A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 29
Fomos todos para a boate na quarta-feira para começar o “esquenta” para a Semana Santa. Voltei para casa quase às cinco da manhã e encontrei meu pai na cozinha, terminando seu café.
— Você já está acordado? — perguntei, um pouco espantado.
— Não quero pegar a estrada cheia. — Ele se levantou e colocou o prato e a xícara dentro da pia e me olhou. — Isso são horas de chegar?
Virei os olhos e me controlei. Não iria começar uma discussão minutos antes de ele viajar.
— Bom, vou lá para o meu quarto.
Fui saindo da cozinha, mas ele me chamou. Parei próximo da porta, contando até dez e esperando o sermão.
— Matilde deixou claro para o Murilo que é para ele vir pra cá. E nada de festas nas casas.
— Não vou fazer festa, não tenho paciência pra ficar arrumando a casa depois.
Não menti, porque realmente não iria fazer festa. Pelo Caveira não podia falar nada, mas aí já era problema dele com a Matilde.
— Vou acreditar — disse ele, e achei que estava liberado, mas antes de sair ainda fez outra recomendação. — E nada de trazer a namorada para passar a noite aqui. Não quero confusão com a família Gomes.
Virei os olhos novamente, não sei se ele percebeu.
— Pai, você sabe que eu respeito a Alice. Só de você falar nisso é capaz que o Beto venha lá da casa dele e me encha de porrada.
— Está bem, está bem. Vou confiar em você.
Eu me despedi dele e subi antes que viessem mais recomendações que não estaria disposto a cumprir. Não levaria Alice para dormir na minha casa, isso estava fora de cogitação, mas não deixaria de fazer o jantar. Sem segundas intenções, porque ali o campo era minado.
Entrei no quarto e meu celular tocou. Franzi a testa enquanto pegava o aparelho, e vi que era o Caveira.
— O que foi? — perguntei, estranhando ele me ligar. Acabáramos de nos ver na boate.
— Cara, minha mãe está aqui arrumando as coisas pra viajar.
— Meu pai também está de pé.
— Eles são doidos!
— Meu pai falou que não quer pegar a estrada cheia — eu disse, enquanto ia tirando a roupa.
— Minha mãe veio com sermão de nada de festas, nada de bagunça, fique na casa do Carlos Eduardo.
— Meu pai falou mais ou menos a mesma coisa.
— Ela sonha, né? — Caveira deu uma risada e eu balancei a cabeça, pensando na festa que ele daria na sexta-feira.
— Olha, agora vou dormir, estou pregado.
— Eu também, só queria compartilhar esse momento família com meu irmãozinho.
— Não enche, Caveira.
— Passo aí pra te pegar à uma da tarde e vamos ao Senzala.
— Ok, mas eu vou ao supermercado depois do almoço, então não sei se seria melhor eu ir com o meu carro e você com o seu.
— Não tem problema, eu vou com você.
— Combinado.
Desliguei o celular, tomei um banho rápido e fui para a minha cama.
O celular me despertou ao meio-dia. Queria continuar dormindo, mas precisava me levantar e ligar para minha mãe. Tomei um banho para terminar de acordar e peguei o telefone. Ela não demorou a atender, e, depois dos cumprimentos, resolvi ir direto ao assunto.
— Mãe, lembra da Alice, irmã do Beto?
— Muito pouco. Por quê?
— Bom, estamos namorando — eu disse, sentindo minhas bochechas arderem. Devem ter ficado vermelhas na mesma hora.
Minha mãe riu do outro lado, provavelmente imaginando como eu estava sem graça de lhe falar isso.
— Que bom, fico feliz por você. Deve ser uma boa garota, vem de uma boa família.
— Sim, sim. Vamos ver se dá certo. — Decidi cortar o papo, antes que ela começasse a falar coisas que uma mãe não deve ficar falando para o filho. — Hoje Alice vem jantar aqui e quero fazer algo especial. Pensei naquele seu fettuccine.
— Ah, agora entendi sua ligação.
— Nem começa, mãe. Estou sempre te mandando e-mails.
— Não é a mesma coisa que ligar.
Dei um longo suspiro.
— Você sabe que eu prefiro e-mails.
— Não sei a quem você puxou com essa timidez toda. Sabe, não é bom ficar guardando os sentimentos.
Virei os olhos enquanto ela continuava com seu discurso sobre se abrir mais para a família.
— Olha, mãe, não vou ficar falando sobre isso pelo telefone. — Cocei minha testa. — Só quero uma receita, nada demais.
— Sei, sei.
Ela ficou um tempo em silêncio, não sei se pensando se devia falar mais alguma coisa, ou se me dava ou não a receita. Por fim, consegui anotar os ingredientes que precisava comprar e desliguei, prometendo que iria ligar mais vezes, mesmo nós dois sabendo que isso não aconteceria.
Caveira apareceu na hora marcada. Entrei no seu carro com a lista de compras no bolso e logo percebi que ele estava com a cara fechada.
— O que aconteceu?
— Não vai rolar festinha amanhã lá em casa. — Ele tinha raiva na voz.
— Por quê? — Estranhei.
— Porque o povo idiota da Chácara Celeiro vai dar uma festa amanhã, então ninguém vai lá em casa.
A Chácara Celeiro era uma antiga fazenda de cana-de-açúcar da região, que estava abandonada. Foi comprada por dois empresários de Belo Horizonte, que a transformaram em um local para festas.
— Entendi. Por que não faz hoje?
— Não dá, já tinha combinado com a galera para amanhã. E hoje você não vai porque tem o jantarzinho romântico com a Alice.
Comecei a rir e o Caveira me olhou com mais raiva ainda, enquanto estacionava em frente ao Senzala.
— Sem essa. Nós nem vamos fazer falta na sua festa. O que está atrapalhando de verdade?
— Hoje vou sair com a Rafa — disse ele, tão baixo que quase não escutei.
— Ah, então tá explicado. — Saí do carro e o acompanhei para dentro do restaurante. — A coitada vai cair nas suas garras?
— Só vamos jantar.
Caveira deu de ombros, mas eu sabia que estava ansioso para encontar a Rafaela. Eu o conheço desde criança e sei que, para ele, ela é diferente das outras garotas. Nos servimos no excelente buffet do Senzala e nos sentamos em uma mesa afastada.
— A festinha na sua casa fica pro próximo feriado.
Ele não riu do meu comentário e me olhou sério.
— O que acha de eu levar a Rafa pra jantar com você e a Alice?
— Não, não. — Barrei logo. — Eu vou cozinhar apenas pra Alice. Não rola um jantar a quatro.
— Hum. — Ele se aproximou de mim por cima da mesa e falou baixo. — Segundas intenções?
— Está louco? O Beto me mata!
— Ele não precisa saber. — O Caveira deu de ombros novamente. — Ou vai dizer que você não tem vontade?
Fiquei quieto por algum tempo e olhei para os lados antes de responder.
— A Alice mexe comigo, sinto uma forte atração por ela, mas não é amor.
Caveira virou os olhos e pousou o garfo no prato. Apontou o dedo indicador para mim, o que estava virando uma rotina, e falou sério.
— Para com essas besteiras e esquece a Juliana. Sua namorada é a Alice, então trate de pensar apenas nela.
— Foi você quem tocou no nome da Juju, eu não falei nada.
— Nem precisa, sei o que você está pensando.
— Não estou pensando em nada, a não ser no jantar de hoje. Vê se não me enche. — Agora foi minha vez de falar sério.
— O que eu faço com você? — Ele levantou as mãos, como se perguntasse ao céu.
— Não faz nada, mamãe — brinquei.
Estacionei às sete em frente à casa da Alice. Quando saí do carro para tocar a campainha, vi o Beto fechando a porta.
— Fala, Cadu. — Ele me cumprimentou com um aperto de mão. — Veio buscar minha irmã?
— Vim. — Olhei para a casa, mas não vi sinal da Alice. — Já está saindo?
— Vou encontrar o Caveira no Tavares pra tomar uma gelada antes de ele ir jantar com a Rafa. Ele parece estar um pouco nervoso.
— É, quem diria que um dia ele ficaria nervoso ao sair com uma garota?
— E você, vai furar no Tavares?
— Hoje vou.
— Vai jantar onde com a Alice?
Encarei o Beto e congelei. Não sabia o que dizer, nem sabia se Alice havia falado algo sobre o jantar. Decidi jogar limpo, mesmo sabendo que ele ficaria bravo.
— Lá em casa. Fiz fettuccine para ela. — Tentei dar meu melhor sorriso, mas não adiantou muito.
— Você vai levar Alice pra jantar na sua casa? — Ele cerrou os olhos. — Só vocês dois? Na sua casa vazia?
— Calma aí. — Levantei as mãos como se fossem uma barreira à minha frente. — É só um jantar, nada mais que isso.
— Você pensa que eu nasci ontem? — Ele se aproximou de mim com o indicador levantado. — Eu te mato se você tocar um dedo na minha irmã.
— Eu sei muito bem disso, e não estou planejando nada, se quer saber. É só um jantar. Não estou com segundas intenções, não penso em tocar num fio de cabelo da Alice.
— Espero mesmo que não.
— Olha, eu só fiz um jantar pra agradar minha namorada. Ela vai lá em casa, janta, a gente conversa um pouco, quem sabe até não encontramos vocês em algum lugar depois?
Beto suspirou e ficou um tempo quieto, tamborilando os dedos no teto do meu carro.
— Tudo bem, não precisa ir nos encontrar depois. Sei que estou sendo um chato, mas não consigo pensar na minha irmã nos braços de qualquer cara.
Esperei que continuasse, mas ele não falou mais nada, então decidi me impor um pouco.
— Eu não sou qualquer cara e nós já conversamos várias vezes sobre isso. Não dá pra você ficar sempre pegando no meu pé. Estou tentando fazer o namoro dar certo, mas desse jeito não há quem aguente, e olha que eu sou seu amigo.
— Desculpa, cara.
— Você tem que confiar em mim, não pode me ver como um galinha safado como você era. Eu não quero o mal da Alice, nem pretendo fazê-la sofrer, mas realmente não dá pra continuar assim.
Ele ficou mais um tempo quieto e me olhou.
— Eu sei, eu sei. Alice e Emília vivem me falando isso, a Ju também já me deu muitos sermões... Mas é mais forte do que eu. — Ele suspirou e me olhou. — O pior é que eu confio em você.
— Então, pronto, para com essa conversa toda vez que eu quero ficar sozinho com a Alice.
— Tudo bem, vou tentar. — Ele me abraçou rápido e se afastou. — Sei que a Alice não poderia ter um namorado melhor.
Beto se despediu e entrou no seu carro. Eu sabia que depois do Tavares ele iria encontrar a Juliana, mas tentei não pensar nisso. Olhei novamente para a porta da casa e ia até lá quando vi Alice saindo, segurando algo nas mãos.
— Fiz mousse de chocolate para a sobremesa — disse ela, mostrando a pequena travessa. — Tive que tirar um pouco pra deixar aqui em casa ou meu pai ia desconfiar. Demorei muito?
— Não, estava aqui conversando com o Beto, já ia te chamar.
— Nossa, ele ficou me interrogando pra saber aonde íamos. Fingi que não sabia — disse ela, enquanto entrava no carro.
— Falei pra ele que você vai pra minha casa.
— Você pirou? — disse Alice, alto.
— Calma. — Eu a olhei rapidamente e sorri. — Conversamos numa boa e acho que finalmente ele vai parar de pegar no meu pé.
— Tomara.
Em menos de dez minutos chegamos em casa. Alice já parecia mais confortável ali e provavelmente não pensava mais no irmão. Ela ficou na sala, mexendo no aparelho de som, enquanto eu fui para a cozinha, guardar a mousse na geladeira. Aproveitei para tirar o vinho, um Parcela #7 que peguei na adega do meu pai. Não entendo nada de vinhos, mas ele tem uma adega climatizada e eu sei que os vinhos que ele guarda mais embaixo são os melhores. Escolhi aleatoriamente um ali, na dúvida entre argentino, chileno e francês.
Coloquei a comida para aquecer enquanto abri a garrafa de vinho. Servi um pouco e provei. Era bom, embora eu não soubesse julgar a qualidade da bebida. Servi outra taça e levei para Alice, que estava sentada no sofá com a cabeça encostada em uma almofada e os olhos fechados.
— Não sabia que você gostava de música clássica — eu disse, quando ela abriu os olhos.
— Fiquei com preguiça de escolher um CD e deixei tocar o que já estava aí. — Ela indicou o aparelho com a cabeça.
— É do meu pai — expliquei. — O jantar está pronto.
Acompanhei Alice até a mesa e não a deixei me ajudar em nada, embora ela insistisse muito. Fui até a cozinha e trouxe a travessa com o fettuccine.
— Espero que esteja bom — comentei, um pouco receoso. Sentei em frente a ela.
— Não sabia que você cozinhava.
— Na verdade, não cozinho. Liguei hoje pra minha mãe e ela me explicou detalhadamente como se faz esse fettuccine, é receita dela.
Servi um pouco para Alice e fiquei esperando sua reação. Ela provou e me olhou surpresa.
— Está muito bom!
— Bondade sua — disse, fingindo um pouco de embaraço, mas por dentro estava feliz com o elogio.
— É sério. Está uma delícia.
Eu me servi e comecei a comer. E não é que estava bom mesmo?
— Minha mãe ficou feliz quando soube que estamos juntos — comentei, sentindo meu rosto queimar de vergonha. Alice me olhou, também ruborizada.
— Ela nem deve se lembrar de mim.
— Muito pouco. — Fui sincero. — Mas ela fica feliz sabendo que estou feliz.
— E você está? — perguntou, com um misto de alegria e expectativa.
— Estou. — Sorri. — É estranho, devo confessar, mas estou. Eu me sinto bem ao seu lado.
— Que bom. — Ela retribuiu o sorriso e segurou minha mão em cima da mesa. — Espero que um dia você possa se apaixonar por mim.
— Alice...
— Não diga nada. — Ela levantou a mão. — Eu não devia ter tocado no assunto.
Ficamos um tempo comendo em silêncio e percebi que ela estava constrangida. Eu não sabia o que falar. Decidi optar pelos assuntos banais.
— Fico feliz em ver que está comendo com gosto — disse, enquanto ela repetia o fettuccine.
— É que está bom mesmo. E tenho que aproveitar que posso comer à vontade, sem ninguém me enchendo. — Alice fez uma careta e eu franzi a testa. Ela percebeu e se explicou. — Lá em casa minha mãe fica regulando comida pra mim. Diz que uma modelo tem que ser magra e blá-blá-blá, como se eu fosse virar uma top model internacional. Puxa, eu não quero seguir essa carreira!
— Bom, então aproveite e coma à vontade. Se bem que você pode fazer isso, é bem magrinha.
— Pois é, nem tendência a engordar eu tenho! Comer um pouco a mais não vai me matar.
— Pra mim, você é perfeita — eu disse, com sinceridade, porque realmente ela era.
— Perfeita também não, estou com um pouco de celulite.
Dei uma gargalhada, quase engasgando com o vinho.
— Mulheres... Nunca estão satisfeitas.
— Mas é verdade, você nunca reparou?
— Alice, eu nem sei o que é celulite, jamais conseguiria ver alguma em uma mulher.
Ela sorriu.
— A Ju que é perfeita, não tem nem uma pra contar história, já viu?
Senti meu coração disparar ao escutar o nome da Juliana. Não estava mais pensando nela e Alice a trouxe ali para a mesa.
— Se não reparei em você, vou reparar nela? — comentei, tentando me esquivar.
— É verdade. — Alice sorriu.
Terminamos de comer e levei tudo para a cozinha. Peguei a mousse na geladeira e o resto do vinho que sobrou na garrafa.
— Vem comigo. — Eu a chamei e me encaminhei para o quintal de casa.
— Aonde vamos? — Alice franziu a testa.
— É surpresa.
Saí no quintal e acendi uma vela que havia deixado ali. O quintal de casa ficou bastante abandonado depois que minha mãe foi embora. Ruth ainda cuidava de uma pequena horta que minha mãe fez, mas o resto era apenas cimento.
— Nossa! — Alice exclamou, e vi felicidade em seus olhos.
Eu havia levado um colchão para lá e colocado no canto, com algumas almofadas e um edredom.
— O que acha de comermos a sobremesa aqui enquanto vemos o céu? — perguntei, e ela pulou no meu pescoço.
— Você é o máximo, sabia? — ela disse, me dando um longo beijo.
Eu me sentei, colocando as almofadas encostadas na parede, e puxei Alice para perto. Ficamos comendo mousse e bebericando o vinho enquanto observávamos as estrelas. A noite estava linda, com o céu sem nuvens e uma lua cheia de dar gosto.
— Olhe! — Alice apontou e eu vi uma estrela cadente no céu. — Faça um pedido — disse ela, e me olhou.
Fechei os olhos e pedi para esquecer a Juliana e me apaixonar pela Alice, embora soubesse que meu pedido seria difícil de realizar.
— O que você pediu?
— Não posso dizer, ou então não se realizará — disse, sorrindo. — E você?
— Meu pedido já se realizou — respondeu ela, e eu a puxei com vontade para perto de mim.
Coloquei Alice sentada no meu colo, de frente para mim, e comecei a beijá-la com desejo. Ela apertou minhas costas e, antes que eu percebesse, tirou minha camisa.
— Você está me provocando — disse, e ela apenas sorriu.
Alice me beijava enquanto acariciava meu peito e minha barriga e senti um calor percorrer meu corpo. Virei-a, colocando-a deitada no colchão, e beijei sua barriga. Fui levantando a sua blusa até chegar ao limite do sutiã. Alice não falou nada e eu continue a levantar, tirando-a. Ela me olhou com paixão nos olhos e eu beijei seus lábios.
— Vai chegar uma hora em que você vai ter que me parar — sussurrei, e ela balançou de leve a cabeça. — Estou falando sério. Você mexe demais comigo, mas não quero precipitar nada.
— Tudo bem. — Ela fechou os olhos.