A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 42 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 38

 

Beto não apareceu na aula na quinta. Pensei em procurá-lo, mas Caveira achou melhor não. Ele também não conseguiu falar com o Beto, e Alice dava poucas notícias. Eu sabia que ela me escondia a verdadeira raiva que o irmão sentia de mim.

Na sexta-feira era a apresentação do nosso trabalho de Direito Penal, e eu jurava que ele não apareceria. Sabia que o professor ficaria uma fera e tentava pensar em uma boa desculpa para a ausência do Beto.

Entrei na sala, que já estava preparada como se fosse um tribunal, e me surpreendi ao ver Beto sentado em uma das cadeiras da defesa. Caminhei lentamente em direção a ele, com as mãos úmidas de suor por causa do nervosismo do encontro, e me sentei ao seu lado. Eu o encarei, mas ele tinha os olhos voltados para a frente e me ignorou o tempo todo.

O professor entrou na sala e tomou o lugar do juiz na frente de todos.

— Bom dia, turma. — Ele pegou um papel e levantou os olhos. — Hoje vamos ter o julgamento de um homem acusado de matar seu melhor amigo.

Antes que o professor prosseguisse, o Beto se levantou.

— Senhor juiz, eu gostaria de dizer uma coisa antes de continuar o julgamento.

O professor cerrou os olhos para o Beto e eu senti meu sangue congelar. O que ele estava fazendo?

— Pois não, senhor Gomes?

— A defesa deseja declarar o réu culpado.

Houve um burburinho na sala e eu me senti em um tribunal de verdade.

— Você está louco? — sussurrei, mas ele me ignorou.

— Senhor Roberto Gomes, receio que neste caso a defesa não possa considerar o réu culpado. Preciso que vocês apresentem uma defesa para lhes dar uma nota final na matéria.

Não sei o que me deu, mas me levantei de um pulo, com o coração acelerado.

— Senhor juiz, a defesa pede um pequeno recesso para deliberar sobre o caso.

O professor estava visivelmente atônito e nos dispensou com uma das mãos. Deixei a sala, com o Beto atrás de mim.

— Você está louco? — repeti minha pergunta.

— Não — disse ele, calmamente, com as mãos no bolso da calça, mas com raiva na voz.

— Entendo que você me odeie, Beto, mas isso aqui é a nossa vida.

— Errado, isso é a sua vida. Vou me especializar em Direito Tributário. Não dou a mínima para esse julgamento idiota.

Então era isso. Beto queria me prejudicar no que ele sabia ser a matéria mais importante do meu curso de Direito. Era uma vingança.

— Não pensei que você me odiasse tanto — disse, desanimado.

Estava triste com aquela atitude dele, embora entendesse por que ele estava fazendo aquilo.

— Não pensei que você fosse um traíra — respondeu ele, friamente.

— Eu não sou traíra, Beto. Aconteceu, e Deus sabe o quanto eu quis esquecê-la.

— Você não tentou.

— É claro que tentei! — disse alto, e depois me controlei. Por sorte, ninguém passava pelo corredor naquele instante. — Tentei esquecê-la, não queria gostar dela porque, para mim, a nossa amizade é a coisa mais importante.

— Não parece.

— Eu abri o jogo com você porque não estava aguentando mais.

Ele ficou quieto me olhando. Senti uma lágrima escorrendo no meu rosto, mas não sequei.

— Eu conversei com a Ju ontem — disse ele.

Gelei e o encarei um pouco temeroso. Minha respiração estava falhando.

— O que ela falou? — perguntei, reticente.

— Ela jogou limpo também. Contou da paixonite dela por você quando era criança, que depois continuou mesmo de longe. Contou tudo, Cadu. Contou que tentou se apaixonar por mim para te esquecer.

Prendi a respiração por um tempo. Ele tirou uma das mãos do bolso e passou nos olhos, secando algumas lágrimas, e a visão dele ali, arrasado, me deixou ainda pior.

— Eu fui um idiota esse tempo todo por não ter percebido. — Ele levou as duas mãos à cabeça e eu dei um passo à frente, mas parei. Não sabia qual seria sua reação se eu o tocasse. Ele baixou as mãos e me olhou. — Ela contou de vocês no aniversário dela, do presente que você deu. — Ele deu um sorriso debochado. — Acabou que você deu o melhor presente que ela poderia ganhar, e o idiota aqui em nenhum momento teve uma ideia parecida.

— Desculpa. Só queria que ela ficasse feliz. — Estava me sentindo mal porque consegui ver o quanto ele sofria com tudo aquilo.

— Você não percebe, não é? Ela te ama, sempre te amou. Eu que sobrei o tempo todo nessa história.

— Não é verdade; ela gosta de você.

— Sim. Tem carinho, gosta como amigo, mas não como namorado. Tanto que nunca conseguiu se entregar pra mim. Porque é você que ela quer. É você que ela ama. Você conseguiu ver a Ju como eu não consegui e descobriu o melhor presente que ela poderia ter ganhado.

Ele parecia transtornado e dessa vez toquei em seu ombro, mas foi um erro porque, assim que encostei nele, o Beto me deu um soco forte na boca, no mesmo lugar de antes, me jogando no chão. O corte, que já estava quase cicatrizado, abriu novamente e minha boca começou a sangrar.

— Eu te odeio! — gritou ele, e aquilo doeu mais que o soco.

Beto me olhou novamente com raiva e saiu. O professor chegou na porta da sala e me viu ali, caído.

— Meu Deus! Foi o Roberto que fez isso?

O professor se aproximou de mim e me levantou.

— Não, eu caí e bati a boca. Ele não estava mais aqui quando aconteceu. — Menti.

— Ele tem que ser punido.

Eu o segurei em um dos braços e supliquei com um olhar.

— Por favor, não! A culpa é minha, eu mereci o soco.

— Isso não está certo.

— Por favor, não fale com ninguém nem peça punição para o Beto, ou vou me sentir ainda pior.

— Você tem certeza? — perguntou ele. Apenas balancei a cabeça com lágrimas nos olhos. — Isso não está certo, o meu dever é pedir uma punição a ele.

— Acredite em mim, ele já está se sentindo punido.

 

O professor transferiu o trabalho para a sexta-feira seguinte, e eu tinha minhas dúvidas se conseguiria fazer o Beto pelo menos ir assistir ao julgamento.

Meu pai andava de um lado para o outro na sala, o Caveira estava sentado em um sofá, me olhando com piedade, enquanto eu estava deitado no outro com uma bolsa de gelo na boca. Matilde chegou da cozinha com um chá para mim.

— Isto vai lhe fazer bem. — Ela me entregou a xícara e eu olhei, hesitante.

— Acho que você deveria dar uma xícara para ele se acalmar — disse, mostrando meu pai.

— Não preciso me acalmar, não. Esse garoto não pode sair te batendo toda vez que te encontrar.

— Pai, ele não vai fazer isso. Ele só estava com a cabeça quente.

— Querido, se acalme. — Matilde se aproximou do meu pai. — Cadu tem razão. Nós conhecemos o Beto desde que ele nasceu; ele é um rapaz decente.

— Decente? Olha o rosto do meu filho!

— Pai, calma. Eu, no lugar dele, teria feito a mesma coisa.

— É, tio. Afinal de contas ele descobriu que a namorada e o melhor amigo se amam. Isso é barra — comentou Caveira, e meu pai assentiu.

A campainha tocou e nós quatro nos entreolhamos.

— Se for o Beto, ele vai escutar — esbravejou meu pai, e foi atender a porta.

Eu sabia que não seria o Beto; era muito cedo para ele me procurar.

De onde eu estava não consegui ver quem era, mas identifiquei a voz assim que meu pai abriu a porta.

— O Cadu está? — Era a voz da Juliana.

— Aqui — chamei, e ela colocou a cabeça dentro de casa.

— Meu Deus! — Juliana correu em minha direção ao ver meu rosto. — Desculpa, é tudo culpa minha.

— Ei, não é sua culpa. — Tentei sorrir, mas o corte ainda doía. — Eu fiz por merecer.

Ela passou a mão no meu cabelo e olhou em volta.

— Será que posso falar com você em particular? — perguntou ela, um pouco envergonhada, e percebi que todos na sala nos olhavam.

— Claro, vem comigo.

Levei Juliana para o meu quarto e fechei a porta. Ela me abraçou forte e a sensação foi boa, reconfortante.

— Não imaginei que o Beto pudesse te machucar.

Ela me soltou e vi que tinha o olhar aflito. Sua angústia me machucou.

— O que mais dói é a raiva que ele sente por mim.

— Vai passar.

— Espero que sim. — Eu me sentei na cama e ela se sentou ao meu lado. Nossas mãos estavam unidas, nossos dedos entrelaçados. — Ele me falou que conversou com você.

Ela deu um sorriso, mas percebi que seus lábios tremiam.

— Por isso ele te bateu?

— É.

Juliana mordeu o lábio inferior e parecia desnorteada. Coloquei meu braço em volta dela e a puxei para perto de mim. Ela encostou a cabeça no meu ombro.

— Não queria estragar a amizade de vocês.

Ela começou a chorar e eu a abracei forte.

— Você não estragou.

— Claro que estraguei, olha pra você! Ele te odeia e me odeia também.

— Ele não te odeia. Ele te ama, foi por isso que me bateu.

Ela levantou o rosto e me olhou.

— Você acha que ele vai te perdoar?

Dei de ombros.

— Realmente não sei, mas espero que sim. Vou me esforçar pra isso, mas acho que ele precisa de um tempo pra pensar e aceitar tudo.

Ela ficou quieta e deitou novamente a cabeça no meu ombro. Senti suas lágrimas molhando minha camisa.

— O que a gente faz agora? — sussurrou ela.

— Não sei. — Soltei Juliana e me ajoelhei na frente dela, levantando seu queixo com uma de minhas mãos. — Eu gosto de você e sei que você gosta de mim. O que mais quero é que fiquemos juntos.

— Agora você pode ficar comigo. Não tenho mais namorado.

O lábio dela ainda tremia, e percebi que seus sentimentos estavam em conflito. Eu a abracei e a beijei levemente nos lábios, para não prejudicar ainda mais meu machucado.

— Eu sei. E vou ficar com você, já que agora nada mais nos impede. Mas acho que seria melhor esperarmos mais um pouco.

— Eu entendo.

— Juju, eu te amo, quero você ao meu lado, mas não quero afrontar o Beto.

— Eu entendi. — Ela sorriu, dessa vez de forma carinhosa. — Você está certo, é melhor ele assimilar antes.

— Não quero que ele saia na rua e nos veja juntos ou que alguém vá falar algo pra ele. Quero primeiro tentar resolver essa situação.

— Tudo bem. Para quem espera por isso desde criança, uns dias a mais não vão fazer diferença.

Eu a abracei novamente, me sentindo confortável por ter Juliana perto de mim.

— Eu te amo — disse, do fundo de minha alma.