A Ala dos Namorados
Capítulo VI · Amores de Sonho
Longas horas oprimida de espanto pela demora do filho, D. Dulce sentiu uma grande impressão de consolo quando ele apareceu na casa do serão, que era onde ela costumava esperá-lo à noite.
Mendo já a tinha informado do arrojo de Ruy durante a batalha naval e de como ele voltara a salvo.
Mas à impressão de consolo sucedeu bruscamente um sobressalto de surpresa, pelos ares misteriosos com que Ruy lhe solicitou uns instantes de conversa reservada para lhe fazer um pedido.
Foi com ele para uma saletazita da sua antecâmara.
Numa comoção enorme, em que o júbilo se ensombrava de receios, olhos fitos nela como para lhe surpreender os pensamentos, Ruy contou-lhe abertamente quanto se passara em casa de D. Judas.
De surpresa em surpresa, D. Dulce escutava-o enternecidamente com adorável interesse de mãe extremosíssima.
Ruy ia reservando para o fim o lance mais difícil, que era também o de maiores receios para ele.
— Filho, foste digno de ti próprio ao defenderes essas amarguradas criaturas. Deus te pague essa honrada generosidade. Dás-me orgulho, filho! — disse-lhe carinhosamente, inclinando-se para ele e tomando-lhe as mãos — E o Mestre acedeu aos pedidos dando proteção às judias?
— Mandou-as para Vila Nova de Gibraltar.
— Pobres mulheres! E as outras, a mulher e a filha de Gil Vasques, o traidor? Ainda me não disseste qual destino lhe deu o Mestre!
— Mãe e senhora, também lhe pedi por elas. Causavam tanto dó! Mãe e filha, qual podia ser a sua culpa da traição do marido e do pai?! A filha, a bem dizer uma criança, linda como os arcanjos e como as princesas dos contos, que sorte miseranda a sua, se a deixassem ao desamparo! Se a vísseis a tremer de pavor, olhos afogados de lágrimas, numa dor de alma pela mãe e por si, vós própria, senhora, com esse vosso coração de santa, muito mais do que eu, havíeis de ter dó dela.
— Mas o que pedistes ao Mestre em favor delas?
— Mãe — disse numa tremura de voz, dobrando o joelho, beijando-lhe as mãos — eu pedi-lhe que as deixasse acolher à caridade e ao coração benfazejo de certa dama ilustre, mãe também como a esposa de Gil Vasques.
— Qual?
— Aquela por quem eu me julguei autorizado a responder ao Mestre, porque melhor do que ninguém a conhecia.
— Filho, não sei adivinhar!
— Vós, minha mãe!
— Eu! — exclamou, erguendo-se.
— Vós, santa protetora que ledes na minha alma.
Nem eu tinha outra que pudesse e soubesse engrandecer e completar a tarefa protetora começada por mim!
— Ruy, confiaste de mais! E o Mestre o que disse?
— Concedeu que eu viesse pedir-vos amparo para aquelas duas desditosas damas e, se vós me ouvísseis, mãe e senhora, na vossa casa lhes déssemos abrigo.
— Filho, pode ser perigo por essa mácula de que elas não têm culpa!
— Mãe, não oponhais escrúpulos vãos às piedosas intenções do vosso coração.
— Pode trazer-me preocupações, por ti e por ela... Essa filho do traidor que tu disseste linda como os arcanjos e como as princesas dos contos!
— Mãe — insistiu, beijando-lhe as mãos — mas com que amargura e desalmada crueza, bem o entendeis, senhora, poderíeis querer vós que eu fosse agora dizer a essas infortunadas: O Mestre, o homem de guerra, concedeu que vos dessem amparo, porém, minha mãe, aquela de quem eu vos falei confiante, alma de santa para o bem, coração cheio de amor por mim, essa não quer receber-vos; tem escrúpulos, essa não quer apiedar-se de vós! Mãe e filha, ide para a romagem das ruas, a ver se tem dó de vós a ralé que vos odeia. Se quer repartir convosco a sua miséria e a sua fome, ainda que a vossa linda filha, D. Maria de Mendonça, haja de perder-se nas mãos brutais de besteiros e galeotes! Ruy de Vasconcelos iludiu-se e mentiu-vos! Senhoras, mentiu-vos o cavaleiro fidalgo, que ainda não tinha manchas na sua vida e nunca ainda teve medo de morrer pela honra do seu nome!
Numa agitação que a fazia tremer de receio pelos seus amargurados pressentimentos de mãe, numa hesitação torturadora da sua vontade, D. Dulce ouvira aquelas arrebatadas alegações do filho, sem ânimo para o interromper e cheia de medo pelas verdades que o seu coração ansiava dizer-lhe.
E, todavia, tê-la-iam enchido de santo orgulho aquelas palavras de Ruy, em que a sua grande alma transparecia brilhante, se não a estivesse oprimindo a suspeita de que o juvenil sonhador vinha enfeitiçado pela rara formosura de que lhe falara com tanto, entusiasmo, o triste experimentado de malogrados amores!
— Filho, não mentirás, nem o meu coração há de faltar ao que dele esperavas, por muito que lhe custe e agora receie dar auxílio às tuas promessas.
— Mãe, que generosa sois para mim! — disse-lhe quase num grito de alma, e outra vez lhe quis beijar as mãos de joelhos.
— Vai buscá-las.
— Senhora, ousei trazê-las comigo. Mãe e filha vos águardam na sala de entrada.
— Vamos lá, filho! Ampara-me.
Foram. Foi uma entrevista comovedora. D. Maria de Mendonça, a sua companheira do paço, uma das suas amigas, havia dez anos, abraçou-a de joelhos, numa convulsão de choro.
— Ruy não exagerava! — disse consigo D. Dulce quando lhe foi dado admirar bem a singular beldade que era Madalena de Mendonça — O seu olhar é doce e casto, mas seduz! Meu Deus, maior perigo para ele e para mim!
E quando, cerca de uma hora depois, mãe e filha tinham ido para os seus aposentos de esmola, D. Dulce, com os olhos toldados de lágrimas, disse baixo ao filho:
— Ruy, que Deus seja pela tua honra, e a nossa Senhora tenha dó do meu coração de mãe!
— Senhora, e se Deus não quisesse e a Mãe de Jesus não houvesse dó de vós, bem sei eu como o falsário buscaria o castigo da sua torpeza na ponta de uma lança castelhana.
— Rui! — repreendeu, pondo o nome do filho na vibração angustiosa de um grito.
* * *
Tinham passado duas semanas. Deram em paixão absorvente e louca os deslumbramentos de Ruy de Vasconcelos pela radiosa beleza de Madalena. No olhar e nas palavras de um e outro valeram alguns dias por largos meses de fervoroso galanteio. Amavam-se num amor de visionários, profundo, consumidor, luz de sonho para encher uma vida e nessa mesma luz o fogo para a devorar.
Ruy nem parecia o mesmo! O cavaleiro seria incapaz de regatear à sua Pátria e ao seu nome o esforço, o sangue, a vida; mas agora, como nunca, teria pena de morrer, porque na sua alma enamorada a imagem de Madalena era como um retábulo de santa miraculosa, que lha tomava inteira, como na moldura de um altar que estivesse alastrado de flores, envolto de perfumes, sob um resplendor de esmeraldas, que algum divino lume houvesse tocado.
Muito em segredo e com a interferência favorecedora de uma velha criada, que fora a ama de Ruy, aprazaram os dois uma entrevista de devaneio, livremente, bem perto um do outro. Ficaram numa ânsia perturbadora por aquela hora de enlevo, que podia ser afinal o primeiro lance de perigo para ambos.
Era no sobrado do mirante o compartimento onde dormia a velha intermediária; a poucos passos o terraço. Ali lhe faria costas a velhita, coonestando, ao mesmo tempo, com a sua presença aquela entrevista noturna, dado que os pudessem surpreender.
Os aposentos de Ruy ficavam distantes da câmara de D. Dulce, que era a única pessoa que ali os trazia vigiados e receosos. Não seria provável que lá percebesse os passos do filho.
A câmara de D. Maria de Mendonça era contígua à de Madalena, mas bem sabia ela como era pesado o sono da mãe, e não há mulher enamorada que não tenha levezas de borboleta para uma entrevista de amores.
Todavia, por maior segurança, lembrou Ruy um estratagema simples, banal, e certamente seguro para tranquilizar os receios da mãe. Pretextaria ele um encargo de vela, durante a noite toda, na torre de Álvaro Pais ou nas Portas de Santa Catarina, os pontos mais ameaçados pelo exército sitiante, e voltaria pela porta pequena do jardim, mal que fossem onze horas. Levaria a chave sem que ninguém o soubesse e entraria acauteladamente àquela hora, que naqueles tempos era já noite velha.
De mais a mais, tinha o terraço uma escada exterior, que dava para o jardim. E assim o fez, num alvoroço em que toda a sua juventude parecia resumir-se.
* * *
Estava calmosa aquela noite luarenta de Julho.
Ainda não eram onze horas quando Madalena conseguiu escapar-se da sua câmara, sem que a mãe a pressentisse.
Numa tremura opressora um saial branco a oculta-lhe as formas esculturais de Vénus pudica, um fio de pérolas, restos da sua extinta opulência, a cingir-lhe no alto da cabeça as madeixas de ouro, que em ondas se lhe soltavam sobre os ombros, lá ia pé ante pé para a porta anterior do mirante, a tatear as paredes com as mãos pequeninas, brancas, trementes.
— Nossa Senhora me perdoe e seja por mim! — murmurava.
Parou um momento no primeiro degrau da estreita escada de pedra que ia para o mirante. Dir-se-ia que lhe causava medo subir.
— A bater doidamente! — pensou, pondo a mão sobre o coração como se o quisesse emudecer — Tão alto, que até ele parece que me quer denunciar!
Subiu. A velhita lá estava sentada no rebate da porta do terraço, encalmada, tonta de sono, à espera dela.
Falou-lhe numa tremura de voz. Entrou no terraço ávida de ar puro. Vinha do rio, luminoso e grande, uma viração consoladora.
Pousou um olhar amoroso nos craveiros e nas rosas dos longos canteiros, guarnecidos de azulejos mouros. Depois abraçou num relance de olhos aquele panorama deslumbrador da cidade.
Opala enorme a deslizar para os lados do mar pela imensidade de um azul acariciador e calmo, a lua cheia dava um aspeto fantástico de lenda à cidade, aos montes que a cingiam, coroados de torres e muralhas; à amplidão rumorejante do Tejo em que tremeluziam os faróis da potente esquadra de Castela. Parecia uma esguia cidade de longas ruas traçadas a cordel o acampamento do exército sitiante, numa alvura uniforme como de povoação coberta de gelo.
Tinham relevo maior os montes da Outra Banda e distinguiam-se bem, no seu contraste de tons, as muralhas e cubelos enegrecidos da velha cerca defensiva, das outras que tinham apenas dois anos, mais brancas ainda porque sobre elas escorriam levadas de luar.
De torvo aspeto, atalaia secular, o castelo de Almada recortava-se na alvura daquela noite.
— Que linda assim esta nossa grande cidade! — pensou Madalena — Que saudades eu tinha de a ver neste desafogo! E quem sabe que hora de suprema vi ui ura ou de supremo infortúnio será esta na minha vida?
Ouviram-se os brados das sentinelas trazidos nos voos da aragem dos lados das torres distantes e do lado do acampamento castelhano. Na língua de duas nacionalidades em luta, como uivos de um ódio sanguinário, inexcedível! Ódio criado por uma ambição iníqua de conquista, ódio acalentado por uma santa paixão de patriotismo.
Madalena estremeceu num arrepio de medo.
Tudo aquilo que os seus olhos admiravam num enlevo de pasmo, a paisagem e o céu numa poesia calma e mima grandeza deslumbradora, subitamente se lhe entenebreceu nas visões de alma como se todo aquele mar branco de luar se lhe afigurasse um imenso lençol mortuário.
— Meu Deus! — murmurou — A guerra a gritar alto nesta delícia de sonho! De uma para outra hora, combates enfurecidos e neles quantos amores acabados, quantas almas de batalhadores que nunca mais voltam? E ele? Jovem de tamanho arrojo de ânimo, que dor mortal a minha também se ele não voltasse?!
— Aí sobe já! — avisou a velhita, escutando — Eu vou ver.
Era realmente Ruy de Vasconcelos. Volvidos instantes entrava no terraço. Sobre a cota de armas um longo manto preto; armado como tinha saído, no disfarce de ir velar para a torre de Álvaro Pais onde se receava uma arremetida noturna dos sitiadores.
Espelhava-se o luar no ferro polido do bacinete, em cuja cimeira esvoaçavam plumas altas.
Num louco alvoroço do coração, Madalena envolveu-o todo no seu olhar acariciador e numa agitação de fascinada e num ingénuo orgulho por aquele galã de máscula beleza, recordava de relance o romance do cavaleiro do cisne branco, o descobridor do Santo Graal, o paladino que os profetas tinham anunciado, cercado de anjos de asas brancas como as pombas de Jerusalém, um dos companheiros de Sagramor, um dos cento e cinquenta cavaleiros da Távola Redonda.
As trovas em que este romance de cavalaria se resumia as ouvira ela muitas vezes, criança de nove anos, à sua aia sexagenária, nos longos serões do Inverno.
E a figura de sonho que a sua imaginação infantil compusera num esboço incompleto, sob a sugestão do conto antigo, a encarnava desvanecidamente naquele requestador que lhes salvara a vida, a ela e à mãe, e era agora o seu primeiro amor.
— Madalena, há seis horas na ânsia deste momento! Meu amor, minha vida! Morreria pela fortuna desses instantes!
E beijou-lhe as mãos sofregamente, nuns beijos longos, febris.
— Rui!
Levou-a consigo, brandamente, para uma banqueta de pedra entalhada no muro do terraço, entre dois canteiros de roseiras altas em que a aragem embalava uns botões brancos, já crestados pelo sol de Julho, e uma rosas que, hora a hora, se iam esfolhando num empalidecimento de morte.
A velhita foi sentar-se discretamente no degrau da porta.
— Madalena! Que mágoa eu tenho de não saber dizer-te a vida nova que entra em mim com o teu olhar, e que pequeno coração é este meu para caber nele a tua imagem em tal arrebatada adoração, que a ti própria havia de parecer loucura, se a pudesses compreender ou eu soubesse contar-ta!
— E eu, Ruy? Como eu te quero! É um amor maior que todos os outros amores... Ainda maior do que esse que nós sentimos pelas nossas mães! Muito maior!
— Muito! Vê lá então que divina ventura não será para mim ouvir-te, princesa de sonho, daqueles sonhos em que eu idealizava torneios de campeador vitorioso, batalhas ideais em que eu fosse o herói, o triunfador!
— Ruy, não me lembres esses perigos dos combates, mi que os sonhos de amor numa hora se podem desfazei, apagar-se como às vezes no céu as mais lindas estrel.is se apagam!
E tens medo por mim, vida da minha alma?
— Tenho. Agora o medo maior que eu podia ter!
Porque nunca tiveste outro homem que amasses assim! Diz-mo, que é dar-me orgulho tamanho como nenhum príncipe triunfador ainda teve igual.
— És o meu primeiro amor, e se a minha alma a mim própria me não mente, pelas nossas mães te juro que nenhum outro quero ter.
— Bendita, bendita seja por essa jura a tua boca angélica, minha celestial beleza!
E beijou avidamente as madeixas soltas dos seus cabelos de ouro.
— Ruy — disse-lhe sumidamente, num enlanguescimento de ânimo e num tíbio protesto da sua casta adolescência.
— Minha vida! Não temas que eu falte ao juramento feito a minha mãe. Beijei-te os cabelos como se fossem de irmã minha, muito querida, para lhes não roubar o casto perfume, e como se fossem ouro puríssimo, que há de ser o teu opulento dote, noiva queridíssima da minha alma!
— Noiva! Deus sabe para que doloroso noivado!
E volveu para o acampamento dos sitiantes um olhar de imensa tristeza, enevoado de lágrimas.
A seguir-lhe o dolorido olhar, muito inclinado para ela, Ruy surpreendeu-lhe aquela névoa de choro.
— Madalena, choras!
— Por este noivado de sonho, que tantas realidades podem desfazer! — disse-lhe quase num soluço.
— Porquê, amor meu?! Se eu não quero outra noiva, se eu sou capaz de dar a vida pelo nosso primeiro dia de núpcias, perdendo-a por quem no-lo pudesse assegurar, rei ou vilão, dado que não fosse um inimigo da nossa terra ou alguém que a houvesse traído!
— Que a houvesse traído! — repetiu num timbre de angústia — Pois aí está porque eu queria alhear-me deste amor e inutilmente o tentei! Aqui tens porque eu choro. Além — disse, apontando o arraial castelhano — está entre os que traíram a sua terra, como tu disseste, alguém que eu não posso detestar porque é meu pai! E és tu, cavaleiro leal, que tens o direito de lhe votar ódio a ele, és tu, o maior amor da minha vida! Vê que noivado pode ser o meu, a filha do fidalgo que está por Castela, contigo, o jovem esforçado que defende a sua terra! Só num sonho... Para morrer por ele!
— Ouve, Madalena. Disse-o já ao Mestre. A minha espada tanto há de empenhar-se pela santa causa de Portugal, que baste para apagar em volta do teu nome essa mácula que não é tua.
— Batalhando, pondo a vida em risco!
— Para envolver nos meus deveres de cavaleiro e de Português tal glória de batalhador, que chegue também à larga para o dote remissor da minha noiva. Nas maiores batalhas o mais denodado arrojo; no meu escudo o teu nome e, para mais incendida afoiteza, na minha alma a tua imagem.
— Mas tudo isso, Ruy, nas batalhas que se podem perder, nas batalhas donde tantos nunca mais voltam! Tenho medo por ti! — disse, levando as mãos ao rosto — Contavam-me em criança umas histórias de batalhas que me causavam pavor!
— Já arrisquei a vida com vontade de a perder, e a morte não quis encontrar-se comigo. Pedirás tu a Deus por mim, linda e pura como os anjos, pedirá minha mãe nas suas orações de santa, e Deus será comigo e a mais benfazeja estrela que tenha o céu será madrinha do nosso noivado, Madalena. Não quero ver-te chorar — disse-lhe enternecidamente, a cabeça descoberta, quase a tocar-lhe a juba dourada dos seus cabelos — Sinto no coração, como se fossem contas soltas de um rosário de tristezas, as pérolas do teu choro, vida da minha vida! Podem acobardar-me! Não faças delas a névoa em que se apague esta alvorada das nossas almas noivas!
— São por ti, meu bem-amado — volveu-lhe na música adorável da sua voz, trémula, carinhosa, num timbre de cristal.
E fez-se de dois beijos sequiosos nos olhos húmidos de Madalena a grata homenagem daquele galã.
A velhita dormia profundamente com a cabeça de neve pendida para o colo, e nenhuma estrela iria contar à mãe daquele galanteador o segredo perturbante dos seus beijos.
* * *
Ao outro dia, logo de manhã cedo (eram madrugadores aqueles nossos avoengos), apareceu o Juiz do Povo em casa de D. Dulce no empenho de falar a Ruy de Vasconcelos.
Levaram-no para a câmara do jovem cavaleiro, já então a acabar de se vestir.
— Que boas ou más notícias vos trazem por aqui, senhor Afonso Eanes?
— Boas e más.
— Para mim?
— Para todos os homens leais de Portugal.
— Pois dizei-mas, para que eu as saiba primeiro da vossa boca, honrado Juiz do Povo.
— Começarei pelas boas notícias. Por um fugitivo do arraial castelhano, que esta madrugada se apresentou nas Portas de Santa Catarina, soubemos que Nuno Álvares tem andado em correrias pelo Alentejo contra os Castelhanos.
— Bem sucedidas?
— Quase todas, segundo afirma o fugitivo. Tomou Assumar por surpresa; foi sobre Badajoz e, com as escassas forças que traz consigo, combateu na raia de Castela. Depois voltou ao Crato, para se opor a uma hoste de Castelhanos que daqui foi no propósito de o derrotar.
— Daqui, quereis dizer da hoste sitiante?
— Assim é. Hoste numerosa para esmagar os poucos do novo Conde de Ourém.
— Mas se essa nova incluís entre as boas que trazeis, certo não foi então batido Nuno Álvares.
— Têm-lhe receio os de Castela e, pelos modos, julgavam i-lo colher de surpresa; mas assim não foi, louvores a Deus. Nuno Álvares juntou as suas forças em Évora e de lá fugiu a receber o inimigo, que tinha chegado à margem de cá do Divor. Não se atreveram a dar-lhe batalha os de Castela, e há poucos dias regressou ao arraial do rei invasor a hoste que fora ao malogrado cometimento. Grande capitão é Nuno Álvares, por vida minha! Nenhuma alma de maior valor entre os nossos como a desse chefe batalhador de 24 anos! Para os Castelhanos sei eu que não há lança nem esforço que eles mais temam, mormente desde aquela formal derrota que em Abril lhes infligiu na batalha dos Atoleiros. Deus no-lo traga em auxílio de Lisboa, que é a maior alma que tem Portugal. Agora a outra boa nova: O Mestre da Ordem de Cristo tomou o castelo de Ourém.
— Excelente.
— Mas a verdade é que toda a força da nossa causa se resume, a bem dizer, em Lisboa e Porto, e ai de Portugal, se uma das duas cidades se perder!
— Dizeis bem. O perigo maior está agora em Lisboa. O Porto lá rebateu as hostes galegas do Arcebispo de Santiago, e não me parece que elas tenham vontade de voltar para cá do rio Leça. Aqui em Lisboa é que está a vida ou a morte de Portugal.
— As más notícias que vos trago confirmam esse vosso parecer. Entrou no Tejo esta madrugada mais outra armada castelhana de vinte e uma naus e três galés. Toram contadas pelas nossas atalaias do rio. Cerco ainda mais apertado, senhor Ruy de Vasconcelos! Até aqui estava a armada castelhana desde Santos a Cacilhas; agora tem outra mais para diante, em frente de Cataquefarás até à Porta da Cruz, de modo que os virotões de bordo podem varar a quem se atrever a passar nas ribeiras da cidade!
— E a nossa armada inútil, varada na praia, cerca de Enxobregas!
— Dezasseis naus e treze galés, que valia metê-las a navegar, se os de Castela têm agora sessenta e uma naus e dezasseis galés, fora uma galeaça e umas poucas de carracas? Pela barra nenhum mantimento poderá entrar, por terra nem um bago de trigo! O pouco que veio do Porto está gualdido e as bocas aumentaram! Se Nuno Álvares não vem por aí fora numa das suas arremetidas de leão, teremos de ir morrer de fome, numa hoste de desesperados, contra o arraial castelhano, ou rendermo-nos estiraçados por essas ruas! Perder-se-á Lisboa faminta, como loucos de sede se vão perder os defensores do Castelo de Almada.
— Sabia que estava cercado.
— Agora pelos homens de armas do tal Pero Sarmiento, adelantado de Castela. O próprio rei castelhano lá foi para intimar aos nossos a que se rendessem; mas, por mais ameaças e promessas que lhes fez, ninguém se quis entregar. Tem sido uma gloriosa defensa aquela, senhor Ruy de Vasconcelos! Um punhado de homens, e têm saído em arrojadas sortidas contra os sitiadores! E o prisioneiro de mais nomeada que ali fizeram os de Castela foi, logo no princípio, um velho de oitenta anos, foragido que veio para servir o Mestre.
— Um velho de oitenta anos?
— Assim como vos digo. E não há em Portugal quem lhe não saiba o nome de triste fama: Diogo Lopes Pacheco.
— Ah! Sei então quem é. Um dos matadores de D. Inês de Castro, se o foi; um dos validos de el-rei D. Afonso IV, o grande e intrépido rei da batalha do Salado. Dos matadores da linda e mal-aventurada Castro, ele só conseguiu escapar às iras de D. Pedro I.
— Fugido em Castela, de lá veio quando já estava com os pés para a cova! Mas Almada tem de entregar-se, e assistiremos nós daqui à sua perda, esperando a nossa! Corta o coração dizê-lo, porém é esta a triste verdade!
— Mas então o castelo já não pode resistir?
— Não pode. Vivem lá nos desesperos da sede, piores ainda que os da fome! Tinha o castelo uma cisterna; a estiagem secou-a. Andam lá doidos!
— E o Mestre o que resolve?
— Que se renda aquele punhado de valentes, visto que nenhum socorro se lhes pode levar. O Mestre sabe bem a desesperança em que eles lá estão. Agora até os de Castela levaram para lá um engenho de fogo, que não pesará menos de cinco quintais!
— Mas não poderiam esses pobres sitiados fazer algumas sortidas à noite para irem buscar água?
— Tudo isso fizeram e ainda mais! Havia fora da alcáçova um tanque de água das chuvas, verde, podre, nojosa, onde as mulheres da vila tinham lavado infundices e cueiros, e para onde os Castelhanos, por malvadez, tinham atirado as alimárias mortas. Pois dessa mesma foram buscar para beber, descendo de noite por cordas, ao longo das muralhas! E para trazerem aquele veneno, algumas vezes tiveram de lutar!
— Era bem um veneno de morte!
— Ferviam-na, crentes de que assim seria menos perigosa, e com ela amassavam o pão. Pois essa mesma os Castelhanos lhe disputavam em combate, ao preço de muito sangue, e essa mesma se acabou! Depois, uma noite, desceram pelos barrocais do monte para ir buscar a água salgada e turva do rio. Mas logo o souberam os sitiantes, e na seguinte noite lhe armaram uma emboscada, com uns cem homens de armas. Desceram dezassete dos defensores do castelo e caíram sobre eles os de Castela. Foi uma breve luta. Tiveram muitos mortos e feridos os Castelhanos, e dos nossos dezassete morreram três e todos os outros ficaram feridos de dardos e setas. E tudo isto para levarem apenas dois odres meios de água! Nem um bochecho para cada um dos que lá estavam em cima loucos de sede! E à míngua de água lá têm morrido alguns!
— Admira como tantas minúcias se sabem aqui, se todas as comunicações pelo rio estão cortadas!
— Tudo isto sabe o Mestre porque um valente homem daquela vila, que veio na armada do Porto, se ofereceu para ir a Almada de noite, cortando o rio a nado para os barrocais do Monte.
— Metendo por entre a armada inimiga!
— E por entre as esculcas da hoste sitiadora. E com todos estes perigos lá atravessou o rio, umas poucas de noites, seis vezes entre ida e volta, com recados do Mestre e informações da gente do castelo.
— Que valente esse homem!
— Filho do povo, senhor Ruy de Vasconcelos. Foi por ele que o Mestre mandou dizer aos do castelo que podiam tratar da honrada capitulação que mereciam.
Bateram à porta brandamente. Era o velho Gonçalo Vasques.
— A que vindes, meu velhinho?
— Senhor, para vos dizer que aí chegaram agora uns poucos de cavaleiros, não menos de vinte serão eles, e todos muito jovens, que vos desejam falar.
— Tantos, e assim cedo para quê?
— Isso é que eles me não disseram, meu senhor.
— Pois ide abrir-lhes a porta da sala de armas, e dizei-lhes que depressa estarei com eles.
— Eu vou, meu senhor.
— E eu saio, se me dais licença — disse o tanoeiro.
— Como vos aprouver.
— Mas antes deixai que vos dê uma notícia. Vai melhorando no hospital aquela mulher animosa...
— Já sei. A tia Lourença.
— Essa mesma. O Condestabre de saias como lhe chamam as outras. Fui a casa dela ver a doida, a quem deu abrigo no seu casebre. Disseram-me que estava mais sossegada; mas que levava horas e horas a chorar e a falar da filhita que morreu. Fiquei pasmado de a ver! Emagrecida pela fome e pelas amarguras, as faces cavadas, os olhos pisados, e mesmo assim linda! Teima em não querer dizer o seu nome; mas vê logo a gente que é rapariga de boa criação. Aquelas mãos não andavam afeitas ao trabalho rude da gente pobre. Será preciso dar-lhe socorro. Eu pela minha parte farei o que puder.
— Contai também comigo. Aqui tendes o meu primeiro auxílio para essa desventurada — disse, dando-lhe uma pequena moeda de ouro.
— Abençoada seja a vossa esmola e Deus vo-la pague nas muitas venturas que mereceis. Bom ouro este, senhor cavaleiro; mas o do vosso coração é de muito melhor quilate. Agora quero ver se a minhamulher tem por lá algum vestuário que possa servir à desgraçadinha. Traz em cima de si uma farrapagem de brocados ricos, ou dos seus melhores tempos, se os teve, ou talvez recebido de esmola!
— Pois eu falarei dela a minha mãe, que alguma coisa há de ter aí que possa servir à pobre enlouquecida.
— Ah! Isso decerto, e bem empregada esmola será. Fácil vos há de ser trazer para esta obra de misericórdia o coração benfazejo da minha madrinha e senhora, e então nenhuma protetora melhor terá aquela triste mãe, enlouquecida pela morte da filhita. Senhor Ruy de Vasconcelos, até quando quiserdes e mandardes.
— Talvez até logo, que tenho de ir falar ao Mestre, e com ele vos encontrarei, provavelmente.
— Com ele conto estar antes do meio-dia quando se houverem reunido em conselho no paço os da Casa dos Vinte e Quatro.
E disse isto desvanecido aquele glorioso tanoeiro.
Ia Ruy para a sala de armas quando Madalena, furtivamente, lhe saiu ao encontro, muito pálida, num alvoroço de receios. Ninguém passava então no longo corredor.
— Ruy, correis algum perigo?! — perguntou-lhe sumidamente, relanceando olhares inquietos para um e outro extremo do corredor. — Não, meu amor! Porquê?
— Vi entrar muitos cavaleiros jovens. Casualmente os vi, e sei que estão à vossa espera.
— Nisso não vejo eu o menor perigo para mim.
— É que eu conheço um deles!
— E o que importa conhecê-lo?
— É um jovem assomadiço, brigão, galanteador que há dois anos me requestava e perseguia. É o meu primo e foi sempre muito acarinhado pelo meu pai, que mo destinava para noivo. Receei que soubesse da minha vinda para aqui e aí viesse para vos desafiar!
— Com tantos a guardarem-lhe as prosápias! Mas teve amores convosco? — perguntou, bruscamente afogueado, num tratamento cerimonioso.
— Nunca lhe dei ouvidos, nunca lhe quis escutar palavras de amor. Pela minha mãe vos afirmo e juro!
— Chama-se?
— Antão Gonçalves de Mendonça.
— Fico prevenido. Pena foi que há mais tempo vos não lembrasse dar-me aviso desse requestador!
— Por Deus, sede prudente, se alguma coisa lhe ouvirdes que vos desagrade.
— É promessa que eu não sei fazer — respondeu-lhe com secura.
— Deus meu, que duvidais de mim!
— Eu vos direi depois. Esperam-me, e agora mais pressa a minha de os ouvir.
Deixou-a rudemente. Confrangida por aquela inesperada aspereza, em que o seu instinto de mulher percebia bem porque assomo de ciúme e de dúvida se mudara assim aquele enternecido requestador da véspera, Madalena foi seguindo pelo corredor fora como que estonteada.
Movida de temores por ele, num irrefletido impulso de lealdade, ela própria ingenuamente provocara essa brusca transição que a amargurava.
E, sem saber bem para quê, se foi aproximando da porta cerrada da sala de armas.
* * *
Ruy entrou e saudou-os cerimoniosamente. Dos vinte e dois que o esperavam, cavaleiros juvenis entre os dezassete e os vinte e três anos, alguns notou de relance que lhe eram absolutamente desconhecidos.
Veio logo para ele um cavaleiro de preclara nobreza com quem, havia tempo, travara relações íntimas.
Era um rapaz alto, espadaúdo, extraordinariamente magro, de rosto moreno e feio, azulado pela intensa barba rapada; nas mãos hercúleas uma brenha de cabelos ásperos, negros. Passava pelo mais destemido e audaz entre os jovens da nobreza do reino. Tinham-lhe posto os outros rapazes a alcunha de. Magriço.
— Ruy de Vasconcelos — disse-lhe na sua voz de estentor — perdoai este ousio de que só eu sou o culpado. Aqui vos trago estes meus associados para vos darmos conta do voto de cavalaria que anteontem à noite fizemos, juntos na minha casa. Sois dos mais leais e destemidos que tem Lisboa e porque o sois, homem de aventurosa juventude como nós, me pareceu dever aqui vir informar-vos do intento em que estamos, para nos dizerdes se quereis ser dos nossos.
— Assentai-vos, senhores. E vós, Álvaro Coutinho, se em nome de todos falais, podeis abertamente dizer o voto de cavalaria que fizestes.
— Primeiro deixai que torne conhecidos vossos alguns companheiros meus com quem não tendes tido trato de amizade.
E o Magriço foi-lhe fazendo a apresentação de uns nove que estavam na primeira fila.
— Aqui tendes um jovem de provado ânimo e boa linhagem, que em gentilezas de esforço promete resgatar do seu apelido a má sombra que nele pôs certo parente seu, muito chegado, que por ter errado caminho se afastou da nossa causa. Este se chama Antão Gonçalves de Mendonça.
Ruy encarou nele duramente e baixou a cabeça com singular frieza. O outro correspondeu-lhe de torvo aspeto, empalidecendo.
A seguir, o filho de D. Dulce foi falar afetuosamente, a todos os outros, seus conhecidos ou seus amigos.
— Assentai-vos, senhores meus — instou, indicando a todos os escabelos de espalda alta, cobertos de couro cordovês com relevos e pregaria amarela, que estavam em volta de uma longa mesa de cedro — Não é a mesa, a távola redonda do rei Artur — acrescentou, sorrindo — mas estou em crer que sereis vós como os companheiros do cavaleiro do cisne branco (*).
[(*) Referência a uma agremiação lendária de cavaleiros romanescos, chamados da Távola Redonda. Foi o seu fundador e o seu chefe o rei Artur do país de Gales, outra figura das lendas e das trovas dos menestréis da Idade Média. Segundo os romances dos troveiros, o rei Artur não podia morrer. Ficara encantado na ilha de Avalon e ali o guardavam nove feiticeiras.]
— Mas com intentos algo diversos — acudiu Magriço, muito prazenteiro, sentando-se.
— E vós — volveu-lhe Ruy de Vasconcelos — valereis por D. Galaaz, embora nenhum profeta e nenhum feiticeiro Merlim vos houvesse anunciado.
— Nem ando cercado de anjos como D. Galaaz — advertiu o Magriço em tom faceto — certamente parque até destes meus ossos esburgados e áspera cabeladura teriam medo os próprios meninos da celestial família.
Riram todos do gracejo; todos, não; Antão de Mendonça ficara taciturno.
— Mas já estou a adivinhar que esse voto de cavalaria — disse-lhe Ruy afetuosamente — será para a conquista de algum santo lugar...
— Os santos lugares da nossa terra de Portugal — interrompeu o Magriço calorosamente.
— E em vez do santo e glorioso Graal(*), que D. Galaaz buscava, ele o mais destemido e puro dos cento e cinquenta da Távola Redonda...
[(*) Nas lendas da alta Idade Média e no segundo ciclo da Távola Redonda o santo Graal era a taça de esmeralda por onde Jesus bebera com os seus condiscípulos na ceia de quinta-feira santa. Levada pelos anjos para o céu, só ao Mundo seria restituída quando houvesse alguém de tão extremadas virtudes que merecesse a honra de a tomar sob sua guarda.]
— A nossa bandeira com o seu escudo de castelos, as divinas chagas de Jesus e a grande cruz vermelha da Ordem de Cristo. Para chegar à conta dos cento e cinquenta do rei Artur muitos nos faltam ainda; mas espero em Deus que ainda mais havemos de ter. E agora vos darei informação do nosso voto.
— Com grande interesse vos ouvirei.
— Ontem nos juntámos os presentes, e, com licença do cabido, perante o altar de S. Jorge, em Santa Maria Maior, ali acordámos em formar uma hoste de cavaleiros jovens que, pela sua fé, pela sua Pátria e pelas suas damas, se obrigassem a lutar na dianteira de todos, para os mais arrojados feitos e para as mais singulares façanhas.
— Belo e glorioso pensamento! — aplaudiu Ruy — Foi vosso, estou a percebê-lo.
— Agora é de nós todos — respondeu-lhe o Magriço modestamente — De nós todos porque na alma e no coração de cada um foi o voto acolhido fervorosamente e um por um, sobre a cruz das nossas espadas, devotadamente o jurámos cumpri. Nós tornaremos realidade os rimances de cavalaria, que as nossas mães nos contaram e os troveiros peregrinos andam a exalçar pelo Mundo nos seus cantares. Será Nuno Álvares o nosso Galaaz de sonho e o Mestre de Avis o nosso rei Artur. Não se dirá que só em Inglaterra há grande e gloriosa cavalaria. Aqui a teremos também em prole da nossa gente leal, dos nossos amores pelas damas que nos quiserem, pelas que. Nós sonharmos nossas e até pelas que nos são ou foram esquivas.
— Por uma dessas, em mal-aventurados amores, lutarei eu a par dos que mais ousados forem — interveio Antão Gonçalves de Mendonça, arrebatadamente e talvez com algum clandestino propósito.
Ruy olhou-o com turbado sobressalto; mas logo se aquietou numa delícia íntima de orgulho. O próprio mal sucedido requestador de Madalena por aquele modo solene confirmava a revelação, momentos antes feita pela filha de Gil de Mendonça.
— Dizem que a boa e aventurosa cavalaria está para acabar — continuou o Magriço — Estará lá fora, onde começou e teve brilho maior; mas aqui agora começará para outros audaciosos cometimentos. Teremos também o nosso tribunal que decida pleitos de amor e a nossa corte de amores com a rainha da beleza, que por maioria de votos elegermos (*).
[(*) Houve cortes de amor e tribunais de amor na Provença e em outros países da Europa durante a Idade Média. E nessas cortes se elegia para rainha a dama de mais esplêndida beleza. Ainda hoje nos jogos florais, em França e na Espanha, principalmente, se elege para rainha a mais formosa das damas presentes e é das suas mãos que os poetas laureados vão receber o prémio de homenagem ao seu engenho. É ainda um reflexo das velhas tradições de galantaria dos tempos medievais.]
— A rainha das mais lindas — interveio outra vez Antão de Mendonça — a conheço eu e, apesar das fundas mágoas que me tem causado, por ela darei meu voto, e mentirá como um cão judeu ou mouro refece quem disser que tal não é.
Ruy fez um gesto de impaciência, bem que as palavras do primo de Madalena lhe lisonjeassem as vaidades de galã preferido.
— Isso não é para agora, Antão de Mendonça! — observou-lhe o Magriço — O tribunal de amor que houvermos de formar, recolherá os votos pela rainha das beldades, e das mãos de quem o for, receberemos o pendão com que havemos de combater, pendão verde, como já acordámos; estandarte de jovens enamorados naquela cor em que a esperança de sonhadores suavemente se representa.
— Que é também a cor do mar — lembrou Ruy — desse mar imenso que nos cinge e requesta a Pátria nos seus beijos de espuma; mar de sonho em que as ondas semelham esquadrões de corcéis brancos; mar de sonho e de ilhas encantadas como as mouras das nossas fontes; mar onde nasceu a deusa pagã dos amores e onde nascem as pérolas com que se toucam os cabelos de ouro e se adornam os colos de alabastro.
— Das mais belas ou das mais feias — gracejou o Magriço — E olhai que nisto falo por interesse meu. Não tive ainda nenhuma dama linda que me quisesse e estou em crer que alguma feiticeira me destinou para paladim de castelã abandonada, que seja feia e magra como eu. Talvez como certa inglesa fidalga que eu vi no Porto. Éramos de tal arte esburgados e feios os dois, que até as regatonas da cidade lhe deram a alcunha de Magriça, e ela e eu nos ficámos com pavor um do outro!
Uma ovação hilariante retumbou na velha sala de armas.
— Perdoai-me vós, Ruy de Vasconcelos, o desconchavo do gracejo e deixai que vos esclareça quanto ao voto singular da nossa hoste. Nenhum agravo de ciúme, nenhuma contenda por casos de honra será resolvida em torneio ou luta de duelo, enquanto Portugal carecer do esforço e do sangue de todos os seus leais cavaleiros. Ciúmes e agravos hão de vingar-se, ou hão de remir-se, a batalhar por causa da Nação. Entre dois ou mais ao desafio, será julgado vencedor, na vingança ou no desagravo, aquele que maiores façanhas praticar nas hostes de Portugal. Assim o juramos.
— E assim o vou eu jurar, se me quereis entre vós — disse Ruy, erguendo-se com entusiasmo.
— Queremos, sim, pois aqui viemos para serdes dos nossos — acudiu o Magriço, levantando-se também.
— Queremos! — repetiram todos, menos Antão Gonçalves de Mendonça.
Mas ninguém deu por aquela exceção ofensiva. Ruy de Vasconcelos fora buscar a uma panóplia a velha e gloriosa espada com que o seu avô batalhara contra os mouros em Espanha.
Solenemente, radiante de entusiasmo, ainda mais bela agora a sua máscula figura de herói romanesco, o Vasconcelos, destacando-se naquela austera sala gótica em cujas panóplias e troféus se podia ler toda a história épica de Portugal, beijou o punho da gloriosa espada do Salado e com ela nas mãos, religiosamente como um sacerdote com a relíquia de um sacrário, disse numa comovida vibração:
— Diante de vós todos, cavaleiros jovens de uma nova cavalaria, votada à glória e à defesa da nossa terra, honra e ao esplendor das nossas damas; na vossa presença, cavaleiros da aventura, paladins enamorados por quanto há de sublime na paixão da Pátria e de um canto no amor das nossas damas, e sobre a cruz desta velha espada, que foi das primeiras nos campos da Tarifa, naquela maior vitória das Espanhas contra o mais soberbo poder mouro, sobre ela vos juro, pela minha alma de Português leal e pela angélica beleza da minha dama, que hei de ser convosco para os maiores feitos e para os maiores sacrifícios, nas mais renhidas lutas, nas mais desigualadas batalhas!
— Glorioso cavaleiro enamorado, bem-vindo sejais, e na nossa companhia vos recebemos com alvoroço e orgulho por vós, honrado e ilustre Ruy de Vasconcelos, representante da mais preclara e remota nobreza de Lisboa e de Entre-Douro e Minho! — disse o Magriço.
— Benvindo sejais! — repetiram num fervor de aclamação todos aqueles jovens sonhadores; todos, menos um, de torvo parecer, olhar duro e hostil. Era Antão de Mendonça.
Ruy notou-o e empalideceu numa cara de cólera.
— Que seja para maior honra e lustre do vosso brasão! — disse-lhe afetuosamente um dos seus mais diletos amigos, companheiros da expedição ao Porto.
— Pela glória da nossa terra primeiro — volveu-lhe Ruy numa perturbação violenta.
E logo, propositadamente, olhos turvos de rancor a procurarem o olhar enviesado do Mendonça, acrescentou com arrebatada veemência:
— E com essa glória, pelos meus supremos amores. O da minha mãe e o da minha dama. Mas por esta, maior encargo ainda, porque há de o meu esforço remir-lhe a mácula, que sem culpa sua caiu sobre o seu apelido fidalgo.
Enfiado, numa turbação maior, o Mendonça voltou-se para o Magriço e rouquejou-lhe esta pergunta:
— Vós, que sois a alma guiadora de nós todos, sabei agora se o jovem cavaleiro Ruy de Vasconcelos pelo seu juramento se obrigou a observar todos os preceitos em que ontem concordámos e há pouco lhe resumistes.
— Respondei por mim — acudiu Ruy torvamente, voltado para o Magriço — respondei que todas as obrigações tomei, como se todas conhecesse perfeitamente e uma a uma as houvesse designado no meu juramento. Mesmo alguma que vos tivesse esquecido notar-me. Por essa me obrigo também, pois que nenhuma seríeis capaz de tomar para vós que não fosse de honra insigne para mim.
— Honrada palavra, Ruy de Vasconcelos! — exclamaram entusiasticamente os que eram seus amigos ou com ele tinham tido convivência.
— Uma então vos esqueceu designardes — disse o Mendonça voltado sempre para o Magriço e cada vez mais provocante, já com mal ensombrada estranheza de alguns e do próprio a quem se dirigia.
— Qual?! — perguntou o Magriço.
— Aquela em que nos sujeitamos a declarar o nome da dama dos nossos amores, ainda que fosse para nós somente um amor de sonho, ainda que fosse uma desprezadora do nosso preito. Amor ditoso ou desventurado amor, com obrigação igual. E assim o fizemos.
— Eu não, bem o sabeis — retorquiu o Magriço.
— Lealmente declarastes que nenhuma tínheis, bem que também vos considerásseis enamorado de um sonho todo de aventuras e glórias de cavalaria por qualquer dama que de alguém fosse ofendida.
— Isso disse.
— Eu por mim, com mágoa e lealdade igual, a todos vós declarei a qual dama esquiva, injustamente deprimida por uma culpa que não era sua, votaria os feitos maiores de que fosse capaz.
O Magriço encarou-o de rosto avincado; voltaram-se para ele olhares de surpresa. Compreendiam que alguma coisa extraordinária perturbava o ânimo daquele companheiro; mas não podiam adivinhar o que fosse, nem com que propósito hostil eram feitas aquelas advertências, de que só ele se lembrara.
— Não sei entender-vos! — disse-lhe Álvaro Coutinho.
— Entendo eu! — acudiu Ruy de Vasconcelos, num afogueamento de rancor, sempre voltado para o Magriço — Tenho obrigação de revelar o nome da minha dama. Submeto-me; é um sacrifício, uma quebra de propósito que há dias tinha feito: mas cumprirei o preceito, senhores e companheiros meus.
E aprumando-se, numa soberba atitude, disse lentamente:
— A dama a quem eu quero e me quer, angélica dominadora da minha alma, com tal imenso amor estremecida, que vivo da luz do seu olhar e buscaria a morte, se para mim nalguma hora se apagasse, é tão nova que ainda apenas lhe alvoreceu a sua primavera de mulher é já de tal modo desditosa, que das suas lágrimas nasceu numa hora o santo amor que lhe tenho. Na minha casa vive sob a guarda protetora da minha mãe.
Naquele silêncio profundo de vinte homens subjugados pela avidez daquela revelação, rouquejou alto a voz de Antão de Mendonça:
— Há dois dias o soube.
— Há mais o sabia o Mestre e com ele o Juiz do Povo e dezenas de homens da plebe — retorquiu Ruy, sem se voltar para o seu interlocutor.
Mas não o sabiam os outros e mais intensa foi a surpresa que estavam a prever naquela revelação.
— Afrontada pelo crime do pai, um bandeado com os de Castela, fugida do seu lar fidalgo, ao desamparo; das ameaças da plebe a defendi e com licença do Mestre a trouxe para esta casa com a sua mãe para que ambas se acolhessem ao amparo da minha mãe. É D. Madalena de Mendonça, filha de Gil Vasques de Mendonça ao serviço do rei castelhano por traição à Pátria.
Todos os olhares se voltaram para a fisionomia desfigurada de Mendonça.
— Essa contava eu que fosse! — regougou.
— E nada nos dissestes, quando nos dispusemos a vir aqui! — disse-lhe asperamente o Magriço.
— Queria eu próprio vir buscar a certeza. E agora que a encontrei, posso dizer alto ao requestador de Madalena de Mendonça que é a dama por quem eu hei de lutar, remindo por ela a culpa do pai.
— Ao Mestre prometi que em feitos de armas lhe pagaria os direitos do favor que me fizera, concedendo-me que desse abrigo a essa dama.
— Que a plebe difamara, sabendo-a aqui — replicou o Mendonça num desvairo de rancor.
— A plebe sabe o homem de honra que eu sou e a santa e honesta mãe que eu tenho! — retorquiu o Vasconcelos num tom altaneiro, cravando nele um olhar relampejante de ódio — À ponta da lança — acrescentou, voltando-se para o Magriço — afiancei ao Mestre que havia de conquistar tal dote de noivado para Madalena de Mendonça, que chegasse para tornar esquecido o aviltamento do pai.
— É meu tio. Vede como falais!
— Toda a traição à Pátria é um aviltamento, e lutar contra ela, entre os seus inimigos, é ainda aviltamento de maior infâmia. É esta a verdade das coisas e são estas as palavras que eu mantenho e em qualquer parte repelirei, seja diante de quem for!
— Pois então provai essas bazófias! — rouquejou o Mendonça de mão na espada, indo na sua direção — Cavaleiro, provai-as. A isso vos emprazo!
— E a isso vos hei de eu responder!
— Madalena de Mendonça talvez nunca seja minha pelo seu querer, mas também nunca será vossa porque não vos consinto eu!
— Deveis aos nossos companheiros o agradecimento de eu vos não mandar pôr fora daqui pelos meus cavalariços.
— Miserável! — bramiu o Mendonça numa cegueira de raiva, tirando a espada.
— Cavaleiro, que faltais aos vossos deveres, quebrando o juramento feito! — admoestou o Magriço,. Segurando-lhe a espada — Connosco jurastes que os desagravos de amor e de pontos de honra só em batalha se tinham de pleitear, tendo-se por vencedor o que mais se arriscasse, honrando e defendendo melhor a nossa terra.
— Não lhe faz falta a vida de um homem — replicou-lhe a espumejar ódio e numa tentativa inútil para libertar a espada.
— Tende-vos, Antão de Mendonça! — disse-lhe o Magriço — Para rebater esses lobos de Castela, que nos querem matar a Pátria não é demais o sangue que todos lhe devemos.
— Pois desligai-me do juramento e expulsai-me da vossa companhia — regougou numa cegueira maior de cólera — Hei de ver se um farsante de amores levanta para mim a velha espada do avô.
— Guardai a bazófia e o desafio para quando estiverdes com Ruy de Vasconcelos num campo de batalha — recomendou-lhe o Magriço, indignado — Nem tendes o direito de ver agravo em que outro jovem, cavaleiro ilustre, tenha amores honestos com a dama que vos não quer a vós.
— Eu por mim vos declaro, meus amigos, que teria vergonha, a mais atormentadora vergonha, de alardear ciúmes por mulher que me não quisesse.
— Nem mesmo por aquela que, há dois anos, fugiu do Paço e ninguém soube para onde, enjeitando-os por outro? — interrogou o Mendonça nuns estremeções de raiva.
— Por essa menos ainda do que por qualquer outra — replicou-lhe o Vasconcelos, turbando-se — Desprezei-a; não a persegui como vós perseguis Madalena de Mendonça, que vos rejeita e quer ser, e há de ser minha noiva.
— Voto a Deus que não o será nunca! Nunca! — volveu-lhe, rouquejando, no olhar uma expressão de sanguinário furor — Senhor Álvaro Coutinho — disse solenemente para o Magriço — dai-me por desligado da vossa pequena hoste de cavaleiros enamorados. Quero livres a alma e a espada!
— Ao nosso lado — respondeu-lhe ele com altiva severidade — vossos ciúmes, bons ou maus, os poderíeis pleitear nos campos de batalha com honra vossa e em serviço de Portugal.
— Tarda-me o desforço. Eu sozinho irei para onde fordes, se a Deus não aprouver que a minha espada vá, sem delongas, até onde a minha vontade anseia chegar.
Num arranque de fúria, olhar incendido, as linhas do rosto em violentas contrações, Ruy de Vasconcelos disse para o Magriço:
— Pela amizade com que me tendes honrado, senhor Álvaro Coutinho, vos peço que desligueis da nossa comunidade ao nobre sobrinho de Gil Vasques de Mendonça, aquele famoso cortesão da rainha comborça, agora bandeado por Castela.
— Vilanaz! — regougou o Mendonça, indo para ele.
Retiveram-no.
— Senhores! — verberou Álvaro Coutinho — vexam-me essas afrontas de palavras, indignas de quem sois!
— Desligai-o — insistiu convulsivamente Ruy de Vasconcelos — desligai-o!
— Por minha parte vos considero desobrigado de quanto jurastes, senhor Antão Gonçalves de Mendonça. Dizei vós agora, irmãos e companheiros meus pelo voto jurado, qual parecer é o vosso?
— Que se tenha por desobrigado como dissestes — respondeu um deles.
E todos, com pequena variante de forma, deram igual parecer.
— Obrigado, senhores — acudiu Antão Gonçalves de Mendonça, no rosto a máscara de uma sinistra palidez, a voz a roufenhar-lhe, perturbada.
Sentia a exautoração acabrunhadora daquele acordo.
— Mais vos devo agora, senhores meus — disse-lhes Ruy de Vasconcelos — Maiores encargos tomo para convosco.
— Para qualquer hora e para qualquer recanto da cidade vos emprazo a cruzardes a vossa com a minha espada — disse diante dele o Mendonça, aprumando-se numa arrogância de desafio.
— Quando vos aprouver. Mas antes que essa hora chegue, corre-me o dever de desagravar esta casa, mandando subir um cavalariço que vos acompanhe à porta.
— Ah! Poltranaz! — bramiu o Mendonça, indo para ele, de adaga em punho.
O Magriço tomou-lhe a frente e fez-lhe vergar o braço sob a sua pesada mão de atleta.
— Esta é a casa de uma das mais nobres e leais famílias deste reino! — admoestou Álvaro Coutinho.
— Gonçalo Vasques! — chamou Ruy, indo para a porta — Um cavalariço que suba para...
Com uma palidez de morte, numa tremura convulsiva, afogados de lágrimas os seus lindos olhos de celestial meiguice, Madalena antepôs-se-lhe suplicante.
— Por quem sois!... Pode ouvir vossa mãe!
Tinha escutado tudo em longos minutos de ansiedade, dobrada contra a porta, numa tremura de febre, numa irresolução de pavor. Afinal, daquela mesma angústia lhe veio o ânimo com que os seus tímidos dezassete anos não podiam contar e, numa vertigem, como alucinada, se arrojou a fazer o que em outro lance menos grave lhe havia de parecer esforço impossível do seu coração enamorado.
— Senhora! Não devíeis estar aqui! — volveu-lhe Ruy de Vasconcelos com amargura de surpresa.
— Perdoai... Por tanto vos querer! — soluçou.
Ainda contido por Álvaro Coutinho, o Mendonça agitou-se numa agitação de ódio inexcedível, clamando:
— Madalena de Mendonça, por vós, ou ele ou eu!
— Homem de prole, vede que é uma dama! — disse-lhe o Magriço asperamente.
— Justiça de Deus seria que eu matasse — replicou-lhe desfigurado.
— Ruy, não lhe dês ouvidos! — segredava de mãos postas, numa súplica de imensa amargura, aquela pobre Madalena, cuja peregrina beleza produzira uma impressão de deslumbramento naquele grupo de sonhadores.
— Senhor Ruy de Vasconcelos — disse Álvaro Coutinho solenemente — desejo pedir-vos um favor.
— Dizei, mandai — volveu-lhe numa perturbação enorme.
Permiti-me que seja eu quem acompanhe o senhor A mão de Mendonça até à porta desta casa.
— Como se a vossa fosse, e por vós somente, honra e timbre de cavaleiro.
O Magriço tomou do braço de Antão de Mendonça, cada vez mais desfigurado.
Quase à porta da sala o primo de Madalena volveu-se de súbito:
— Amanhã, ao romper da alva nas terras ermas de Santo Antão, por este ódio de morte!
— Por Madalena de Mendonça — rouquejou o desafiado — e lá serei convosco.
— Rui! — murmurou a filha do traidor numa convulsão mortificadora de medo.
* * *
Mal o provocador saiu da sala, todos os cavaleiros pediram a Ruy de Vasconcelos a honra de lhes permitir que apresentassem ali as suas homenagens a Madalena.
Nem eles podiam sonhar sequer no drama torturador que alanceava a alma daquela infortunada mulher, tão cedo levada para o caminho lúgubre de um calvário.
— Coragem, meu amor! — segredou-lhe Ruy quando foi solicitar-lhe a permissão da etiqueta.
— Não sei se posso! — murmurou — Tua mãe em sabendo! E eu, Ruy? Eu, que tudo sei!
— Confia em mim, vida da minha alma! — disse tão baixo, que só ela o podia ouvir.
E logo foi para os jovens cavaleiros, agrupados a um extremo da sala:
— Muito apraz a D. Madalena de Mendonça a honra de vos conhecer, companheiros meus, que sois a flor e a gentileza da boa e ilustre cavalaria da nossa terra. Desculpai-lhe a turbação. Tão nova, como vedes, era de esperar que este lance profundamente a perturbasse.
— Desculpas só nós as devemos pedir, se esta nossa homenagem lhe for molesta.
— De nenhum modo, senhores meus.
O Magriço entrara e logo os outros lhe deram conta do seu propósito. Ruy afastara-se para ir reanimar Madalena cada vez mais pálida.
— Com todo o entusiasmo irei convosco, pois que no mesmo intento vinha pensando — respondera Álvaro Coutinho.
— E vós o primeiro dentre nós, como em tudo.
— Agradecido. E sabei que nunca na minha vida encontrei formosura igual à desta dama juvenil!
Entretanto, Madalena, a reprimir os soluços, a represar as lágrimas, num confrangimento de alma que fazia dó, a mão tremente apoiada ao braço de uma grande cadeira alta de espalda, dizia sumidamente:
— Ruy, e a tua mãe! O dó e o medo que eu tenho por ela! Pela minha causa! Amanhã! Nossa Senhora tenha compaixão de mim!
— Madalena! — segredava-lhe ele com amorável piedade — Tem coragem. A minha espada será por este amor puríssimo, e Deus por nós.
O Magriço adiantava-se para ela na frente dos seus irmãos de armas.
— Senhora! — disse-lhe, dobrando o joelho num requinte de cavaleirosa gentileza, ao estilo daqueles extraordinários tempos — Deixai que estes homens votados ao culto da beleza e à glória e defesa da sua terra, vos prestem homenagem de admiradores vossos e, como rainha que sois pela vossa peregrina beleza, vos beijem a mão.
— Perdoai... Que vos não saiba agradecer como mereceis a tamanha gratidão das vossas palavras — balbuciou mim fio de voz dolorida, olhos baixos para que lhos não vissem toldados de lágrimas.
— Senhora, recebei-nos como rainha de beldades, nessa cadeira como um trono, assentada como as rainhas e nós como vassalos vossos.
E nem eles podiam sonhar o contraste esmagador que havia naquelas palavras de supremo preito com as outras de pavor e mágoa que vibravam, como um pregão de luto, no coração daquela encantadora dama de dezassete anos.
— Amanhã! Podem matar-mo! Pobre mãe! A desgraça que para ela veio comigo!
Eram assim as palavras de imensa dor que ela ouvia melhor dentro em si e ninguém mais podia ali ouvir.
A arder em febre, num estonteamento dos sentidos, deixou-se cair na grande cadeira. Não era aquiescência ao pedido lisonjeador de Álvaro Coutinho; era receio de que as forças a desamparassem.
— Senhora, assim. Sois a dama bem-amada de um esforçado e leal cavaleiro de Portugal, e somos nós, seus companheiros e admiradores, quem vos aclama rainha das mais belas que temos visto.
— A mais bela! — repetiram os outros, curvando-se.
E nenhum reparara em certa dama de cabelos embranquecidos, o rosto pálido de doente que, momentos antes, assomara à porta e ali se ficara num acabrunhamento de estranheza.
— Filho, não sabia desta luzida corte na minha sala de armas — disse D. Dulce numa tremura de voz, em que a surpresa se irmanava ao despeito.
— Perdão! Perdão! — soluçou Madalena, levantando-se, desvairada, de mãos postas, e em passos hesitantes, numa crise de choro, tremente como criança espavorida, foi pôr-se de joelhos em frente da mãe de Ruy — Minha protetora!
E caiu desamparada no chão. Todos se acercaram dela, Ruy primeiro que ninguém, num sobressalto de amargura, curvando-se para a levantar nos braços.
— Filho, estou eu aqui! — disse-lhe severamente D. Dulce, curvando-se para aquela pobre desmaiada — Ruy, pede por mim desculpa a estes cavaleiros.
E logo baixo para ele numa dolorida ironia:
— Eu velarei pela rainha.
CAPÍTULO VII
UM COMBATE SINGULAR
O encontro fora aprazado para o alvorecer do dia seguinte, nas terras ermas de Santo Antão, um pouco para os lados da Porta do Jogo da Péla, com a espada de batalha e adaga, até que um dos campeadores ficasse mortalmente ferido. Por armas defensivas somente o bacinete sem viseira descida e sem gorjeira, o loudel(*) e os braçais.
[(*) Nos fins do século XIV era já usado o arnês de pernas, como diz Fernão Lopes, ou o arnês complido, como diziam os Castelhanos, o qual vinha a ser a cota de armas com os coxotes, grevas e caneleiras, peças que defendiam as coxas, os joelhos e as canelas. Mas ainda estavam em uso os saios e camisas de malha de ferro, as solhas e os loudéis, vestimentas de couro revestidas de pequenas lâminas de ferro ou aço, não raro sobre-postas como escamas. Também havia o loudel de pele ou estofo enchumaçado de algodão ou estopa. Davam-lhe os Franceses o nome de jaqueta e chamavam-lhe os nossos jaqueta e os Espanhóis chaqueta.]
Fora isto combinado de tarde no adro da Sé, entre Álvaro Coutinho e outro do grupo dos Namorados, testemunhas e mantenedores por parte de Ruy de Vasconcelos, e dois cavaleiros de prole, escolhidos por Antão de Mendonça para seus apadrinhadores.
Ruy e as suas testemunhas juntar-se-iam ao pé das hortas de Valverde, logo que fossem duas horas da madrugada.
Madalena passara o dia numa tortura de alma horrorosa, agravada ainda pelo propósito mortificador de ocultar a D. Dulce o perigo de morte em que estava o filho.
Escondida na sua câmara, de joelhos diante de uma imagem pequenina da Senhora das Dores, levara horas numa canseira de choro, que parecia cegá-la, e numa convulsão de soluços como arrancos do coração, a espedaçar-se de mágoas.
Orava em súplicas, que se lhe truncavam na garganta, dizendo rezas que lhe tremiam nos lábios, fazendo loucas promessas, que lhe seria impossível cumprir. Uma alucinação de dor.
E quanto maior era o fervor da sua fé, mais intensa a esperança no amparo da mãe de Jesus, simbolizada naquela imagem pequenina de Mãe, alanceada na sua dor suprema de Mulher, mais a sua oprimidora imaginação lhe afigurava lances de trágico desenlace, em que ele, o seu primeiro amor, morria às mãos do outro, trespassado pela sua espada, a relampejar ódios!
E a mãe de Ruy — pensava — que inexcedível angústia a dessa pobre senhora, e que legítimo desafogo não seria o seu, a clamar maldições contra quem lhe pagara em luto, no maior luto pela maior perda, a carinhosa graça com que as recebera na sua casa, a ela e à mãe, a filha e a esposa de um traidor, que toda a cidade odiava!
Chegou a noite e o tormento cresceu. Andava a fugir, a esquivar-se de D. Dulce e da própria mãe, acabrunhada de vergonha pela revelação daqueles amores, que em poucos dias se tornaram doidos, de fascinação irresistível, em audácias e arrebatamentos como se fossem antigos!
Afinal não pôde mais. A febre recrudescera violentíssima. A mãe foi dar com ela na cama, vestida, amarfanhada nas roupas, ardendo em febre!
— Filha, que desvario o teu! Assim desfigurada! Numa tremura de febre! Diz-me o que te amargura. Que foi? Conta-me tudo, filha! Mágoas, se as tens, todas as que tiveres, minha querida! Eu serei por ti, eu estarei sempre contigo. Nunca tive amor maior na minha vida, nem igual a este que eu tenho por ti. Nunca! Não tenho, não quero mais ninguém. Abre-me o teu coração, filha!
Beijou-a enternecidamente.
— Valha-me Nossa Senhora! O teu rosto queima! Mas nem eu atino...
— Mãe, nos vos dê preocupações — interrompeu-a sumidamente, puxando-lhe as mãos para si, beijando-lhas sofregamente.
— Estou a adivinhar, Madalena! Encheu-te de vergonha que D. Dulce viesse a saber dos teus amores com o filho, tão de repente começados, e oprime-te a ideia de não poderes ser sua esposa. Mas é loucura tua, filha. Amores de honesto pensamento nunca mancharam ninguém. O teu sangue é de tanta nobreza como o de Ruy de Vasconcelos.
— Alguém o tornou odiado! — atalhou, soluçando — Mãe, perdoai-me!
Não era nisto que ela pensava, mas nesta explicação supunha ocultar a verdadeira causa daquela sua mágoa enorme.
— Mas, filha, qual culpa tens tu dos erros de alguém? Erros, traições, manchas, até na família dos reis, até nos mais gloriosos brasões, e não sei que, por esses crimes ou por essas máculas, se tornassem de afronta os amores honestos daqueles que não os cometeram! Olha o Mestre de Avis, bastardo de um rei, filho de uma mulher plebeia, e o povo já diz que o há de fazer seu rei. Não te mortifiques assim por culpas que não são tuas. Assim mortificas-me também. As mágoas da tua alma sinto-as e sofro-as eu também, Madalena! Não escondas de mim o teu coração. Não tens no Mundo quem mais te queira. Nem ele, filha, nem ele!
— Mãe e D. Dulce?
— Disse-me que ia falar com o filho e com ele se foi encerrar na sua câmara.
— Se alguma coisa lhe disseram, se lhe teriam ido dar notícia do desafio — pensou, confrangida.
— Queixou-se-me D. Dulce da sua enfermidade, agora a mortificá-la mais.
— Por minha causa! Pela minha causa! — soluçou.
— Jesus! Que desvario o teu! Porque há de ser pela tua causa? Só porque percebeu os amores do filho por ti?
— Somos mais desditosas e mais pobres que as esfarrapadas das ruas!
— Filha, vales tu o mais opulento dote.
— Mãe, sofro muito! — disse num gemido, sentando-se na cama, de repente — Nem podeis sonhar como eu padeço!
— Mas diz-mo, filha da minha alma; é isto o que eu encarecidamente te peço. Pela minha vida, pelo teu amor, por quanto mais prezares. Desafoga comigo, sim! — disse-lhe acarinhando-a, beijando-lhe os olhos rasos de choro — Tu bem sabes que não tens ninguém com quem mais deves contar.
— Mãe, sim — respondeu-lhe em soluços — Cerrai bem aquela porta, fechai-a, mãe da minha alma, para que ninguém nos possa ouvir.
— Madalena, tamanho recato porquê? Assustas-me!
E torturou-a a suspeita de algum segredo que fosse de mácula para a honra da filha.
Foi fechar a porta por dentro, numa opressão de medo.
Voltou e disse com dolorida ansiedade:
— Filha, depressa! — instou numa tremura de voz — Quero ouvir-te e tenho medo!
— Medo, vós?! — disse com estranheza — Vós, que nada sabeis! E então eu, que tudo sei, vede que medo não há de ser o meu?!
— Amarguras-me nessa demora! Vamos, dize; seja o que for, que ainda hei de ter lágrimas para chorar o teu infortúnio.
— Mãe, minha querida mãe, tamanho infortúnio! — soluçou, abraçando-a.
— Filha! De vergonha, de perdição?
— Para morrer de mágoa!
— Perdeu-se nesse amor! — concluiu sumidamente, numa aflição de dó e de vergonha.
— Mãe, pode levá-lo a morte, e D. Dulce não quererá nunca perdoar-me, se lhe matarem o filho.
— Não te entendo, Madalena! Matar-lho quem?!
— Meu primo Antão de Mendonça. De manhã o desafiou, aqui mesmo nesta casa, na sala de armas, e para a madrugada se emprazaram! Mãe, vede que aflição a minha, que dor mortal para a pobre mãe que nos deu amparo, se o matar um parente nosso, pela minha causa! E da minha dor, do que ela pode ser, nem eu sei falar-vos, mãe! Não sei!
Apertou-a muito para si, numa tremura de criança, as lágrimas em fio contra o rosto da mãe, o coração a pulsar-lhe numa violência de terror.
— Filha, Deus será por ele, e a nossa Senhora terá dó de ti! Pedir-lho-emos ambas.
— Mas nem podeis sonhar como eu lhe quero! Amor de poucos dias já tamanho! Suspeitáveis destes amores, mas não podíeis adivinhar o que eles são! Ninguém o podia adivinhar! De tão grande ventura, que nem a vida chegará para sonhá-la ou para tamanho sofrer, que só com a morte se acabe!
— Criança! Minha pobre criança, como tu dizes essas coisas loucas! Olha cá, Madalena. E D. Dulce desconfiará ou sabe já desse desafio?
— Não tive ânimo de lho dizer! Pobre mãe se o sabe, e que loucura de dor se lho matarem! E eu? E eu? Nossa Senhora tenha piedade de mim!
— Não há de querer Deus que seja assim, filha... Mas não estejas nessa mortificação.
— Não posso! Não há vontade que possa ir contra o coração, e o meu está a adivinhar-me umas coisas, que até tenho medo de dizer! Daqui a algumas horas será! Tenho em mim o sonho do que essa batalha pode ser. Falaram um ao outro com um ódio de morte, que nasceu em minutos e parecia de muitos anos, tão súbito e tamanho como estes meus amores! Vejo e sinto todos esses pavores de morte! Tenho nos ouvidos o ruído das espadas que se cruzam, aquele ruído que eu ouvi uma vez de noite, em frente da nossa casa! Mas neste sonho de amarguras ainda pior, assim como se fosse uivo de morte o tinir daquelas espadas!
Afogou-se-lhe a voz numa golfada de soluços.
— Então, Madalena! Tudo isso afinal são coisas mortificadoras que a tua cabeça está inventando.
— Se até os meus olhos me estão enganando para mais ainda me mortificarem! Estou a vê-lo atravessado pela espada desse que é do meu sangue! Caído, muito branco, olhos cerrados, morto! E uns homens que o trazem numas andas para esta casa! A mãe, coitadinha, de joelhos a gritar contra quem lhe trouxe a sua maior desgraça na perda do filho. Contra nós! Contra mim! Mãe da minha alma, contra mim! — rouquejou, aconchegando-se-lhe ao peito como uma criança tolhida de pavor.
— Jesus! Que doidejar de martírio, filha!
— Mãe, queria dizer-lhe adeus... Antes que ele partisse. Deixai. Esperemos aqui a rezar, iremos ambas quando se perceber que ele vai sair. Não mo negueis. Eu bem sei que tendes dó de mim, nem há mãe que tanto queira a uma filha como vós me quereis; não creio que haja, e isto vos peço, era uma esmola para mim.
Cingira-a nos braços, beijava-lhe os cabelos.
— Sim, filha — respondeu-lhe enternecidamente — O que tu quiseres. Para a boa e para a má fortuna, como sempre fui, a tua maior amiga, com a tua vida presa à minha, porque para mim, Madalena, o único amor tens sido tu.
— Eu sei, eu sei, minha linda santa! — disse a beijá-la.
Bateram brandamente à porta. Madalena ergueu-se de joelhos na cama, numa agitação aflitiva, no rosto uma palidez de terror.
— Quem bate? — perguntou D. Maria de Mendonça.
— Dulce — respondeu uma voz magoada.
— Nossa Senhora me dê animo! — murmurou Madalena, encostando-se ao cabeçal do leito.
D. Maria de Mendonça fora abrir a porta.
— Venho saber da vossa filha — disse a mãe de Ruy.
— Pois bem-vinda sejais, senhora e protetora nossa — volveu-lhe D. Maria numa tremura de voz — Ali a tendes com os seus achaques de outro tempo.
— Ah! Sim; não sabia que era padecimento antigo. Estava preocupado. O meu filho saiu agora.
— Saiu já! — murmurou Madalena num estremeção de medo.
— Eu tinha-o visto entrar para os vossos aposentos — acudiu D. Maria, disfarçando.
— Precisava de lhe dizer umas coisas de confidência.
— Não sabe ainda do desafio! — pensou Madalena.
— Mas agora que ele saiu, não quis deitar-me sem vir ver como estava a nossa doentinha.
Avizinhou-se do leito de Madalena.
— Então? Doença que não é para dar preocupação, não é assim?
— Mal-estar, nem eu sei porquê. Coisa de nada, senhora minha — respondeu-lhe arrastadamente, num fio de voz enrouquecida.
— Antes assim. Até me parece que adivinhei logo a causa — disse, esboçando um pálido sorriso, artificioso e frio — Era natural que muito vos perturbasse o alvoroço da aclamação.
E voltando-se para D. Maria de Mendonça, acrescentou com o mesmo sorriso:
— Haveis de saber já; certamente o sabeis.
— O quê, D. Dulce?! Não vos percebo!
— Pois que o não sabeis, sempre vos direi que nem todas as rainhas são desprendidas de vaidades do Mundo como a vossa linda filha.
— Não vos entendo.
— Esta manhã, na minha sala de armas, a proclamaram rainha das belas não sei quantos cavaleiros jovens, que vieram convidar meu filho para uma hoste de namorados e de aventurosa cavalaria.
— Meu Jesus, piedade! — suplicou dentro de alma a torturada Madalena.
— Esta noite ou amanhã vos hei de falar de assunto grave, e então vos direi miudamente o que eu vi e o meu filho há instantes me confessou. Agora não. Ruy contou-me que sobre a madrugada se esperava um assalto dos Castelhanos. Parece que um fugitivo do arraial inimigo trouxe de tarde a denúncia do cometimento. Todos os cavaleiros e homens de armas tiveram ordem para estar de vela durante a noite nos muros e adarves das torres.
— Engano para lhe ocultar a verdade! — pensou Madalena com o coração num sobressalto opressor.
— E vós numa inquietação por essa má nova! — disse-lhe arrastadamente D. Maria, de olhos postos na filha.
— Inquietações não faltam! Mas que remédio senão encher-me de ânimo para as suportar? Ruy tem deveres de honra a cumprir; Deus me livre de lhe quebrar o ânimo com os meus receios e os meus choros. Do que eu tenho mais medo é da sua temeridade para cometimentos de aventura, ideados dos romances de tresloucada cavalaria. Mas é medo que o meu coração lhe oculta, tomando desafogo na minha fé e no amparo que espero da Senhora Mãe de Jesus, aquela das maiores dores — disse comovidamente, apontando a pequenina imagem do oratório — Rezo-lhe e guardo para ela as minhas lágrimas de mãe, que são as contas porque eu lhe rezo. Quereis vós ajudar-me?
— Com toda a nossa vontade.
— Senhora, sim — aquiesceu Madalena timidamente — Se ela sonhasse! — pensou.
— Pois muito da minha alma vos agradeço — disse D. Dulce.
Foi para o oratório e pôs-se a acender os dois pequenos círios que o ladeavam. Tremia.
Madalena, num esforço supremo, tentava descer do leito.
— Tem ânimo, filha — segredou-lhe a mãe, ajudando-a a descer. D. Dulce ajoelhou-se no genuflexório. Ao lado dela, muito aconchegadas uma à outra, mãe e filha ajoelharam, mortificadas.
De olhos pregados na imagem daquela Mãe a que tinham morto o Filho, olhos num êxtase de devoção e num pasmo de terror, sob a sua névoa de lágrimas, Madalena represava os soluços com as mãos postas à altura dos lábios.
— Ave-maria, cheia de graça, o Senhor seja convosco, bendita sejais entre mulheres, bendito seja o fruto do vosso ventre, Jesus... — rezava D. Dulce.
As outras iam dizendo com ela sumidamente. Assim até ao fim.
— Mãe... Como isto... Custa! — segredou Madalena.
Mais duas ave-marias e D. Dulce disse alto, em voz mortificada, a sua súplica e a dedicatória daquelas rezas.
— Senhora dos que sofrem, Mãe protetora dos que choram as suas dores maiores, Senhora de misericordioso amor de infinita piedade, sede pelos que defendem os seus lares e a sua terra e defendei-me vós, pelo vosso Jesus, a vida daquele filho, que eu tenho em perigo de...
Interrompeu-a um grito convulsivo de angústia. Madalena caíra desmaiada no colo da mãe.
Veio para ela D. Dulce comovidamente e tateou-lhe as fontes.
— A arder em febre!
Foi à porta, chamou. Acudiram logo duas criadas. Levantaram aquela pobre atribulada e a levaram para a cama. Momentos depois D. Dulce mandava-as sair.
* * *
Madalena voltou a si, mas, de instante a instante, mais febril, entrou numa agitação de delírio.
— Eu mandava chamar o físico, se não soubesse que isto é apenas enfermidade de coração enamorado — disse baixo D. Dulce para a mãe de Madalena — Aos perigos inquietadores que pode trazer para vós e para mim, para ela mais talvez do que para ninguém, a esses os não pode evitar nenhum médico. Nem nós, embora seja somente um mal do coração, infelizmente em poucos dias adiantado e grave! Previa-o e receava-o!
D. Maria de Mendonça entendia bem o tom de amargura destas palavras e oprimiu-se, afogueada.
De olhos cerrados, em estremecimentos nervosos, os seios num arquejar violento, Madalena começou a dizer umas palavras enrouquecidas, que mal se percebiam.
Receosa e confrangida de dó por aquela filha que era tudo para ela, D. Maria de Mendonça debruçou-se muito para lhe compor as roupas, para lhe escutar melhor as palavras e, provavelmente, para ver se evitava que D. Dulce ouvisse alguma inquietadora revelação.
Mas Madalena disse num grito seco e dolorido:
— Rui! Não vás para esse combate de morte!
— Valha-me Nossa Senhora! — murmurou a mãe — Filha! Filha! — chamou como se aquilo fosse um sono de que as suas palavras a pudessem despertar.
— Está em delírio. Mas então já ela sabia do combate que se espera! — disse D. Dulce, aproximando-se muito do leito.
— Não vás... Rejeita o desafio... Antão Gonçalves pode matar-te!
— Um desafio! D. Maria de Mendonça, que sabeis vós para me explicardes as palavras da vossa filha? — perguntou-lhe asperamente, num sobressalto opressor.
— Bem vedes... Que a pobrezinha delira — respondeu, perturbada, arrastando as palavras — Filha! Filha! — disse a chamar, inclinando-se mais para ela.
— Pareceis interessada em que eu não a ouça! — observou-lhe D. Dulce com estranheza, uma suspeita mortificadora a golpear-lhe o seu grande coração de mãe.
— Eu, D. Dulce!... Senhora... Nenhum interesse.
— Por tua mãe, pelo nosso amor, Ruy, não vás! — disse ainda numa tremura de voz, repassada de lágrimas — Não deixeis que vá... Senhora D. Dulce, não deixeis sair vosso filho... Vai a um combate de desafio... Com o meu primo!... Senhora, não deixeis, que vos podem matar!
E bracejava loucamente, o peito a levantar-lhe as roupas da cama, num ondear aflitivo, as lágrimas em fio daqueles olhos cerrados de adormecida.
A tremer, numa palidez de morta, com uma sequidão de que só era capaz no egoísmo do seu amor maternal, D. Dulce acercou-se mais da esposa de Gil Vasques de Mendonça.
— Sabíeis, e sabia-o vossa filha, e nem uma palavra para mim! Mentiu ele e mentíeis vós calando-vos! A verdade toda, claramente dita por vós, D. Maria de Mendonça! A verdade que me deveis! Que desafio? Com quem?
— Com meu sobrinho Antão de Mendonça — respondeu acabrunhada, de olhos baixos, trementes.
— Por ciúmes?
— Por ciúmes.
— Julga-se com mais direito aos amores da vossa filha?
— Senhora, que faltais ao vosso próprio coração!
— Talvez a esta hora enlutado! O meu coração! E quem aqui se importou com ele?! Desafio para onde? Para quando? — perguntou já a custo.
Cansava numas sufocações de cardíaca.
— Onde, não sei... Mas ouvi que seria para esta madrugada.
— Tenho tempo. Alguém há de saber para onde ele foi — disse com indefinível amargura, desfigurada — Tempo... Para ir também... Para lhe levar... O meu coração morto... Como ele me trouxe para casa... Os seus amores... De perdição.
Deu uns passos hesitantes para a porta; mas as sufocações saltearam-na com maior rudeza, arroxeou-se, levou as mãos ao coração e, a voltear entontecida, foi cair num escabelo, com a boca escancarada numa ânsia de ar.
D. Maria de Mendonça correu aflita para ela, gritando que viessem acudir-lhe.
As criadas entraram, surpreendidas.
— Senhora, perdoai, que não foi culpa minha! — soluçou Madalena, outra vez em delírio.
— Ide chamá-lo... O meu filho! — rouquejava D. Dulce — Para eu lhe dizer...
E levantou-se, hirta, numa sufocação maior.
* * *
Vinha a romper a madrugada. Ruy esperava com os seus padrinhos na clareira de um olival, dentro das terras ermas que ficavam entre a Porta de S. Antão e a Porta do Jogo da Péla.
— Álvaro Coutinho — disse o filho de D. Dulce, tomando o Magriço de parte — desejo pedir-vos um piedoso serviço de amigo.
— O que mandardes.
— Se a boa fortuna me abandonar, não mandeis que me levem para a minha casa.
— Diz-me o coração que tal não há de ser preciso.
— Mas pode ser. Um dos dois há de ficar mortalmente ferido; poderei ser eu. Mandai-me para o hospital de sangue das Portas de Santa Catarina, se ainda ficar com vida. Para a minha casa, não. Quero evitar a minha mãe essa surpresa de morte. Depois, ide lá e não lhe deis a notícia senão quando lhe tiverdes preparado o ânimo para a receber. Que fui ferido numa escaramuça, dizei-lhe, e fiquei recolhido no hospital. Que será possível que me salvem. E quando já não houver remédio senão contar-lhe toda a verdade, dizei-lhe então que sois confidente de dois pedidos meus, feitos numa súplica ao seu bondoso coração de mãe. Que me perdoe a dor que lhe dou, e que não deixe ao abandono Madalena de Mendonça. E a essa, Álvaro Coutinho, contai-lhe o que se passar... Podeis asseverar-lhe que a sua imagem fica no meu coração morto, assim como se fosse o corpo de uma santa que a terra não consome dentro do seu caixão apodrecido. Dizei-lho, e por tamanho favor vos beijo a cruz desta valente espada.
Curvou-se e beijou-lhe o punho da espada.
Estava profundamente comovido. Homens daquela têmpera não choram nunca nos lances em que o esforço e a vida se põem em risco. Lágrimas de pesar e de saudade naquela previsão de morte, se algumas tinha, eram das que ninguém vê porque só o coração as pode chorar.
— Heis de ser vencedor — disse-lhe o Magriço, abraçando-o fraternalmente — hei de ter-vos comigo na defesa da nossa terra, na hoste dos Namorados, nos dias das maiores batalhas; porém, se Deus tal não permitir, pela minha fé vos juro que todas as vossas vontades serão cumpridas.
— Aí chega Antão de Mendonça, com os seus — veio avisar a outra testemunha.
* * *
Adversários e testemunhas juraram com solenidade sobre a cruz das espadas, cumprir lealmente os seus deveres de honra e observar com fidelidade os preceitos da boa cavalaria, como homens de prole que eram.
Para juiz de campo fora unanimemente escolhido o nobre e valoroso Álvaro Coutinho; era ele quem tinha de mandar começar o combate.
Colocaram-se os adversários frente a frente, as testemunhas à direita e à esquerda dos seus respetivos apadrinhados, a vinte passos de distância deles, rosto a rosto, espadas desembainhadas, de pontas firmadas no chão, prontos a combater, na sua qualidade de mantenedores, por qualquer deslealdade, ofensa ou desaire contra os seus apaniguados.
— Estais aqui para lutar pela vossa dama, vós que sois cavaleiros da nobreza destes reinos. Que seja convosco a vontade de Deus. Combatei — disse Álvaro Coutinho.
Os contendores saudaram-se com as espadas, mas os relâmpagos de ódio com que os seus olhares se buscaram, desmentiam rudemente aquela cortesia espetaculosa das armas, artifício de uma hipocrisia convencional, em que o aço mentia, disfarçando impaciências de quem lhe dava calor e vida, na têmpera dos seus ódios.
— Por Madalena de Mendonça, dama dos meus afortunados amores! — disse alto Ruy de Vasconcelos, numa vibração altiva e firme.
E logo num brado que parecia um uivo agoirento, Antão de Mendonça replicou:
— Por Madalena de Mendonça, dama dos meus desventurados amores!
E foram um para o outro impetuosamente, lâminas estendidas, olhos cravados na garganta indefesa um do outro como para ensinarem às espadas o caminho fácil da morte. Estavam sem camal e sem gorjeira.
Mas ambos desviaram o golpe habilmente, e então cruzaram as espadas, invetivando-se com rancor mortal.
— Para não mais a perseguirdes! — bramiu Ruy de Vasconcelos.
— Para que nunca seja vossa! — regougou o Mendonça.
As espadas serpenteavam no ar sinistramente, numa vertiginosa fúria de golpes. Às vezes as lâminas resvalavam pelas cotas.de ferro e pelos braçais, produzindo um ruído seco e áspero, a lembrar o grito enrouquecido de uma ave.
O fito era a garganta, já que tinham o coração escondido no seu arcaboiço de placas de ferro. Mas os golpes eram bem parados. As cutiladas à cabeça valeriam um desperdício louco de esforço. A espada embotar-se-ia na cimeira do bacinete, se não se quebrasse contra ele.
Mendonça vibrou uma estocada ao braço direito do Vasconcelos, a procurar-lhe a parte menos defendida pelas lâminas do braçal.
As armaduras não eram ainda tão completas, nem de tão segura resistência, como as que vieram a usar-se no século XV.
Ruy desviou-lhe a espada com vertiginosa energia, volteou-lha com a sua e fez-lha saltar da mão.
Mendonça tornou-se mais pálido, recuou uns passos e arrancou a adaga da bainha.
— Agora para acabar! — disse o Vasconcelos com serena intrepidez, arrojando ao chão a sua espada vencedora — pela minha noiva! — exclamou, empunhando a adaga rapidamente.
— Para morrerdes por ela! — rouquejou o Mendonça com a adaga a lampejar-lhe na mão convulsiva.
Seria para a garganta do adversário o seu primeiro golpe. Ruy compreendeu. Disse-lho num relâmpago o olhar felino do rival; confirmava-lho a altura a que ele erguera a adaga.
Mendonça venceu de um salto, como de tigre enraivecido, os sete passos que o separavam do preferido de Madalena. Mas o braço esquerdo de Vasconcelos estendeu-se para ele num ímpeto violento, os músculos como fibras de bronze de uma clava antiga, e conteve-lhe o arranque, cingindo-lhe a garganta com a mão indomável, os dedos aferrados como garras.
No estonteamento da sufocação, Mendonça vibrou-lhe um golpe inútil ao peito. A ponta da adaga resvalou-lhe por entre as placas de ferro, quebrando-se como um pedaço de vidro.
Num supremo esforço, olhos esbugalhados pela sufocação, raiados de sangue, a boca entreaberta, a espumejar desesperos, Mendonça fincou-lhe o joelho contra o ventre para o afastar de si.
Inutilmente. Ruy era um dos mais possantes rapazes do seu tempo e, em vez de recuar, filou-lhe a garganta com maior violência.
Mendonça deu um rugido roufenho e, numa ânsia de esforço roçou pela face do Vasconcelos a lâmina quebrada da adaga.
— Morres então — clamou Ruy de Vasconcelos, cindindo-se a ele como um atleta de circo. E levou-o a terra debaixo de si.
Deram um baque soturno as costas de ferro do cavaleiro vencido. Ruy pôs-lhe o joelho em cima do peito e a ponta da adaga contra a garganta. Com a mão esquerda oprimia-lhe contra o solo o braço que ele ainda tinha armado com a adaga quebrada.
Mendonça enclavinhava a mão esquerda, num esforço de estonteado contra ao peito do adversário.
— Requestador desprezado, venci-te! — disse Ruy — concedo-te a vida para outro desafio maior, num campo de batalha contra Castela.
O vencido regougou um insulto que se não pode escrever, por gravemente ofensivo da honra de Vasconcelos como enamorado, e com a mão que tinha livre conseguiu bater-lhe na face.
— Morre enfim, vilanaz! — gritou, convulsivo, cravando-lhe a ponta da adaga no pescoço e erguendo-se de repente.
Ergueu-se porque lhe repugnava aquele desenlace do combate. Apesar do seu ódio ao insultador, seria incapaz de lhe cravar a adaga segunda vez e mais a fundo.
O Mendonça soltou um gemido rouquejante, contorceu-se e cerrou os olhos; duas golfadas de sangue enegrecido se lhe alastraram lentamente pelas placas de ferro do arnês.
— Senhores cavaleiros — disse Ruy de Vasconcelos para os assistentes — está acabada esta contenda de morte.
— Deus vo-la perdoe! — acudiu solenemente o juiz do combate, acercando-se de Antão de Mendonça.
Todos os outros correram para junto do vencido. De joelhos em terra, muito debruçado para ele, Álvaro Coutinho tateava-lhe o pulso e escostara-lhe o ouvido à boca.
— Creio que o ferimento pode ser de morte; mas ainda lhe sinto a respiração.
— Levemo-lo ao hospital — disse com ansiedade um dos padrinhos do ferido.
— Nós mesmos, nós todos — lembrou Álvaro Coutinho — Se nenhuma dúvida haveis quanto à lealdade deste combate — disse para as testemunhas do Mendonça — e como seus mantenedores nada tendes a reclamar de nós, devotadamente vos ajudaremos.
— Nenhuma dúvida.
— Nada temos a reclamar de vós.
— Pois levemo-lo depressa.
Iam com ele nos braços a caminho do hospital de sangue da Porta de Santa. Catarina. Ali lhe fariam o primeiro curativo e de lá o tinham de transportar para o hospital maior da cidade.
Plena manhã. Uma aleluia de luz e de cânticos por cima da pobre cidade infortunada e por aqueles montes e encostas, que fechavam o horizonte de Lisboa, para além das muralhas.
Ouviam-se as últimas vibrações das trombetas na alvorada do arraial castelhano.
Lentamente, cabisbaixo, Ruy seguia atrás daquele trágico acompanhamento de quatro homens, distanciado deles por algumas dezenas de passos.
Um pouco além da torre de Álvaro Pais vinha em sentido oposto uma liteira de mãos (andas), seguida por dois servos armados. Na frente um monge peregrino, de barbas brancas.
Assim que descobriu aquele estranho grupo de homens fidalgos com outro nos braços, o monge teve um estremecimento de receio e tomaram sombrio aspeto as suas faces de singular palidez. Voltou atrás rapidamente e mandou aos jovens da liteira que voltassem.
Então uma cabeça branca de mulher assomou à portinhola.
— Mendo, porque voltamos?! — perguntou numa voz sumida, repassada de mágoa.
— Para ali não é provável... Voltem para trás! — repetiu aos jovens da liteira.
Mas a dama de cabelos brancos olhara para cima e vira aqueles homens que desciam, trazendo outro nos braços. Os primeiros lampejos do sol nascente punham um vivo resplendor nos seus bacinetes emplumados.
— Não! Não! — mandou num grito de angústia — Mendo, ampara-me, quero sair! — disse numa tremura de voz, sumidamente, entreabrindo a portinhola da liteira.
O monge aproximou-se, acabrunhado.
— Dulce, voltemos para trás! — pediu-lhe quase em segredo.
— É ele que vem ali nos braços dos outros? É o que tu supões... E eu, e eu também! — soluçou, começando a tremer — Jesus da minha alma! Já aqui vem!
Num ímpeto como de louca se desprendeu dos braços de Mendo e, dobrada para diante como se levasse ao ombro o peso da maior cruz pelo Calvário de mais escarpada subida, avançou uns passos.
— Senhores cavaleiros, quem levais aí?
— A mãe de Ruy de Vasconcelos! — disse Álvaro Coutinho, surpreendido.
— Por piedade, deixai-me ver... Se é Ruy de Vasconcelos!
— Senhora, não é — respondeu-lhe Álvaro Coutinho, parando e fazendo com que os outros parassem.
A cota do Magriço vinha tingida de sangue. Era ele que, numa posição contrafeita, segurava o ombro direito e a cabeça do ferido, descoberta, numa lividez horrível.
— Vosso filho, senhora, aí vem atrás. Deixai-nos seguir. Trata-se de um ferimento que é talvez mortal.
E foram descendo lentamente. D. Dulce caiu de joelhos em estremeções de horror, numa profunda impressão de piedade por aquele desventurado que ia ali por morto. Mendo amparou-a carinhosamente.
De olhos fitos nas manchas de sangue negro que ficaram na rua, D. Dulce soluçou, de mãos postas:
— Pobre mãe a sua, se ainda vive! Nossa Senhora lho salve!
— Dulce — disse-lhe Mendo — Ruy vem aí!
Homens de armas e maltrapilhos do povo que passavam iam parando a inquirir o que sucedera.
— Minha mãe, minha santa, vós aqui! — exclamou Ruy, numa surpresa de mágoa, a beijar-lhe as mãos e a querer levantá-la nos braços.
— A dor que me deste, Ruy! Por essa cidade, ao acaso, a buscar-te!
— Mãe, perdoai!
— Dulce! — interrompeu Mendo, em voz quase segredada — Está-se a juntar gente. Retiremo-nos daqui.
— Sim, sim. Filho, ampara-me. Agora posso menos.
E enquanto a mãe se lhe amparava ao ombro, foi ele saudando o tio a meia voz, na preocupação de lhe manter o incógnito.
— Filho — foi-lhe dizendo ela sumidamente até chegar à liteira — temos coisas graves de que tratar. Mal agourados amores assim começados! Deus me faça a esmola de não deixar que tu leves para o dote do noivado a mortalha desse que feriste de morte.
— Depois, depois falais — interveio Mendo, instando com a irmã para que entrasse na liteira.
Entrou. Os jovens levantaram os varais nas alças de couro.
— Para casa — mandou Ruy.
Ele e o monge foram seguindo poucos passos atrás.
— Tio, perdoai, e dizei-me: Sabeis se alguma coisa sucedeu a Madalena?
— Não a vi, mas disseram-me que estava de cama, queimada de febre, numa tortura de delírio.
— O meu pobre amor! — disse, confrangido.
— Ruy, ias matando tua mãe! Deste-lhe nalgumas horas a mais longa e intensa dor da sua vida!
— Tio, este combate era inevitável. Fui vilmente insultado; seria o último dos poltrões, se não matasse o insultador ou não morresse às mãos dele.
— Compreendo. Era o teu dever; não serei eu quem te acuse por lhe não teres faltado.
Chegaram ao palácio de Santo Elói. Na sala de entrada D. Dulce disse ao filho:
— Vai repousar. Eu tenho de ir ver se o meu coração pode ter descanso, e se a nossa Senhora me recebe as orações que eu lhe devo por ti, e me ouve outras por esse que... Sabes se ele ainda tem mãe?
— Madalena disse-me que ele vivia com a mãe.
— Tenho então de a ajudar a ela nas súplicas a quem lho pode salvar, se ainda a morte o não levou. Eu te mandarei chamar para tratarmos de coisas que interessam à nossa honra e à de mais alguém.
— Quando mandardes, senhora — volveu-lhe, apreensivo.
Sentia naquele aviso uma fria severidade que o oprimia. Compreendeu claramente que se tratava dos seus amores com Madalena.