A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 9 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 5

 

Duas batidas de leve, a porta se abrindo e uma voz ressoando pelo quarto:

— Levante-se logo, Carlos Eduardo, que temos um convite para almoçar.

Foi assim que acordei no sábado, com meu pai entrando no quarto, abrindo as cortinas e saindo, claro que deixando a porta aberta.

Eu me sentei na cama, esfregando os olhos. Minha cabeça latejava. Olhei o relógio e eram exatamente onze e vinte e sete da manhã. Que saco! Caveira madrugou para convencer a mãe a fazer um almoço para nós? Estava mesmo disposto a juntá-la com meu pai.

Pensar na comida da tia Matilde me animou a levantar e tomar um banho. Só assim consegui acordar de verdade. Vesti uma calça jeans velha e a primeira camisa que vi no armário, afinal de contas quem precisava estar bem era meu pai. Pensando nisso, fui atrás dele e o encontrei na cozinha, com uma xícara de café na mão. Ele a estendeu para mim.

— Foi boa a festa?

— Foi. — Peguei a xícara e esperei o sermão sobre bebidas e chegar tarde em casa, que não veio. — Planos para o almoço? — Tentei mostrar total indiferença, como se não soubesse aonde íamos.

— A Ivone ligou nos convidando e eu aceitei. Melhor do que ir ao Senzala, não acha?

Fiquei parado, com a xícara a meio caminho da boca. Olhava meu pai, incrédulo.

— Ivone? A mãe da Juju?

— Ela mesma. — Meu pai cerrou os olhos por segundos. — O que foi? Não vai me dizer que já está de implicância de novo com a menina.

Coloquei a xícara na pia e corri para o meu quarto. Em um minuto troquei de roupa. Como ele não me avisa que o almoço era na casa da Juliana? Meu pai apareceu na porta do quarto.

— O que foi? Por que está trocando de roupa?

— Aquela calça está velha demais.

— Sei. E a camisa?

— Esta é mais bonita. — Fui para o banheiro ajeitar o cabelo. Meu pai foi atrás.

— O que você tem, Carlos Eduardo? Nunca te vi assim.

— Não tenho nada, pai. Só estou me arrumando um pouco melhor, afinal de contas eles são nossos amigos.

— Sei. — Meu pai me olhou com desconfiança. — E aonde você pensou que íamos?

Eu o olhei e fiquei mudo. Não tinha como responder aquilo.

— Não sei. — Dei de ombros, como se não fosse importante.

— Você está agindo de um jeito estranho. Parece uma... — Ele parou e me segurou pelo braço quando tentei passar por ele. — Uma pessoa apaixonada?

— Que é isso, pai? Está louco?

Eu me soltei e fui para o quarto, com ele ainda atrás de mim. De repente, ficou sério.

— Espera aí! Você está interessado na namorada do seu amigo?

Ele devia estar espantado, pelo tom da voz. Não consegui encará-lo.

— Claro que não! — disse, sem ser muito convincente.

Ele se aproximou de mim e me fez olhar para ele.

— Você está agindo de modo estranho a semana toda e agora está aí, todo preocupado com a roupa que vai usar. Nunca te vi assim; você nunca ligou para roupa.

— Você está delirando. Não estou interessado em ninguém. — Eu me sentei na cama para calçar o tênis.

— Como não percebi antes? Você está estranho desde que voltou. Está enfurnado neste quarto ou então aéreo. E essa sua atitude agora, de trocar de roupa... É claro, você está interessado nela. Não digo que estou feliz por você, afinal de contas ela é namorada do Beto. — Ele balançou a cabeça e foi saindo do quarto. — Vou avisar a Ivone que não poderemos ir.

— Não! — Eu corri e o segurei. — Nós vamos.

Ele me olhou e mais uma vez balançou a cabeça.

— Você quer mesmo?

— Quero. Quero muito — respondi, sem graça.

— Ela tem namorado. Que por sinal é seu melhor amigo.

— Eu sei. — Baixei a cabeça. — Aconteceu pai, não posso fazer nada.

— Pode tentar esquecê-la.

— Não sei se quero. — Eu o olhei. — Eu penso nela todos os dias, tento não pensar. Não sei se consigo esquecer a Juliana, mas quero pelo menos ter a amizade dela, se é o máximo que posso ter.

— Você é quem sabe. — Ele tinha um olhar de piedade, que fez com que eu me sentisse ainda pior. Ia sair do quarto, mas antes me abraçou. — Espero que você não sofra, meu filho.

— Já estou sofrendo.

 

Chegamos à casa de Juliana rápido, já que ficava duas ruas acima da nossa. Meu pai foi o caminho todo falando do perigo de gostar da namorada do melhor amigo e me pedindo para ser cuidadoso. Era o que eu precisava para começar meu dia.

Ivone abriu a porta e nos levou até a sala, onde Manuel assistia TV. Assim que nos viu, ele desligou o aparelho e começou uma conversa animada com meu pai sobre a cidade e suas mudanças. Fiquei ali sentado, olhando os dois e esperando Juliana aparecer. E ela não demorou.

Usava um short jeans e uma blusinha preta, rabo de cavalo e chinelo. Estava simples e linda.

— Oi, Cadu — disse, me dando um forte abraço.

Eu me perdi em seus cabelos, fechando os olhos como se ajudasse a sentir melhor seu perfume. Ela olhou para seu pai conversando com o meu e me puxou para a cozinha. Encontramos tia Ivone, que, junto com a empregada, terminava de arrumar as coisas para o almoço.

— Precisa de ajuda, mãe?

— Não, querida, pode ir conversar com o Cadu. — Tia Ivone sorriu e ficou de costas para nós, enquanto arrumava alguma coisa de aparência boa em uma travessa.

— Vem.

Juliana saiu me puxando pela mão, e o contato com a pele dela era maravilhoso. Subimos as escadas e paramos em frente a uma porta.

— Este é o meu quarto. — Ela abriu a porta e fiquei chocado. Nas paredes estavam colados vários pôsteres relacionados aos Três Mosqueteiros.

— Meu Deus! — Entrei, ainda espantado, observando tudo. Ela sorriu e fechou a porta atrás de mim. — Vejo que você levou a sério nossa brincadeira de criança.

— Eu simplesmente amo tudo relacionado à história dos Três Mosqueteiros. — Ela me puxou até uma estante. — Tenho vários livros sobre o assunto.

Olhei e vi vários títulos de Alexandre Dumas, alguns em inglês.

— Você leu todos?

— Sim, mais de uma vez. Como falei, amo tudo que se refere aos Três Mosqueteiros.

Eu ia fazer uma brincadeira sobre ela agora namorar um, mas decidi ficar quieto. Não queria enfiar o Beto na nossa conversa.

— Tenho alguns filmes também. — Ela abriu uma portinha da estante e vi vários DVDs ali. — O que acha de assistirmos algum depois do almoço? Se você ainda gostar disso, claro.

— Vou adorar — respondi, com sinceridade.

— Qual você quer?

— O que você preferir. — Para mim o filme pouco importava; eu queria era ficar a tarde toda ao lado da Juliana.

— Vou pegar então o primeiro, Os Três Mosqueteiros, mas uma versão antiga; da mais recente não gostei. — Ela fez uma careta. — Tenho outros também, como O Homem da Máscara de Ferro e A Vingança do Mosqueteiro.

— Está ótimo esse. Outro dia assisto o resto.

— Tá bom. — Ela sorriu, parecendo feliz.

Continuei andando pelo quarto e parei em frente a um grande painel de metal com várias fotos da Juliana, algumas pessoas que deviam ser seus amigos em Porto Alegre e... Para minha surpresa, havia uma foto minha, do Beto e do Caveira, os três vestidos de mosqueteiros.

— Nossa, você tem esta foto? — Apontei espantado e ela pareceu ficar um pouco sem graça.

— Alice me enviou depois de me contar que vocês usaram a fantasia em um Carnaval. Fiz ela me enviar a foto de qualquer maneira, queria ver como vocês ficaram com a roupa. — Ela se aproximou e olhou para a foto. Devíamos ter uns 14 anos na época. — Você ficou muito bem.

— Nem tanto. — Sorri, lembrando que as meninas ficaram loucas quando chegamos ao baile vestidos daquele jeito. Repetimos a fantasia mais uns dois ou três anos, até não servirem mais e passarmos a viajar no Carnaval.

Continuei olhando as fotos. Havia várias da Juliana, e eu pude ver a transformação daquela menina magrela, chata e sem sal nessa garota linda e meiga. Ela foi comentando algumas até terminar. Olhou para mim, sorrindo, e eu fiquei olhando de volta. Ficamos assim alguns segundos, meu coração disparado dentro do peito, até que ela virou o rosto.

— Animado para o baile?

— Sim. Eu te pego aqui umas onze e meia, tá?

— Alice me disse que os bailes aqui são bons.

— São.

Nossa conversa foi interrompida por tia Ivone, que bateu na porta nos chamando para almoçar. Juliana novamente me puxou pela mão, me levando de volta à sala.

 

O tema do baile era Anos 60, e decidi ir vestido de bad boy. Achei que combinaria com o momento, já que desejar a namorada do melhor amigo é uma canalhice das grandes. Coloquei uma jaqueta de couro, resgatei uns óculos de sol da juventude do meu pai nas tralhas dele e passei meio quilo de gel no cabelo, para fazer um topete. Meu visual não estava ruim, e meu desejo secreto era agradar Juliana. Não tinha como incorporar melhor o papel.

Estacionei em frente à casa dela e desci. Tia Ivone atendeu a porta.

— Gostei da produção — ela comentou, enquanto sorri gentilmente.

— A Juju vai demorar? — Quando fiz a pergunta, vi Juliana descendo as escadas. Ela usava um vestido azul-claro justo até a cintura e depois caindo em uma saia rodada. O cabelo estava preso em um rabo alto. Linda, como sempre.

— Oi, Cadu. — Ela me deu um beijo.

— Você está linda — comentei, um pouco tímido.

— Você também está bonito. — Ela sorriu para mim.

— Bom baile, crianças — disse tia Ivone, fechando a porta.

Segurei a mão de Juliana e a levei até o carro, abrindo a porta. Meu coração batia muito rápido dentro do peito e eu estava elétrico. A vontade era raptá-la e cair na estrada, mas sem chance de isso acontecer. Nessa noite, eu iria me comportar.

Chegamos ao Pitangueiras, e o salão do clube estava todo enfeitado. Várias pessoas a caráter dançavam ao som da música temática. Encontrei algumas pelo caminho e fui apresentando Juliana.

— O que acha de bebermos algo? — perguntei.

— É uma boa ideia.

Ela me acompanhou até o bar. Peguei dois refrigerantes; não ia tomar cerveja, já que estava dirigindo e também porque precisava ficar sóbrio ao lado dela.

Ficamos ali, observando as pessoas e conversando até eu ver o Caveira entrando acompanhado de duas meninas.

— Ah, não! — eu disse alto.

— O que foi? — perguntou Juliana, se virando na direção em que eu olhava. Caveira acenou e veio ao nosso encontro.

— E aí, Cadu, lembra das meninas? — Ele apertou minha mão e deu um beijo no rosto da Juliana. Eu me vi parado de frente para a Rosângela.

— Oi — disse ela, com um tom malicioso.

— Oi — engasguei. Rosângela olhou para Juliana e ficou encarando-a. — Esta é a Juju, namorada do Beto, nosso amigo.

Rosângela cumprimentou Juliana e continuou ali na minha frente. A essa altura, Caveira já tinha sumido, agarrado à menina com quem ficara na noite anterior.

— Não sabia que você viria — comentei, tentando acabar com aquele silêncio constrangedor.

— O Caveira convidou a Martinha e eu vim junto. Imaginei que você estaria aqui.

Arregalei os olhos com o comentário dela e percebi que Juliana ia sair do meu lado. Rapidamente segurei sua mão para que ela entendesse que eu a queria ali.

— Legal — disse, tentando parecer indiferente a ela. — Espero que você se divirta.

Rosângela ainda ficou alguns segundos ali parada, mas finalmente percebeu que estava sobrando e saiu. Agi como um babaca, mas não estava dando a mínima. Não largaria Juliana sozinha por garota alguma.

— Algum rolo seu? — perguntou ela finalmente, depois de alguns segundos de silêncio.

— É. Não. Quero dizer... — Estava sem graça. Não queria explicar nada, mas ao mesmo tempo não tinha por que esconder. Ela era minha amiga, afinal de contas. — Nós ficamos ontem na festa de Rioazul.

— Ah.

Juliana balançou a cabeça e olhou na direção da Rosângela, que agora conversava com um carinha que usava smoking. Percebi que ainda segurava sua mão, e, por mais que quisesse continuar assim, soltei antes que alguém visse e fosse falar alguma besteira para o Beto.

— Sabe, eu não sou assim, mas é que eu... — Não consegui terminar de me explicar. Juliana me olhou e sorriu.

— Não precisa me dar satisfação de nada.

— Eu sei. Mas não quero que você pense que sou um cafajeste. — Quase completei: como o Beto era.

— Eu sei que você não é. — Ela deu um longo gole no refrigerante e ficou ao meu lado, olhando para a frente. — Alice sempre me falou de vocês todos.

— Ah, esqueci que você tinha uma informante aqui.

— Pode-se dizer que sim. Mas é que eu não queria perder nada da vida de vocês. Então já sei tudo, ou quase tudo, que aconteceu enquanto estive fora. Sei como você, o Caveira e o Beto agem, ou agiam, com as meninas. — Ela parou e me olhou. — Sei também o quanto Alice gosta de você.

Dei uma gargalhada e ela se espantou.

— A Alice não gosta de mim.

— Gosta sim.

— Ela acha que gosta.

— Como assim?

— Juju, a Alice cismou comigo porque sou o único cara daqui que ela não pode ter.

— O Caveira também.

— Mas o Caveira já tentou ficar com a Emília, então não conta.

— Acho que você está enganado — disse ela e parou. Olhou ao redor e depois me olhou de novo.

— Não estou. Sei que a Alice pensa nisso como um joguinho. Se pudesse ficar comigo, ela não iria me querer. É a tentação do proibido — eu disse, e agora foi a minha vez de parar. Eu a olhei sério e pensei se ela também não seria a minha tentação do proibido. Talvez sim, talvez não; a verdade é que jamais tinha me sentido assim.

— Pode ser. — Ela deu de ombros. — Mas vai dizer que você nunca quis ficar com a Alice. Ela é muito bonita.

Fiquei mudo, pensando no que falar.

— Sim, não vou negar. Se pudesse, teria tentado ficar com a Alice algum tempo atrás. Mas, por causa do Beto, parei de vê-la como uma garota bonita. Ela é apenas a irmã do meu melhor amigo.

Juliana ficou quieta e eu tentei imaginar o que se passava na cabeça dela.

— Acho que isso não tem nada a ver— disse ela. — Se quiser, posso tentar fazer o Beto desistir desse pacto.

— Deixa quieto.

— Mas ela gosta de você.

— Eu não gosto dela. — Suspirei. — Não do modo como ela gosta de mim, se for verdade que gosta. Então não mexe com isso.

— Ok.

Juliana começou a se balançar um pouco ao som da música, enquanto olhava as pessoas dançando na pista.

— Pode ir lá dançar com suas amigas. Não a acompanho porque minha coordenação motora me impede.

Ela deu uma risada gostosa e balançou a cabeça.

— E deixar você aqui solto para a Rosângela atacar? — brincou. Fui obrigado a rir e apontei um casal distante.

— Isso não vai ser problema.

Juliana olhou e viu Rosângela no maior dos amassos com o tal carinha do smoking.

— Nossa, ela não perde tempo! Onde você encontrou essa menina?

— Coisas do Caveira.

Juliana enroscou o braço dela no meu e falou baixinho:

— Não quero dançar não. A conversa está boa.

Ganhei a noite com essa declaração! Ficamos o baile todo conversando e ela me contou sobre sua infância em Porto Alegre.