A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 17
Fiquei o resto do dia lavando a fantasia do Caveira, que estava com um cheiro danado de roupa guardada. Nunca fui muito bom em lavar roupa, mas aproveitei que tia Matilde estava em casa e pedi algumas orientações. Ela queria lavar sozinha, mas eu disse que o presente seria especial se eu fizesse tudo. Meu pai ficou nos rodeando e fazendo mil perguntas, que ficaram todas sem resposta. Ninguém podia saber o que eu estava tramando, não queria que a surpresa vazasse.
Terminei de lavar tudo, tomei um banho e fui me deitar. Nunca imaginei que lavar roupa pudesse cansar tanto. Estava quase cochilando quando meu celular tocou. Vi que era da casa do Beto e atendi logo.
— Fala, Beto.
— Não é o Beto — reconheci de imediato a voz do outro lado.
— Oi, Alice.
— Está ocupado?
— Não. O que manda?
— Vai à boate hoje?
— Vou.
— Posso ir com você? — perguntou ela, com uma voz dengosa, e eu gelei.
— Ir comigo? Ficou maluca?
— Calma, Cadu. — Ela começou a rir. — Estou pedindo carona pra mim e pra Emília.
Respirei aliviado ao saber que Emília estaria junto, mas franzi a testa.
— E o Beto? Não vai?
— Vai sim, mas antes vai sair pra jantar com a Ju.
— Ah... — respondi, com raiva de ter perguntado.
— Pois é, não vou junto pra não estragar o jantar romântico dos dois, então eu e a Emília precisamos de carona. Mas, se não pudermos ir com você, não tem problema.
— Podem sim, claro. Pego vocês às onze, ok?
— Combinado. Um beijo na boca. De língua! — disse ela, desligando em seguida.
Balancei a cabeça. Voltei a deitar, mas não consegui dormir. Na minha cabeça só vinha um filme do jantar romântico que o Beto teria com a Juliana antes de ir para a boate.
Passei na casa do Beto, peguei a Alice e a Emília e fomos para a boate. Estava cheio ali na porta, mas, como já tínhamos convite, entramos rapidamente.
Várias pessoas ocupavam a pista de dança. Olhei em volta e não vi nenhum conhecido, mas a Alice logo encontrou suas amigas e me deixou no bar com a Emília.
— Se quiser, pode ir lá com suas amigas — falei próximo ao ouvido de Emília, para que ela escutasse.
— Não vou largar você aqui sozinho.
— Não tem problema.
— Vou ficar mais um pouco aqui, olhando as pessoas. Mas, se o Caveira chegar, eu saio na mesma hora.
Dei uma gargalhada e ela me acompanhou.
— Você foge dele como o diabo foge da cruz.
— Ele fica me enchendo o tempo todo. — Ela fez uma careta. — Não percebe que não tem a mínima chance.
— Talvez, se você desse um pouco de atenção, ele desistisse.
— Como? — Ela não entendeu.
— Ele fica atrás de você porque sabe que não tem chance. Se imaginar que você tem vontade de ficar com ele, sai correndo.
— Igual a você com a Alice?
Engasguei com a cerveja e a encarei, espantado.
— Até você?
— A Alice é minha irmã, ela me conta as coisas. — Emília levantou novamente os ombros e deu um gole no seu refrigerante.
— Eu fujo da Alice porque não quero confusão com o Beto.
— Hum, então é só isso?
Fiquei muito sem graça, não sabia o que falar. Não queria que ela entendesse errado.
— A Alice é minha amiga, apenas isso. Ela gosta de me provocar, confesso, mas é uma brincadeira.
— Não estou tão certa. — Emília me encarou e cerrou os olhos. — Se você acha que essa teoria tem fundamento, por que não faz igual ao Caveira? Corre atrás da Alice, quem sabe ela não desiste?
Fiquei quieto, pensando no que ela falou. Bebi um pouco de cerveja e depois me aproximei do ouvido da Emília.
— Não vou correr o risco.
Ela começou a rir e balançou a cabeça. Vi o Otávio, um colega do curso de Direito, se aproximando.
— E aí, Cadu? — Ele me cumprimentou.
— Tudo bom?
— Tudo. Curtindo a noite?
— Começando — disse. Estranhei ele estar ali porque nunca fomos de conversar muito, mas vi Otávio encarando a Emília e entendi o que ele queria. — Esta é a Emília, irmã do Beto. — Apresentei os dois e me virei para ela. — Otávio é da nossa turma de Direito.
Otávio deu um beijo no rosto da Emília.
— Eu já te vi por aí — disse ele, e os dois começaram a conversar animadamente. Levantei a sobrancelha e percebi que estava sobrando. Avistei o Caveira meio longe.
— Bom, gente, deixa eu ir ali falar com um amigo — disse, mas acho que nenhum dos dois prestou a mínima atenção. Balancei a cabeça e saí de perto.
— Quem é o babaca dando em cima da Emília? — perguntou Caveira.
— Com ciúmes?
— Não. — Ele deu de ombros e eu sabia que falava a verdade.
— Ele estuda comigo e com o Beto.
— Acho que o Beto não vai gostar de ver isso.
Ele apontou para a entrada da boate e vi o Beto aparecer com a Juliana. Meu coração disparou. Os dois nos viram e se aproximaram.
— Está cheio aqui — comentou Beto, olhando ao redor. Ele parou quando seus olhos estavam na direção do bar. — Aquele ali com a Emília é o Otávio? — disse ele, com raiva na voz, e olhei para o bar para ver o Otávio beijando a Emília.
— É — respondi, calmamente.
— Eu mato aquele desgraçado.
— Não começa, Beto. Olha o que conversamos. — Juliana repreendeu o namorado.
— Qual é, Beto, deixa as meninas se divertirem — disse Caveira, e achei que o Beto ia voar no pescoço dele, mas não fez nada. Abraçou Juliana e fechou os olhos, na tentativa de se controlar.
— Você não tem como impedir suas irmãs de ficarem com alguém — disse Juliana. — Já te falei pra deixá-las em paz.
Beto apenas balançou a cabeça e abriu os olhos, dando um beijo na testa de Juliana. Fiquei ali parado feito um idiota, invejando meu amigo, até Caveira abrir a boca.
— Não tem como mesmo. — Ele apontou em outra direção e nós viramos a cabeça.
Dessa vez era Alice que estava encostada em uma pilastra beijando um cara que eu não fazia ideia de quem era. Prendi a respiração e devo confessar que, nesse exato momento, senti um pouco de ciúme ao vê-la nos braços de outro, mas não sabia explicar que tipo de ciúme era, se de amigo, irmão ou homem.
— A Alice é nova demais! — gritou Beto, e Juliana olhou bem sério para ele, se afastando alguns passos.
— E eu? Sou ainda mais nova que a Alice.
Beto não falou nada, apenas respirou fundo e abraçou novamente a namorada.
— Nem é a primeira vez que ela fica com alguém — comentou o Caveira. Nessa hora o Beto lançou um olhar fulminante para ele, como se tivesse culpa de a Alice beijar outros caras, mas o Caveira fingiu não perceber.
Emília e Otávio se aproximaram da gente.
— Oi, cunhadinho — brincou Otávio, estendendo a mão para o Beto, que ficou encarando-o sério, deixando um silêncio constrangedor no ar.
Eu e o Caveira nos aproximamos do Beto rapidamente, para impedir qualquer movimento que ele pudesse fazer.
— Eu vou até o bar, vem comigo — disse o Caveira, puxando o Beto, sem dar tempo para ele responder.
— Fiz algo de errado? — perguntou Otávio.
— Não, claro que não — disse Emília, sem graça.
— Não repara não, Otávio. É que leva um tempo pro Beto se acostumar. — Tentei explicar. Ele balançou a cabeça e olhou na direção do bar.
— Acho melhor a gente dar uma volta até ele se acostumar — disse ele, rindo.
Fiquei feliz em ver que não estava se importando com a atitude do Beto. Os dois saíram, deixando Juliana e eu sozinhos.
— Não dá pro Beto continuar assim — disse Juliana, em um suspiro.
— Ele não vai se acostumar nunca.
— Vai, sim. Ou então ele pode procurar outra namorada.
Ela falou com tanta firmeza que prendi a respiração, sentindo meu coração disparar e uma certa alegria tomar conta de mim.
— Ele gosta muito de você.
Ela me olhou.
— Eu sei, Cadu, e uso isso para ajudar as meninas. Mas cansa.
Balancei a cabeça e fiquei encarando Juliana. Decidi mudar de assunto e aproveitar que estávamos os dois sozinhos.
— Juju, o que você vai fazer sábado que vem à tarde?
Ela me olhou sem entender.
— Acho que nada. Vou almoçar com meus pais e o Beto, é meu aniversário.
— Eu sei. Por isso perguntei, porque quero te dar seu presente.
— Meu presente? — Ela deu um sorriso. — Mas você já está emprestando a casa para a festa.
— Eu sei, mas também tenho um presente.
— Ok, pode ir lá em casa.
— Na verdade quero te levar a um lugar.
— Um lugar? Onde?
— É segredo. Aliás, não comenta nada com o Beto, ok?
— Que presente mais misterioso. — Ela viu Beto e Caveira se aproximando. — Combinado, sábado você passa lá em casa. Pode ser umas quatro e meia?
— Perfeito — concordei, sorrindo.