A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 3 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo III · O Filho de D. Dulce

 

Ainda não tinha clareado bem a manhã, porque o sol nascente mal se percebia através do toldo, escuro das nuvens, quando o Mestre saiu do paço de Apar S. Martinho, com o seu pequeno estado-maior de fidalgos, o seu conselho de estado de mecânicos da Casa dos Vinte e Quatro, um séquito de pajens e escudeiros e uma tumultuosa comitiva de mulheres e farroupilhas da plebe, que desde alta madrugada o esperavam nas imediações daquela grande e sombria edificação real.

A um lado do Mestre, já armado para combater, o Arcebispo de Braga, de bacinete como um cavaleiro, mas em vez de plumas, uma pequenina imagem dourada da Virgem, arnês sob a roqueta, o cinturão da espada a cingir-lhe a batina; do outro lado, de gorro negro e beca de seda aleonada, o chanceler João das Regras.

Poucos passos atrás, um clérigo minorista com o escudo do arcebispo campeador, e ao lado dele o padre João de Azambuja, amigo íntimo e companheiro de infância do Mestre; meia dúzia de homens de prole, com os seus pajens e escudeiros, e com eles Ruy de Vasconcelos. Os vereadores da câmara com a sua bandeira nova, em que a cruz vermelha da Ordem de Cristo abraçava os castelos antigos do brasão nacional, o Juiz do Povo e os vinte e quatro deputados dos homens de ofício.

Depois, a turbamulta.

Iam à Sé ouvir missa; depois seguiriam para a Ribeira, onde o arcebispo já tinha tudo preparado para o embarque da gente de armas que havia de ir dar a mão aos das naus e galés surtas em Cascais.

No adro do templo estava o anadel-mor dos besteiros com um troço deles como se fosse um guarda de honra dos nossos tempos. Na frente com as suas vestes flamantes e os seus bacinetes de altas plumas vermelhas, os trombeteiros com as grandes trompas de prata, as longas do tempo do rei Pedro I.

Mal avistaram o Mestre e a bandeira da cidade, logo fizeram vibrar as trompas numa saudação triunfal, que os sinos das torres acompanharam em frenéticos repiques.

Foi breve a missa. Enquanto descem à Ribeira, metamos nós por entre os magotes de gente estremunhada e faminta que vai para as igrejas fazer preces ou corre aos muros e às torres para ajudar a defesa e dar entrada dos navios chegados do Porto. Tomemos o caminho do Castelo de S. Jorge para ver de alto, num relance de olhos, o panorama daquela linda Lisboa que muito crescera nos últimos vinte anos a despeito de todas as suas desventuras.

É para nós um espetáculo curioso, magnífico; havia de ter para os Portugueses daqueles tempos um aspeto comovedor, de carinhoso desvanecimento e de alanceados receios.

Trezentos anos antes a Lissibona moura toda se aconchegava em pinha pelas encostas do monte da Alcáçova (onde hoje se ergue o Castelo de S. Jorge), em contacto com o seu grande rio apenas pelo bairro excêntrico da Alfama.

O monte da Graça e a colina onde foi edificada a igreja de S. Vicente ficavam nos arrabaldes da pequena cidade mourisca. O Rossio era um esteiro por onde as marés resfolgavam; o monte do Carmo um áspero relevo dos terrenos convizinhos daquela cidadezita maometana.

Volvidos dois séculos, a Lisboa portuguesa tinha uma cerca mais ampla, mas ainda não abrangia o Rossio nem S. Vicente, por muito cingida ao monte do Castelo; porém já se desafrontava dos lados do Tejo, para lá da Porta da Alfofa e da Porta do Sol, até chegar à praia, entre a Porta da Judiaria pelo nascente e a Porta do Mar pelo poente, muito vizinha da Ribeira Velha.

A cidade tinha crescido admiravelmente; mas a cidade conquistada e agora ocupada por cristãos, já não cabia no seu encerro de muralhas e saltara para fora delas, formando núcleos de povoação até ao moderno largo do Loreto e às vizinhanças do Corpo Santo pelo Oriente, e até além de S. Vicente, nas convizinhas de Santa Apolónia, pelo Ocidente.

Da ladeira do Castelo bracejara até ao Caracol da Graça e ao monte de Santana.

Foram estes os arrabaldes vandalicamente assolados pelos Castelhanos em 1373, quando a tenda real do invasor podia erguer-se, a curta distância do Rossio, no monte de S. Francisco.

Agora, naquele ano de 1384, as muralhas novas, construídas nove anos antes, abrigavam quase todos aqueles núcleos de população. O acampamento dos Castelhanos vinha a subir de Santos para os altos da moderna Estrela até Campolide e dali tomava para o alto do Andaluz e pela baixa da Corredoura ao monte da Graça, fechando o vale de Arroios, para trepar às encostas de Xabregas, a cavaleiro do Tejo.

Se a manhã não estivesse nublada e o sol rompesse em triunfais esplendores, que soberbo espetáculo não seria aquele!

Mesmo assim imponente, porque não havia negrumes no céu que de todo pudessem velar a exuberância de luz de uma manhã de Junho, pondo em tudo aquilo uma densa tristeza de sombras, nem o sol ia subindo tão oprimido e afrontado de nuvens que, de um para outro momento, não lograsse esfarrapá-las de arremesso, para que a sua querida cidade, de séculos remoçada e sempre linda, lhe visse a face de ouro resplandecente e se não julgasse também ao desamparo daquele decorador, amorável e omnipotente, de quanto ela tinha de belo, de antigo, de glorioso.

Luz de apoteose a dar alma e voz às pedras santas das igrejas e às pedras musgosas das ruínas, luz vivificadora para fazer cantar numa aleluia de amores as fontes e as montanhas, luz evocadora para ressurgir as grandes figuras mortas, luz de sonho para um dia melhor em cada lar e para uma melhor ambição maior em cada povo.

Viesse ela misericordiosamente naquele dia de atormentada crise, e todas as pobres mães enlutadas menos amarguradamente se resignariam, e talvez os famintos pudessem também sonhar dentro daquela cidade angustiada, sozinha agora a defender um nome, uma bandeira, a história e o futuro de uma nacionalidade.

 

* * *

 

Vinha do oeste uma aragem viva e forte que fazia esvoaçar doidamente, como se fossem grandes pássaros de flamante plumagem, todos os pendões erguidos nas setenta e sete torres da cidade, e mais as centenas deles de desvairadas cores e soberbos emblemas que tinha o longo acampamento castelhano, cidade branca de vinte e cinco mil homens, quase metade da outra dos sitiados.

E pela amplidão do Tejo, para os lados do Rasteio velho, as bandeiras e galhardetes das quarenta naus e catorze galés de D. Juan Fernandez de Tovar, almirante-mor de Castela.

Avistava-se bem o pavilhão da tenda real em Santos, percebiam-se os piques, as lanças, os pendões da gente castelhana que ocupava o pontal de Cacilhas, o monte e a povoação de Almada.

Centenas de trombeteiros castelhanos atroavam os ares com os seus alardes de farroncaria.

Na torre mais alta do Castelo, fidalgos e batalhadores inválidos, de cabeça branca e arcaboiço dobrado, curiosos inúteis, mulheres e crianças de várias condições sociais, esperam de olhos pasmados o lance gravíssimo, que pode ser a salvação ou a perda irremediável da cidade.

— Anjo bento, que tamanho poder eles têm! — comentava doloridamente uma pobre mulher com um filhito ao colo.

— Pudera, não! — disse-lhe do lado um velho de aspeto fidalgo, cavaleiro a quem tinham mutilado os dois braços naquela campanha da Galiza em que a hoste do rei Fernando tomou a Corunha — Tudo aquilo é para levarem a herança que nós não lhe queremos entregar. E com tão avultada gente de guerra, a principal, a mais poderosa e soberba de todas as Espanhas; das duas Castelas, de Leão, das Astúrias, da Galiza, da Navarra. Até cavalaria de cavaleiros mouriscos de Andaluzia!

— E non diz vos mais cavaleiros franceses e homes d’armes do Bearne e de Gasconha dos mille — informou por detrás do mutilado, naquela sua língua de trapos, um homem alto, vermelhaço, que já entendia sofrivelmente a língua portuguesa, mas não era capaz de falar senão naquela forma atrapalhada.

Este novo interlocutor era o inglês micer Percivel, a quem o Mestre dera o encargo de tesoureiro, em substituição de D. Judas (Judah-Aben-Mosseh-Navarro) judeu rico e preponderante, que fora tesoureiro de el-rei D. Fernando e por ser um dos parciais da rainha D. Leonor Teles com ela fugira de Lisboa, logo às primeiras convulsões da revolução.

— Se aqueles negregados metem no fundo a tal armada do Porto, o que será então de nós!... — disse a mulher que tinha a criancita ao colo.

— Iremos todos de arremetida contra eles; as próprias mulheres, as próprias crianças, até os velhos e mutilados como eu. Enquanto se forem entretendo a golpear os que não podem lutar, menor número de inimigos encontrarão diante de si os outros dos nossos que estão capazes de combater — disse-lhe o decepado com fria serenidade.

— Jesus, filho da minha alma! — exclamou a pobre mãe num estarrecimento de ânimo, apertando febrilmente o pequenito contra o peito.

— Antes morrer às lançadas para se acabar o cerco, do que ficar aqui a cair de fome e atroar os ares com lamúrias.

— Mas se as tais naus que vierem do Porto cá entrarem e trouxerem milho e trigo...

— Em tal não creio eu — interrompeu o mutilado — Virão cheias de gente de armas, que não chegará para escorraçar daqui os de Castela. São mais bocas para a fome, e não será maravilha que, depois de já não haver nem ervas, nem raízes, nem bichos mortos para devorar, se tornem os Castelhanos os nossos carniceiros fornecedores e cada porta e cada torre das muralhas um talho para a cidade faminta.

— Senhor, não vos sei entender! — volveu-lhe a mulher num confrangimento de suposições.

— Queria dizer-vos que ainda haverá quem devore as carnes daqueles que os Castelhanos matarem.

— Tal não permita Deus e surdo seja o demo! — acudiu a pobre mulher com um gesto de terror — Meu senhor, fome tenho eu e mais o meu pequenito, pois só esta madrugada tivemos um caldo de folhas de vide, que nem os cães seriam capazes de beber, e olhai que nem com o tresdobro da fome seria capaz de tocar num pedaço de carne dessa que dissestes! Credo, Senhor meu Deus, antes a morte!

O Inglês entendeu e sorriu.

— Ratas — alvitrou — tem cidade milhones e daria comer gente mais dos meses. É carne coelhas pequenas.

— Vá de retro! — regougou uma velha a cuspinhar, enjoada — Até me dá ganas de deitar os bofes pelas goelas fora!

Vamos agora para outro grupo. Um velho charlatão, mezinheiro e amador de astrologia, dizia coisas solenes aos seus ouvintes.

— Olhai as nuvens no céu a pintarem o que há de acontecer! — e apontava um acastelado de nuvens de formas caprichosas, que o vento ia desfazendo ou englobando com diverso aspeto — Vede bem ali, para os lados da barra. Aquela nuvem maior parece mesmo a nossa cidade com os seus amores, o seu castelo, as suas torres! E as outras, muito estendidas, mais esbranquiçadas, são assim como um grande rio com aqueles farrapos a darem-se ares de naus à vela. E a correrem, a correrem para cá. Assim como se fossem os nossos navios a entrarem a barra. E de cá aquela farraparia de névoas a desfazer-se. São as naus de Castela! São as naus de Castela! O céu diz tudo; é no céu que se lê o destino dos homens e das nações, quando há quem saiba ler o que ele diz.

E todos pasmados, num alvoroço de emoção, olhos cravados naquelas visualidades, a alma a voar-lhes para aquele sonho de astrólogo, que via a Lisboa nas nuvens, coisa de mais engenho do que ver Braga por um canudo.

— Este é estrólico — explicava a outra mulher, uma quarentona adoutorada — Ser estrólico, criatura de Deus, ainda é mais que ser clérigo! Ler nos astros e meter os olhos pelas nuvens, sempre é maior prenda que entender livros e alanzoar latim.

Efetivamente os recortes de uma grande nuvem pardacenta estavam dando, cada vez com mais completa ilusão, a forma de um monte coroado por um castelo, tendo em volta, pela encosta, um relevo de edificações de torres com ameias. Uma fachada de nublado mais claro, menos densa, a deixar transparecer uns tons azulados e um esmalte de luz, podia lembrar o mar ou um grande rio. Depois, sob a sugestão daquele farsista ou daquele visionário, astrólogo amador, não maravilha que aos olhos pasmados da pobre gente ingénua tudo aquilo se lhes estivesse desenhando nitidamente e até uns flocos soltos do nublado se lhes afigurassem as velas das naus que entravam, das naus que se desfaziam.

— O sol a romper! — clamaram de repente umas poucas de vozes em comovido alvoroço.

— Sobre aquela cidade e aquele mar de nuvens! — acudiu logo o astrólogo — Como um resplendor de glória!

De súbito, mar e cidade desfizeram-se nos ares e por um minuto, espetaculosamente belo, apareceu desafogada a face resplandecente do sol. Então, como nas visualidades de uma lenda, faiscaram fulgores de ouro fulvo em todos os arneses, nas choupas de todos os piques, nas ascumas de todas as lanças, sobre as muralhas, sobre as torres, pelas sinuosas linhas da cidade branca do acampamento.

Tinham transparências de cristal as espumas do Tejo, rutilações de azul e púrpura os vitrais dos templos e as altas janelas ogivais do paço da Alcáçova.

— Parece um milagre! — exclamou uma mulher com os olhos cheios de deslumbramento e de lágrimas.

— Milagres da nossa Senhora! — disse outra, lembrando uma imagem então muito piedosamente querida em Lisboa.

— Olhai a vidraria de S. Vicente de Fora! Também será por nós o santo mártir! Parece que de súbito se acenderam lá dentro todos os círios dos altares!

Durou instantes apenas aquele divino resplendor. Veio logo de oeste uma lufada violenta, a empurrar contra o sol uma montanha enorme de nuvens de azulado negrume.

O sol apagou-se e um toldo imenso de sombras desceu lugubremente sobre a cidade, sobre o mar, sobre os abarracamentos dos Castelhanos.

Entrou nas almas da pobre gente aquela ditalada sombra, confrangendo-lhas. Parecia-lhes aquilo um agouro fúnebre de desgraças. Revoaram então pelos ares uns murmúrios de amargurada estranheza.

E logo outro sobressalto maior. Tocaram alarme os sinos das torres nas muralhas de Santo Agostinho e de S. Vicente de Fora.

— Os Castelhanos! — gritou alguém que estava daquele lado do Castelo que dava para os lados de S. Vicente — Vão arremeter contra o Postigo do Arcebispo e contra as Portas de S. Vicente. Reparai naquela chusma dos seus cavaleiros e homens de peonagem!

— E mais lá para cima! — indicou outro, apontando a muralha e as portas do Largo da Graça.

Ouvia-se o choro alto das mulheres. Algumas ajoelharam, de mãos postas, rezando aflitivamente.

Já os sinos das igrejas davam também o sinal de rebate. Vibravam as trombetas como gritos selváticos de combate.

— Má peste mate esses castelãos e Deus os meta nas profundas do inferno! — praguejou uma recadeira, engelhada e rubra, de braços no ar e punhos fechados contra a gente de Castela.

— Põe as tuas mãozinhas, filho, e reza comigo para que a nossa Senhora nos acuda! — soluçava um mulher ainda nova com um pequenito ainda de joelhos ao pé de si, olhos marejados postos nela, numa vaga expressão de pavor.

— Aqueles cães! — bramiu o fidalgo mutilado — Querem ver se nos tomam a cidade antes que a armada entre!

Completo engano. Aquela investida era apenas um ardil para atrair as maiores forças dos sitiados àquele lanço das muralhas, tão distante das obras defensivas da Ribeira, perturbando ou mesmo malogrando deste modo qualquer grande esforço dos lados do rio, em auxílio da esquadra que ia forçar a entrada no Tejo.

Compreendiam bem os Castelhanos que se não poderia tomar de arremetida uma cidade que, desde o princípio de Abril, havia mais de dois meses, com tão valorosa tenacidade se tinha defendido. Mas o que eles tinham percebido também era que, na Ribeira, desde a véspera, se estavam preparando navios, certamente para irem auxiliar a entrada da esquadra vinda do Porto, atacando de revés as naus e galés de Castela.

* * *

 

Dois homens chegaram açodados às portas de S. Vicente. Um deles cavaleiro fidalgo ainda jovem, o outro, homem do povo com o ar resoluto de um campeador. O fidalgo era Ruy de Vasconcelos; o plebeu Afonso Eanes.

Escaramuçava-se já febrilmente nas muralhas e torres, e os virotões e as pedras esfuziavam nos ares. As bestas de torno despediam virotes grandes, quase como lanças, as catapultas arremessavam pedregulhos, tiros de pedra como então se dizia, tiros que faziam estrondo.

Mas a gritaria e a algazarra dos desafios e impropérios de uma e outra parte, em português e castelhano, em muito excedia o ruído das armas.

O Juiz do Povo foi direito ao anadel, comandante de uma quadrilha (pelotão ou destacamento) de besteiros e peões de lanças e piques, ali de guarda aos nossos grossos portões chapeados da muralha de S. Vicente.

— Vai já bravia a luta, senhor anadel!

— Por ora mais de gritaria que de sangue. Só ainda nos mataram cinco homens e temos ali na torre onze feridos.

— O Mestre manda que sustenteis bem este lanço da muralha; mas não consintais que se juntem aqui mais homens que os precisos para a defensa. Aos que vierem das outras torres, mandai-os que voltem pelo mesmo caminho. Aos da chusma da cidade ordenai que vão ter com o Mestre à Ribeira, pois é lá que mais se carece de gente para lutar.

— Olhai as chusmas que vêm correndo para aqui — disse-lhe o anadel, apontando uma multidão de populaça armada que vinha subindo.

De foices, de chuços, de machados, de espetos, a multidão subia cantando:

 

Esta és Lisboa prezada

Miradla e deijadla.

 

Afonso Eanes foi tomar-lhes o caminho.

— Gentes! — gritou-lhes.

— Viva Afonso Eanes, o Juiz do Povo, o braço direito do Mestre!

— Viva! Viva! E que Deus o guarde! — gritaram por aquelas ruazitas e veredas abaixo centenas de vozes.

— Escutai! Escutai! — clamaram das primeiras filas, e a palavra foi revoando de boca em boca por ali abaixo.

— Vai ele falar, e é o nosso coração que fala pela sua boca.

— Aqui se não precisa de mais gente para lutar — disse o glorioso tanoeiro na sua voz dominadora.

— Mas os castelãos querem entrar na cidade por estes lados!

— Não querem tal — replicou Afonso Eanes — Olhai que é fingimento deles para vos trazerem aqui enganados a uma luta, que não há de valer duas cascas de alho.

— Mas então para quê, mestre Eanes?

— Para que o Mestre e o Arcebispo fiquem desamparados de gente na Ribeira, e se não possa dar ajuda aos navios que vieram do Porto. Ora aí tendes a que vem toda essa farronca de arremetida por estes lados.

— Mas vós para aqui viestes e não estais com o Mestre na Ribeira!

— De lá vim com ordens suas para que se não junte aqui quem aqui não é preciso.

— Pois iremos já de carreira ter com o Mestre.

— Mas olhai que a batalha está mais bravia! — alegou um, menos submisso — Reparai: mais de vinte feridos que vêm em braços, descendo daquele lanço de muro!

— Deixai lá os feridos. Ide ter com o Mestre! — disse Afonso Eanes num tom enérgico de mando.

Da face da torre que dava sobre as grandes portas debruçou-se um homem de armas, gritando:

— Anadel! Os castelãos estão a crescer na arremetida! São já para cima de quatro mil cavaleiros e peonagem. Andam em correrias de desafio os seus ginetes e mouriscos... Reforçai as portas!

— Vede lá, mestre Eanes! — alegou em gritos o insubmisso — E quereis então ir daqui para a Ribeira?!

— Disto entendo eu mais do que vós, e o Mestre mais que ninguém — volveu-lhe asperamente, de olhar cravado nele — Homens, sou eu o vosso juiz e o Mestre o nosso defensor; manda ele e quero eu que vades para a Ribeira! Lá estão navios que é preciso guarnecer de gente para os levar contra as naus de Castela em auxílio das nossas, que hão de entrar ao encher da maré. Ide!

— Vamos, sim, mestre Afonso Eanes.

— Manda o Mestre.

— Quer o nosso juiz que vamos.

— E ele é a modo de Condestrabre cá da gente do povo.

— Vamos! Vamos!

— Vinde também, Afonso Eanes.

— Eu subo à torre — estava dizendo Ruy de Vasconcelos ao tanoeiro — e de lá observarei com que gente o inimigo está arremetendo.

— Pois sim... Mas esperai um instante.

— Vinde connosco — insistiam alguns.

— Agora não devo — respondeu o tanoeiro — Tenho de levar informações ao Mestre; mas lá estarei convosco dentro em pouco. Ide.

— Viva o Mestre! Viva Afonso Eanes! S. Jorge e Portugal!

— Portugal só para os Portugueses!

— E com o tripum de todos esses cães gadelhudos de Castela se há de tecer uma corda que dê volta à cidade.

Estrondearam gargalhadas com o chiste de farronca e toda a turbamulta começou a descer, cantando.

— Vamos lá então — disse o Juiz do Povo para Ruy de Vasconcelos.

Subiram à torre. Havia já muitos feridos. Formados, em hoste, os Castelhanos não seriam menos de cinco mil. Choviam os virotes e as pedras. Em carreiras vertiginosas, fantásticas, duzentos cavaleiros de Andaluzia, mouros convertidos e mouros cativos, volteavam como figuras de sonho por diante das muralhas, soltando gritos de desafio e de insulto para os sitiados.

De um e outro lado, mulheres. Na linha dos postos inimigos, por detrás da hoste, grupos de mulheres, de trajos espaventosos, em cantares e bailados; eram as aventureiras do arraial castelhano, bonejas garridas de Espanha, que acompanhavam o exército e já andavam habituadas à carniçaria dos combates (*).

 

[(*) O Segundo Fernão Lopes, o acampamento dava ideia de uma cidade, com barracas de jogo, de perfumarias, e arruamentos de traficantes e de mulheres toleradas.]

 

De cá, nas torres e nas muralhas, mulheres esfarrapadas, velhas e novas na mesma palidez amargurada de famintas, com arregaçadas de pedras que arremessavam febrilmente contra os de Castela, não a cantarem as trovas sensuais das outras de Espanha, fartas de vinho e de viandas; mas entoando as grosseiras canções da revolta, numa rouquidão de fraqueza e num timbre em que se percebiam vibrações de dor.

— Está visto que é um ataque de fingimento — disse Ruy para o Juiz do Povo — Reparai. Daqui se distinguem bem. Naquela hoste que é já numerosa à vista da escassa gente de guerra que nós cá temos, apenas dois: ou três pendões da nobreza e um da ordem de Calatrava. O mais, peonagem para ir entretendo a escaramuça com os virotes e a sua algazarra. Fora intento de el-rei de Castela dar investida formal por este lado, e certo veríamos ali a flor da sua cavalaria da velha Castela, de Leão e Navarra com os campeadores aventureiros de Gasconha e do Bearne. Mas não nos enganamos. Isto não passa de algazarra para nos sobressaltar os ânimos e dividir as forças.

De repente, um grande rumor de vozes na torre e o ruído de muita gente que subia.

Ruy e Afonso Eanes voltaram-se num movimento de estranheza. Haveria tornado a turbamulta que o Juiz do Povo mandara para a Ribeira? Seriam homens de armas dos outros lanços da muralha?

Mas então porque os deixara entrar o anadel, violando a ordem do Mestre?

Não era gente de armas, nem homens para combater, mas somente mulheres com chuças e abadas de pedras para atirar contra os Castelhanos.

À frente delas a tia Lourença, a velha regatona das Portas do Mar, com um longo forcado ao ombro.

Fizeram-lhe uma ovação as outras mulheres que já estavam na torre, umas oito ou dez.

— Viva a tia Lourença!

— A marechala das mulheres!

— Santo dia, comadres, e boa gana nos dê Deus contra aqueles cães gadelhudos (*).

 

[(*) Gadelhudos por trazerem os cabelos compridos em contraste com os Portugueses.]

 

E acercando-se das ameias com a mão na testa em guisa de pala:

— O quê! Só aquilo! Oh, criaturas de Deus, aqueles esbarrondamos nós à pedrada, e podem mandar os homens embora. Que vão ter com o Mestre.

Apesar da chuva de virotes que vinha das primeiras Filas dos Castelhanos e dos gemidos de dois besteiros que tinham caído varados, os homens de armas riam daquele dizer farronqueiro da tia Lourença.

— É o que eu vos digo, mulheres. Venho da Ribeira com a minha hoste de saias e de lá me fui por me parecer que isto era coisa pior e porque o Mestre está na teima de não querer embarcar mulheres. Olhai, olhai! Aqueles torriscados à mourisca, a fazerem-nos gatimanhos e aos corropios, aqui mesmo à beira do muro! Vá, mulheres! Quem tiver bofes e pulso que lhe dê uma surriada de calhaus. Ê é para já — gritou, atirando o forcado ao chão — Por S. Jorge e Portugal, cães de Mafoma, cães de Castela, ou do demo que vos leve!

E amparando com a mão esquerda o seu grosso avental de estopa, mudado em bolsa de projéteis, a intrépida fundibulária despedia enormes calhaus com rijo pulso e mão certeira, numa fúria de vertigem.

Seguiram-lhe as outras o exemplo e uma torrente de pedras desabou sobre os ginetes à mourisca, a voltearem provocadores, quase rentes da muralha.

Até os besteiros, de arco retesado, se ficaram a olhar para aquilo com um sorriso de regalo.

— Vá, mulheres — bradava a tia Lourença, encostando-se mais às ameias — vá, que lhes havemos de dar fim à mouriscada das cavalhadas. A dois já eu britei o toitiço. Pás! Aquele fica empanzinado para todos os dias da sua vida.

Os dois ginetes levantaram uma algazarra medonha de insultos, mas o caso era que já iam curveteando para mais longe das muralhas. Dez ou doze tinham baldeado dos cavalos abaixo e um deles era o próprio chefe.

Avançou então mais para os muros a peonagem com os besteiros na frente, como os atiradores modernos.

E berravam chufas e afrontas para as mulheres.

— Ah! Sim! Vá, mulheres, por cada palavrão castelhano um calhau português!

— Rameronas chamorras! (*) — gritaram os de lá.

 

[(*) Chamorros era a alcunha desprezadora que os Castelhanos tinham posto aos Portugueses por eles usarem então os cabelos tosquiados.]

 

— Aí, vaganaus gadelhudos. Má peste vos mate, que nem os lobos vos queiram roer. Vá vivo, para cima deles! Aí vão as pedras da coroa que vindes buscar.

Veio então sobre os muros uma chuva de virotes.

— Cantai, raparigas! — gritou a tia Lourença a incitar-lhes o ânimo.

— Acautelai-vos, cobride-vos com as ameias — recomendou-lhes Afonso Eanes, expondo-se mais ainda.

— Besteiros, disparai agora os virotões — mandou Ruy de Vasconcelos, tirando do argolão da torre e agitando no ar um pendão com os castelos do brasão português e a cruz da Ordem de Cristo.

— Pois que não cantais, cantarei eu na minha voz de cónego velho:

 

Esta és Lisboa prezada

Miradla e deijadla

Se quizíeredes carnero,

Qual diéron al Andero.

Mas de repente a regatona heroica truncou a canção revolucionária e deu uns passos atrás. Tinha empalidecido aquele rosto vermelho-escuro.

— Alguém... Que me... Acuda! — rouquejou — Não desanimeis.

Amparou-a nos braços um homem de armas.

— Cravaram-lhe um virote no peito! — disse um besteiro.

— Está ferida a tia Lourença! — gritou uma mulher.

E foi logo um coro de lástimas do mulherio.

— Mais pedras... Sobre eles — regougou a regatona, de olhar amortecido, o saio e o avental manchados de sangue.

Afonso Eanes correu para ela. Junto das ameias, Ruy incitava os besteiros a uma intensidade maior de esforço, para que os tiros fossem mais repetidos e mais certeiros. Ele próprio tomara a besta das mãos de um ferido e dava exemplo aos outros.

— É ferida grave! — disse consigo o Juiz do Povo.

E logo para dois homens de armas:

— É preciso levá-la daqui para o hospital.

— Só me custa... — disse em voz sumida a tia Lourença.

— Dizei o quê?

— Tenho em casa... Uma rapariga... Endoidecida...

E cerrou os olhos.

— Tem, tem, eu bem o sei — soluçou uma das mulheres que viera com ela. — Onde mora esta valente mulher? — perguntou-lhe o Juiz do Povo.

— Às Portas do Mar. Todos lá sabem onde mora a tia Lourença.

— Ide descansada — disse-lhe Afonso Eanes, muito debruçado para ela — Vão tratar-vos do ferimento e eu, logo que possa, irei saber da rapariga endoidecida.

A tia Lourença entreabriu os olhos rasos de lágrimas, como se naquele olhar quisesse exprimir um voto de gratidão, mas não pôde falar.

— Coitadinha! — murmuraram a chorar umas poucas das suas companheiras.

— Era a mais destemida alma de mulher que tinha Lisboa! — comentou amargamente uma das fundibulárias.

— Vá, depressa! — mandou Afonso Eanes.

Três homens levantaram nos braços o corpo agigantado da regatona, atravessaram com ela para o postigo da ogiva da plataforma e desceram lentamente a escada estreitíssima da torre.

Quinze ou vinte mulheres se dispunham a seguir Lourença.

— Duas ou três bastam — protestou uma das mais animosas — E aqui ficaremos nós para a vingar, enquanto durarem as pedras.

Seguiram-lhe a indicação, e apenas três foram atrás da corajosa regatona ferida. Mas uma delas era aquela que dera informações ao Juiz do Povo e a essa a reteve ele por instantes.

— Olhai que me deveis trazer notícias daquela vossa companheira. Ou mas ireis levar à Ribeira, ou a minha casa, depois que a nossa armada houver entrado. Sabeis onde moro?

— Ora, quem é que não sabe? Mas haveis de dar licença que primeiro, e logo na volta do hospital, vá saber da rapariga doida.

— Filha ou parenta da tia Lourença?

— Uma desconhecida, linda como os anjos! Enlouqueceu com a morte da uma filha, e a tia Lourença levou-a para casa por caridade. Topou-a ontem à noite ao pé da Sé, com a filha morta nos braços e já na loucura da sua dor. Parece vir de gente de estimação. Para vir pôr-se à nossa frente foi que a Lourença a deixou em casa só com uma tia doente e velhinha que lá tem consigo.

— Está bem. Ide, e não vos esqueçais.

Afonso Eanes foi para junto de Ruy de Vasconcelos. Estava ele a ser o mais formidável besteiro da torre.

— Ah! Mas eles vão retirando-se! — observou o tanoeiro.

— Vão. Os virotes saem daqui certeiros e temos-lhes deitado abaixo muitos homens.

— Demos os enforquem! — exclamou a que ficara acaudilhando as mulheres — Já lá não podem chegar os nossos calhaus!

— Vão corridos de vergonha, comadre! — comentou uma rapariga espadaúda — Viram bem que para defender isto contra eles até as mulheres dos chamorros bondavam.

Repicaram os sinos.

— Estão a repicar os sinos do Castelo!

— E agora os da Sé!

— O que será?!

— É o sinal de que a armada do Porto já se avista dos lados do Castelo velho — replicou o Juiz do Povo.

— E como o sabeis vós aqui?! — inquiriu uma espevitada.

— Porque sei que é este o sinal que o Mestre ordenou se fizesse, mal que os vigias da torre albarrã do Castelo dessem fé dos navios.

— Pois que viva a nossa armada e em boa hora a traga cá Deus e os anjos.

— Senhor Afonso Eanes — disse-lhe Ruy de Vasconcelos — é tempo de ir ter com o Mestre. Há de ter estranhado esta nossa tamanha demora. Aqui nada mais há que fazer. E no rio é que a batalha terá de ser decisiva e digna de nós.

— Vamos.

Desceram. A multidão das mulheres seguiu atrás deles gritando:

— À Ribeira a ter com o Mestre!

— Viva o nosso Messias! (*)

 

[(*) Por várias vezes se refere Fernão Lopes aos serviços intrépidos prestados pelas mulheres de Lisboa naquele cerco. Tinham trabalhado nas obras de defesa, ajudando os homens, e corriam aos muros como soldados, mal ouviam o toque de alarme nos sinos.]

 

Eram quase 9 horas quando chegaram à Ribeira. A maré enchia. A armada portuguesa vinha já na altura do Rasteio velho.

Estava a entrar gente de armas nas barcas preparadas para combater; nas galés velhas, que ainda na véspera estavam varadas na praia, e em três ou quatro naus pequenas. A maior e a melhor era uma nau mercante genovesa, que viera ao Tejo carregada de panos ricos e fora embargada para se aproveitar na defensa do rio.

Destacava-se da grande massa de gente armada a figura singular do Arcebispo D. Lourenço; a espada cingida à batina, aberta até baixo, o roquete por cima da cota de armas, o rútilo bacinete, encimado pela imagem doirada da Virgem. Era como o grande chefe do estado-maior daquela tropa da plebe, e dela ia escolhendo para embarcar a gente melhor e mais bem armada.

E atrás dele, ajudando-o, lá estava também a sua hoste de frades e clérigos, de buréis e batinas arregaçadas, de chuço ou lança ao ombro.

— O Mestre que se não embarque! — gritava a gente miúda.

— Está bem de ver que o Mestre deve ficar.

— Tem de olhar pela defesa da cidade e do rio; é para nos governar a todos.

— Que fique! Que fique!

O Mestre estivera a ouvir as informações que lhe traziam Ruy de Vasconcelos e Afonso Eanes e tomara para a longa prancha atracada à nau maior, a que fora embargada aos Genoveses.

— Que se não embarque o Mestre! — clamou o mulherio.

O infante bastardo, aquele filho de Teresa Lourenço, a quem a populaça adorava, voltou-se para a multidão e disse-lhe alto, serenamente:

— Gentes, importa que eu vá. Perder-se-ia Lisboa, se a nossa armada se perdesse. Deus será convosco e comigo.

— Pois vamos todos com o Mestre! — gritou um velho.

— Vamos! Vamos! Todos com ele!

— Não pode ser, gente! — clamou o arcebispo, intervindo e opondo à onda da plebe, a mover-se já para o embarcadouro, toda a sua hoste de tonsurados — Estão as barcas a deitar fora e gente de mais tem a bordo aquela nau — explicava-lhes.

— Olhai se nos deixais perder o Mestre. Seria meter o reino nas unhas dos castelãos.

Apesar dos protestos de receio da multidão, o Mestre de Avis embarcou. Iam depós ele o Juiz do Povo e Ruy de Vasconcelos.

— O povo tem razão — segredou o tanoeiro para o filho de D. Dulce — Isto é uma imprudência do Mestre; ele devia ficar.

Por entre a multidão veio atravessando lentamente um velho de longas barbas de neve, túnica de burel como a dos monges, chapéu e bordão de peregrino.

A multidão agitou-se num movimento de supersticiosa estranheza.

— Um peregrino da Terra Santa!

— Será então de bom agouro.

— Talvez traga relíquias do Santo Sepulcro.

— Tamanhas barbas e cabelos!

— Gadelhudo como os de Castela! Este não é chamorro.

— Não seja algum dos deles!

— Ou algum dos nossos tredos que andam com eles!

— Nesse fingimento para nos atraiçoar!

— Dizem que o demónio andou uma vez vestido de monge e de barbaças de velho. E o porco sujo dos infernos há de ser de Castela.

— Figas!

— Cruzes, anjo bento!

— Sou um homem de Portugal como vós; cristão como sois, leal à nossa terra como qualquer homem fidalgo ou homem da ralé, que se tenha aqui por mais leal — disse-lhes alto Mendo Rodrigues, numa tremura de voz — Na desgraça é que eu sou maior do que nenhum de vós.

— Roído de fome como nós? — perguntou-lhe escarninho um regular septuagenário.

— Velho — volveu-lhe tristemente — roído de amarguras! Fome tive-a eu durante alguns anos de cativeiro.

— Quem sois? O vosso nome, dizei?

— Fiz voto de o não dizer. Sou dos que mais querem à nossa terra. Isto vos baste, e Deus seja pela nossa justiça e pela nossa glória!

O prelado de Braga aproximara-se.

— A que vindes? — perguntou-lhe.

— A reanimar os que tiverem desalentos e a fazer do meu corpo sem armadura o escudo de algum que faça mais falta do que eu. Senhor Arcebispo, deixai-me embarcar nessa nau em que vai o Mestre. Fui cavaleiro, tenho a experiência de guerra; fui galeote cativo, tenho a prática do mar. Darei conselho ou terei o consolo de morrer ao lado dos homens leais da minha terra.

— E não podeis dizer quem sois?

— Senhor, não. Mas vede que sob este hábito de monge se não podem esconder armas e da minha antiga condição de cavaleiro vos podem dar testemunho as cicatrizes que tenho no peito. São de lança e espada.

— A nau em que está o Mestre já tem gente de mais — volveu-lhe o Arcebispo, entre surpreendido e suspeitoso da insistência.

— Irei nalgum desvão onde ninguém mais queira ir.

— Estranha insistência a vossa!

— Senhor, é também um voto da minha alma. E já que de mim duvidais, dou-vos pelo meu abonador a Ruy de Vasconcelos, o cavaleiro fidalgo ao qual ninguém pode pôr suspeições.

— Esse é dos valentes! — disse um homem do povo.

— E dos leais!

— Até mandou desafiar o grande Condestabre de Castela — acudiu uma mulher.

— Podeis ir — disse-lhe o Arcebispo, movido pelo tom de lealdade e de comoção em que o peregrino lhe falara.

Mas já de bordo de naus se ouviam imprecações e brados de desespero.

— Amaina o pano todo e âncoras para o fundo, que o vento está de revés.

— Levava-nos rio acima!

— Olhai! Olhai! A barca de Gonçalves Borges! Lá a vai levando o vento desgarrada por ali acima!

— Não quer Deus Nosso Senhor ser por nós! — exclamou com mágoa uma mulher.

— O Mestre vem para terra!

Efetivamente, reconhecida a impossibilidade de navegar no rumo do Rasteio, com o vento forte de revés, o Mestre mandara que a nau fosse posta em árvore seca e com todos os ferros no fundo e que a gente de armas desembarcasse.

Levou tempo o desembarque. Para dentro da nau, onde duzentas pessoas iriam constrangidas, tinham entrado quatrocentos homens de guerra. Mas é de justiça explicar que não iam no intento de dar batalha a bordo, onde mal poderiam manejar as lanças e as espadas, mas para atracar a algumas naus da armada de socorro e reforçar-lhes as guarnições que vinham incompletas.

Era uma temeridade de trágico desenlace, à qual o vento providencialmente se opôs. As quarenta naus e dezasseis galés da esquadra castelhana facilmente tornariam desastrosa aquela tentativa planeada com mais arrojo que reflexão.

— Uma triste má fortuna! — dizia baixo o Mestre ao Arcebispo num grupo em que estavam o Juiz do Povo e Ruy de Vasconcelos — E assim deixamos sem ajudas as nossas dezassete naus contra as quarenta que aí tem el-rei de Castela! (*)

 

[(*) As naus daquele tempo eram em geral de baixa tonelagem. As mais pequenas, entre sessenta e cem toneladas; de cento e cinquenta e duzentas toneladas com quarenta a sessenta tripulantes, as maiores. Como navios de transporte, às vezes levavam duzentos ou trezentos combatentes, mas estes de modo que mal se podiam mexer lá dentro.]

 

— E mais as treze galés nossas contra as dezassete dos Castelhanos — ampliou o Arcebispo.

— E o pior será que esmoreçam os dos nossos navios, sem saberem a razão porque lhes falta o auxílio que lhes foi prometido! — lamentou o Mestre, sacudindo os ombros e avincando o rosto num gesto de desespero.

— Mestre e senhor! — disse Ruy de Vasconcelos — A remos também se lá pode chegar em qualquer ligeira galeaça. Se me dais licença, buscarei aí oito ou dez galeotes e vou eu dizer à nossa armada por qual motivo lhe falta o auxílio prometido.

— Ide, sim — volveu-lhe o Mestre, envolvendo-o num lento olhar de admiração e de reconhecimento — Ide, e assim prestais um honrado serviço à nossa causa.

— Senhor, fico agradecido — respondeu Ruy, afastando-se num alvoroço de júbilo.

— Se a pobre mãe sonhasse isto que ele vai fazer! — disse consigo Afonso Eanes — Mal-aventurado nos seus amores, parece apostado em buscar a morte em feitos que ninguém se lembraria de lhe pedir!

Parecia que o tanoeiro conhecia algum segredo de amores do jovem cavaleiro.

— Oito galeotes de boa alma e bom pulso para levarem uma galeaça ao Rasteio velho — propôs alto o filho de D. Dulce.

Ofereceram-se dez.

— Para que será, criaturas de Deus?! — perguntou uma mulher.

— É para ir bater as quarenta naus de Castela — respondeu de mofa aquele sapateiro remendão, vezeiro em enganar a fome bebendo vinho — Aquele é da tripa de Nuno Álvares e foi gerado na corte do rei Artur de um cabelo das ventas do grande Galaaz — acrescentou de chacota o Bernardo Pingueiro.

— Passa fora, odre de tripa! — replicou-lhe uma mulher abespinhada — A alma que tens nem para alma das sapatas de Berzebu serviria.

Riram muito da réplica, apesar da conjuntura difícil, aqueles pobres diabos famintos.

— Ruy, um galeote a mais — disse-lhe baixo Mendo Rodrigues, inclinando-se para o sobrinho — Tive quatro anos de prática nas galés de Tunes — acrescentou com um sorriso que parecia um esgar de dor.

— Pesa-me o pedido. Não insistais nele.

— Insisto. Melhor remará dentro de uma túnica de burel quem já remou agrilhoado a um banco, de ferros aos pés.

Em dez minutos estava pronta a partir uma galeaçazita ligeira de dez remos.

— Ala, ala! — gritou Ruy de Vasconcelos.

Os galeotes meteram os remos na água num arranque valente.

— Deus vá convosco, Ruy de Vasconcelos! — gritou-lhe da praia o Mestre.

— S. Jorge e Portugal! — gritou o jovem com a bandeira dos castelos e da cruz vermelha a esvoaçar-lhe alto por cima da plumeira do bacinete.

— Olhai que até o barbaças da Terra Santa lá vai! — notou uma rapariga da rua das Linheiras.

— Vai para excomungar os castelões enquanto o rapazote mete as naus no fundo com a tromba da galeaça — chasqueou o sapateiro avinhado, ilustre irmão da confraria de S. Crispim, bendito patrono dos remendões.

A galeaça lá ia de arrancada, envolta em espumas, aos saltos sobre as águas do rio, que o vento levantava revoltas como ondas de um mar embravecido.

CAPÍTULO IV

HERÓIS E FAMINTOS

 

A esquadra de Castela, muito encostada ao Rastelo e de proas ao sul, tinha esperado a enchente da maré e vento de feição para dar batalha aos navios portugueses, seguindo nas suas águas.

Quando a galeaça pequena, em que Ruy de Vasconcelos partira, ia em frente da moderna Junqueira, já a vanguarda da esquadra portuguesa vinha a todo o pano com vento de feição.

A primeira divisão, como hoje diríamos, era composta de cinco naus, A maior, chamada Milheira, vinha comandada pelo fidalgo cavaleiro Ruy Pereira, tio de Nuno Álvares, e trazia a bordo quarenta besteiros e setenta homens de armas. Era também a mais veleira. Atrás dela velejavam a Estrela e mais três de menos valia.

A segunda divisão era constituída pelas galés, movidas a remos, de paveses altos e pendões erguidos, em formatura cerrada.

Compunha-se de doze naus pequenas a terceira divisão.

Vendo que a armada inimiga se não despegava do Rasteio, o impetuoso Ruy Pereira mandou meter a Milheira pela proa das naus de Castela. As outras quatro da vanguarda seguiam nas mesmas águas. Era para avaliar de perto a força e as disposições da esquadra adversa e forçá-la por aquela provocação a travar combate, que facilitasse a entrada ao grosso da armada portuguesa.

Sabendo por informações anteriores, que a esquadra de Castela era talvez três vezes maior que a de Portugal pelo número e grandeza dos navios e pelo efetivo das tripulações, Ruy Pereira compreendia bem o que havia de temerário naquela operação em que quarenta naus facilmente podiam aferrar dezassete, cercá-las, vencê-las pela abordagem e apresá-las, havendo ainda a desproporção na batalha entre as galés. Mas ia evidentemente disposto a sacrificar a sua divisão para salvar dois terços da esquadra.

O vento era favorável e todos os outros navios portugueses meteriam velozmente rio acima enquanto a Milheira e as outras da vanguarda metiam contra todo o poder da armada inimiga.

Mas os Castelhanos não se saíram com o desafio, não faziam querença, como diz o cronista Fernão Lopes, e então Ruy Pereira mandou virar de bordo contra Almada, a ver se tentava o inimigo a persegui-lo, assim isolado e temerário, para combater sozinho com a sua divisão enquanto as doze naus e treze galés se acolhiam ao ancoradouro interior.

Como se o almirante de Castela lhe houvesse percebido o intento, nenhum dos seus navios se mexeu. Mas a divisão das galés portuguesas meteu à força de remos para a armada do Rasteio, a remos em estala, como diz Fernão Lopes, e foi então que os de Castela se decidiram a batalhar, prolongando-se com a esquadra portuguesa por barlavento (julavento) numa linha que a isolasse da cidade.

Saiu na frente da armada inimiga a poderosa nau almirante — ]uan de Arena — tão fortemente preparada para a abordagem que até trazia suspenso a meio do mastro grande um batel guarnecido de besteiros, alguma coisa semelhante às gáveas de combate dos navios modernos. A galeaça de Ruy de Vasconcelos partiu de voga arrancada para os navios portugueses da vanguarda, no seu rumo em direção a Almada.

— Aquela é a Milheira em que vem Ruy Pereira — disse o filho de D. Dulce para o tio — conheço-a bem.

— Mas aqueles navios separados do resto da armada. Que loucura!

— Remai de estala — mandou Ruy de Vasconcelos — Forte, depressa!

E numas guinadas impetuosas, o batel meteu por barlavento da Milheira, a oito braças dela.

— Ó lá de bordo! — clamou o jovem cavaleiro, pondo as mãos em concha em frente da boca.

— Que é lá? — perguntou do castelo de popa o próprio capitão.

— Senhor Ruy Pereira, não conteis com a ajuda dos navios da cidade. O vento não os deixa largar. É o recado que vos trago do Mestre.

— Pois embora. Ide dizer-lhe que a armada entrará e com as minhas naus lhe abrirei eu o caminho, ainda que hajam de ficar no fundo do rio!

— Capitão — avisou o vigia da proa — toda a armada castelhana está de volta com as nossas galés! Investe na dianteira com uma grande nau.

— Mestre — gritou Ruy Pereira — pelo bordo do norte sobre a armada inimiga contra a nau maior do almirante-mor de Castela.

O mestre deu as vozes para a manobra, e a Milheira começou a mover-se, levantou uma espumaceira alta em volta do seu bojudo arcaboiço.

— Senhor Ruy Pereira, deixai-me entrar na vossa nau.

— Falta o tempo. Ide dizer ao Mestre que sacrifiquei tudo para salvar a armada.

— Pois iremos ver como esse sacrifício se faz — gritou-lhe o destemido jovem — Tio — disse baixo, muito inclinado para Mendo Rodrigues — quereis que vamos?

— Quero.

— Galeotes, nas águas desta nau.

E toda envolta em cachões de espuma, a galeaça lá ia fazendo corcovas de corcel bravio atrás da Milheira.

Seguida pelas outras quatro da divisão, a Milheira cortou a linha inimiga e meteu logo contra a nau maior e mais audaz do inimigo — a de ]uan de Arena.

Parecia que uma febre de heroicidade agitava o arcaboiço da Milheira e lhe dava alentos épicos como se levasse em si uma grande alma votada à Pátria, num sonho de glória! E levava; era a alma de Ruy Pereira.

Abalroou a outra, deitou-lhe os arpéus, cingiu-se com ela. Seguiram-lhe o impulso as outras quatro naus da divisão.

Num volver de olhos, o tio de Nuno Álvares calculara bem o lance para o sacrifício de sublime abnegação. Vendo em perigo a sua nau almirante, a mais poderosa, era natural que uma parte importante da armada do Rasteio corresse a socorrê-la.

E assim foi. Vieram logo cinco das maiores naus de Castela e uma grande carraca como primeiro socorro ao navio almirante. E, após estes, outros.

Entretanto, a bordo da Milheira lutava-se denodadamente. A de Juan de Arena tinha o dobro dos homens de armas e do batel suspenso no mastro grande, os besteiros crivavam de virotes a gente de abordagem da nossa nau.

Uma gritaria medonha a bordo, uma chacina horrorosa de parte a parte!

Brandindo um machado nas suas mãos possantes, a viseira do bacinete salpicada de sangue, o arnês amolgado, numa fúria épica, Ruy Pereira lutava na dianteira de todos, cada vez mais resolvido a empenhar naquela batalha todos os seus dons de cavaleiro e toda a sua abnegação de patriota.

Espedaçavam carne as lanças, os machados, as achas, os espadões; esfuziavam no ar os virotes e os gritos de arremetida, numa convulsão de ódio, convés e os castelos estavam já alastrados de feridos, em gemidos inúteis de súplica ou numa torva agonia de morte.

— S. Jorge e Portugal! — bradava Ruy Pereira, cada vez mais encarniçado naquela formidável luta.

— Santiago y Castilla! — clamavam da nau inimiga — A ellos los chamorros.

— Almirante-mor de Castela, hás de ver como os chamorros morrem!

A maré subia e o vento sacudia o velame, alteando as golfadas do mar. Com os arcaboiços unidos, as vergas a tatearem-se como garras, as amuras, como os peitos, num contacto arquejante de ódios, os pendões e as bandeiras a esvoaçarem uns contra os outros, como aves multicores que também fossem lutando nos ares, todas aquelas naus foram subindo contra os barrocais de Cacilhas. Dir-se-iam feras enormes, que, na alucinação da briga, se fossem arrastando umas às outras, de garras enclavinhadas.

Mas a maré e o vento, que atiravam para o sul aquela massa de navios abalroados, também metiam rio acima, com excecional velocidade, a divisão das galés e as doze naus da última divisão da nossa esquadra.

A galeaça de Ruy de Vasconcelos seguira sempre a Milheira, e num dos lances da luta, conseguira abalroar uma galé de Castela, aprisionando-lhe o capitão.

Mas quando as cinco naus portuguesas estavam já encurraladas entre o pontal de Cacilhas e os barrocais, fechando-lhe o cerco uma. Parte considerável da esquadra inimiga, a galeaça pôde atracar à Milheira e Ruy de Vasconcelos e Mendo Rodrigues subiram para bordo.

A batalha ali tornara-se ainda mais desesperada. Era um lance de vida ou de morte.

O peregrino realentava os que pareciam menos animosos ou acudia aos feridos com misericordiosa solicitude. O sobrinho pusera-se ao lado de Ruy Pereira e duas vezes entrara com um troço de homens na de Juan de Arena. Mas antevia-se já o desfecho trágico da batalha. O inimigo tinha o triplo das forças e a Milheira estava empachada de feridos.

Com o rosto esbraseado, o ar a faltar-lhe, Ruy Pereira levantou a viseira do bacinete para respirar com mais desafogo e readquirir forças para uma decisiva arremetida.

Logo reparou nele um dos besteiros do batel içado a meio do mastro grande da nau castelhana.

Nem havia Castelhano que não trouxesse os olhos em Ruy Pereira, enfurecidamente. Pareciam miraculosas as energias daquele batalhador; a alma daquele homem enchia a nau; matá-lo, seria matá-la. O besteiro retesou o arco, visando o rosto daquele lutador prodigioso, disparou; o virote partiu e foi cravar-se entre os olhos do herói.

— Combatei... Vós! — gritou Ruy Pereira, e caiu, desamparado. Revoou um grito enorme de dor a bordo da Milheira,, grito de duas dezenas de vozes, como se o virote castelhano houvesse ferido também os corações daqueles bravos.

Uns poucos de homens correram para o capitão. Um instante apenas e a morte imobilizou o herói. Estava feito o sacrifício a que a sua alma épica se votara naquele dia.

Foi enorme, foi esmagadora a impressão de desalento por aquela morte. A nau tinha de render-se. De bordo da outra percebera-se a enorme perda e logo a anunciaram em clamores de triunfo, para incitarem os ânimos. Tinham lá o quíntuplo dos homens de armas que ainda restavam de pé a bordo da Milheira.

— Santiago y Castilla! A ellos!

O punhado de companheiros de Ruy Pereira rendeu-se.

Só dois se não renderam porque esses, pela outra borda da nau, se desceram para a galeaça atracada.

Das cinco naus da nossa vanguarda, três ficaram apresadas, mas duas intrepidamente romperam por entre os navios inimigos, conseguindo escapar-se.

* * *

 

As galés portuguesas estavam já a salvo para cima da praia da Ribeira. As dozes naus da retaguarda iam subindo já para além de Cacilhas, e uma só v ficara atrasada porque a tinham abalroado cinco das galés de Castela no momento em que o vento lhe escasseara. Era a nau de Álvaro Gonçalves de Sá.

Atrás das cinco galés estavam outras tantas naus, para as apoiarem e reforçar-lhes as guarnições.

Da galeaça, a meter para Lisboa de voga arrancada, Ruy de Vasconcelos via bem a bandeira da nau portuguesa e, com aquiescência do tio, mandou meter o naviozito ao rumo oposto.

— Galeotes, para aquela nau de Portugal, que parece perdida. A alguns dos nossos poderemos aqui dar guarida.

Era aquele o último lance da batalha e Gonçalves de Sá o segundo herói daquele dia.

A sua nau estava crivada de virotões e tinha parte do velame rasgado. Os virotes bamboleavam-se cravados no aparelho e o próprio timão parecia uma pregadeira.

Tinha a bordo muitos homens feridos, mas nas galés de Castela ainda havia mais.

Assim como uma baleia que de repente sacudisse de si um bando de espadartes, a nau repulsara as galés, ajudada por uma rajada de vento favorável, e metera para dentro, tomando para a praia da antiga Porta do Mar.

Repicavam os sinos da cidade. O Mestre andava na Ribeira com os seus cavaleiros e a turbamulta dos famintos. Pelos altos, sobranceiros ao rio, pinhas de gente em gritos de aclamação ao Messias e em brados entusiásticos de aplauso à gente da esquadra.

A armada castelhana perdera sangue e vidas; não perdera navios, não fora derrotada, podia continuar a bloquear Lisboa; mas sofrera um desaire. Rompera-lhe o bloqueio uma esquadra muito menos forte.

 

* * *

 

Ruy de Vasconcelos desembarcava da galeaça. Trazia o braço esquerdo levemente ferido por um virote. Foi procurar o Mestre para o informar do que presenciara. Mendo Rodrigues tomou para casa da irmã.

— E daí, trigo e milho? Vem coisa que chegue para matar a fome à cidade? — inquiria a populaça esfaimada, cercando a maruja e os homens de armas que tinham desembarcado da esquadra.

— Isso sim! — respondeu-lhes o mestre de uma galé que acabara de varar na praia — O que trazemos não dará para mais de duas ou três semanas, e só para as bocas dos que vieram.

— Pois já que assim é, que se reparta por todos nós o que aí trazem, e depois será a fome também para todos — retorquiu um calafate.

— E os da cidade — acudiu uma padeira — já há mais de um mês que andam a arreganhar o dente. Agora nem pão de bagaço e de raízes! Pouco durou essa farturinha, que fazia nojo aos cães!

— Daqui a pouco ainda pior! Mais bocas para maior fome.

— Hum! Se o povo quiser, ainda pode remediar-se por um dia ou dois.

— Está a gozar, tia Brígida!

— É o que vos digo, alma de Deus! Eu bem sei de certas casas ricas onde há trigo sonegado. Era o povo querer dar-lhes varejo, aí por volta da noite.

— Mas dá-se-lhes, que não pode querer Deus que uns vivam à farta onde tantos andam mirrados de fome!

— Pois está bem de ver que é assim.

— Olhai, criaturas — disse ela em tom de confidência ao seu grupo, uns quinze homens e mulheres — eu sei de uma casa onde há para cima de sessenta alqueires de trigo, que não veem sol nem lua.

— Isso dava pio para mais de cem pessoas aí por uns poucos de dias!

— E eu lá em casa com três crianças a ralarem-me o coração de dia e de noite, coitadinhas! A chorarem, a pedirem-me pão, até de joelhos e mãos postas, doidinhas de fome, e eu sem lha poder matar!

— E eu, mulher de Deus?! A pobre da minha mãe entrevadinha, e os meus cinco filhos todos esbagoados de choro, porque já nem há ervas entre as pedras para as irem roer. Eu já nem tenho alma para os ouvir! A eles e à velhita, coitadinha, que se põe a enganar a fome, rezando a Nossa Senhora que lhe dê a morte!

— Pois sim, criaturas — interveio a padeira — a miséria é de muita gente, mas o que eu sei é que há na cidade quem tem fartura. Deviam de ser obrigados a repartir com a pobreza.

— Obriga-os a gente.

— E a alguns nem era pecado tirar-lhes tudo o que eles têm aferrolhado. Olhai, sabeis quem mora na tal casa onde eu sei que há para cima de sessenta alqueires de trigo?

— Quem é?

— Quem é? Dizei.

— A mulher e a filha daquele negregado judeu rico, o tredo que fugiu com a rainha boneja: D. Judas.

— Bem sei.

— Foi o tesoureiro de el-rei, que Deus haja, e ficou podre de rico. Tem antão aí a mulher e a filha?

— Tem, cheias e fartas, muito alapardadas em certa casa grande, para os lados de Santo Elói.

— Bom sítio para se ir lá.

— E ainda vós não sabeis tudo, criaturas de Deus! Lá têm escondidas consigo as duas judias...

— Nossa Senhora de Escada, que nem o seu amado Filho pode ter dó de uma cidade onde essa peste de gente vive regalada e farta!

— Mas dizei quem é que essas excomungadas têm escondidas consigo.

— A mulher e a filha de um fidalgo bilhostre, que era todo da rainha descarada e agora está com os de Castela, tal como o excomungado de D. Judas.

— Jesus! Que até é uma boa obra ir tirar o pão a essas cabras.

— E a mulher do tredo que anda contra a nossa terra é uma moura de Andaluzia, que o traidor roubou ainda nova e depois se converteu para casar com ele! Quem me pôs tudo isto em pratos limpos foi uma escrava moura que havia na dita casa e de lá fugiu anteontem. Até me contou que as porcas das judias escupiam, na divina imagem do nosso Senhor crucificado!

— Credo! Nem Deus pode ser por uma terra que tem dessas víboras!

E a benzerem-se, nuns grandes gestos de horror, as mulheres propuseram diversos alvitres para salvar a cidade daquela abominável gente, tirando às judias o mal empregado trigo que lá tinham.

— Até será uma bendita limpeza ir lá.

E num crescendo de horror católico e de esfaimada cobiça, algumas propunham já enfurecidamente que, depois de lhes tirarem os haveres, as reduzissem a carvões, entaipando-as em casa e lançando-lhe fogo.

Nisto interveio o remendão pingueiro, que já tivemos ocasião de ouvir.

— Eu cá é que me não ralo. Se há lá vinho, vou, e pouco se me dá que sejam mouras ou judias. Para o beber, tanto se me faz. Lá pelo trigo é que eu não dou um passo. Na fome apertando mais comigo, e só aperta quando o vinho me larga, lá tenho um açougue debaixo do soalho da loja. Cardumes de ratos que parecem láparos. E ando na desconfiança de que já se comem uns aos outros, dês que o cerco começou!

Rompeu contra o sapateiro um movimento de indignação colérica. A padeira verberou-o por esta forma:

— Passa daqui, remendeiro porcalhão! Sangue de burro castelhano é que te tinham de dar a beber, escanzelado borrachão, que de tudo mofas!

Afastaram-se dele e entraram numa taberna que se chamava do Galo Preto, certamente por ter espetado por cima da porta um galo de folha de ferro.

Tinha anoitecido. A maré dos desalentos crescera muito mais do que a outra que de manhã ajudara a meter dentro do Tejo a armada vinda do Porto.

Já tinha corrido o sino da Sé, ou como se disséssemos que passava já das 9 horas, quando se começou a notar um formigueiro de gente miserável para os lados de S. Martinho.

Iam num alvoroço, bichando conversas. Alguns traziam candeias acesas, e um da frente levava um lampião de ferro. Foram subindo e tomaram para os lados de Santo Elói.

Eram decerto mais de cem pessoas; as mulheres, os farroupilhas, os mendigos constituíam a grande maioria do juntamento; mas de onde em onde luziam ponteiras de aço de piques. Gumes de machados, singelos bacinetes de besteiros.

— É ali — disse alto uma mulher, estendendo o braço na direção de certo prédio grande, ladeado de corpulentas árvores.

Para a direita, subindo, ficava a igreja de S. Bartolomeu, para a esquerda uma ruazita estreita que ia dar à antiga Porta de Alfofa, na cerca velha da cidade.

— Ali? Pois vamos à tulha de D. Judas e depois se arranjará o brasido para queimar as judias e as outras do tal que se bandeou por Castela.

— O pior será o alarme do fogo! Pode o Mestre estomagar-se com a gente!

— Pior alarme é o da fome! — objetou a padeira que dirigia a multidão e à qual dera informações a respeito da casa do riquíssimo judeu, que fora tesoureiro de el-rei D. Fernando, depois parcial da rainha D. Leonor Teles, e era agora criatura do rei de Castela — Melhor feito será este nosso que o da armada esta manhã.

— Que entrou e não nos trouxe com que a gente matasse a fome aos filhos!

— Pois aqui está comigo quem sabe bem da fortuna que há naquele ninho maldito de gente judia e de uma raça de traidores.

E a padeira indicou uma escrava moura, velha, que tinha ao seu lado, muito embiocada.

— Esta foi a que fugiu de lá, por causa dos ruins tratos. Fala, mulher, diz a estes pobretões de Cristo, que trazem a barriga pegada às costas, diz-lhes que farturinha de trigo lá têm aquelas negregadas, que fazem judiarias à imagem do nosso Senhor, pregado na cruz, e até lhe cospem em cima.

A velha moura, uma descendente dos muitos cativos que tinham ficado em Lisboa, quando D. Afonso Henriques conquistara a cidade ao poder mauritano, confirmou alto o que a padeira dissera a respeito das afrontas à imagem de Jesus e deu ainda pormenores de mais hediondos sacrilégios.

A multidão rompeu num alarido de cóleras.

— E têm lá uma tulha cheia de trigo? Não é verdade que têm?

— Moura, responde — disse-lhe a padeira.

— É verdade. Não serão menos de trinta sacos grandes — declarou alto a escrava.

— A fartura de uma semana, mulheres de Deus!

— Pelos nossos filhos, pelos nossos velhinhos, para todos nós!

— E entrementes virá Nuno Álvares do Alentejo no nosso socorro.

— Esse é que sabe bem como se vai ao pêlo aos castelãos.

— Vá feito! Ao ninho das serpentes judias!

E eram como uivos de fome e como rugidos selváticos de superstição, os brados com que uns e outros se incitavam por aquele assalto iníquo.

— Acendei as cordas embreadas — clamou a padeira — Moura, guia-nos à porta do celeiro.

A escrava tomou a dianteira de todos. A multidão ia atrás dela, de roldão, a uivar cóleras.

— Cadelas judias! — rouquejavam umas esfarrapadas com os punhos no ar, ameaçando — Viveis cheias e fartas, e eu tenho lá no seu nicho de trapos os meus pequenitos a chorarem de fome!

* * *

 

 

Tinham já escavacado à machadada a porta do quintal. Era por ali o caminho mais perto para a tulha.

Outros, homens e mulheres, abriam a machado a porta principal do prédio.

Dois vultos brancos de mulheres tinham assomado à varanda alta. O céu estava toldado de nuvens, mas a luz vermelha de dois archotes que os assaltantes tinham erguido alto, para que todo o prédio se visse bem, iluminava tragicamente aquelas angustiadas figuras.

— Por piedade e em nome do céu! — suplicava uma delas, nova e gentil, morena de cabelos negros, tipo acentuado de judia.

— Pela divina Mãe de Jesus, não nos façais mal! — pedia a outra, de mãos postas, arquejante, com os seus grandes olhos espavoridos, como se aquela chama vermelha dos archotes fosse o prenúncio de uma enorme desgraça.

Era ainda mais nova que a outra, branca de neve, cabeça dourada como os arcanjos dos altares.

Os gritos de uma e outra, numa tremura de medo, num timbre de dor indefinível, cortados de soluços, vibravam por entre o estalejar sinistro da porta golpeada e as torvas ameaças da multidão, como por entre os rumores de uma tempestade o grito dolente de duas aves espavoridas nos ares.

— Parece a porta de um castelo! Seguravam-se bem estas malditas!

— Mas vai dentro em cavacos!

— Por misericórdia! Nós não fizemos mal a ninguém! — alegava uma delas a chorar, mãos enclavinha-. Das na grade de ferro, a cabeça inclinada para baixo, com os cabelos já soltos, em ondas revoltas.

E a outra mais nova, imensamente pálida, caiu de joelhos contra a grade, a soluçar orações.

— Ah! Vai dentro a porta!

— Acaba-se com a judenga vil!

— Queima-se o ninho das serpes!

— Aleluia e queima de judenga à segunda-feira!

— Fogueiras antes do S. João!

— Para as mulheres de D. Judas!

— E mais pelas outras do traidor!

— Mãe de Jesus, misericórdia! — suplicou a mais linda e a mais nova, encostando aos varões da grade a sua cabecita angélica, emoldurada numa juba de cabelos louros, como filigrana subtil de ouro pálido.

— Trigo! A tulha cheia de trigo! — regougaram os que tinham entrado pelo quintal.

— Viva Deus, que está a porta em cavacos!

— Vá para dentro!

E foram todos de cambulhada contra a porta, bramindo, acotovelando-se, numa fúria doida.

— As excomungadas têm uma grade de ferro ao topo da escada! Duas mulheres mais idosas correram para a varanda como loucas. Era uma delas a esposa de D. Judas, a outra, a esposa de um fidalgo que se bandeara com os de Castela.

— Filha, desampara-nos Deus! — exclamou numa angústia imensa a mais velha, a esposa do judeu.

— Madalena! — soluçou a outra mãe — Filha, que me não quis ouvir Nossa Senhora!

— Estão a quebrar a grade! — gritou de dentro uma serva.

— Socorro! — suplicou, debruçada da varanda, num esforço supremo, aquela a quem a mãe dera o nome de Madalena — Alguém piedoso... Que seja por umas pobres mulheres sem defensa!

Vinha um homem subindo rapidamente, talvez porque o ruído da multidão o houvesse sobressaltado.

E um maltrapilho, que estava na cauda dos assaltantes, de archote erguido, voltou-se para cima ameaçador:

— Espera, gata miadeira, que te havemos de esganar, antes que venha alguém acudir-te.

E o clarão do archote, que dava um tom fantástico de lenda àquela figurinha branca de mulher, linda e juvenil, de cabelos de ouro como as santas e as princesas dos retábulos góticos e dos livros de Horas, projetava também uma ténue claridade sobre a figura do homem que subia.

Reluzia-lhe um firmai de ouro no gorro emplumado, trazia um manto branco, pendente, deixando ver a cota de cruz vermelha e brasão fidalgo e o punho em cruz de uma longa espada. Era jovem e forte, sem nenhuma dúvida um cavaleiro.

Viram-no bem, como visão providencial, os olhos lacrimosos de Madalena.

— Acudi-nos! — disse-lhe num grito de súplica — Sede por nós, cavaleiro!

— Senhora, sim — respondeu-lhe, correndo direito à multidão, ainda a ulular desesperos, enquanto no cimo da escada uns homens batiam inutilmente com os olhais dos machados contra os varões de ferro de uma grade — Tende-vos, assaltadores de mulheres, que vos mando em nome do Mestre!

Num movimento de enorme surpresa, a multidão um pouco se esbandalhou, hesitante.

O tom altivo e firme da intimação, feita em nome do Mestre por aquela soberba figura de cavaleiro, surgida ali como por encanto, deixou em todos aqueles ânimos uma impressão de receio e de deslumbramento.

— Um cavaleiro que vem em nome do Mestre! — preveniu sumidamente um homem, voltando-se para os que estavam na escada.

E logo se extinguiu a vibração dos ferros batidos pelos olhais dos machados.

— É vilania ameaçar mulheres, é de ladrões assaltar casas pela calada da noite! Afastai-vos! — mandou, impondo-se com dominadora arrogância.

A multidão recuou mais, acabrunhada; mas logo, num movimento de reação, umas poucas de mulheres avançaram para ele, apoiadas por quatro ou cinco homens, armados de chuços.

— Mas quem sois para assim quererdes mandar em nome do Mestre?!

— Sou alguém capaz de vos mandar no seu próprio nome e obrigar-vos a cumprir o mandado!

— É o da galeaça da batalha desta manhã! — disse alto uma das mulheres, afirmando-se nele — É o que há três meses mandou desafiar o Condestabre de Castela!

E era efetivamente Ruy de Vasconcelos.