A Ala dos Namorados
Capítulo VII · As Duas Rainhas
D. Beatriz dispensou a guarda de honra dos ginetes e, assim que se viu liberta da receção carinhosa das monjas, foi logo à cela de D. Leonor Teles em companhia da camareira-mor.
Visita de cerimoniosa compaixão, foi breve e, compreende-se que o fosse.
Ainda a bem dizer criança, mulher de treze anos, mas já duramente experimentada nas amarguras daquela sua artificiosa realeza, D. Beatriz sabia bem o quinhão de vergonhas e o quinhão de lágrimas que devia àquela destronada, impúdica e perversa. Dera-lhe pela maternidade um dote de ignomínias e pela Pátria um trágico presente de noivado, numa herança litigiosa, a escorrer sangue e aos baldões pelos campos de batalha.
Mas era, apesar de tudo, sua mãe. Impunha-se-lhe o dever piedoso de ir vê-la, embora fosse para lá afogueada de vergonha e arrastando consigo a sombra enorme da sua tutelada realeza.
Nenhum cronista seu coevo pôde surpreender e nenhum confessor das suas recatadas amarguras quis dizer o drama alanceador que se agitou naquela alma juvenil.
E havia de ter sido sombrio, enorme, e quem sabe em quantos dias desesperador?
Logo do berço a dúvida afrontosa da sua legitimidade a refletir as torpezas da rainha comborça; desde a primeira infância joguete político das ambições versáteis do pai, noiva de conto ora prometida, ora negada, quando a sua boca infantil ainda mal sabia dizer os nomes e os títulos do prometido esposo. E nos paços reais, encharcados de torpezas e respingados de sangue, nenhum amor grande e puro a que a sua alma, inexperiente do Mundo, pudesse acolher-se! A mãe, uma loba ciosa e trágica, sem tempo que chegasse para lhe acalentar o berço; o pai, rei e marido infamado, mal podia sorrir-lhe sem que o coração se confrangesse numa tortura de dúvidas e num inferno de desesperos, que foram talvez o drama supremo da sua vida.
E assim, friamente a largaram de si como pequena mercadoria de escambo, mandando-a para o tálamo de um rei que tinha idade para ser seu pai e precisava de ser o seu tutor.
Rainha de onze anos, isolada e talvez oprimida entre as soberbias de uma corte estrangeira, despatriada que levava em dote a promessa de morte da sua própria Nacionalidade, a sombra da mãe subiu com ela ao trono, a manchar-lhe os arminhos e os brocados de ouro com que os seus pequeninos ombros mal podiam. E para o marido tutor não passaria afinal de uma pupila, que tinha atrás da sua figurinha de mulher uma ambição de dois séculos a quebrar nas linhas de um contrato nupcial quantas lanças e-quantas espadas tinham feito pelos campos de batalha a edificação gloriosa da Pátria portuguesa. A dela!
Quantas vezes, do estrado magnificente do trono, no soberbo alcáçar de Toledo, a receber a homenagem teatral dos grandes de Castela, a pobre reyna-chicuela, não suporia atrás de si a figura odiada e trágica de Leonor Teles, no seu manto manchas de sangue do conde galego assassinado num desvão de janela do Limoeiro e no sorriso cortesão dos fidalgos, netos de remotos dinastas, um esgar de escárnio pelo seu berço e pela sua coroa?
Aquela coroa mortificadora em que só ela sabia que os diamantes eram feitos de lágrimas das mães portuguesas e os rubis do mais heroico sangue que tinha Portugal!
Sempre estrangeira, para os vassalos do marido pela terra em que nascera, e para os de cá pela Nação em que era rainha, a pobre tutelada tinha o seu calvário moral sobre as alcatifas do trono, entre os dourados leões heráldicos de Castela.
E toda esta atormentada adolescência a devia ela exclusivamente, àquela destronada, a quem o alfaiate Fernão Vasques, à frente de uma revolta da plebe, chamara alguma coisa mais rude que Messalina, a que el-rei de Castela, juiz de uma conspiração provada, dera uma cela por calaboiço.
Mas era afinal sua mãe. Fora vê-la. A brevidade da visita estava no direito do seu coração amargurado e impunha-se pela presença de uma terceira pessoa.
* * *
Ainda não era sol posto quando D. Beatriz de Portugal saiu dos aposentos da mãe. A camareira-mor tinha visto lágrimas nos olhos de uma e outra, durante o quarto de hora que demorou a visita. O que a camareira não sabia era se as lágrimas de Leonor seriam de tardia contrição, e se as da filha tinham sido daquele dó dos ofendidos, que é talvez para quem o recebe a mais amarga forma das expiações morais.
Sozinhas as duas, sem alguém a ouvi-las que representasse o mundo alheio à sua tortura íntima, quem pode imaginar em que repelões de orgulho revolto, em que ânsia de queixumes e em que convulsões de choro não teria passado aquele quarto de hora bastante para dar o drama enorme de duas almas de tão diversa história e de tão afastado destino?
D. Beatriz era esperada pela madre superiora e com ela e a camareira se dirigiu para a capela real a cumprir uma penitência da sua especial devoção.
Mas antes de descer a grande escadaria de mármore, lembrou-se de Madalena, que apenas tinha visto de relance, durante a breve cerimónia da receção, e mandou-lhe aviso de que, ao cabo de uma hora, estaria nos seus aposentos e lá a esperaria para lhe falar de um assunto de importância.
Entretanto, Mendo Rodrigues, sempre no seu disfarce de peregrino asturiano, mandara solicitar de D. Leonor Teles o favor de o receber para lhe apresentar a oferta de uma relíquia, pois teria de partir por da madrugada de regresso à sua terra natal.
A viúva de el-rei D. Fernando tinha visto apenas uma vez o velho peregrino dos Lugares Santos; mas ouvira falar muito dele às monjas com quem tinha mais intimidade e por elas sabia que era homem com largo conhecimento do Mundo, de bondosa alma e esclarecidas palavras.
Aquele pedido pareceu-lhe homenagem à sua abandonada realeza, ingénua homenagem de quem, provavelmente, lhe não conhecia bem o passado. Sentiu-se lisonjeada; a clausura ainda lhe não pudera amortecer a espetaculosa vaidade de outros tempos, e logo lhe concedeu que a fosse visitar.
* * *
Esmorecia melancolicamente o pálido sol daquele dia de Outubro. Uma serventuária introduzira o peregrino de longas barbas de neve na cela que servira de saleta a essa mulher de enfeitiçadora beleza, a quem os fidalgos romanescos tinham dado o cognome de Flor de Altura e os monarcas de mais altiva estirpe tinham chamado parenta sua.
O velho estava mais desmaiado e tinha mais fundo no rosto o vinco das suas amarguras. Até no artificioso sorriso de resignado havia agora uma expressão de trágico sofrimento.
Leonor Teles ficara sozinha com ele. Pela grade estreita da janela um clarão do sol moribundo iluminava em cheio, como numa cena do teatro moderno, aquela singular figura de mulher, ainda gentil na sobrevivente realeza da sua formosura, estátua de carne prodigiosamente bela, em que parecia não ter deixado mácula o lobo de quantas abjeções tornaram hedionda a sua repugnante figura histórica!
Tocada pelo sol a sumir-se, a juba dos seus cabelos fulvos tinha fulgores de diadema.
Com os seus ares de rainha, a viúva de D. Fernando, o Formoso, e de João Lourenço da Cunha, o dos emblemas de ouro, mandou sentar o peregrino.
— Senhora, sois rainhas Eu fico de pé. Assim será melhor para o que vos tenho a dizer.
Leonor Teles estranhou a dureza de expressão daquele velho, que lhe tinham indicado como exemplo de piedosa bondade e de humilde resignação cristã.
— Vindes então oferecer-me alguma das santas relíquias que me disseram trazeis de Jerusalém?
— Nem só de Jerusalém, senhora rainha. Há mais calvários no Mundo, mas ficaram na sombra da sua própria humildade.
— Monge, não vos entendi bem! — volveu-lhe, pondo nele um olhar turvado de suspeita.
— Queria dizer-vos, senhora, que abaixo do Gólgota de Jerusalém, imensamente abaixo, tanto que nem deles se pode avistar o céu, há outros pelo Mundo onde apenas foram crucificadas criaturas humanas, de tão singular infortúnio que a ninguém salvaram porque a si próprias se não podiam redimir! Desses abandonados do céu ainda nalguns ficou a dor pregada na sua cruz, a gotejar lágrimas que ninguém sente, suor de sangue que o Mundo não vê! A morte, senhora rainha, não quis despregar esses crucificados e esqueceu-se deles!
Num repelão de orgulho e numa vaga expressão de receios, nem ela sabia bem de quê, a não serem da sua própria consciência atravancada de espectros, Leonor Teles ergueu-se, cravando no velho um olhar toldado de cólera.
— Dei-vos entrada aqui, a pedido vosso, para me trazerdes uma oferta de certa relíquia! A que vem esse vosso conto, de que nada entendo?!
— A explicar-vos, senhora, de que diversa origem são as relíquias que eu trouxe de longe.
— Mas nessas palavras de tão escurecido sentido, nesse castelhano arrastado que falais!
— Não andam em romagens de penitência senão os que pecaram, e o remorso multidão os sentidos e escurece as palavras. Faz tardia a língua dos velhos e o seu falar arrasta-se para dizer as coisas como as pernas se arrastam para lhes irem aguentando a romagem.
E o seu olhar altivo, penetrante como o gume de aço de uma adaga, punha um comentário assustador naquelas palavras rouquejantes, soturnas, a lembrarem um surdo revoltear de vento represado entre penhascos.
— Em poucas palavras podeis responder. Sede breve.
— Senhora, acalmai-vos e esperai, benevolente. Tem a sua história a relíquia singular que eu venho oferecer-vos.
— Em poucas palavras, depressa. Dizei.
E sentou-se com impaciência nervosa como se alguma coisa de vago temor a estivesse oprimindo. Não desfitava o monge. Parecia que os seus olhos procuravam descobrir-lhe a alma através do grosseiro burel do hábito.
— Vai para dois anos encontrei na Palestina outro peregrino como eu, miserando infortunado como eu era, de coração despedaçado como eu ia. Tinha envelhecido antes de tempo como eu envelheci, trazia consigo um remorso de atormentado, igual ao meu. Rainha, a desgraça fizera-nos irmãos; éramos ambos filhos seus. Uma coisa nos diferençou para sempre. A morte condoeu-se dele e eu fiquei arrastando pelo Mundo a minha cruz! Na hora da agonia, a voz a rouquejar-lhe na garganta e a afogar-se-lhe em soluços, disse-me: «Fui cavaleiro numa terra vizinha da tua; era homem fidalgo, batalhador de honrado nome, que por loucos amores se perdeu. Toma destes meus andrajos uma relíquia profana que eu trago recatada comigo e leva-a para onde quer que vás, até ao dia em que voltares à tua terra das Espanhas; mas quando lá chegares e as forças to consintam, vai entregá-la a alguém, que é justo a leve consigo para a sua jazida real».
— Vamos! Que relíquia? — disse, erguendo-se outra vez num repelão de cólera, mas agora também numa tremura de vago pavor.
— Aqui vo-la trago nestes dois pedaços de velho pergaminho — volveu o peregrino serenamente, tirando-os debaixo da corda de esparto que lhos apertava à cintura
— Aqui uma pequena madeixa de cabelos arruivados, e este dizer: «Da mulher que eu loucamente amei e me perdeu».
— -Acabai! — ordenou-lhe num grito convulsivo.
— Senhora, pouco falta... Neste outro, um pó, como se fosse de uma flor ressequida, talvez morta sobre o seio de neve de alguma infortunada mulher. Dizem assim as poucas linhas deste pergaminho: «Arrancada do seio de D. Branca de Castro, dama do paço, pelo amante que a matou, enlouquecido de ciúmes».
— Embusteiro ou louco! — bramiu a tremer, indo para ele, desfigurada — Aqui viestes escarnecer-me, vilão cobarde!
— Rainha, não! — replicou, cravando nela um olhar dominador.
— Relíquias santas pedistes para me oferecer, velho embusteiro.
— Santas, se ainda forem capazes de um milagre de contrição.
— E para mim, porquê?! Quem te mandou aqui, monge impostor?
— O outro que morreu.
— Mentes, vilanaz! Judas, por quantos dinheiros te compraram os meus inimigos para vires aqui a afrontar-me?
— Afrontar-vos em quê, se eu não disse ainda de quem eram estes cabelos fulvos!
— Nem já o dirás senão entre os que te hão de açoitar e levar à forca, vilíssimo enganador. Chamo! Alguém virá desafrontar a rainha — rouquejou, dando uns passos rápidos para a porta.
— Não podes, Leonor! — disse Mendo em português, atravessando-se diante dela — Não podes, porque não quero eu! Lívida, tremente, num entontecimento de terror, as mãos como garras enclavinhadas no peito, Leonor Teles recuou diante daquele velho, que falava como só um certo homem poderia falar-lhe, se todas as informações o não houvessem dado por morto.
— Enchem-te de terror as minhas palavras e duvidas que os mortos voltem! Voltam. Aqui tens um que todos em Portugal supunham morto. E não chamarás ninguém, porque tua filha está neste mosteiro e eu diria alto que fui o teu requestador mais afortunado, um ano antes do teu casamento com João Lourenço da Cunha e ainda uns dias antes dos teus amores com o rei que enfeitiçaste e perdeste. Já não és rainha. Sabem quem foste e quem és. Se queres, chama. Abrirei eu aquela porta, se mandares, e chamarás pelos vassalos da rainha de Castela, tua filha. Eu contarei com que trágico direito aqui vim. Queimar-se-ão, por maior vergonha ainda, as faces daquela pobre criança para quem mudaste em coroa de espinhos o seu diadema de rainha.
A retroceder em passos curtos, hesitantes, num desvario de febre, Leonor Teles foi cair de joelhos contra um escabelo raso, as mãos nos olhos como criança espavorida, o peito nuns estremeções violentos.
O monge foi-se lentamente acercando dela.
— Não duvides. O namorado que tinha trinta e oito anos quando a tua juventude o preferiu a outros; esse que, três anos depois, foi pela tua causa o matador de Branca de Castro, envelheceu cedo, em doze anos com as devastações de trinta! Não duvides. O morto voltou. Mendo Rodrigues sou eu, Leonor Teles, escuta bem: eu! Flor de Altura., como te chamavam os requestadores do paço, tu pouco mudaste nessa juventude que parece não ter fim! É que a conta das tuas perversidades não entra na outra dos teus anos!
— Mata-me, se para isso vieste! — disse-lhe torvamente, erguendo-se num impulso de revolta.
— Matei uma vez, e há doze anos que trago o coração afogado em lágrimas de remorso. Tu és diferente! Foste a causadora do meu crime, caluniando; promoveste a morte da tua honesta irmã, levantando-lhe uma aleivosia; mataste o rei, infamando-o; quiseste matar Portugal, traindo-o, e nem sequer uma lágrima de contrição nesses olhos, que só talvez saibam chorar de raiva!
— De raiva, agora sim, cobarde matador!
— Cobarde, é consideração tua, e nisto, ao menos ainda pareces a rainha que em Portugal odeiam e em Castela com imenso nojo desprezam.
— Sou uma mulher, e és tu a ralé dos poltrões, vindo aqui traiçoeiramente afrontar-me. Vamos! — desafiou, indo para ele num soberbo movimento de orgulho — Facilmente se mata uma mulher! Vês? Não fujo de ti. Vamos, sem escrúpulos. Velho, trazes essas mãos experimentadas na outra e vacilas! Não deixes o feito incompleto nessa poltronice de insultador.
— Não; não quero! Não posso! Seria igualar-te a essa que tu caluniaste, e a ti ninguém te pode caluniar por muito que diga de ti!
— Pois chamarei quem venha ouvir-te. Eu não! Eu não!
E correu para a porta como louca, em arrancos de soluços.
Mendo Rodrigues atravessou-se-lhe na porta.
— Mulher, olha que está aí tua filha! É a rainha de uma Nação que talvez a despreze por ti, numa corte de soberbas prosápias, que decerto a desdenha pela tua causa. É a filha de Leonor Teles. Não lhe ponhas mais alto o calvário do seu trono, nem lhe arranques mais lágrimas para a sua coroa soberana.
De olhar desvairado, a orgulhosa destronada pôs as mãos e caiu de joelhos, numa tremura de medo, os lábios desbotados a balbuciarem palavras que só ela ouvia.
— Ao menos, um vislumbre de piedade no teu coração de mãe, mulher que tanto desceste. Loba, refugia-te nesse amor, que pode vir a ser, perante a misericórdia infinita de Deus, a única remissão da tua vida hedionda. Eu saio. Eu deixo-te. Trazia este encargo de desafogo, para tu saberes com que horroroso padecer se arrastou até aqui esse desventurado que supunhas morto. Deixo-te as minhas relíquias, Flor de Altura. Aqueles cabelos de ouro fulvo que eram há dezassete anos o teu mais belo diadema, e esse pó de uma flor morta arrancada ao seio de alguém que a tua perversidade matou pelas minhas mãos. Santas relíquias, se ainda nalguma hora da tua vida puderes chorar sobre elas. Eu irei sumir-me até que a morte se lembre de mim. Morrerá comigo o segredo de uma das tuas maiores perversidades. Que Deus te perdoe, se puder; eu não posso. Eu não!
— Mendo Rodrigues! — soluçou, num quebrantamento de todo o seu orgulho e de todos os seus ódios.
Mendo pôs naquela rainha humilhada, loba que chorava de rojo, um olhar em que relampejavam as cóleras do seu ódio.
O sol sumira-se. Como que trazia sugestões de piedade aquela penumbra crepuscular que enchia a cela.
— Choras! — disse-lhe — Se essas são na tua vida as primeiras lágrimas sem mentira e sem ardil, oferece-as à memória de Branca de Castro e que Deus as veja e tas receba. Sairei daqui como entrei, no mesmo disfarce de humildade. Podes denunciar-me, se quiseres.
— Mendo Rodrigues, piedade!
— Outra vez te prometo que guardarei o segredo desta hora, e o outro, ainda pior, do sangrento infortúnio que o mundo soube apenas de relance e logo esqueceu, sem lhe conhecer a causa. Faço deste segredo um legado de dó para a infanta tua filha, aquela pobre soberana de treze anos, que deve ter sentido em volta do trono o mar de lágrimas e o mar de sangue em que a sua herança naufragou. Para ela o dó que tu não podes merecer. O morto não voltará mais. Assim os outros não voltem para te oprimir e sufocar aqui na estreita prisão desta cela. E se tens sede de vingança, se queres que emudeça para sempre a boca audaz que veio aqui dizer-te duras palavras de verdade, denuncia-me como teu compatriota, e verás quantas adagas de inimigos se hão de cravar no meu corpo, aqui mesmo diante dos teus olhos, rainha de outro tempo!
— Não! Não! — protestou, arquejante.
— Se é pelo receio de que eu falte à minha promessa que isso dizes, não te prives desse prazer de vingança. Eu não quebrarei o meu segredo, porque eu nunca tive medo de morrer.
Bateram à porta brandamente.
— Enxugai os olhos, senhora, e erguei-vos. Rainha, eu vou abrir.
E foi. Eram duas velhas monjas que vinham saber se D. Leonor Teles queria que a acompanhassem ao coro para as suas devoções do costume.
Não era difícil perceber que a rainha chorara e entenderam as duas, lá no antegozo de o divulgar, que o choro teria sido de contrição, e que a mulher de pecaminosa vida haveria recebido de coração arrependido os santos conselhos daquele monge peregrino das Astúrias.
* * *
Apesar de acabrunhado por aquela hora de luta moral, violentíssima, Mendo Rodrigues saiu do mosteiro. Daria volta pelo muro da cerca para ir esperar o Provençal e saber o que definitivamente se aprazara.
Escurecera. Marival não tardou, mas trazia consigo o Magriço e mais dois homens de chapeirões e ferragoulos.
A distância perceberam o vulto do monge e pararam conversando. Um deles se afastou dos outros e veio direito a Mendo Rodrigues. Era o Provençal.
A poucos passos ainda se conheciam bem as pessoas e Marival reconheceu logo o tio de Ruy.
— Senhor D. Mendo, ali estão alguns dos vossos para combinarmos o resto — disse-lhe baixo, apontando os outros.
Olharam os dois em volta de si para ver se alguém se aproximava. Ninguém. Daquele lado da cerca o sítio era ermo, todo cingido pela grande sombra de uma alameda de árvores antigas.
— E daí? Alguns embaraços?
— Nenhum que se possa prever e com o qual não houvéssemos já contado. O mais difícil seria abrir a porta dos muros da vila aos que vêm a cavalo, surpreendendo os vigias e amordaçando a guarda, mas isso mesmo está já combinado e já cá temos dentro de Tordesilhas quem nos há de ajudar.
— Quem?
— Aqueles — respondeu, apontando os três — Vosso sobrinho, Álvaro Coutinho e Vasco Eanes. O Magriço ainda no seu disfarce de Gascão que ficou prisioneiro em Aljubarrota e se evadiu de Portugal; vosso sobrinho e Vasco Eanes entraram ao sol-posto, antes que as portas se fechassem, disfarçados com carapuços e cobrejões castelhanos. Vieram com eles mais quatro da ala e dois escudeiros, também sob disfarce, e esses ficaram sonegados nas imediações das portas para observarem os homens da guarda.
— É grande a guarda?
— Pequena. Quinze homens são os que nós vimos. Julgam-se muito seguros; a vila está fora de mão para correrias carairiças. Ergueram a ponte levadiça e ficaram, provavelmente, muito descansados. São capazes de dormir a sono solto.
— Pois ali pela cerca auxiliarei eu aqueles que tiverem de entrar no mosteiro. Quanto menos alarme, tanto mais seguro cometimento.
— Certamente. Mas se quereis, vamos para além ou vou eu chamá-los para aqui.
— Vamos nós ter com eles. Ali estaremos mais no escuro.
Foram.