A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 24 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 20

 

Acordei, mas não consegui abrir os olhos. Meu corpo estava cansado, e parecia ter uma banda de rock dentro da minha cabeça. Ela doía demais; era como se um martelo batesse a cada dois segundos.

Com muito custo, abri os olhos e reparei no ambiente ao meu redor. Não era o meu quarto e comecei a piscar para clarear a vista, tentando descobrir onde estava. Demorou alguns instantes para eu reconhecer o quarto do Caveira. Tentei me levantar, mas a sensação era de que meu cérebro chacoalhava dentro da minha cabeça. Desabei de uma vez no travesseiro, fazendo a mim mesmo o juramento que sempre se faz durante uma ressaca: nunca mais eu bebo.

— Que noite, hein?

Ouvi a voz e me assustei ao olhar para baixo e ver o Caveira deitado em um colchonete longe da cama.

— O que você está fazendo aí?

— Bom, estou no meu quarto — disse ele.

— Não, no chão. Por que não dormiu aqui e eu aí?

— Você desabou na cama quando chegamos e não saía daí por nada neste mundo. Então não tive muita escolha. Pensei em dormir em outro quarto, mas fiquei com medo de você passar mal durante a noite.

Apertei os olhos, amaldiçoando a cerveja, o uísque e o que mais que eu tenha ingerido na noite anterior.

— Ressaca? — Caveira sabia que era uma pergunta idiota.

— O que estou fazendo no seu quarto?

— Você ficou de dormir aqui ontem, não se lembra? Você me disse que não ia dormir no seu quarto depois de tê-lo emprestado ao Beto.

— Ah, sim. — Graças a Deus tinha planejado dormir ali. Meu pai não ia gostar muito de ver o filho naquele estado. Mas senti um frio na barriga quando Caveira comentou do Beto e do meu quarto. — Como viemos pra sua casa? Que horas saímos da festa? O que exatamente aconteceu ontem?

Eu nunca tinha passado por uma “amnésia alcoólica” antes. Claro que já exagerei algumas vezes na bebida, como todo jovem irresponsável, mas no dia seguinte sempre me lembrava de tudo o que havia feito e falado. Só que desta vez não me lembrava de muita coisa, e confesso que estava com medo do que o Caveira tinha para contar. Era uma sensação horrível.

— Você não lembra? — Ele estava espantado de verdade quando balancei a cabeça negando, e esse não era um bom sinal. O Caveira se sentou no colchonete, como se isso o ajudasse a contar melhor os acontecimentos da noite anterior. — Por onde começo? — Ele fez um olhar pensativo e eu me desesperei.

— Por favor, Caveira, não me fala que eu fiz uma grande besteira!

— Se você acha que ficar com a Alice Gomes é uma besteira...

Então era verdade! Eu me lembrava vagamente da Alice falando algumas coisas no meu ouvido, dos braços dela em volta do meu pescoço. Mas pensei que poderia ter sido um sonho de bêbado ou coisa da minha imaginação.

— Cara, então é verdade? Eu fiz isso mesmo?

Caveira balançou a cabeça, rindo do meu desespero.

— Na verdade ela que ficou com você, já que estava tão bêbado que não conseguiria beijar nem uma porta.

— O Beto vai me matar — sussurrei.

— Vai mesmo. Ontem acho que ele não viu, porque teria te matado lá na festa. Seria mais fácil, pensando no seu estado.

— Estou numa enrascada. — Acho que ainda sussurrava porque não tinha certeza se o Caveira me escutava.

Nessa hora a porta do quarto se abriu de maneira brusca e eu me sentei na cama, enquanto Caveira se levantou num pulo. O Beto estava ali parado, ainda com a mão na maçaneta, olhando furioso para mim. Eu podia ver a raiva em seus olhos.

— Eu vou te matar! — berrou ele, avançando na minha direção e me segurando pela gola da camisa da noite anterior.

Caveira foi rápido e logo tentou puxá-lo, sem muito sucesso.

— Achei que tínhamos um pacto! — Beto gritou, me olhando bem fundo nos olhos.

Eu estava desesperado e só pensava em me livrar daquelas mãos, mas a raiva deu a ele uma força extraordinária. Caveira pedia para ele me largar, enquanto tentava, em vão, me soltar.

— Calma, eu posso explicar — pedi, um pouco engasgado.

— Então comece a se explicar. — Ele não me soltou.

— Eu, eu...

O que iria falar? Que estava tão bêbado que não me lembrava de ter beijado a irmã dele? Com certeza ia ser pior.

— Fala, seu traidor, pode se explicar!

— Eu, eu...

— O Cadu é apaixonado pela Alice — gritou Caveira.

Eu e o Beto olhamos espantados para ele e logo depois o Beto me olhou de volta.

— Como é que é? — Ele franziu a sobrancelha, e achei que iria morrer de verdade naquela hora.

— O Cadu é apaixonado pela sua irmã. Já faz um tempão e ontem ele não conseguiu resistir. — Enquanto o Caveira falava, eu só queria mandá-lo parar.

— Isso é verdade?

Beto me soltou e comecei a ver que minha vida não corria tanto risco assim, mas sabia que mais tarde iria desejar ter morrido antes, de coma alcoólico.

— É verdade. Estou te falando — disse o Caveira, fazendo sinal por trás do ombro do Beto para eu confirmar. O Beto só me olhava, desconfiado.

— E aí, Cadu? É verdade ou não é? — O grito do Beto foi tão intimidador que concordei na hora com a cabeça. — Você está falando que é apaixonado pela minha irmã já faz um tempo?

Eu não estava falando nada, quem tinha dito aquilo era o Caveira, mas a situação não me dava muitas opções.

— É... — gaguejei. — Desculpa, cara. Aconteceu.

— Sei. — Beto me olhou sério por um longo tempo. Longo até demais. — E quais são suas intenções com a Alice?

— Intenções?

Minha cabeça ainda latejava, meu raciocínio estava lento e eu só queria vomitar. O que ele queria dizer com aquela pergunta? Eu não tinha intenção nenhuma com a Alice.

— Ele quer namorar a Alice. Namorar sério — o Caveira respondeu por mim, e agora eu queria matá-lo.

— O quê?

Eu e o Beto falamos juntos e depois ele me olhou, voltando a me segurar pela gola da camisa. Eu dei um sorriso sem graça e concordei novamente com a cabeça. O olhar furioso ainda estava ali.

— Você quer namorar Alice? Namorar a minha irmã? Namorar sério?

Era pergunta demais para mim, e todas as respostas eram NÃO, mas eu estava de ressaca, com a cabeça doendo muito, só querendo a morte, então agi como um covarde para me livrar logo daquela situação. Concordei com tudo, disse sim e fosse o que Deus quisesse. Depois daria um jeito de explicar para o Beto, quando ele estivesse mais calmo. Como se esse momento fosse chegar... doce ilusão! Só que naquela hora não pensava em nada.

— Você quer namorar a Alice. — Ele falou para si mesmo, mais calmo. Finalmente me soltou e eu dei um suspiro de alívio. — E se a Alice não quiser?

Era tudo o que eu desejava, mas sabia que ela iria querer.

— Eu posso entender e...

Antes que eu continuasse, Caveira me interrompeu e me olhou como se eu tivesse dado a resposta errada.

— Ele vai entender, mas não vai desistir. O Cadu gosta demais da Alice e pretende lutar por ela.

Pela primeira vez, o Beto olhou demoradamente para o Caveira, e eu também olhei, perguntando com os lábios, sem emitir som, se ele estava louco.

— Eu falei com a Alice antes de vir aqui e ela implorou para eu não quebrar a sua cara. — Beto virou novamente para mim e acho que dei outro sorriso sem graça. Tive certeza de que a situação tinha fugido totalmente do meu controle, se é que alguma vez esteve sob controle. — Ela disse mais ou menos a mesma coisa, que gosta de você já tem algum tempo.

— Aí, Beto! Deixa os dois serem felizes juntos — disse o Caveira, mas o Beto ignorou o comentário.

— Isso já tinha acontecido antes?

— Não, cara! — respondi rapidamente, talvez rápido até demais. — Pelo amor de Deus, sempre respeitei sua irmã e o nosso pacto.

— Entendo. — Ele balançou a cabeça. — Em outra época eu quebraria a sua cara e jamais voltaria a falar com você, mas agora eu sei o que é gostar de verdade de alguém, então estou disposto a relevar. Isso se você for mesmo levar minha irmã a sério.

— Eu vou, eu vou.

Estava me sentindo péssimo por tudo aquilo. Mentia descaradamente para o meu melhor amigo, desejava a namorada dele e ainda perdia todas as chances que poderia ter com a Juliana. Mas que chances, Cadu? Acorda!

— Bem-vindo à família! — o Beto abriu os braços. Atrás dele, o Caveira comemorava.

— Você está falando sério? — Eu estava espantado, assombrado, embrulhado e enjoado.

— É claro! — Beto me deu um forte abraço, o que fez com que eu me sentisse ainda pior. — A partir de hoje você e a Alice estão namorando.