelo teu esforço fico eu.

Ruy beijou lhe a mão e notou como ela estremeceu, tornando-se ainda mais tristemente branca.

— Honrado Juiz do Povo, meu grande amigo, até à volta — disse-lhe abraçando-o. À volta — acrescentou baixo se a nação se não perder!

— Mas eu vou também pra baixo convosco — acudiu o tanoeiro numa comoção que o enrouquecia.

D. Dulce recebia as despedidas de Montferrat e do Magriço.

— Meu venerado Monge — disse Ruy, tomando lhe a mão e beijando-lha.

Mendo curvou-se para ele enternecidamente e segredou-lhe:

— Lá serei contigo. A tua mãe está num disfarce que a mortifica. Ruy, afasta-te daqui sem maior detença.

Ruy foi dizer umas palavras afetuosas a Marta Vicente e correu de braços abertos para o seu velho aio.

— Gonçalo Vasques, até à vinda. Velhinho, foram os teus braços o melhor berço que eu tive.

— Senhor Ruy... Vossa mãe está com os olhos em nós! — soluçou baixo, e beijou-lhe a tremer a cruz verde da sua cota de armas — Dá-lhe tu ânimo quando a vires chorar por mim — segredou — e diz-lhe que havemos de vencer e serei eu dos Namorados que hão de voltar.

— Sim, sim, meu queri... Mas eu vou também pra baixo convosco.

Estavam as despedidas feitas. Desceram a grande escada. Em baixo, em alas, os pajens e escudeiros dos três batalhadores. A um e outro lado do portão nobre, aberto de par em par, os criados com uma grande expressão de pesar. Os cavalariços já tinham levado os cavalos do pátio para o terreiro.

— Deus da minha alma! Parece que vai a gente num enterro! — disse consigo o Gonçalo Vasques, confrangendo se com uns pensamentos de mau agouro.

Já fora do portão, Ruy apertou as mãos do glorioso tanoeiro.

— Lá heis de ter convosco a arraia miúda — disse-lhe Afonso Eanes.

O Vasconcelos foi abraçar outra vez o Gonçalo Vasques.

— Então, meu querido Gonçalo, que é isso?!

Aludia ás lágrimas que o velho tinha nos olhos.

— São as que eu trazia comigo escondidas, para que a vossa mãe não desse por elas — volveu-lhe.

Montaram a cavalo.

A tia Lourença apareceu no terreiro à frente de um grupo de mulheres e de curiosos.

— Moças, ali tendes dois galos batalhadores. Galos contra Castela; pombos arrulhadores para as lindas raparigas fidalgas da nossa terra.

E adiantando-se para eles, bradou:

— Nobres cavaleiros! Lá irá a ver-Vos a gente miúda, com a sua farrapagem em guisa de cota de armas e o seu mote no peito: Pela nossa terra. E por ela, senhores, é que o povo é tal qual um namorado como vós.

Ruy e o Magriço fizeram à velha um gesto de afetuosa despedida e meteram a trote para fora do terreiro.

— Moças, dai-lhes um viva.

— Vivam os Namorados! — gritaram as raparigas numa voz calorosa e aguda como vibrações de um clarim.

E lá em cima, na sala de armas, D. Dulce, a soluçar no escabelo de espalda alta, o irmão ao pé dela, animando-a carinhosamente. Ouvira bem a tropeada dos cavalos e o grito vibrante das mulheres novas.

— Mendo, agora é que é chorar.