A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 35 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 31

 

Fiquei a tarde toda em casa, largado no sofá vendo TV. Caveira foi para um churrasco, ou algo parecido, da sua turma de Informática. Ele até me chamou, mas eu não estava com vontade de ir. Não parava de pensar no meu sonho com a Juliana, ainda mais porque raramente me lembrava do que sonhava, e depois no desfecho da noite com Alice.

Queria muito esquecer Juliana, mas não conseguia. Apesar de todo o tempo que passava com a Alice, da forte atração física que ela exercia sobre mim, não conseguia me apaixonar por ela, e isso estava me consumindo. Eu me sentia mal pelo Beto e pela própria Alice, embora ela soubesse que eu não a amava.

Meus pensamentos foram interrompidos pelo toque da campainha. Fui atender e, para minha surpresa, era o Beto.

— Atrapalho? — perguntou ele, entrando e olhando em volta.

— Não, estava vendo TV. Senta aí. — Beto se sentou em um sofá e eu no outro. — Aconteceu alguma coisa?

— Credo, nem posso mais te visitar?

— Não é isso. É que você está com uma cara estranha.

Ele coçou a cabeça e olhou em volta novamente.

— Queria pedir desculpas por hoje de manhã.

— Não esquenta.

— Sério, eu já fui te acusando e a Alice nem estava aqui.

Sorri. Mal sabia ele da verdade.

— Você fez o que qualquer irmão faria.

— Eu sei. Mas devo desculpas a você.

— Não deve nada. Somos amigos e entendo sua preocupação.

Ele balançou a cabeça e ficou quieto, pensativo.

— Vocês brigaram por minha causa? — sussurrou ele.

— O quê?

— Por que eu fico enchendo a sua paciência, fico controlando o namoro de vocês...

— Não, deixe disso! — eu disse, um pouco alto. — Não tem nada a ver.

— Sei que sou um cunhado chato. Mas não quero que briguem por minha causa.

— Ninguém brigou por sua causa. — Eu cheguei um pouco para a frente e apoiei o cotovelo no joelho. — Por que você acha que brigamos por sua causa?

— Sei lá. — Ele deu de ombros. — Alice não quis falar, disse que não me interessa. Mas achei que poderia ser isso, por causa do que conversamos ontem, quando você foi pegá-la em casa.

— Não. Não fica grilado. É só besteira mesmo, briga normal de namorados. Nem considero uma briga, apenas um leve desentendimento. Hoje mesmo a gente faz as pazes.

Ele deu um sorriso meio desanimado.

— Espero que sim. Sabe, fico implicando, mas sei que a Alice não poderia ter um namorado melhor.

— Você já disse isso.

— É, mas preciso repetir. Não quero que vocês terminem, não quero ver a Alice nos braços de um qualquer. Sei que pego pesado, mas é que é difícil, como irmão, ficar imaginando o que vocês podem fazer quando estão juntos.

— Você não precisa imaginar isso. — Fiz uma careta.

— É mais forte do que eu. Eu fico com a Ju, quando estamos só os dois, dando uns amassos, e penso se você está fazendo a mesma coisa com a Alice.

Eu quis falar que sentia o mesmo, mas ele não entenderia.

— Beto, tenho o maior respeito pela Alice. É claro que ela é uma garota bonita, atraente e mexe comigo, não vou negar. Mas eu jamais desrespeitaria sua família. — Eu me levantei e me sentei na mesma hora, um pouco incomodado com a situação. — Deus, não acredito que estou tendo esse tipo de conversa com o irmão da minha namorada.

Nós dois demos uma gargalhada nervosa.

— Antes de tudo, eu sou seu amigo. — Ele balançou a cabeça. — Sei que vocês devem dar uns amassos de vez em quando, é difícil pensar nisso. Sei que vai chegar uma hora que vão avançar o sinal e...

Senti meu rosto queimar de vergonha.

— Isso não aconteceu.

— Ainda. — Ele tombou a cabeça e depois me olhou. — O que estou tentando dizer é... Puxa, é difícil.

— Beto, estou um pouco sem graça.

— Calma, eu vou falar. — Ele levantou a mão. — Eu também estou, mas, caramba, quantas vezes a gente já não conversou sobre mulher?

— Nunca sobre a sua irmã.

— Sim, sim. O que quero dizer é que fiquei me lembrando do dia que pedi seu quarto emprestado pra passar a noite com a Ju.

Levantei a sobrancelha. Meu coração disparou e minhas mãos ficaram geladas. Por um instante, pensei que ele pediria novamente meu quarto.

— O que você quer dizer?

— Você se lembra o que me falou?

— Não exatamente. — Eu tremia, mas acho que ele não percebeu.

— Você disse que ela era muito nova. Para esperar, para eu ter certeza, sei lá, algo do tipo. E, me lembrando disso, fiquei feliz de ver que é você quem está com a Alice, e não um cara como eu.

Pisquei os olhos e fiquei encarando o Beto. Não entendia nada do que ele queria dizer porque minha cabeça dava mil voltas.

— O que eu quero dizer mesmo é que fico feliz e tranquilo de saber que você é o namorado da Alice. Que você não vai magoá-la e que vai esperar o momento certo. E fico feliz de saber que vai ser com você.

— O quê? Não, calma, quem disse isso? Eu... — Comecei a engasgar e meu rosto provavelmente ficou igual a um pimentão.

— É sério. Alice te ama muito e sei que você ama a minha irmã também. Vocês são perfeitos juntos e eu sei que vai fazê-la feliz. Claro que não preciso saber o que acontece entre vocês e prometo que não vou mais te encher. Não quero ser a razão do término do seu namoro.

Engoli seco e o olhei. Ele sorriu para mim e eu retribuí, meio sem jeito.

— Obrigado — disse, com algum custo. — Eu, eu... Você parece um pouco estranho.

Ele esfregou o rosto e o apoiou nas mãos. Depois levantou a cabeça e me olhou. Por um momento, pensei que ia chorar.

— Acho que a Juliana não gosta mais de mim — disse ele, com uma dor na voz que fez meu coração se partir ao meio.

— Por que você acha isso? Ela falou algo?

— Não. Mas ela parece um pouco diferente. Desde o aniversário aqui na sua casa que está assim. Às vezes fico pensando se não deveria ter te escutado, não forçado a barra. O namoro estava indo bem, mas, depois que desistiu de transar comigo, ela mudou.

— Mudou como?

— Não sei explicar. Ela está mais hesitante. — Ele parou de falar, como se tentasse formular as palavras. Ele se levantou e começou a andar de um lado para o outro. — Nós estamos indo devagar demais.

Dei uma risada, ele me olhou com a sobrancelha cerrada e se sentou novamente.

— Desculpa. — Parei de rir e o olhei. — A Juju não é o tipo de garota com quem você estava acostumado. Ela é uma garota, como se diz por aí, de família. Não é uma dessas fáceis que você pega e leva para a cama no primeiro dia.

— Eu sei. Por isso falei que deveria ter te escutado. Acho que a assustei, sei lá.

— Mas ir devagar não é bom?

— É. Mas não estou acostumado a fazer isso.

— Hum. — Balancei a cabeça. — Bom, não tenho nada contra ir conhecendo a outra pessoa aos poucos. Acho até que pode ser mais excitante.

— O problema é que a seca está braba.

Comecei a gargalhar e ele acompanhou.

— Se você quer namorar uma garota de respeito, essas coisas fazem parte do pacote.

— Nunca fiquei tanto tempo sem levar uma mulher pra cama. Desde que comecei a namorar a Juliana não estive com mais nenhuma, dá para acreditar?

Eu o olhei um pouco espantado. Era realmente um recorde para Beto.

— Você deve gostar muito dela — disse, me sentindo mal. Na verdade me sentindo pior do que já estava, se é que isso era possível.

— Eu sou louco por aquela menina. — Ele sorriu e ficou mexendo em uma almofada. — Por ela eu sou capaz de esperar o tempo que for preciso. Eu amo a Ju. Nunca pensei que ia sentir isso por alguém, mas sinto.

— Bom, então espere — disse, já que não havia mais nada que pudesse falar. — Você vai ver que vai valer a pena.

— Eu sei, vou esperar, claro. Mas só de pensar que ela pode não gostar mais de mim...

Fiquei quieto, sem saber o que dizer. Apesar de ele ser meu melhor amigo, eu era a pessoa menos indicada para dar conselhos sobre Juliana.

— Você pode estar enganado. Por não estar acostumado com essa situação.

— Pode ser... Mas, se souber de algo, se a Alice comentar alguma coisa com você, ou até mesmo a Juliana, me fale, por favor!

— Por que ela comentaria comigo? — perguntei, um pouco hesitante.

— Vocês são amigos. Ela sempre fala de você com carinho.

Fiquei novamente quieto e o Beto também. Depois, ele sorriu e balançou a cabeça.

— E você? Está aguentando esperar?

— Que remédio — Dei de ombros. — Não vou trair a Alice só pra conseguir levar qualquer uma pra cama, já que não posso levar minha namorada.

— É assim que eu penso. E isso confirma o que falei de você. — Ele apontou o dedo para mim. — Vale a pena saber que é você quem está com Alice.

Ficamos mais alguns minutos quietos, provavelmente ambos pensando em Juliana. Eu, pelo menos, estava.

— Quanto tempo faz? — Ele me tirou dos meus pensamentos.

— Faz o quê?

— Que você está na seca?

Encostei a cabeça no sofá e fiz as contas.

— Algumas semanas.

Beto cerrou novamente os olhos e acho que também fez as contas de quanto tempo eu estava com Alice.

— A última vez foi na festa na chácara do Juca, em Rioazul. Ainda não estava com a Alice. — Quis esclarecer.

— Ah, sim. A tal menina de lá. Como é mesmo o nome dela?

— Rosângela.

— Rosângela... Encontrou a garota alguma vez depois disso?

— Ainda não. Mas ela não significa nada pra mim. É uma dessas que você conhece bem.

— Sim, conheço.

Olhei para o Beto e fiquei pensando em tudo que ele falou, no modo carinhoso de tocar no nome da Juliana e no grande amor que parecia ter por ela. Nesse instante, tomei a decisão de desistir da Juliana e não pensar mais nela. Eu tinha que me apaixonar pela Alice. Restava saber se conseguiria.