A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 6
Domingo à tarde fui até a casa do Caveira e o encontrei conversando com o Beto no quarto. Fui logo tirando satisfações sobre a noite anterior.
— Como é que você chama a Rosângela para o baile e não me avisa?
— Achei que você fosse gostar da surpresa. — Caveira deu de ombros.
— Quem é Rosângela? — perguntou Beto, mas foi ignorado por nós dois.
— Eu não. Levei um susto danado.
— Ela não atrapalhou a sua noite, de qualquer forma.
— Quem é Rosângela? — Beto insistiu.
— Não, mas por um momento pensei que estragaria.
— QUEM É ROSÂNGELA? — gritou Beto.
— Não precisa berrar — retrucou Caveira.
— Estou aqui perguntando e ninguém me responde.
— O Cadu ficou com essa garota na sexta, em Rioazul.
— Ah. — Beto me olhou. — E qual o problema dela?
— Nenhum — eu disse, me sentando no chão. O Caveira estava na cama e o Beto em uma cadeira. — Só que é garota de uma noite e nada mais.
— Entendi. — Beto riu, lembrando seus velhos tempos.
— A Martinha também é, mas acabei ficando mais de uma noite. — O Caveira deu uma gargalhada e eu acompanhei.
— Pelo visto o baile foi bom — comentou Beto.
Você nem imagina, pensei.
A mãe do Caveira apareceu no quarto chamando para o lanche. Fomos até a cozinha, onde uma broa de milho recém-saída do forno nos aguardava. Caveira me deu um cutucão e, indicando a broa e depois sua mãe com a cabeça, balbuciou seu pai com os lábios. Entendi a mensagem, ou achei que tivesse entendido.
— Sabe que meu pai adora broa? — falei, me sentando e cortando um pedaço. Beto se sentou ao meu lado e Caveira à minha frente.
— É mesmo? Então vou cortar um pedaço e você leva pra casa — disse tia Matilde, indo até a despensa para pegar uma vasilha. Caveira bateu no meu ombro.
— Mandou bem!
— Perdi alguma coisa? — perguntou Beto, sem entender nada.
— Eu te explico. — E contei rapidamente o plano do Caveira para juntar a mãe dele e o meu pai.
Cheguei em casa e encontrei meu pai na sala, lendo um livro.
— Tia Matilde mandou broa de milho — eu disse, mostrando a vasilha para ele.
— Puxa, veio em boa hora. Estava mesmo pensando em algo para comer. — Ele se levantou e foi até a cozinha. — Vou passar um café, aceita?
— Tomo um pouquinho, pra te acompanhar. Já comi na casa do Caveira.
— Como a Matilde adivinhou que eu gosto de broa? — perguntou ele, enquanto ajeitava as coisas para fazer o café.
— Eu comentei e ela prontamente arrumou um pedaço pra você. — Joguei e parece que ele gostou do que ouviu. Ou talvez eu já estivesse imaginando coisas, tamanha era minha vontade de que ele arrumasse alguém. Fiquei esperando o café e tive uma ideia. — Pai, você tem ficado muito sozinho nos fins de semana. Por que não organiza algo com os amigos?
— Não tenho mais vontade de ficar saindo como antigamente.
— Não digo sair... Lembro que, quando a Ivone e o Manuel ainda moravam em Rio das Pitangas, sempre vinham aqui em casa.
— Sim, é verdade. — Meu pai terminou de ajeitar tudo e ficou encostado na pia, esperando a água ferver. — Todo domingo eles vinham aqui ou eu e sua mãe íamos até a casa deles, que era aí em frente, para conversar e jogar baralho. Como você se lembra? Tem tanto tempo!
— Lembro porque eles sempre traziam a Juju e a deixavam no meu quarto comigo. Eu odiava. — Eu ri e ele também.
— Como as coisas mudam, não é mesmo?
— É. — Balancei a cabeça. — Mas, voltando ao assunto, por que você não os convida novamente?
— Seria uma boa ideia; eles são companhias agradáveis. Mas sua mãe não está mais aqui, não tem como formarmos duas duplas para o jogo de baralho.
— Isso pode ser resolvido. — Olhei para a broa. — Você pode chamar a tia Matilde. O Caveira falou que ela fica muito em casa, o que não é bom. E é uma forma de agradecer pela broa de hoje. Quem sabe não aparece mais?
Meu pai serviu o café e ficou quieto me olhando. Por um momento pensei que ia sacar o que eu queria e me repreender, mas ele não fez isso.
— Você deu uma boa ideia, Cadu. A Matilde é muito agradável também, e é bom que ela se distraia. Vou fazer isso, falar com o Manuel; se eles aceitarem, convido a Matilde. — Ele olhou o relógio. — Hoje já está tarde, mas vou tentar organizar para o próximo fim de semana.
— Faça isso. — Sorri vitoriosamente, enquanto saboreava minha xícara de café.
As aulas começaram na UFRP, e, como sempre fazia, passei na casa do Beto para dar carona a ele. A família dele tinha três carros, mas, como eram mais pessoas para usar, ele deixava os carros para os pais e a Emília e sempre ia comigo para a universidade.
Toquei a campainha e a Alice atendeu. Usava uma calça jeans apertada e a blusa do uniforme do Instituto Escolar de Rio das Pitangas. O cabelo liso cor de areia estava solto.
— Oi, Alice. Não vai à aula? — perguntei, dando um beijo em seu rosto.
— Vou sim, hoje perdi a primeira aula. — Ela saiu do caminho para que eu passasse. — Como foi o baile?
— Foi bom.
Entrei e fui para a sala esperar o Beto, já que havia chegado um pouco cedo. Alice foi atrás de mim.
— Encontrou a Talita?
Dei um sorriso. Percebi que ela queria saber se eu havia sentido algo quando revi minha ex-namorada.
— Vi só de longe, não conversamos.
— Hum...
— Você sabe que já acabou.
— Sempre acontecem recaídas.
Balancei a cabeça e decidi mudar de assunto.
— Como foi em Belo Horizonte? O Beto me disse que você venceu, parabéns.
Ela fez uma careta e deu um sorriso. Eu admirava Alice, que era uma garota decidida para os seus 17 anos. Seu sonho era morar em São Paulo e estudar moda, mas seus pais eram totalmente contra. A mãe queria que ela seguisse a carreira de modelo e não de estilista, mas Alice não dava a mínima para a opinião dela. Só participava de concursos de beleza para guardar o dinheiro dos prêmios, já pensando em uma possível mudança para São Paulo.
— Quer ver as fotos? Teve desfile em traje de banho.
— Traje de banho? — Franzi a testa.
— Maiô. Tem várias fotos minhas de maiô, de diversos ângulos diferentes. — comentou ela, maliciosamente.
— Deus, não! — eu disse alto, dando um passo para trás. Alice caiu na gargalhada.
— Precisa ver a sua cara. — Ela continuou rindo quando Beto chegou na sala.
— O que é tão engraçado?
— Seu amigo — disse ela, saindo.
— Não entendi. — Beto me olhou.
— Besteiras da Alice — desconversei. Fomos andando em direção à porta. — E aí, vamos correr no final do dia?
— Claro! Vamos retomar as corridas diárias.
Fomos para a aula. Eu e o Beto fazíamos Direito na parte da manhã, e o nosso sonho era abrir um escritório juntos em Rio das Pitangas depois de formados. Caveira estudava Informática e não costumava pensar muito no que ia fazer quando saísse da universidade.
Combinamos nos encontrar no final da tarde para correr na pista de cooper da universidade. Eu me senti bem ao lado do Beto naquele dia, apesar da minha paixão pela Juliana. Estava sentindo falta da companhia do meu amigo.
Eram quase seis da tarde quando eu e o Beto chegamos à pista. Coloquei minha mochila com uma garrafinha de água na arquibancada e ele fez a mesma coisa.
— E aí, quanto tempo para começar? Uma hora? — perguntou Beto, enquanto se alongava.
— Depende. Você correu nas férias?
— Muito pouco. E você?
— Corria quase todos os dias com meu primo em Floripa.
— Então você está mais em forma do que eu.
— Sugiro começarmos com meia hora. Para você pegar o ritmo aos poucos.
— Você que manda, chefe. — Ele bateu continência.
— O Caveira vem pra cá depois?
— Vem, ele foi jogar basquete.
Na adolescência, Caveira se destacou no time de basquete do Instituto, o que o ajudou a crescer e perder o aspecto de caveira que tinha no rosto. Mas ele não seguiu adiante no esporte porque não conseguiu deixar de lado a farra e as mulheres, e agora praticava na universidade só como hobby.
Coloquei os fones de ouvido e liguei meu iPod.
— Te vejo em trinta minutos — disse, cronometrando o tempo no relógio. Comecei a correr e o Beto veio atrás, também com o seu iPod.
Quase ao final do tempo programado, vi Alice chegar com Juliana e as duas se sentarem perto das nossas coisas. Meu coração disparou, mais do que já estava por causa da corrida. Acenei para as duas de longe, enquanto Beto parava para dar um beijo em Juliana.
— Não vale parar, perde o ritmo — reclamei ao passar por eles, dando um tapa na cabeça do Beto, que recomeçou a correr.
Quando meu relógio apitou os trinta minutos, comecei a andar vagarosamente na direção das meninas e o Beto logo me alcançou.
— Deu pra cansar bastante — disse ele, ofegante.
— É porque você não praticou nas férias. — Chegamos perto das meninas e eu apenas acenei novamente. — Não dá pra pensar em beijinho agora — comentei.
— Vocês estão nojentos — disse Alice.
— Obrigado — falei enquanto via o Caveira vindo em nossa direção.
— E aí, galera? Correram muito?
— Só trinta minutos, porque o Beto está fora de forma — expliquei.
— O Beto está sempre fora de forma. — Caveira olhou para Alice e Juliana. — Meninas, como vão?
— Bem. Viemos chamar vocês pra comer uma pizza — convidou Alice.
— Eu bem que mereço uma depois dessa corrida — disse Beto, pegando a mochila dele. Peguei a minha. — Vamos até o vestiário tomar um banho e já voltamos.
A semana passou tranquilamente, sem que eu encontrasse a Juliana. Mas isso até chegar a quinta-feira.
Eu me arrumei, peguei o carro, busquei o Caveira e estacionei em frente à casa do Beto.
— Seu pai ligou pra minha mãe hoje — comentou o Caveira, enquanto esperávamos.
— É, deu certo a minha ideia. Agora é torcer pra eles se darem bem.
— Estou colocando a maior pilha. Não sei como não pensamos nisso antes.
Concordei com a cabeça e vi o Beto chegando.
— Olá, gente. — Ele entrou no carro. — Passa na casa da Ju. Ela também vai lá pro Bar do Tavares.
Gelei e meu coração disparou, como sempre acontecia quando ficava sabendo que ia ver a Juliana, mas naquele dia não estava preparado. Liguei o carro e segui para a casa dela. Quando chegamos, ela esperava do lado de fora, conversando com o pai.
— Oi — cumprimentou Manuel. — Cadu, avise seu pai que está confirmadíssimo nosso duelo de baralho domingo.
— Pode deixar. — Liguei o carro depois que a Juliana entrou e se sentou atrás, junto com o Beto, e segui para o Bar do Tavares.
— Então está dando certo o plano de vocês? — perguntou Beto, interessado.
— Que plano? — Juliana quis saber.
— Os dois estão tentando juntar os pais. O pai do Cadu e a mãe do Caveira — explicou Beto.
— Cadu teve a ideia de fazer o pai dele organizar as reuniões aos domingos com seus pais e minha mãe — disse Caveira, olhando para trás.
— Ah, então é por isso que vai rolar a reunião na sua casa? — perguntou Juliana, colocando a cabeça perto do meu banco. Pude sentir o seu perfume.
— Vamos ver se dá certo. — Sorri.
— Posso comentar alguma coisa com a minha mãe.
— Sei não. — Fiquei temeroso. Não queria que meu pai percebesse a armação ou então não daria certo.
— Ela pode ajudar — explicou Juliana.
— É uma boa, Cadu. Pense bem, a tia Ivone vai estar lá, junto com eles. — Caveira se empolgou.
— Pode ser — concordei, ainda reticente. Quanto mais gente envolvida, maiores as chances de o meu pai desconfiar de alguma coisa e descobrir nosso plano.
Chegamos ao Bar do Tavares e nos sentamos em uma mesa no canto, onde ficávamos na maioria das vezes. Tavares veio nos atender.
— Olha se não são os Três Mosqueteiros? — brincou ele.
— Esta é a Juliana, minha namorada — Beto a apresentou.
— Ela é o D’Artagnan — eu disse, tentando me redimir do passado. Deve ter dado certo, porque a Juliana abriu um enorme sorriso para mim.
— D’Artagnan, não. Se é a namorada do Athos, ela é a Milady. D’Artagnan é homem, não uma bela dama como esta. — Tavares se afastou.
— Cansei de te falar que D’Artagnan não podia ser mulher, mas você nunca quis me ouvir — eu disse, e Juliana fez uma careta para mim.