A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 22
Cheguei com a Alice ao Trem Bão. O lugar estava cheio, e uma banda tocava forró animadamente, enquanto casais se espremiam na pista tentando dançar. Fiz uma careta, mas a Alice não percebeu. Ela procurava o Beto e a Juliana.
— Lá no fundo da varanda — disse, ao meu ouvido, e olhei na direção que indicava. Vi o Beto de pé, acenando para nós.
A Alice pegou minha mão e foi me conduzindo até a mesa. Percebi vários olhares masculinos em sua direção e me senti orgulhoso por estar ali ao seu lado. A inveja em vários rostos era evidente, e meu ego foi nas alturas. A Alice estava simples, com uma blusa branca, uma sandália de salto e calça jeans. No rosto não usava nenhuma maquiagem, ela sempre falou que já usava o bastante para uma vida nos desfiles e concursos de que participava. O que a tornava encantadora era isto: não precisava de nenhuma produção, nenhuma maquiagem ou roupa para ficar linda. Era naturalmente linda.
— Até que enfim — disse o Beto, me dando um abraço.
Olhei um pouco sem graça para a Juliana, que evitou meu olhar. Era a primeira vez que nos encontrávamos depois da festa. Eu me sentei em frente a ela, enquanto a Alice se sentava ao meu lado.
— Oi, Juju — disse, e ela me olhou. Senti meu coração pequeno enquanto ela exibia um sorriso frio para mim, e fiquei confuso.
— Isto aqui está cheio demais — comentou Alice. Pus o braço em volta dos ombros dela, enquanto Beto servia um copo de cerveja para mim. — Nós vamos dançar, não vamos? — perguntou Alice para mim.
— Dançar forró? Você só pode estar brincando!
— Ah... — Alice fez beicinho e dei um beijo em sua testa.
— Eu não sei dançar isso. Na verdade, eu não sei dançar nada.
— Mas eu quero dançar. — Ela ainda mantinha a voz dengosa, de um modo gostoso de ouvir.
— Eu danço com você, irmãzinha. Se você não se importar de dançar comigo — disse Beto, me salvando.
— Não. Se a Ju não se importar.
Juliana balançou negativamente a cabeça. Alice e Beto se levantaram e foram para a pista. Eu os acompanhei com os olhos e me virei para Juliana, sorrindo.
— Vai dançar depois? — Fiz a pergunta e na mesma hora notei sua expressão furiosa.
— Que palhaçada é essa?
— O quê? — Não entendi a pergunta, nem a atitude dela.
— Você é um babaca, sabia?
— Opa! O que está acontecendo, Juju?
— Não me chame de Juju. — Ela cerrou os olhos. — E você ainda tem coragem de perguntar? Essa palhaçada de você com a Alice. De dizer que nunca gostou dela e agora está aí namorando a menina. Eu sei que você falou pro Beto que sempre foi apaixonado por ela.
— Ei, vamos com calma. — Levantei as mãos, me defendendo. — Eu não disse nada para o Beto, quem falou foi o Caveira. E ele inventou essa história porque o Beto ia me trucidar.
— O que você quer dizer com isso?
Não queria abrir o jogo com Juliana. Não queria falar que estava com Alice porque era um covarde em admitir para o irmão dela que eu não a amava. Mas decidi jogar limpo, não tinha escolha.
— Alice já sabe de tudo, então vou falar a verdade. Eu fiquei com ela ontem porque estava muito bêbado. Para ser sincero, não me lembro de termos ficado.
— Você é pior do que eu imaginava. — Ela ainda estava furiosa.
— Ela mesma admitiu que me agarrou!
— Mesmo assim. Como você pôde fazer isso? Ainda mais depois de... — Ela parou de falar e olhou para baixo.
— Depois de quê?
Ela ficou em silêncio ainda olhando para baixo. Parecia que ia chorar, mas se controlou. Depois de um longo tempo, me olhou.
— Depois de ontem à tarde. Depois de ter me beijado e falado aquilo tudo — sussurrou, e senti uma faca atravessando meu peito.
— Você quer dizer que... que aquilo significou algo para você? — perguntei, chegando meu corpo para a frente. Toquei uma de suas mãos, que estava em cima da mesa, e ela não recuou.
— Sim. — Ela olhou para baixo. — Sempre gostei de você.
Eu não podia acreditar que estava ouvindo aquilo. Meu coração disparou e eu esbocei um sorriso, mas na mesma hora senti uma tristeza imensa. Parecia que o bar todo rodava.
— Meu Deus, não sei o que dizer. — Olhei para Alice e Beto dançando na pista. Estava tudo errado. — E você só me fala agora?
— Você queria que eu fizesse o quê? — disse ela, bem alto, e algumas pessoas olharam para nós.
— Juju, eu... Meu Deus, não sei o que falar.
— Eu gosto de você desde que era criança, e nestes anos todos não consegui te esquecer.
— E por que você foi namorar logo o meu melhor amigo? Mas que droga!
Bati a mão que estava livre na mesa, enquanto mantinha a outra segurando a de Juliana. Agora eu estava com raiva. Não dela, mas daquela situação toda.
— Por causa da Alice. Porque pensei que você não gostava de mim. — Juliana deu um longo suspiro. — Sempre soube que você não gostava de mim, não era tão idiota. E a Alice me falava de você. Eu sabia que ela gostava de você, e ela é minha amiga. Voltei para cá e ainda fiquei sabendo que você tinha acabado um namoro de sete meses e ido para Florianópolis, onde tem uma garota com quem sempre fica nas férias. Jamais imaginei que teria alguma chance. Fui conhecendo o Beto nas férias e aconteceu. Ele é um cara legal e me fez sentir especial.
— Eu sei, ele te ama. — Estava me sentindo arrasado com as palavras dela. Era tudo o que eu sempre quis escutar, mas não daquela forma e não naquele momento.
— Sim. E eu tentei amar o Beto. Mas nunca consegui esquecer você. Não dá, é mais forte do que eu.
— Juju, eu gosto de você. Muito. Por isso que acabei ficando com a Alice.
Ela cerrou os olhos e me encarou com a raiva voltando para seu rosto.
— O que uma coisa tem a ver com a outra?
Apertei ainda mais a mão de Juliana.
— Ontem, quando vi que você e o Beto sumiram... Nossa, fiquei doido. Não podia pensar em vocês juntos, lá no meu quarto, depois de ter passado a tarde com você. Eu não aguentei segurar a barra e enchi a cara mesmo, me embebedei para não sofrer, pelo menos naquele momento. E então...
— Então a Alice aproveitou a oportunidade.
— Mais ou menos isso. E o resto você já sabe.
Ela ficou quieta novamente, olhando Beto dançar com a irmã. Sem me olhar, voltou a falar.
— O Beto me levou para o seu quarto, mas não aconteceu nada.
— O quê? — Eu me espantei.
— Eu não consegui. — Percebi uma lágrima escorrer pelo canto do seu olho. — Não podia me entregar para ele amando você, ainda mais no seu quarto, não era certo. Ficamos lá um tempão conversando e eu consegui explicar para ele que ainda não estou pronta. Depois ele me levou em casa, e eu não te vi mais na festa.
— Provavelmente eu já estava na casa do Caveira.
Esperava que sim, porque não lembrava onde poderia estar, se com Alice ou não, nem queria imaginar isso, embora tentasse confiar nas palavras dela de que nada havia acontecido.
— Fui para casa, fiquei lá pensando um tempão. Hoje acordei decidida e fui até a casa do Beto. Ia terminar tudo.
— Você ia? — Baixei a cabeça e coloquei as mãos na cabeça. — Não sei se quero ouvir mais...
Uma dor alucinante cortava meu peito, e pensei que ia passar mal.
— Assim que cheguei lá, encontrei a Alice eufórica. Ela me contou que vocês tinham ficado, que o Beto havia conversado com você e que agora ela era sua namorada. Fiquei péssima e com muita raiva de você. Não consegui acreditar que estava disposta a terminar o namoro com o Beto, que sempre foi um amor comigo, para ficar com um canalha como você.
Levantei o rosto e dessa vez foi Juliana quem percebeu as lágrimas nos meus olhos. Segurei suas mãos.
— Pelo amor de Deus, Juju, você tem que acreditar em mim. Tudo o que falei ontem é verdade, o que demonstrei para você. Eu te amo desde que voltei de Floripa, assim que te vi.
— Agora é tarde, Cadu. Você está com a Alice e eu com o Beto, e não quero ver nenhum dos dois sofrendo.
— Eu sei.
Baixei novamente a cabeça e depois de algum tempo senti alguém tocar meu ombro.
— Você está bem?
Reconheci a voz de Alice. Provavelmente tinha voltado da pista com Beto. Enxuguei disfarçadamente as lágrimas e olhei para ela.
— Na verdade, não. Preciso ir embora — disse, me levantando de uma vez.
— Eu vou com você — disse Alice.
— Precisa de ajuda? — perguntou Beto, preocupado, e me senti ainda pior.
— Não, valeu — disse para ele, e não tive coragem de olhar para Juliana.
Parei em frente à casa de Alice e ela me olhou com a sobrancelha franzida.
— O que você está fazendo aqui? — perguntou ela, indignada.
— Vim te deixar em casa — respondi, sem entender sua reação.
— Eu vou para a sua casa.
Eu a olhei, sério.
— Não vai, não.
— Você não está passando bem, não vou te deixar assim e simplesmente ir para minha casa como se nada estivesse acontecendo.
Suspirei, olhei para a frente e depois a encarei.
— Eu já estou melhor.
— Mesmo assim. — Ela se aproximou e colocou a mão no meu ombro. — Quero ficar com você até ter certeza de que realmente está bem.
— Estou bem — disse, sem muita convicção.
Claro que eu não estava bem, mas não queria Alice comigo naquele momento.
— Você está me dispensando.
Eu a olhei, espantado. Parecia que ela lia meus pensamentos.
— Não estou te dispensando. Apenas não vejo necessidade de você ir lá pra casa. Imagina o que o Beto vai falar.
— Ele não vai falar nada. Eu sou sua namorada e você não está bem.
Balancei a cabeça e a puxei para meus braços.
— Alice, coopera. Não quero confusão com seu irmão. Só estou precisando descansar um pouco, coisa que não consegui fazer hoje o dia todo. — Eu a apertei e beijei seus lábios de leve.
— Ok — disse ela, quando a soltei. — Mas, se você não melhorar, me liga.
— Ligo sim. — Eu sorri e ela saiu.
Esperei que entrasse em casa e liguei meu carro.