A Ala dos Namorados
Capítulo VIII · Noite de Sonho
Entretanto chegara ao acampamento um aventureiro singular, que perguntava por Álvaro Coutinho no seu português de contrabando.
Era uma estranha figura de idealista e de boémio. Gorra de plumas a desfazerem se de velhas, donairosamente posto um manto que fora branco e vinha a esfiampar-se, arrabil(*) a tiracolo, um cão grande, magro e triste, por companheiro. Tinha já alguns cabelos brancos na barba loura e fina.
[(*) Instrumento de cordas, de duas cordas geralmente, como o ganibri dos mauritanos. Copiado certamente do alaúde dos mouros, o arrabil foi talvez o predecessor da guitarra em Portugal.]
Correram a chamar o Magriço, e foi espanto para todos o desafogo com que o gigantesco batalhador o recebeu de braços abertos. Era o trovador provençal de que Álvaro Coutinho já tinha falado a Ruy de Vasconcelos e ao gascão Montferrat; aquele que ficara no Porto enamorado, a idear esperanças loucas e a cantar amores de sonho por certa damazinha, a quem os pais tinham encerrado num mosteiro. Era Frederico Marival.
— E cá deitastes de tão longe, meu querido troveiro! — disse-lhe o Magriço no escasso idioma de Provença que aprendera com ele.
— Com estes meus amores até à morte! — volveu-lhe Marival no seu mau português de ouvido, indicando o arrabil — e mais este escudeiro fiel.
Era o cão, a olhar para ele num enternecido olhar de humildade.
— E a dama dos vossos cantares?
— De lá ma levaram e sumiram! — respondeu com os olhos rasos de água. Ouvi então falar muito de certos namorados que tendes aqui para batalhar, e meti-me a caminho como se fosse um mendigo para vir ver como se batem os amorosos de cá e para na minhas trovas cantar os seus feitos, pois me disseram lá que também vós, Álvaro Coutinho, éreis desses que têm uma bandeira verde, segundo ouvi.
— Com esta cara que vedes, namorado também, por conta das namoradas dos outros — disse-lhe rindo. Mas não sei como não caístes nas mãos dos de Castela!
— Na tarde de ontem fui ter a uma povoação a que chamam Leiria. Estavam eles a experimentar os seus engenhos de fogo e nenhum caso fizeram de mim. Fortuna minha foi que assim fosse. De noite consegui escapar-me para os lados de um grande campo que ia dar a uns pinhais, e por lá me fiquei escondido até que a manhã chegou. Depois me deitei a caminhar à toa. Foram léguas o que andei sem rumo certo! Por fim lá fui dar a umas casas decerto povoado a que chamam Aljubarrota, e ali me disseram que a hoste de Portugal a viria encontrar aqui, e todos os sinais me deram para eu cá poder chegar.
— Pois meu hóspede ficareis sendo e com os Namorados vos podeis ir amanhã, para irmos em busca dos castelhanos. Agora vinde daí, para eu vos tornar conhecido dos meus companheiros. Ala de galos requestadores e paladins desta nova Távola Redonda, bem merecem que os seus amores efeitos os canteis vós, troveiro amoroso de Provença. Deles alguns há que são também trovadores, como foi o nosso rei D. Diniz, mas dos nossos feitos não ficaria bem que fossem eles os cantores. E para o mundo os saber, melhor será que os digam os vossos versos na carinhosa linguagem de Provença.
E, pondo lhe o braço pelo ombro, o levou consigo para o apresentar aos Namorados.
* * *
Uma noite quente e enlanguescera, boa para sonhar de olhos, abertos e a alma em voos entre aquele céu azul, suave e doce, e a serrania tocada de luar como se as mouras encantadas por aquelas brenhas tivessem feito por ali o estendal da sua roupagem de fantasmas.
Toda aquela paisagem tinha um aspeto evocador de acariciadoras idealidades e de lendas antigas.
O crescente da lua vestia o Castelo com a sua luz branca e como que lhe dava o aspeto de um emir gigante dos tempos do Miramolim, de amplo albornoz de lã branca de Smirna sobre um arnês reluzente de Damasco.
Encalmados, numa impaciência febril, os rapazes não podiam dormir e pelas ruas estreitas da vila se foram escapulindo para a encosta do Castelo. Pelas poucas horas que faltavam para meter a caminho, ali se passaria bem a noite sob o estreito lençol do luar, naquela noite evocadora.
Levaram consigo o trovador provençal e por lá se estiraram à espera que o sono chegasse.
— Eu por mim já me contentava com qualquer moura que se quisesse desencantar vendo me, — dizia o Magriço galhofando. E lembraram me as mouras por aquela talhada de lua que parece o crescente de um estandarte mourisco.
— E as estrelas, pequeninas, sumidas, estão a lembrar-me olhos de donzelas que ali se pusessem à espreita para ver quando a ala adormece — disse um dos imberbes, troveiro ainda noviço. E mal nos apanharem a dormir talvez elas chorem por esses que tiverem a sina de não tornar a ver os seus amores.
Um corvo tresnoitado corcou lugubremente em baixo, dos lados do pinhal.
— Pois sim — acudiu o Magriço. Dorme lá, compadre corvo, e se andas à cata de festim, não te fiques aí nessa tua cantiga quizilenta. Dorme e vem amanhã connosco. Daqui te faço testamento desta ratinhada carne que trazem os meus ossos. Frederico Marival, para não ouvirmos aquele negregado corvo, contai-nos aqui novelas de amor ou algum rimance de cavaleiros errantes.
— Melhor seria — volveu-lhe o provençal — que vós, os Namorados, alguma batalha dos vossos me contásseis, para eu vo-la pôr amanhã numa trova.
— Pois boa lembrança tivestes. Contar-vos-emos então a mais bela batalha campal deste nosso tempo, a do nosso cavaleiro Galaaz. (*)
[(*)Galaaz ou Galahad, era um dos heróis das lendas romanescas da cavalaria medieval pertencentes às histórias do ciclo Arturiano e da Távola Redonda. Era considerado o cavaleiro mais puro e por isso foi o único capaz de efetivamente encontrar o Graal – objeto principal da demanda de todos os cavaleiros. Pela sua pureza, Galaaz é considerado uma encarnação de Jesus na forma de cavaleiro]
Mem de Sá, vós que estivestes no feito dos Atoleiros, contai-o lá para que o fique sabendo e ponha nos seus cantares este honrado troveiro de Provença.
O Sá não se fez rogado. Era um rapaz de vinte anos, expansivo. Caloroso, a alma no olhar e no gesto.
— Foi a batalha a uma quarta-feira, 6 de abril do ano passado; quarta-feira de trevas por sinal. Dias antes tínhamos nós chegado à vila de Extremoz e quem nos mandava era Nuno Álvares, esse que é hoje Conde e Condestável. Dos lados de uma povoação chamada Crato estava uma hoste de castelhanos e portugueses, parciais da rainha de Castela. Mil lanças de gente fidalga, corcéis e ginetes possantes, e mais de quatro mil homens de boa peonagem. Vinham ao mando do Mestre de Alcântara e tinham pelos seus chefes principais o Almirante Tovar, o Adelantado de Andaluzia, o Conde de Niebla e Pedro Afonso Sotomaior. Havia do nosso lado alguns que andavam receosos daquele poder. Mas Nuno Álvares lá estava com a sua ideia firme de avançar de arremetida para os que se tinham ficado no Crato. Antes de se pôr a caminho, fez alardo da sua hoste no rocio da vila de Estremoz. Um pequeno punhado de homens! Trezentos a cavalo, cem besteiros e mil, se tantos, de gente bisonha das herdades e montados do Alentejo. E dos trezentos a cavalo, só uns cento e oitenta levavam bacinetes. Os outros não os tinham; as gorras que lhes defendessem a cabeça contra as espadas, as lanças e as hachas dos castelhanos! Aquele alardo ainda mais quebrou o ânimo dos menos temerários: Se com aquilo, com aqueles mil e quatrocentos, se tinham de ir bater os cinco ouseis mil soberbos homens de guerra que eram os de Castela para os lados do Crato! Mas com a sua fé e o seu esforço, para Nuno Álvares nenhum poder havia que lhe fizesse medo! À frente daquela sua pequena hoste fugiu de Extremoz, porem logo notara que a peonagem mais bisonha não ia de boa vontade. Mandou então fazer alto à beira de um regato e a todos nós falou com o coração nas mãos, como se costuma dizer. Suponho ter aqui alguma gente receosa de que esses de Castela, que vamos a buscar, sejam umas poucas de vezes mais do que nós somos, começou a dizer-nos. Pois assim receosos os não quero eu levar comigo. Para a minha hoste me não servem esses tais; porem olhai que se não enganam na conta dos que vamos combater. Hão de ser quatro ou cinco dos de lá contra cada um dos nossos, se comigo forem todos os que tenho aqui. Deixa-lo. Eu por mim não volto atrás. Maior glória para nós e para a nossa terra, se os vencermos, e menos honra e soberbia para eles, se nos vencerem a nós. Agora, esses que estão aqui de ânimo encolhido, que vão com Deus. Eu irei para diante com os que me ficarem. Quem tiver alma para me seguir, que passe desse regato para cá; os medrosos que se fiquem do lado de lá. Assim extremados, já eu sei quem tenho para ir rebater os de Castela, ou para ficar lá pelas custas da contenda.
— Ficaram alguns? — perguntou Magriço, aproveitando a pausa feita pelo narrador.
— Louvores a Deus, nem um! Abalámos de coração resoluto e, quando íamos a meia légua de uma povoação chamada Caraira, num sítio a que chamam os Atoleiros, demos vista da hoste inimiga. Só a soberba gente de cavalaria que eles traziam dava duas vezes o dobro dos cavaleiros que nós tínhamos! Entendeu Nuno Álvares que seria derrota certa dar-lhe batalha de cavalaria com tão poucos, deixando extremada a peonagem inexperiente, que era a nossa força maior, e boa ideia foi a sua de mandar pôr pé em terra a iodos os nossos cavaleiros, para lutarem ao lado dos peões. Formámos um cerrado; No meio Nuno Álvares com a sua devota bandeira. E, enquanto os de Castela se não decidiam a vir sobre nós, Nuno Álvares ajoelhou para orar, e todos à uma ajoelhámos com ele; rostos para a campanha em cada uma das quatro faces do cerrado, os contos das lanças bem firmes no chão. De súpito uma algazarra de trombetas do lado deles, um trovão no tropel de mil cavalos que deitam à desfilada sobre nós; um novelão de poeira que vem cegar-nos, e este brado de cinco ou seis mil vozes, que todos nós sentimos no coração: Santiago y Castilla! S. Jorge e Portugal! Gritou Nuno Álvares, e toda aquela quadrela de homens lhe repetiu o grito, assim como se a alma do maior fosse a alma de todos dentro do cerrado! Tão unidos, que até sentíamos a bandeira a esvoaçar na aragem daquela manhã de abril, e tão afincados aquele chão da nossa terra, que a onda dos castelhanos veio quebrar-se contra nós e bateu para traz quase desfeita. Uns vinham cair atravessados pelo ferro das lanças e chuças das primeiras filas e a outros os derribavam a distância os dardos e os virotes dos nossos besteiros. Mais de cem tinham caído do lado deles. Pelos bacinetes de plumas e pelas cotas de armas bem percebíamos nós os que eram da nobreza de Castela. Outra arremetida, outra carga, outro desbarato! Parecia de rocha viva aquele muro dos nossos peitos! Já alguns deles fugiam.
— A cavalo! — mandou Nuno Álvares.
E então fomos nós os que carregámos sobre aquela arrogante nobreza, que nos fugia a unhas de cavalo, e contra a peonagem espavorida e desacompanhada dos seus chefes. Estava a batalha vencida. E tinha a gente vontade de chorar de orgulho uns pelos outros!
— Gloriosa batalha pequenina para se contar disse o provençal.
— Dos nossos Namorados creio que temos aqui uns quinze ou dezasseis que estiveram nos Atoleiros — informou-lhe o Magriço. A nossa ala tem tido homens seus em todas as batalhas maiores desta guerra, bem que como esquadrão só se tivesse formado no cerco de Lisboa, vai já para um ano.
— Mas olhai, acudiu um dos que tinham estado na batalha — olhai que se não disse quem foram os principais de Castela que ali acabaram ou saíram feridos.
— Pois dizei-os lá.
— Dos mortos os mais assinalados eram o Mestre de Alcântara, o Adelantado de Sevilha e natural de Andaluzia. Gonzalo Daza e João de Lerma. Dos feridos, o Conde de Niebla, da maior nobreza das Espanhas, o Almirante Tovar, o Mestre de S. Tiago, Gonzales de Grialva e o Prior da ordem do Hospital, irmão de Nuno Álvares.
* * *
A conversa esmorecia. Alguns tinham já adormecido.
— Ruy de Vasconcelos, em que pensais vós, de olhos nas estrelas? Pareceis emudecido! — disse-lhe o Magriço.
— Estou a ver se posso ler nelas, como os astrólogos, o destino e a sina da nossa gente e da nossa terra.
— O destino de amanhã ou o de algum dia?
— O do século em que a nossa geração jovem ainda poderá entrar sem cabelos brancos.
— Sim, daqui a dezasseis anos. Quem sabe lá?
— Será Portugal, sempre assim, a pequena terra de poucos homens que é hoje?
— Não tem para onde alargar as voadeiras. De um lado Castela, de tal poder, que já não é pequena maravilha aguentar-lhe a gente as arremetidas; e do outro lado, o mar. Só se qualquer deusa dos gentios, e pela Ala dos Namorados devia de ser Vénus, deusa do amor, só se cila nos protegesse e levasse a descobrir alguma grande ilha, das muitas que os antigos diziam encantadas nesse mar distante, que eles chamavam da noite.
— Quem sabe? Olhai que são atrevidos os nossos galeotes e pilotos. Vede como eles vão dar consigo lá para os mares de Inglaterra! E de alguns se fala que encontraram certas ilhas, a que chamavam Afortunadas. (*)
[(*) Parece que nos meados daquele século e durante o reinado de D. Afonso IV, e fizeram tentativas de descobrimentos marítimos para os lados de África, no rumo das Canárias.]
— Ai, ai, que estamos a sonhar acordados! — disse-lhe o Magriço gracejando. Há de ser encantamento dessa feiticeira lua, que se nos vai sumindo por aqueles pinhais dalém. Aquela é comadre dos namorados e entende que deve apagar agora a lampadário para ver se nós adormecemos. Isto já deve de ir para a meia noite — disse bocejando. Olhai como tantos dos nossos adormeceram já, regaladamente, com os ossos em cima deste chão pedregoso, que nem criancinhas em almadraquinho de penugem de aves! Não chegará a madrugada sem que algum deles sonhe que el-rei de Castela já vai derrotado pelo seu reino dentro, com os seus pavões de Gasconha todos desazados e o leão castelhano de cauda de rojo e pêlo arrepiado, a rosnar contra nós.
Riu bocejando, os olhos a fecharem-se-lhe lentamente.
— Até o meu troveiro provençal já se deixou dormir! Esse estará sonhando cantares e amores. Pois eu ainda vou sonhar coisa melhor. Que vamos bater com os ossos contra a moirama de Africa... Por já não haver castelhanos que se atrevam connosco... E que terei enfim, uns lindos amores cor de alfarroba do Algarve... No serralho... Do sultão de Marrocos... Descendente do grande Miramolim... Até amanhã... — disse sumidamente. Boa estrela.... Nos acompanhe.
E pouco depois todos eles estavam adormecidos. A lua sumira-se. O velado fulgor das estrelas punha uma doce penumbra naquela soberba paisagem.
Dos lados da serra, sacudidos pela fome, os lobos uivavam a espaços, ao faro daquela gente silenciosa.
Enganavam-se. Não era ali que tinha de ser o seu trágico banquete. De espaço a espaço, as sentinelas do arraial e os esculcas distantes soltavam os seus brados de alerta.