A Ala dos Namorados
Segunda Parte
A EPOPÉIA
CAPÍTULO I
OITO MESES DEPOIS
Estamos em meados de junho de 1385. Tão agitados por grandes acontecimentos políticos foram os meses decorridos desde aquela manhã de outubro, em que Leonor de Gusmão saiu do palácio de D.
Dulce, num estonteamento de amargura, que não podemos deixar de resumir aqui os factos justificadores da situação em que vamos encontrar o país e algumas individualidades preponderantes, que são já do nosso conhecimento.
A 14 de outubro, el-rei de Castela passara a fronteira, entre aquele tresmalhado exército que não pudera tomar Lisboa.
Com o seu admirável poder evocador, Fernão Lopes dá-nos numa dúzia de linhas, de singelo e dramático esboço, todo o quadro sugestivo daquela retirada.
Referindo-se à vanguarda dos mortos naquele préstito funerário, escreveu: Eles iam todos diante sem mistura de outra gente de armas e cada um levava o seu senhor no seu ataúde coberto de dó, posto em cima de uma azêmola, e ao redor dela todos de pé, vestidos de grande luto, e detrás os de cavalo, que o acompanhavam na vida, com a bandeira das suas armas. Logo outros acerca dele, e assim, iam todos juntos um perante outro, por grande espaço de caminho, a qual procissão era triste e dorida de ver. El-Rei de Castela ia detrás com as suas companhas assaz de bem anojado...»
Para lá da fronteira afastaram-se as mesnadas(*) e os ataúdes cada uma para as suas terras e cada um para as jazidas das suas capelas solarengas ou das catedrais da sua terra natal.
[(*) Os contingentes de homens de armas e de peonagem dos grandes senhores e fidalgos, na maior parte ao soldo do rei.]
De Ciudad Rodrigo, em fins de outubro, escreveu el-rei de Castela uma carta à cidade de Leão, dando-lhe conta do apertado cerco em que tivera Lisboa e das razões porque se vira forçado a levanta-lo.
Indica-lhe o grande número de vilas e castelos que tem por si em Portugal (nada menos de 71) e pormenoriza que naqueles lugares deixou guarnições castelhanas. Mais de nove mil homens de Castela, afora os parciais portugueses da rainha D. Beatriz.
Notava-lhe el-rei que, no espaço de oito ou dez léguas em volta de Lisboa, não havia castelo nem vila importante que não fosse por ele, e prometia-lhe que, depois de trocadas as suas tropas e reunidas outras, voltaria a Portugal no próximo verão, para acabar aquela demanda que tinha começado. E com este orgulho otimista se referia à famosa demanda, en la cual, con la merced de Dios, hai muito poco de acabar segun el estado en que queda...
Queria isto dizer claramente que el-rei de Castela se ia preparar para outra invasão, e no estio de 1385 contava ter arrumada a fácil conquista da herança da sua esposa.
Entretanto, sempre era bom alcançar o patrocínio celeste, e a 19 de novembro lá estava el-rei em Santa Maria de Guadalupe, aonde fora em piedosa romagem com D. Beatriz de Portugal, a esposa de onze anos, que ele tutelava.
Lá foram para “rendir gracias à nuestra Senora de haberles librado de la epidemia, y à implorar su protecion para la siguiente conipana.”
A 24 o Mestre de Avis fora de arrancada contra a guarnição castelhana do castelo de Sintra; mas a fortaleza, empoleirada em abrutas penedias, não se tomava de arremesso, e o empreendimento malogrou-se.
Quatro dias depois a esquadra castelhana levantava o bloqueio e desaparecia do Tejo. Era oportunidade favorável para atacar os castelhanos que guarneciam a vila e o castelo de Almada. E com tão boa vontade o aproveitou o Mestre, que a guarnição capitulou.
Para limpar de invasores as terras vizinhas de Lisboa, partiu o Mestre com outra expedição sobre Alenquer, que também capitulou.
Veio uma revés parcial ensombra estes cometimentos bem sucedidos. Pondo cerco aos castelhanos que guarneciam Torres Vedras, o mestre da ordem de cristo e o prior da ordem do Hospital (*) foram vencidos numa impetuosa sortida dos sitiados e ficaram prisioneiros.
[(*) Ordem militar dos cavaleiros chamados hospitaleiros. Tivera assinalada origem nas ordens do Santo Sepulcro e de S. João de Jerusalém, fundadas na Palestina, e de onde derivou a dos cavaleiros da ilha de Malta.]
Foi então cerca-la D. João I com as maiores forças de que podia dispor. Entretanto, passado já a oportunidade de pôr em prática o seu temerário plano de ir ao encontro do exército castelhano em retirada, Nuno Álvares cansara-se de esperar em Palmela que o Mestre chegasse com a gente de armas de Lisboa, e partira com a sua hoste para uma nova campanha no Alentejo. Apoderou-se de Portei e foi cercar Vila Viçosa, que se lhe não rendeu.
Entrara o ano de 1385. Nuno Álvares viera a Lisboa e fora com um troço de homens de armas ajudar o Mestre no cerco de Torres.
Alguém do lado dos portugueses conspirava ali contra o Mestre, alguém da nobreza; mas a conspiração descobriu-se a tempo, malogrou-se, e os chefes do abominável conclui foram presos e justificados.
Torres não capitulava, e o Mestre largou do cerco para ir a Coimbra reunir as cortes. Por esse tempo os partidários da filha de D. Leonor Teles, rainha de Castela, conseguiam outra vez que Alenquer se voltasse contra o Mestre.
Em Coimbra a receção ao Messias de Lisboa foi entusiástica e com arrebatamentos de enternecimento filial como nenhum rei ainda teria visto ali.
Houve uma aleluia doida de júbilos quando a procissão dos patriotas de Coimbra, com o clero à frente, de cruz alçada, foi ao encontro do Mestre, a uma légua da cidade, uma avultada légua de caminho por onde enxameava gente de todas as condições.
E as mulheres com mais afincado enternecimento e mais calorosa expansão de entusiasmo por aquele chefe que defendera Lisboa e por aquele paladino de lenda que vinha ao lado dele e trazia à cinta a espada que mais se temia em Castela — Nuno Álvares.
Até ás crianças aclamavam os dois na sugestiva comoção daquele lance!
Antes que as cortes decidissem o caso da sucessão ao trono e os legistas esmiuçassem a questão de direito, já os beirões de Coimbra tinham confirmado em brados febris de aclamação a realeza que o povo de Lisboa, meses antes, outorgara ao Mestre no famoso comício do largo de S. Domingos.
Foi demorada a discursão em cortes; os legistas falaram demasiado, mas João das Regras, valendo mais que todos eles, sustentou magistralmente a questão de direito em favor do Mestre, e a vontade insubmissa de Nuno Álvares, arrastando consigo a juventude fidalga, consolidou-lhe o triunfo.
Também ali havia oposição, e por parte de Martim Vasques da Cunha, representante da nobreza com assento no 8.° banco, foi de verdadeiro obstrucionismo, como hoje se diria, o seu teimoso propósito de esmiuçar legitimidades.
Chegou mesmo a referir-se ao Mestre, à sua vida pública e ás suas condições sociais com tal audacioso desassombro, que talvez causasse estranheza nos parlamentos mais livres do nosso tempo!
* * *
Merecem o resumo de algumas linhas aquelas extraordinárias cortes, que levaram largo tempo a discutir uma coisa que o povo de Lisboa já tinha resolvido e, com ele, a parte da nação firmemente portuguesa.
Bem sabemos já como em S. Domingos o Mestre de Avis foi aclamado rei pelo terceiro estado; o Porto não ficou em desacordo com a capital e o povo de Coimbra, quando foi em procissão esperar o Regedor do Reino, também fervorosamente o aclamou como reinante, sem que lhe importasse o que viriam a decidir o alto clero e a nobreza nas cortes convocadas.
Refere Fernão Lopes que os da procissão bradavam pelo caminho alegremente:
Portugal! Portugal! Por el-rei D João, em boa hora venha o nosso rei.
Que lhe importavam à arraia miúda os ajustes feitos em Salvaterra em abril de 1383, as juras e menagens dos fidalgos a D. Beatriz e ao marido, um mês depois em Badajoz, ou a controvertida legitimidade dos filhos de D. Ignez de Castro?
Para o povo, que não queria ser de Castela, só havia um português com direito a ser rei de Portugal. Era aquele, o Mestre de Avis. Não fundamentalmente por ser um filho de D. Pedro I, como era o falecido monarca D. Fernando ou como eram os dois infantes nascidos dos amores com Ignez de Castro; mas por ter sido ele o defensor da pátria e o chefe do povo na conjuntura em que Portugal esteva a pique de se perder.
Para o coração patriótico das multidões, a bastardia, na sua pior aceção, estava do lado daqueles que se presumiam herdeiros. D. Beatriz era a esposa do rei estrangeiro que invadira Portugal para o tornar vassalo seu, e aos dois filhos de D. Ignez de Casiro os considerava o povo uns desnacionalizados. Tinham entrado à mão armada no seu país, um deles com o rei Henrique de Castela, o outro, numa parceria criminosa, com os castelhanos de D. João i, em desalmada hostilidade contra os seus compatriotas.
Não havia direito hereditário que pudesse resgatar perante a alma portuguesa a má fé e a iniquidade do rei estrangeiro, nem a rebeldia odiosa dos dois filhos dessa infortunada amante, que D. Pedro I levantara da sepultura para uma coroação teatralmente trágica.
A alma do povo compreendeu a funesta e ingrata iniquidade que seria antepor os contestáveis direitos dos pretendentes que estavam em Castela aos outros que o Mestre ganhara, lutando pela causa santa da nação.
As cortes teriam afinal de sancionar o voto das multidões para não perder Portugal. Como o terceiro estado, uma parte do clero e da nobreza levara para a assembleia constituinte do paço de Alcáçova de Coimbra a previsão dos largos destinos nacionais que o Mestre simbolizava.
A assembleia organizou-se com uma pequena parte do alto clero, em que entravam um arcebispo e seis bispos, com mais de cinquenta representantes da nobreza e da alta magistratura e com cinquenta procuradores das vilas e cidades fieis de Portugal.
Os Vasques da Beira opuseram-se com incendida pertinácia à eleição do Mestre, não por abastardamento de sentimentos patrióticos, mas um pouco talvez por causa das suas antigas relações de amizade com um dos filhos de D. Ignez de Castro e, mais, provavelmente, pelas suas prosápias de homens preponderantes, num empenho de oposição pessoal a D. Nuno Álvares Pereira e aos seus parciais, defensores inabaláveis da candidatura de D. João.
Voluntariosos, assomadiços, de indomável orgulho, é provável que um pouco os mordesse o ciúme pelo valimento, que tinha Nuno Álvares e lhes desse estímulo para aquela contenda obstrucionista a sobranceira firmeza com que o jovem vencedor dos Atoleiros mantinha as suas opiniões.
E tanto esta hipótese é aceitável, que se não fora o intervenção conciliadora do Mestre, a discussão entre as duas parcialidades fidalgas desfecharia num conflito deplorável de batalhadores. Pouco faltou.
João das Regras empenhou devotadamente todo o seu talento de letrado e todas as suas argúcias de aumentador em prol do Mestre de Avis.
Ninguém ousara ali defender os direitos da herança de D. Beatriz e do marido, mas o famoso causídico, um pouco talvez por amor da arte, porfiadamente os rebateu, demonstrando a nulidade do segundo casamento de D. Leonor Teles e, portanto, a condição ilegítima de D. Beatriz e alegando o perjúrio com que D. João de Castela quebrou e anulou os encargos tomados em Salvaterra e em Badajoz.
Mas contra os supostos direitos hereditários dos filhos de D. Ignez de Castro, acanhadamente mantidos pelos Vasques da Beira, foi que o Dr. João das Regras pôs em ação todo o seu arsenal de argumentador. Discutiu o suposto casamento clandestino da amante de D. Pedro, a sua legalidade» dado que se tivesse realizado, e legitimidade dos filhos como herdeiros, leu cartas pontifícias, evocou testemunhos jurados e gastou nisto largas sessões, pondo os miolos em água aos Vasques e em fervuras de impaciência o sangue insubmisso de Nuno Álvares.
Entretanto, o argumento de efeito seguro para os repulsar da herança da coroa estava afinal dentro deste facto público e incontestável — um e outro, D. Diniz e D. João, tinham entrado à mão afinada no seu país, acompanhando os invasores castelhanos. Pouco valia dirimir as razoes pessoais porque tinham vindo cá.
Foi, porém, a torva atitude do batalhador Nuno Álvares que mais quebrou a teimosia dos soberbos fidalgos beirões, e afinal se decidiu que o Mestre fosse aclamado rei.
Foram levar-lhe a notícia oficial da decisão e nesse lance apresentou D. João admiravelmente o seu papel de homem político. Esquivava-se modestamente àquela investidura de tão alto encargo. Com igual dedicação e fervor continuaria a empenhar-se na defesa do reino, simples cavaleiro como até ali — prometia; pois que, se como chefe tivesse de ficar vencido nalguma decisiva batalha, menor desdouro seria para a nação e de menos alarde para Castela que o fosse na sua qualidade de Mestre de Avis do que levando consigo a coroa de Portugal..
Alegou os seus votos de cavaleiro professo a impedirem-no de contrair matrimónio como cumpria a um monarca, e aconselhou os delegados das cortes a que pusessem de parte a questão da coroa e deliberassem com urgência no tocante aos recursos extraordinários para manter a guerra.
Pois tiveram as cortes de lhe vencer os escrúpulos e de instar com ele para aceitar a coroa! Era sem dúvida nenhuma aquele batalhador de vinte sete anos um hábil diplomata e um grande ator de alta comédia política, tão necessária ás vezes nas conjunturas mais trágicas de uma nacionalidade.
A aclamação fez-se a 6 de abril nos paços da Alcáçova de Coimbra. As cortes votaram o alteamento das sisas para fazer face aos encargos da guerra, e o novo rei atendeu e deu validade aos capítulos(*) apresentados pelos procuradores do povo.
[(*) Capítulos chamavam-se às propostas, pedidos, queixas ou reclamações apresentadas ás cortes. O rei respondia ou não a esses capítulos, e atendia-os ou deixava de os atender conforme a sua vontade.]
Os de Lisboa, esses então obtiveram quase tudo quanto pediram, assinalando uma alta preponderância como o terceiro estado nunca até ali tivera.
Os procuradores da cidade bem sabiam já o muito que podiam esperar da grata e amorável dedicação do novo monarca.
Logo em 10 de abril se tornara pública uma carta régia, que é bem o mais soberbo e glorioso atestado dos heroicos serviços prestados pela capital e do galardão magnânimo, com que o rei os premiou.
El-Rei, ouvidas as cortes, da sua própria autoridade, liberdade, livre vontade e poder absoluto, lhe dá, aprova, outorga e confirmo todos os privilégios, liberdades, bons usos, foros e costumes que os seus antecessores lhe tinham concedido e mais as graças, prémios, doações, liberdades e privilégios que os seus procuradores tinham pedido nos capítulos propostos ás cortes.
Era uma larguíssima ampliação das concessões e doações que tinha feito aos habitantes de Lisboa e o seu termo em 6 de outubro do ano anterior, já por nós resumidas.
Apontaremos apenas as novas concessões que temos por mais altiva afirmação da soberania popular e das imunidades municipais. Dava à cidade, pelas suas autoridades próprias, jurisdição em certos casos, até ali exclusivamente sujeitos à autoridade do almirante ou de capitão-mor das galés. Jurisdição perpétua nos conda dos de Alverca o, Barcarena e nos reguengos.(*) Aplicava as isenções e privilégios dos lisbonenses àqueles que tivessem vindo para defesa da cidade e nela fixaram moradia. Para eles e os seus descendentes.
[(*)Terras do património real. Reguengueiros eram os que pagavam tributos à coroa pelo usufruto dessas terras.]
Aceitava que os selos públicos estivessem sempre confiados a pessoa da escolha do rei, mas que fosse natural de Lisboa.
Assegurava à cidade o direito consuetudinário de eleger anualmente os juízes do seu foro, pois que este costume fora postergado no reinado anterior.
Concedia aos moradores de Lisboa, que fossem portugueses, o uso das suas armas em qualquer lugar do país, e defendia que em qualquer parte do reino lhas tomassem as justiças.
Deferiu que as chaves das portas da cidade fossem confiadas aos representantes do município, dispondo que dois homens bons à escolha dos munícipes as tivessem sob sua guarda numa arca da casa da câmara. (*)
[(*) Havia três chaves para cada porta das muralhas, uma ficava em poder do alcaide, delegado do rei, e as outras duas na arca da câmara. Dali as levavam ao amanhecer para abrir as portas e para lá voltavam logo. À noite tornavam-nas a levar para fechar as portas e reconduziam-nas para a casa da câmara. Isto, é claro, em condições normais.]
Prometia que os serventuários da rainha D. Leonor Teles não seriam reintegrados nos empregos da cidade, que em outro tempo tivessem exercido.
Que não haveria couteiros nem proibição de caça no termo de Lisboa.
Que nada resolveria quanto ás coisas da guerra em que o reino estava empenhado, sem ouvir conselho e tomar acordo com os representantes da cidade, pois que neste empenho tinha sido ela a primeira.
Que poria cobro aos abusos dos fidalgos e cavaleiros no to cante à sua hospedagem na capital, pois que alguns arbitrariamente dispunham, como de propriedade sua, das casas, roupas e mantimentos dos moradores a quem tocava dar-lhes pousada; mas que o município se obrigaria a preparar albergues para os que viessem a Lisboa receber os seus dinheiros.
Mantinha à cidade o direito de escolher os procuradores e advogados que lhe cumpria eleger, ficando a escolha subordinada à confirmação régia.
Anularia o privilégio concedido por el-rei D. Fernando aos estrangeiros residentes, para terem cônsules com o cargo de juízes seus privativos, afrontando assim a jurisdição e os direitos da cidade.
Dava privilégio aos oficiais da coroa, que fossem ou tivessem sido juízes, almotacés, corregedores ou vereadores do concelho, e aos seus filhos e netos, para que não fossem postos a tormento por castigo, senão nos casos em que o deviam ser os fidalgos, visto que pelo foro antigo de Lisboa os cavaleiros da cidade tinham honras iguais aos infanções. (*)
[(*) Os infanções constituíam nos primeiros tempos da monarquia uma classe privilegiada abaixo dos ricos homens, que assim se dominavam os de mais enobrecida linhagem.]
O Rei juraria manter ao povo os seus direitos, fazer-lhe justiça, guardar-lhe os foros e costumes, e conservar-lhe todas estas graças, direitos e prerrogativas.
E depois destas concessões, que representavam outras tantas conquistas do terceiro estado, ainda D. João I alargou consideravelmente o termo de Lisboa, incluindo nele as vilas de Sintra, Alenquer e Torres Vedras.
Também se não esqueceu da leal e valorosa cooperação do Porto e das heroicas provações de Almada, e a uma e outra deu graças de honroso galardão.
* * *
D. João I nomeou Condestável e o seu Mordomo-mor (*) ao jovem vencedor dos Atoleiros e deu provimento definitivo a outros cargos do estado.
[(*) “Condestável” e “Mordomo-mor” Eram os dois mais altos cargos do estado no exército e na corte.]
João das Regras continuaria a ser chanceler-mor do reino, em substituição de Lourenço Anes Fogaça, que fora numa embaixada a Inglaterra, para lá tratar de obter socorros militares e o estreitamento da aliança entre os dois estados.
Agora esse que fora Mestre de Avis tinha de ir defender nos campos de batalha, com a bandeira de Portugal, a coroa que as multidões e as cortes lhe tinham dado.
Dias depois, por meados de abril, o rei de Castela, já em Córdova, depois da longa enfermidade que o retivera em Sevilha, ordenava que a armada voltasse a bloquear Lisboa e que a hoste do arcebispo de Toledo invadisse a Beira, ao mesmo passo que a hoste real ia contra Elvas para a cercar.
Pela sua parte os homens da Galiza outra vez tinham invadido o Minho e era preciso ir rebate-los de lá.
Sem ter ainda conhecimento dos aprestos para a invasão da Beira e do Alentejo, o novo rei partiu para o Porto. O Condestável precedera-o. Era lá que ele tinha a esposa e foi naquela cidade que o monarca lhe fez doação do condado de Barcelos, para o juntar ao outro de Ourem.
Foi um coisa vertiginosa aquela campanha de Nuno Álvares contra as forças da Galiza e os parciais portugueses de D. Beatriz. Tomou os castelos de Neiva, Darque, Viana, Cerveira, Caminha e Monção; depois por ordem do rei, retrocedeu para tomar Braga, e com o monarca foi bater o castelo de Guimarães, que se lhes entregou em maio. Dias depois tomavam o castelo de Ponte-do-Lima.
* * *
Voltemos ao paço de D. Dulce. Logo em fins de outubro teve o filho uma recaída gravíssima, que outra vez o pôs em perigo de vida. O ferimento da garganta inflamara-se-lhe e tomou tão mau aspeto, que o físico chegou a prevenir a pobre mãe do fúnebre desenlace com que contava. A febre era violentíssima, uma febre maligna como a diagnosticava a medicina daquele tempo.
Ao cabo de longos dias de tortura para ele, e mais decerto para a mãe, a doença deu volta, como o físico dizia, e as boas esperanças voltaram.
A convalescença foi longuíssima e Ruy soube da partida do Mestre e dos seus companheiros do esquadrão dos Namorados para o cerco de Torres e depois para as cortes de Coimbra. Soube-o com profunda e indefinível tristeza de alma.
Mas não podia ir. Não lhe dariam as forças para as longas jornadas e, menos ainda, para voltear nos ares a sua pesada lança.
Fazia dó. Tinham-se lhe cavado os olhos e as faces e sobre a palidez baça do rosto como que se derramava o clarão febril do seu olhar entristecido.
— Esperarei, — disse um dia com amarga resignação ao tio Mendo — esperarei que Deus me de alento e então irei resgatar este muito tempo perdido.
Em meados de junho, já mais refeito de forças, mais a prumo aquele corpo que lhe andara dobrado como se fosse de velho, soubera Ruy do êxito brilhante da campanha do Minho por uma larga carta em que o Magriço lhe referia as audácias felizes dos Namorados, cada vez em maior número, mas ainda sem constituírem hoste independente e distinta das outras, como era desejo de todos. Parte com a hoste d’el-rei, outra parte com o Condestável, e assim andamos espalhados com grande desgosto de todos nós, meu querido Ruy — dizia-lhe Álvaro Coutinho.
— Um dia será, talvez muito breve — comentou o convalescente há de ser hoste que se não confunda com outra qualquer e, tantos hemos de ser, que nalguma grande batalha haveremos de formar ala que dê nome e de alguma glória seja para esta nossa terra. Hei de eu ir fazer o pedido a El-Rei e ao Condestável. Antes a Nuno Álvares talvez, que tem mais sonhos e mais coração jovem que o rei. Ainda sou capaz de ir ter com eles ao Minho. Mais uns dias e vou.
* * *
A tia Lourença ia de vez em quando a casa de D. Dulce para saber dela e do filho.
Se ia de manhã cedo, era quase sempre o velho Gonçalo Vasques quem lhe falava, ao vezo de saber notícias; mas, se ia mais tarde, a ilustre dona do paço mandava-a entrar para os seus aposentos e ficava-se a conversar com ela por largo tempo.
Ás vezes era a respeito da desventurada Leonor de Gusmão que as duas mais conversavam.
Desde que saíra daquela casa nunca ninguém mais soubera dela, apesar das constantes indagações que D. Dulce mandara fazer e das reiteradas pesquizas que a intrépida regateira tinha feito pela sua devoção particular.
Naquele dia, era pelo S. João, a Lourença foi lá por volta das 11 horas e então não esperou que D. Dulce a mandasse entrar para conversarem, pediu ela para lhe falar. A ilustre senhora mandou-a logo conduzir para a saletazita de costura.
— Deus vos salve, senhora minha.
— E a vós, senhora Lourença. Vindes com cara de caso!
— De dois casos é que é, minha nobre senhora.
— Querem ver que destes vós com o paradeiro da infortunada?
— Dar não dei, mas estou na suspeita de que posso dar.
— Pois assentai-vos aí e dizei.
— Já me não inclino a crer que a desgraçadinha, tão linda e tão mimosa, mal empregada! Se tivesse deitado ao rio para morrer!
— Disso também eu me lembrei com grande mágoa da minha alma, pois seria o maior pecado da sua vida!
— -Não, senhora minha; agora já não é para aí que vai o meu sentido. Quis Deus que ontem à noite me fosse lá dar ao casinhoto o hortelão velho decerto convento de monjas, que ao depois vos direi. O velhote vinha cheio de mágoa e de queixas contra as madres, que o tinham despedido, e, como era meu conhecido antigo, lá me surdiu para desabafar comigo. Palavra puxa palavra, as palavras são como as cerejas, e com a má vontade que trazia ao mosteiro, e mormente à abadessa, o homenzinho começou a descoser-se a respeito das coisas que lá se têm passado.
— E deu-vos alguma nova de D. Leonor, estou já adivinhar!
— Não foi bem assim, senhora minha. Notícia certa não me deu nenhuma; mas eu ajudei-o disfarçadamente a despejar o saco, e o velho falou-me de uma linda jovem que pra lá tinha entrado, vai em oito meses, muito chorosa e mortificada. Ele por acaso a viu entrar e, bem que não saiba dar sinais certos, pois que só reparou que era jovem e bonita, alguma coisa disse que me fez desconfiar...
— Que fosse aquela desditosa dama?
— Isso mesmo foi o que eu logo pus na minha ida.
— E o dia?
— Disso é que o velho se não recorda. Que foi em outubro é que ele tem bem na ida.
— E nunca mais a tornou a ver?
— Nunca mais. A ordem é muito apertada de rigores. Criaturinha que lá entre para se entregar ao nosso Senhor, nunca ninguém mais, que não sejam as outras monjas, lhe põe a vista em riba! Basta que eu vos diga, senhora minha, e isto me contou o velho como se fosse o segredo maior de mosteiro, que até lá têm um nicho em certa parede oculta onde em tempo esteve uma emparedada. Lá com o seu desgosto e com aquela espinha de o terem mandado embora atravessada no coração, o velho pôs tudo em pratos limpos.
— Admira que o tivessem despedido, sabendo ele de tudo isso!
— Mas as madres é que não sabiam que ele tinha dado casualmente com o tal nicho de meter gente. Santo nome de Deus, que até faz arrepiar! Eu já tinha ouvido dizer o que era, e uma vez fui ver o nicho daquele Fr. João que estava emparedado numa barroca, do lado de fora das portas de Santa Catarina. Havia lá uma casinha de pedra e vai o santo frade, que viera de Jerusalém, onde pelos modos já tinha estado emparedado, foi ali meter-se e pediu que lha tapassem toda a pedra e cal e só no alto da porta lhe deixassem aberta uma fresta por onde lhe entrasse o ar e lhe pudessem meter lá pra dentro o pão e a água! Credo! É uma sepultura posta a pino para alguém morrer aos poucos, de pé! E era da tal fresta que ele falava à gente que lá ia pela sua devoção. Até lá foi um dia ouvi-lo o Mestre de Avis, agora o nosso rei. Haveis de ter ouvido falar.
— Ouvi... Creio que ouvi — respondeu-lhe como quem está a pensar nalguma coisa inquietadora.
Lembrara-lhe a carta em que Magdalena se considerava uma emparedada no mundo e, associada a esta lembrança, agora se recordava do modo como Leonor notara aquela comparação e a tomara para si.
— Quem sabe? — perguntara à sua própria alma, oprimida de dó.
— Nos conventos das freiras também há emparedadas, ou houve — continuou a tia Lourença. Uma mulherzinha do Porto, que era muito minha vizinha, contou-me uma vez, que sabia de algumas que lá tinha havido como fama de santas.
— Mas olhai cá: o velho disse-vos que estava alguma monja emparedada nesse tal convento?
— Disse-me que não estava lá nenhuma, que ele tivesse percebido. Senhora, perdoai, mas porque mo perguntais?
— Por uns receios só meus, em que não vale a pena falar.
— Já entendo. Receios de que a pobrezinha, tão amargurada do mundo afinal se quisesse lá sepultar em vida?
— Sim, talvez isso. Eu tratarei de ver se posso procurar o Senhor Bispo ou pedir a quem no meu nome lhe fale, para se evitar algum desvairo daquela mortificada dama, dado que se trate de D. Leonor, como creio.
— E eu agora, como se já tivesse a certeza! Fez-me muito dó e tomei-lhe amizade. Só Deus sabe o que eu tenho chorado por ela!
— E nada mais sabeis?
— Senhora, sei o outro caso em que vos queria falar.
— E esse também a respeito de D. Leonor ou dalguém desta casa?
— Minha nobre Senhora, disse-lhe numa súbita mudança de rosto, um intenso fulgor de júbilo nos seus olhos de pálpebras engelhadas — este agora é caso de outra laia; é a respeito de nós iodos, pois que da nossa terra se trata! Estou a perceber que ainda nada heis ouvido acerca dele!
— Não sei a que vós quereis referir, — volveu-lhe alvoroçada — nem a mim me vieram contar nada de novo! Querem ver que algum desastre sucedeu na guerra do Minho? — disse sem lhe ter notado a expressão radiante do olhar.
— Isso sim, senhora minha! Pôs-se Deus do nosso lado, e a alma da nossa gente está merecendo bem que o nosso Senhor lhe dê boa fortuna. Agora foram os beirões que deram uma esfrega mestra nos negregados de Castela Estava o povo todo alvoroçado no Rocio a ouvir um escudeiro jovem, que esta manhã chegou de Trancoso com mensagem do fidalgo Martim Vasques da Cunha para os vereadores e para os da Casa dos Vinte e Quatro. Também venceram a sua batalha os fidalgos da Beira e, pelo que o dito escudeiro conta, foi uma batalha desenganada a que eles venceram! Bom S. João trouxeram eles à nossa terra e com maior gana hão deste ano saltar as fogueiras os rapazes e as meninas beiroas! E os castelões gadelhudos perdoai me esta gana com que eu deles falo, apanharam aquela tosquia depois de março! Foi para seu castigo! Contava o escudeiro, estava a conta-lo ao mestre Afonso Eanes, contava que os malvados tinham deitado fogo a Celorico e Viseu, a fora o mais de roubalheira e desonestidades que eu ouvi muito por alto! Talvez ainda o senhor Ruy não saiba desta boa nova?
— Provavelmente não sabe, porque ainda hoje não saiu, mas vou eu levar lhe a notícia.
— Pois ide, ide, senhora minha, que o vosso filho é um dos que têm mais alma para dar a esta nossa terra. Ficai com Deus e perdoai alguma palavra que fosse de menos respeito para vós. Não foi com má intenção.
— Isso sei eu bem.
— As mulheres da minha ralé trazem o coração muito ao pé da boca, e dizem as palavras sem irem embiocadas, pão pão, queijo queijo, e chamam ás coisas pelos seus nomes. E eu cá por mim, em se tratando daqueles malditos castelões, até a língua me parece espada contra eles!
— Bem sei, bem sei — volveu-lhe a sorrir. Ide com Deus e aparecei para combinarmos o que se há de fazer para encontrar o paradeiro de D. Leonor. Ide com a melhor vontade do meu coração!
— Minha nobre senhora, amanhã voltarei cá, se Deus Nosso Senhor quiser.
— Pois sim. Até amanhã.
* * *
Ruy estava na sala de armas com o tio Mendo e o Gonçalo Vasques.
— Ora vai o tio ver se eu ainda não tenho forças para brandir nos ares, por meia hora seguida, esta lança grande com que o meu avô se fartou de golpear mouros na batalha do Salado.
E arrancou a da panóplia.
— Grande batalha foi e boa e desinteressada glória ganharam lá os nossos, ajudando a salvar da invasão moura todos os reinos das Espanhas — memorou Mendo Rodrigues.
— Das maiores, segundo contam — dizia Ruy a sopesar a lança.
E o Gonçalo Vasques, de olhos nele, a sorrir, com um grande enlevo paternal.
— Que a outra das veigas de Santarém, contra o poder do Miramolim de Marrocos, no tempo do senhor D. Sancho i, não foi menos terrível — recordou Mendo Rodrigues — e nessa esteve o bisavô da tua mãe, já homem idoso de noventa anos como aquele grande cavaleiro de Beja...
— Que foi Gonçalo Mendes da Maia, no tempo do senhor rei D. Afonso Henriques — acudiu Ruy, floreando a lança formidável. Já a aguento bem. Falta experimentar se serei capaz de fazer o mesmo com a armadura vestida.
— Para que batalhas se está então preparando o meu dom cavaleiro da hoste dos Namorados? — perguntou da porta D. Dulce com um pálido sorriso.
— Minha mãe! — disse indo para ela enternecidamente. Estava a experimentar forças — explicou, beijando-lhe a mão.
Ainda é cedo, Ruy. O físico já me disse que só daqui a duas ou três semanas poderás ir juntar-te à hoste do senhor D. João i.
Ensombrou-se-lhe o rosto de tristeza e logo, por disfarce, acrescentou:
— Falavam de batalhas antigas; eu ouvi ali da porta. E já agora, que é da guerra que mais se fala, até eu venho trazer-vos noticia de uma batalha, não de há séculos, mas tão nova, que é já deste mês e talvez da semana que passou.
— No Minho? — perguntou Ruy com alvoroço.
— Não, na Beira foi que ela se deu e muito perto de Trancoso.
— E quem venceu?
— Venceram os nossos.
— -Mãe e senhora minha, como soubestes vós de tal batalha, e quem nos diz que não seja algum boato falso?!
— Alguém o ouviu a pessoa que de lá veio, não decerto para nos trazer uma falsa notícia.
Um criado apareceu à porta e disse:
— Senhor Ruy, meu amo, mestre Afonso Eanes chegou e muito deseja falar-vos em companhia de um desconhecido, que se diz escudeiro do nobre senhor de Trancoso.
— Pois que entre para aqui com esse escudeiro, se é do vosso agrado, Mãe e senhora.
— Decerto que é. E vais ter agora quem te conte bem o mais que eu te não sabia dizer.
* * *
Afonso Eanes entrara com o escudeiro, jovem de vinte anos, pertencente a uma honrada família de Trancoso.
Breves saudações, a apresentação do recém-chegado em meia dúzia de palavras, e logo o Juiz do Povo expôs o intento com que viera.
— Quis parecer-me — disse para Ruy de Vasconcelos — que muito vos havia de aprazar ouvir contar uma honrada batalha que os da Beira, há poucos dias, venceram a gente de Castela, e por tal pensar foi que pedi a este senhor escudeiro o favor de me acompanhar à vossa presença, para que ele vos dissesse como o feito se praticou.
— Com o maior aprazimento do meu coração ouvirei as vossas notícias, senhor escudeiro, e muito vos agradeço a lembrança de aqui vires com tal agradável mensageiro, mestre Afonso Eanes, honrado Juiz do Povo.
D. Dulce sentara-se no escabelo alto de espalda e os homens em escabelos rasos, em volta da grande mesa. O escudeiro, beirão moreno, esbelto, de rija musculatura, figura atraente de lutador aventuroso, pediu licença à ilustre senhora para ficar de pé e foi resumindo por esta forma, com sugestivo desvanecimento, a proeza dos beirões, seus conterrâneos:
— Senhora minha, perdoai se não souber contar bem como o feito se deu naquela comarca da Beira e bem nas vizinhanças daquela terra de Trancoso onde eu nasci e minha, mãe morreu. Mal chegou este mês do S. João, soubemos nós que os de Castela tinham entrado na Beira pelos lados de Almeida, que está por eles, e tudo vinham devastando, sem piedade para ninguém. Eram homens de prole com a sua peonagem esses que D. Pedro Tenório, arcebispo de Toledo, convocara e em Ciudad Rodrigo se juntaram para aquela investida. De quatrocentas lanças, distintos cavaleiros, duzentos ginetes e dois mil besteiros e peões, soubemos que era a hoste que vinha ao mando de um tal Castanheda, fidalgo de grandes ousadias e de farroncas ainda maiores que os feitos. Isto afora outra gente de menor valia, que os vinha acompanhando para os roubos e devastações. Por má fortuna da minha comarca, andavam desavindos e pareciam inimigos de figadal rancor os dois mais poderosos e valentes senhores daquelas terras. Eram eles Gonçalo Vasques Coutinho, alcaide-mor de Trancoso, e Martim Vasques da Cunha, senhor de Linhares. Nem um nem outro se queria descer do seus ressentimentos, e por tal desavença se não juntavam para ir tomar o passo aos de Castela, pois que a um deles havia de pertencer o mando da hoste e nenhum dos dois queria ser o segundo. Vieram então chegando pessoas espavoridas dos lados de Pinhel e Viseu, e o que essa pobre gente contava dava horror! Os campos estavam arrasados, as aldeias desertas, as searas a arder, tudo roubado, igrejas, solares, casebres, e a cidade de Viseu a sumir-se nas suas próprias cinzas!
— Meu Deus, que horror de guerra! — exclamou D. Dulce num confrangimento de dó.
— Essa hoste do Castanheda não passava afinal de um bando de malfeitores! — disse Ruy de Vasconcelos num impulso de rancor.
— Dos piores malfeitores, senhor cavaleiro! — confirmou o narrador. De tal empedernida crueza e danado ânimo, que violavam mulheres e matavam pobres velhos inofensivos, só para fartarem o ódio que nos têm por este grande crime de não querermos Portugal sujeito a el-rei de Castela! E aos que eram de famílias nobres ou homens novos e fortes do povo os tomavam por cativos, no sentido de vender os fidalgos pelo preço do resgate, e tornar servos seus os outros de condição humilde!
— E por causa de uma desavença entre dois homens da mesma raça e da mesma terra, se deixava o passo livre a esses salteadores de balsões fidalgos! — comentou Ruy com profunda repulsão.
— Assim foi por desgraça nossa! E ao desamparo uma tão antiga e ilustre cidade como Viseu! Lá houve ainda quem a defendesse e da Sé fizesse uma torre de menagem para a derradeira luta; mas o templo ficou alagado de sangue, os altares foram roubados e a cidade entregou-se quase reduzida a cinzas! Alfim quis Deus que os dois desavindos senhores da Beira viessem a entender-se como homens de honra e leais portugueses.
— Talvez na mágoa e no remorso de verem assim devastada e em tais horrores a terra que os dois podiam e deviam defender? — disse Ruy.
— Assim o creio também. O que os fugitivos de Viseu e das pobres aldeias mortas, tresmalhados e a monte pelas vizinhanças de Linhares e Trancoso, vinham contar confrangia de dó e queimava de vergonha e desespero! Mas sabei que o nobre alcaide de Ferreira Daves, João Fernandes Pacheco, muito fez e muito de alma se empenhou para que melhor e mais facilmente se entendessem e perdoassem Gonçalo Vasques Coutinho e Martim Vasques da Cunha. E então, o de mais alta prosápia e maior poder, que era Martim Vasques, rejeitou o mando que lhe cabia e quis que fosse dado ao outro, seu inimigo da véspera!
— Mais assim se enobreceu! Falou tarde, mas falou alto, o seu coração de homem leal! — disse Ruy calorosamente.
— Depois era ver como os dois andavam ao desafio em qual havia de empregar maiores esforços e pôr mais alma no resgate e no desforço daquela funesta invasão! De afogadilho e como era possível, se juntaram umas trezentas lanças e uma multidão de peonagem mal armada, lavradores bisonhos muitos deles. Ao todo uns dois mil para rebater a hoste de Castanheda! Soube-se então que os de Castela, avisados de que havia enfim alguém que fosse contra eles, se iam meter nas suas terras para pôr a salvo os avultados roubos que levavam. Da nossa parte se resolveu que lhes fôssemos ao caminho cortar a retirada. E como se não queria faltar ás — boas regras da cavalaria, nem que a alguém parecesse que só de surpresa nos atreveríamos a ir combatei os, a João de Castanheda foi mandado um. Escudeiro com cartel de desafio para lutar em campo aberto. Castanheda recebeu o desafiador com os seus alardes de farfante e com ares de generosidade, a fingir-se paladim como os dos antigos romances de cavalaria andante, ao escudeiro mandou dar de alvíssaras o seu mais soberbo cavalo. Simulava assim que muito lhe aprazia lutar connosco, mas a verdade é que os seus não ajudavam o fingimento, pois estavam na impaciência de pôr os despojos da ladroeira a bom recato. O escudeiro aceitou a oferta com um riso de escárnio, dizendo-lhe que pelo caminho rebentaria o cavalo de presente para chegar mais cedo com a boa nova, de modo que a batalha não se demorasse e os roubadores e incendiários topassem enfim diante de si homens de armas com quem todas as contas se ajustassem.
— Boa e destemida resposta a desse escudeiro! — disse Ruy entusiasticamente. Estimaria conhecê-lo.
— Diante de vós o tendes. O escudeiro desafiador era eu.
— Pois por amigo meu vos desejo — acudiu, erguendo se e indo para ele — e por tal destemido desafio vos abraço.
Abraçaram se com fervoroso entusiasmo.
— Dizei-nos agora como foi a batalha, de que há pouco ainda ouvi falar muito por alto.
— Em busca deles saimos de Trancoso, e numa veiga, cerca de certa ermida da invocação de S. Marcos, os esperámos. Ao cabo de pouco tempo os descobrimos com as suas récuas de setecentas azémolas, ajoujadas de despojos das grandes povoações e aldeias roubadas. Percebia-se bem que não estavam com grande vontade de vir sobre nós, e muito cozidos de um lado à ribeira que chamavam das Frechas e do outro à lomba de um monte, se nos queriam escapar manhosamente.
— Estavam com receio de perder as récuas de azémolas — observou Ruy.
— Por isso era, e não por falta de ânimo, que se nos queriam escapar, pois bem sabíamos nós que vinham ali homens de armas com larga experiencia de guerra e fidalgos cavaleiros de boa fama. A nossa gente tinha-se formado em cerrado (*) para melhor resistir à excelente cavalaria que eles traziam, e as três centenas de cavaleiros que tínhamos, ali se apearam para que todos lutassem de pé em terra, com as lanças de conto fincado no chão. Dizem que assim foi nos Atoleiros e assim era preciso que fosse ali, para opor aquele sedeiro de lanças e chuças ás arrancadas da sua poderosa cavalaria.
[(*) Formação militar em quadradura ou quadrado]
E para os esforçarmos a combater ou a fugir vergonhosamente para as suas terras de Castela, nos fomos acercando mais da ermida no intento de lhes tomar o passo. Enfim se decidiram. E vendo que os nossos estavam todos apeados, os seus quatrocentos cavaleiros de lanças se apearam também. Mas ainda lhes ficaram para as maiores arremetidas os duzentos da cavalaria dos ginetes. E foram destes as primeiras arrancadas de fúria bravia, não contra os que pelas suas armaduras se via bem que eram homens de armas, mas contra aqueles que, de barretes e saios de burel, sem peitoral de ferro e sem braçais, chuças e foices em vez de lanças, lhes pareceram arraia bisonha dos campos. E era. Coitados dos pobres lavradores e ganhões de jorna, que nunca tinham visto um combate! Em alaridos e apupos, as trombetas a darem o sinal da arrancada, os pendões a esvoaçarem no ar, os bacinetes de plumas e os arneses polidos a reluzirem ao sol, os duzentos ginetes com tal soberbia largaram à desfilada sobre os rústicos das chuças e foices, que logo os tresmalharam espavoridos e foram chacinando na fuga. Ficou o cerrado roto! Assim como se um lanço de muro se tivesse esbarrondado naquela quadrela feita dos nossos peitos.
— Maus princípios! — notou Ruy.
— Maus. Mas enquanto os ginetes iam sobre os bisonhos que fugiam, o cerrado fazia o que não podem fazer as muralhas das cidades. O boqueirão fechava-se e os homens de armas ali ficavam firmes e animosos para vencer os três a quatro mil de Castela ou para lá morrerem pela nossa terra.
— Eram muitos os bisonhos?
— Cerca de dois mil seriam.
— E os que ficaram?
— Trezentos bem armados de lanças e uns restos da peonagem bisonha.
— Contra três ou quatro mil, só por um milagre de esforço podiam vencer!
— Pois fez-se o milagre, senhor cavaleiro! E olhai que foi ao custo de muitas vidas dos inimigos que ele se fez naquela encarniçada luta, que durou desde manhã até à boca da noite!
— Soberbo feito esse dos trezentos homens dai mas beirões! Dos bisonhos que ficaram nem vale a pena fazer a conta.
— Dos fugidos alguns voltaram, mas eram os trezentos que lhes davam alma a eles. Por fim os castelhanos já batalhavam como enlouquecidos. Enchia os de desespero aquele cerrado que se não rendia. Da nossa parte era para ficar ali ou pô-los a eles em fuga. Estavam bem juntos os corações e os braços, e até parecia que uma só alma gritava dali: S. Jorge e Portugal! E após este brado, cada companha a gritar o apelido do seu chefe como se fosse um pregão de guerra. Cunha! Vasques! Coutinho! E eles sobre nós, a bradar: Santiago y Castilla!
— Benditas horas as desse glorioso dia! — exclamou Ruy num arrebatamento de entusiasmo, numa vibração sugestiva, que agitava o coração dos dois velhos e punham enternecidas lágrimas nos olhos magoados de D. Dulce.
— Caíam varados, a escabujar em volta do cerrado os que de lá vinham com mais alma e maior nomeada. Eu vi ir a terra os mais ilustres e assinalados dos seus chefes, os de mais alta prosápia, os que traziam brasões dourados nas suas cotas de armas. Nem as quatrocentas lanças fidalgas nem os virotes dos seus mil besteiros puderam derrubar aquelas pequenas muralhas de homens. Enfim o sol sumia-se, e deles, os que menos obrigações de fidalguia tinham para ali morrer, como o sol se nos sumiram, fugindo! Ficaram no nosso poder os despojos que traziam e, de muito mais subida valia, a pobre gente que eles levavam cativa. De quantos deles tinham nomeada só ali colhemos vivo o capitão dos ginetes Pedro Suares de Quinhones, que foi quem nos deu informação de quantos eram eles ao todo e dos mais insignes que ali morreram. Assim foi aquela batalha de Trancoso e assim lhe chamamos nós os da Beira. Não sei se alguém achará demasiada honra chamar-lhe batalha, pois que era pequeno o número dos que ali lutaram.
— Tal nome lhe fica bem pela grandeza do esforço. Valentes homens de armas são os de Castela para que se não tenha por assinalado feito essa vitória dos trezentos contra mais de três mil.
— Batalha de onze horas sem descanso e os de Castela com a morte de tão experimentados capitães que, por eles, se pode dizer que valeram a perda de muitos milhares de homens.
— Com razão o dizeis. Das vossas palavras se entende que também vós fostes dos trezentos.
— Desses fui, senhor cavaleiro, e com tal ajuda de Deus, que só de leve uma lança inimiga me feriu neste braço.
— Mãe e senhora, muito seria do meu agrado que este valente escudeiro aqui fosse connosco nos dias de demora que houver de ter em Lisboa.
— Filho, por mim e por ti lhe oferece a pousada da nossa casa.
— Senhora minha, tamanha honra! — disse o escudeiro, curvando-se reverente.
— De muito mais sereis merecedor — volveu lhe D. Dulce afetuosamente.
— Quando contais pôr vos a caminho da vossa Beira? — perguntou-lhe Ruy.
— Uns dias espero demorar-me em Lisboa, pois me não parece urgente voltar a minha casa. Não creio que tão cedo tornem à veiga de Trancoso os castelhanos de D. Pedro Tenório, arcebispo de Toledo.
— Nisso também eu creio — disse-lhe Ruy sorrindo, como se naqueles seus deslumbramentos de homem de guerra um pouco se lhe tivessem amortecido as mágoas dos seus mal aventurados amores.