A Ala dos Namorados

António de Campos Júnior · Capítulo 33 de 38

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A Ala dos Namorados

Capítulo X · A Despedida

 

Na salazita da hospedaria D. Pelayo Munoz estava ainda à mesa com o seu colega D. Ramon Cabeza de Vaca, nobre comandante dos ginetes da escolta real. Este Cabeza de Vaca era sobrinho de um chefe notável que tinha morrido no último cerco de Lisboa.

Cearam regularmente; beberam com denodo épico e ficaram a caturrar, à espera dos parceiros para o jogo, sem dar pelas horas que fugiam.

Os criados e as raparigas tinham ido deitar-se. Num quarto próximo, o dono da hospedaria deitara-se vestido para acudir de pronto a qualquer chamada do espetaculoso D. Pelayo.

— Sou eu quem tal verdade te afirma, Ramon. Contra minha vontade, e por não seguirem os meus conselhos, deixaram os ginetes de tomar numas tantas galopadas aquela plaza fuerte de Aljubarrota.

E o Munoz tossiu grosso, deu uma punhada formidável em cima da mesa e prosseguiu:

— Por todos os lindos olhos de mulheres que tem Andaluzia, aqui te juro que os poucos chamorros sobreviventes estariam já de cabelos crescidos, crescidos e brancos de desgosto! Então se inundaria de sangue a migalha do nosso planeta em que, por graça de Deus e de nós outros, tem vivido este povozito, que não vale dois pêlos da cauda do velho leão de Castela.

E D. Pelayo Munoz passou a mão pela barba, solenemente. Mas o vinho de Tordesilhas quebrara-lhe muito a expressão altiva do olhar, e por mais que ele fizesse por acender nas pupilas a soberana ferocidade dos leões heráldicos da tabuleta, os olhos insubmissos abatiam-se-lhe dengosos, como se não tivessem compreendido a significação daquelas palavras formidáveis.

O Cabeza de Vaca estava pior que o Munoz. Os olhos dele cerravam-se-lhe a espaços, de pálpebras engelhadas.

— Olhai cá, Munoz meu — disse-lhe, arrastando muito as palavras, que lhe gorgolejavam, enrouquecidas — Dizei-me se em Valverde de Mérida teriam feito grande falta quatrocentos ou quinhentos dos nossos ginetes.

— Homem, duzentos bastavam, se a contenda foi como se diz. Duzentos, não mais, compadre Cabeza de Vaca. Estivera eu lá e, pelos meus formidáveis avós, te prometo e juro que voltaria a Tordesilhas com o próprio Condestável preso ao rabo do meu ginete, mais branco do que os píncaros de Sierra Nevada. E às outras caudas de todos os ginetes do meu esquadrão, amarrados também, quantos dos tais Namorados houvessem sobrevivido. E mandá-los-ia depois de presente a Valhadolid, para águadeiros da povoação e varredores do real palácio. Fica-te com esta, Ramon. Por todas juntas e por cada uma das onze mil virgens em particular, aqui o juro, amigo Cabeza de Vaca.

Mas ainda para esta farronca os olhos lhe faltaram escandalosamente, numa expressão mansa como se fossem de perdigueiro velho.

— Acreditas, Ramon? — perguntou, esticando os punhos.

— Acredito — roufenhou o outro, perdido de sono.

— O que lhes vale a eles é o medo que têm de se despegar para estes lados. Com os nossos ginetes, era vitória para muito escasso tempo. Em vinte ou trinta minutos, estariam a chorar pelas mães e pelas namoradas. Que dizes, Cabeza de Vaca?

— Digo que sim, Munoz. Homem, olha que este vinho de Tordesilhas faz securas! — observou, dando estalos com a língua — Quero cuspir, e não posso!

— A mim, não. A mim não me faz securas. É de família. Os Bullones cuspiram sempre, e por mais vinho que bebessem e por maiores perigos e terrores que Deus lhes pusesse diante dos olhos, para lhes experimentar o ânimo.

— Securas e sono! — rosnou o Cabeza de Vaca — O tal Gascão que tu conheces, já cá não vem! Munoz vou-me deitar.

— Homem, espera um pouquito. Irás deitar-te quando eu sair para rondar as portas das muralhas. Tinha feito tenção de não ir, mas, já que não temos jogo, vou.

— Sozinho?

— Homem, que dúvida! Nem era preciso rondar. Aqui em Tordesilhas, só se entrassem as estrelas, e essas mesmas por serem fêmeas e por galanteio de nós outros. Mas faz-me bem um passeio depois da ceia. Irei. Ora o trangalhadanças do tal Gascão! Falta como um cão mouro! Tenho pena que o não vejas. É mais alto que a torre maior de Valhadolid, mas pareceu-me de ânimo encolhido como qualquer pajem noviço. Mentem muito os tais gascões! Mas para façanhas... Puf! Um olho dariam eles ao diabo para nos chegarem aos calcanhares! Não achas, Cabeza de Vaca?

— Acho — respondeu D. Ramon por entre dentes.

— Já se não livram da má fama de terem sido os culpados daquela borracheira de Aljubarrota — acrescentou Munoz com um grande gesto de lástima.

Ouviu relinchos e o ruído de cavalos escarvando o chão; sobressaltou-se, ergueu-*e.

— Ramon, escuta! Parece que saíram prá rua os ginetes dos nossos esquadrões!

O outro levantou a cabeça, que encostara aos punhos, firmados na mesa.

— Cabeza de Vaca, os ginetes relincham!

— É — volveu-lhe Munoz, um pouco turbado — é porque já acordaram... Com a cantoria dos galos. Vamo-nos nós deitar, Pelayo e deixá-los relinchar.

E bocejou, preguiçoso.

— Mas aquilo percebe-se que é na rua! — observou D. Pelayo.

Correu à janela a escutar. O Cabeza de Vaca debruçara-se mais para cima da mesa e adormecera.

Munoz deitou a cabeça de fora da janela e percebeu dois vultos.

— Quem vem lá? — perguntou, rouquejando.

— Um cavaleiro de Gasconha — responderam-lhe em péssimo castelhano — O maior admirador do muito nobre e valente D. Pelayo Munoz de Leon y Bollones.

— Ah! Sois vós, o Gascão tosquiado que faltou à ceia! — gracejou, debruçando-se mais, já refeito de ânimo.

— Eu sou como dizeis, e aqui venho com o nosso honrado troveiro de Provença a pedir-vos desculpa da falta.

— Eu vou mandar abrir a porta.

— Vinde antes vós cá abaixo, D. Pelayo. Não nos podemos demorar, pois nos ficaram águardando damas a quem não devemos faltar. Podereis vir connosco, vós que sois a flor da cavalaria galanteadora de Castela. Vinde e pelo caminho vos daremos uma surpresa.

— Pois vou. Desço já. Sempre os Bullones gostaram de surpresas.

Retirou-se da janela e foi cingir a espada e pôr o manto aos ombros, relanceando olhares de desdém pára o Cabeza de Vaca, já a ressonar em cima da mesa, estrepitosamente.

— Parece uma ronca de porco cevado! — comentou — Mais nasceu para frade que para guerreiro, este Cabeza de Vaca! Deixa-te para aí ficar, que és o desdouro dos ginetes de Castela e do teu tio, que Deus haja.

E desceu a escada com a rapidez de que era capaz depois de uma longa e pesada ceia.

Entretanto, em baixo, o Provençal dissera baixo ao Magriço:

— Olhai, não vá isto parecer uma traição!

— A outro qualquer cavaleiro, como os tem Castela, faria eu um desafio formal e lutaríamos lealmente.

A este farfante, não. Amesquinha os nobres e destemidos campeadores da sua terra. Este vai de chacota.

D. Pelayo abriu a porta da travessa.

— Rápido e aventuroso como quem sois, ilustre Bullones! — disse-lhe o Magriço.

— As aventuras foram sempre o meu forte — respondeu, fechando a porta por fora.

— Sim? Pois ides ver a delícia de aventura a que vamos levar-vos. Haveis de rir perdidamente, quando ouvirdes a uma das damas a quem vamos fazer companhia, certo disparatado sonho que ela teve há duas noites e nos contou há pouco mais de duas horas.

— Sonho de amores?

— Convosco, D. Pelayo, porém em circunstâncias muito extraordinárias! Imaginai que se julgou numa entrevista como no seu próprio jardim, alta noite, quando, como por encantamento, surgiram para a roubar, nem podeis pensar em quem?

— Os vinte ou trinta nobres de Gasconha que escaparam aos chamorros — volveu-lhe o Munoz de mofa.

— Qual! Coisa de muito mais graça e desconchavo. Os Namorados chamorros que sobraram de Valverde de Mérida.

— Oh! Oh! Quem dera então que isso não fosse um sonho!

— Pois o final é ainda mais doido! Sonhou que esses atrevidos vos tinham vencido e de escárnio vos tosquiaram, para ficardes como eles.

— Isso devagar! Isso nem sonhado, cavaleiro de Gasconha!

— Loucuras de sonhos, senhor D. Pelayo Munoz — interveio o Provençal.

— Mas às vezes — notou o Magriço — quer o diabo que os sonhos mais loucos sejam exatamente os que vêm a sair verdadeiros!

— Quê! Pois credes?! — interrogou o Munoz, encrespando as sobrancelhas, espessas como fartos bigodes.

— A vosso respeito, decerto não. Deus me livrasse de tal! Mas vamos indo daqui.

— É singular! — observou D. Pelayo, parando de ouvido à escuta — Outra vez relinchos de cavalos! E agora um rumor surdo de vozes!

— Há de ser engano vosso. Vamos indo.

Mais uma dezena de passos e entraram no terreiro que ficava por detrás do quartel dos ginetes.

O Bullones recuou, esfregando os olhos, como se duvidasse do que via. Apesar da tenuíssima claridade das estrelas, percebia-se bem o pequeno esquadrão dos Namorados, nos seus corcéis de combate.

— Sem minha ordem... Os reais ginetes! — tartamudeou o Munoz com o nariz clássico dos Bullones a passar do tom malagueta para o amarelo-cera.

— É a realidade daquele sonho de que eu vos falei, farfante primaz das Espanhas! — disse o Magriço, pondo-lhe sobre o ombro direito a sua mão possante, capaz de o fazer ir a terra.

D. Pelayo sentiu-lha e turbou-se.

— Se abrires a boca, ainda que seja para apelidares os Bullones teus avoengos, ficas aqui espetado como um sapo!

— Traição! Traição — rouquejou baixo o grão-capitão.

— Castigo a um farfantão é que é. Os teus leões dormem e aqueles são os Namorados Chamorros, os daquela ala de Aljubarrota, que tu não quiseste bater com o teu esquadrão. Namorados — disse alteando a voz — aqui tendes pelo nosso prisioneiro D. Pelayo Munoz de Leon y Bullones.

E de mofa acentuou muito o Munhoz e o Bulhones.

— Caracoles! — exclamaram os rapazes de brincadeira e quase em coro.

— Malvados! — regougou D. Pelayo num estremeção.

— Não te mexas, Bullones! Olha que vais a terra, como se tivesses em cima dos ombros as garras do leão castelhano.

E logo alto para os outros:

— Havemos de levá-lo a Portugal e lá lhe tosquiaremos a guedelha, bem que seja fora do tempo, até para a tosquia dos leões.

Ouviu-se um sussurro de aprovação.

— Prefiro morrer! — protestou o Bullones.

— Não morrerás. Vais montar a cavalo e terás por escolta a cavalaria jovem dos chamorros.

— Sede generoso, Álvaro Coutinho — pediu-lhe o Provençal — Não ponhais mácula nesta bela e audaciosa empresa, que não tem outra melhor nos romances de cavalaria. Pela minha amizade vos peço.

— E por ela tendes o direito de ser atendido — volveu-lhe o Magriço, depois de uns segundos de reflexão

— Dizeis bem. Ide então avisar os nossos. Eu aqui guardarei D. Pelayo.

Num pasmo de entontecimento, sem poder cair em si, o fanfarrão rangia os dentes, talvez de susto.

O Provençal foi falar aos Namorados e todos concordaram afinal em que se não levasse para a tosquia o espalhafatoso Munoz.

— Tiveste bom padrinho, D. Pelayo. Vamos deixar-te, livre, mas ficarás sabendo tu, para o contares aos teus ginetes, que os Namorados vieram aqui buscar certa dama noiva da sua terra, que estava encerrada no mosteiro real. E aos moradores de Tordesilhas dirás que os Chamorros Namorados não quiseram levar desta terra nem mesmo as tuas guedelhas. A guerra continua. Se tiveres alma para te desforçares deste chasco, vai procurar-me onde quer que se haja de batalhar. Por mim quando quiseres. Manda-me algum mensageiro e serei contigo onde tu aprazares. Eu chamo-me Álvaro Gonçalves Coutinho.

O Munoz ficara-se num pasmo atónito de imbecilizado. Não sabia compreender como podia ter sido aquela audácia.

— Escudeiro, o meu cavalo! — gritou o Magriço.

E na fileira dos Namorados, o Lobeira gracejava:

— Escutai como cantam os galos de Tordesilhas à espera que rompa a manhã.

— E nós cantaremos também — acudiu outro.

— Mas aqueles mariolas de cá já estão casados à moura — redarguiu-lhe o Lobeira, suspirando com uns gestos gaiatos — E nós vamos ir sem um roubo de beijos, ao menos, feito às noviças claritas e às outras raparigas de Tordesilhas!

O Magriço e o Provençal estavam a cavalo.

— D. Pelayo Munoz, ide acordar os vossos ginetes — disse-lhe Álvaro Coutinho, mofando — Nós sairemos a passo para que nos possais alcançar. Reparai bem. Vamos daqui apenas vinte e seis dos Namorados com alguns pajens e escudeiros. Dizei-o aos vossos ginetes para os animardes. Até daqui a alguns momentos ou até quando quiserdes.

O Munoz deu um rugido de fera liberta, levou a mão ao punho da espada e correu para o quartel em brados de alarme.

— Ala dos Namorados! — clamou o Magriço, tomando a bandeira das mãos de Vasco Eanes — A caminho; devagar. Pela nossa terra e pelas nossas damas!

E todos em coro foram repetindo aquele moto que despertava Tordesilhas.

Às portas por onde os noivos tinham saído, os escudeiros esperavam a cavalo e incorporaram-se no pequeno esquadrão.

A meio quarto de légua já se ouviam os toques de alarme dos sinos e das trombetas. Viam-se tremeluzir luzes pelos muros e pelas janelas altas de Tordesilhas.

— Sempre devagar, ainda mais devagar — recomendou o Magriço de pé nos estribos — até ver se eles vêm sobre nós.

Mas na vila a surpresa de terror estonteara todos os espíritos e quebrara todas as energias. Limitaram-se a correr aos muros preparando a defesa, sem saber quantos eram aqueles audaciosos e talvez na suspeita de que fossem eles as avançadas da hoste do Condestável.

Bullones estava delicioso nos seus rugidos de desespero leonino, a encrespar as barbas e a brandir nos ares a soberba durindana desfeiteada.

— Por Santa Maria de Valhadolid e por quantos Bullones têm assombrado Castela, que iria eu só contra eles, se não fora o dó de deixar Tordesilhas ao desamparo! — bramiu de olhos injetados.

E teve um ataque de tosse épica.