A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 36 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 32

 

Peguei o Caveira e fui para a Chácara Celeiro. O lugar estava muito cheio quando chegamos.

— Não se acha ninguém aqui — comentou Caveira.

— Alice deve estar dançando — eu disse, olhando em direção ao imenso celeiro à esquerda da casa principal, que os donos do local haviam transformado em uma espécie de boate, com a pista de dança. As enormes portas estavam fechadas por causa do ar-condicionado e dois seguranças as abriam e fechavam conforme o pessoal se aproximava.

Já na casa principal, eles mantiveram o estilo rural, com uma ampla varanda de fora a fora contornando-a, ocupada no momento por casais que se beijavam nos sofás e bancos colocados ali. Dentro, havia um salão grande onde fizeram o bar, bem iluminado, e os banheiros. O acesso para as demais áreas era restrito.

— Vamos pegar uma bebida — disse o Caveira, e foi para a casa principal.

Concordei com a cabeça e o segui, olhando para os lados para ver se encontrava algum conhecido. Não vi ninguém até chegarmos ao bar e avistarmos o Juca.

— E aí, chegaram agora?

— Chegamos — eu disse, cumprimentando o Juca depois do Caveira. — Está bem cheio isso aqui.

— Está lotado! — comentou Juca, enquanto pegava um refrigerante com o atendente. Caveira aproveitou e pediu uma cerveja para ele e um guaraná para mim.

— Refrigerante também, Juca? — brinquei.

— Só bebo cerveja nas festas lá na chácara. — Ele deu de ombros.

— Por falar nisso, está na hora de ter outra. — Caveira sorriu, enquanto esfregava as mãos como se estivesse armando algum plano diabólico.

— Você viu a Alice? — perguntei para o Juca.

— Está dançando junto com a Walesca. Vou pra lá agora, quer me acompanhar?

— Daqui a pouco eu vou — respondi, e Juca saiu. Olhei para o Caveira, que observava o entra e sai do pessoal na casa. — Procurando a Rafa?

— Não — disse ele, mas não senti sinceridade. — Apenas olhando as pessoas.

— Sei. — Vi a Rosângela entrando. — Ai, meu Deus.

Caveira olhou na mesma direção e começou a rir.

— Deixa eu dar uma volta — disse ele, e saiu antes que eu pudesse impedi-lo.

Rosângela veio direto na minha direção, como se soubesse que eu estava ali.

— Oi — disse ela, se aproximando e se encostando no meu braço. Eu me afastei um pouco, mas não tinha muito para onde ir. O bar estava cheio. — Você sumiu.

— Não sumi, estou sempre por aí — respondi, com um pouco de descaso.

— Você entendeu o que eu quis dizer. — Ela pegou meu copo e tomou um gole. — Não me procurou mais — disse, enquanto tentava encostar mais em mim.

— Estou namorando.

— Ouvi dizer. — Ela não desistiu e segurou meu braço.

— Então deve saber que é namoro sério.

Comecei a olhar para os lados, procurando alguém para me salvar e ao mesmo tempo com medo da Alice ou o Beto aparecerem por ali.

— Ah, deixa disso.

Rosângela tentou se aproximar mais e eu a impedi.

— Eu gosto da minha namorada e quero que dê certo. Espero que você entenda.

Saí sem deixar que ela falasse ou fizesse alguma coisa. Eu me sentia mal agindo assim, mas não tinha como ser diferente.

Ia deixar a casa quando vi uma garota saindo do banheiro. Não precisei olhar duas vezes, reconheci logo os longos cabelos castanhos com cachinhos nas pontas de Juliana.

— Juju — gritei e ela se virou. Meu coração disparou, mas tentei me concentrar na conversa que havia tido mais cedo com o Beto. — Oi — disse, me aproximando.

— Oi. — Ela sorriu. — A Alice está te procurando.

— E eu a ela. — Dei um sorriso e ia falar algo quando meu celular tocou. Atendi e era o Beto.

— Fala, Cadu, onde você está?

— Já estou aqui na festa. Aliás, acabei de encontrar a Juju e estou indo aí.

— Ah, valeu, nós estamos...

Não sei bem como aconteceu, foi tudo muito rápido. Eu levei uma cotovelada e meu celular voou longe, enquanto eu caí em cima de Juliana, derramando meu refrigerante nela. Senti alguns tropeções e esbarrões, e puxei Juliana para perto quando percebi que uma briga começava ali no bar.

— Vem — disse, puxando Juliana pela mão, enquanto o barulho de coisas se quebrando tomava conta do ambiente. Saímos da casa em meio a cotoveladas e empurrões. Tentei fugir da confusão e parei um pouco afastado. — Você está bem?

— Sim, eu acho. — Ela olhava os braços. — Acho que estou apenas molhada de refrigerante.

— Menos mal. — Olhei em volta e vi algumas garrafas voando de um lado para o outro, algumas cadeiras também, pelo menos era o que parecia. — Temos que sair daqui — eu disse, puxando-a novamente.

— Espera! — Juliana parou e eu a olhei. — O Beto, a Alice. Temos que falar com eles.

— Meu celular sumiu na briga.

— Eu não trouxe o meu.

— Eles também vão embora assim que virem a confusão. — Olhei novamente para a casa e vi que a briga já se estendia na direção do celeiro. — Não tem como procurá-los agora.

— Não podemos ir embora. — Ela mordeu o canto esquerdo do lábio inferior ao olhar as pessoas correndo.

— Não temos como ficar, Juju. A briga está piorando. Se tentarmos encontrar alguém, vai sobrar pra gente.

Ela ficou indecisa e depois falou baixo.

— Mas a chave da minha casa está no carro do Beto.

Eu sorri e a abracei.

— A gente vai pra casa dele. Ou pra minha, com certeza ele vai te procurar lá. Ele sabe que você está comigo.

Um pouco relutante, Juliana me seguiu. Entramos no carro e ela não falou nada até eu estacionar em frente à minha casa.

— Eu devia ir pra casa.

— Como você vai entrar lá?

Ela ficou quieta, olhando pela janela do carro. Abri a porta e a olhei.

— Eu não mordo.

Ela me olhou e sorriu, um pouco sem graça, e saiu do carro. Entrei em casa e fui até o banheiro pegar uma toalha para limpar o vestido da Juliana. Entreguei a toalha molhada para ela. Fiquei observando enquanto ela tentava limpar o vestido, mas estava claro que não conseguiria fazer isso a não ser que o lavasse. Respirei fundo e a encarei.

— O Beto esteve aqui hoje. Falou de você.

Ela parou de esfregar o vestido e me olhou, acho que um pouco assustada, não consegui identificar bem o que seus olhos transmitiam.

— O que ele disse?

— Ele acha que você não gosta mais dele.

Juliana respirou fundo e colocou a toalha em cima da mesa. Ficou parada, pensativa.

— Por que ele acha isso?

Eu mordi a parte de dentro da bochecha e tentei pensar no que dizer. Já que havia começado, deveria ir até o final.

— Ele disse que desde o seu aniversário você ficou distante.

Ela deu um longo suspiro e fechou os olhos.

— Muitas coisas aconteceram depois do meu aniversário. — Ela abriu os olhos e me olhou.

— Eu sei, mas ele não sabe. — Dei um passo para a frente e segurei sua mão. — Você me pediu pra te esquecer, disse que eu não devia lutar pra ficarmos juntos. Hoje vi que não há como; o Beto gosta demais de você e vi medo nos olhos dele. Medo de te perder.

— Eu gosto dele.

— Eu sei. Mas você não o ama.

Ela não concordou nem discordou, continuou apenas me olhando.

— É com dor no coração que te peço. Se você está disposta a ficar com o Beto, faça-o feliz. Não fique distante dele.

Juliana balançou levemente a cabeça e eu a puxei para meus braços. Sentir o calor do corpo dela junto ao meu, o perfume de seus cabelos, tudo isso me acalmava e ao mesmo tempo acelerava meu coração. Tinha plena consciência de que não poderia avançar, tentar beijá-la, queria apenas ficar assim, abraçado, sentindo seu corpo junto ao meu enquanto cheirava seus cabelos.

— Eu sabia que vocês estariam aqui!

Soltei Juliana rapidamente e vi o Caveira parado na porta, com a chave reserva da minha casa nas mãos. Não o escutei entrando.

— Não aconteceu nada — expliquei logo, mas isso não pareceu convencê-lo muito.

— Claro, não aconteceu nada porque cheguei a tempo.

— Não tire conclusões precipitadas.

— Não estou tirando e não quero saber de nada. — Ele entrou e fechou a porta. — Já disse que não quero ser cúmplice desse caso de vocês.

— Não estamos tendo um caso! — berrei, e devo ter assustado tanto o Caveira quanto a Juliana, porque os dois deram um passo para trás na mesma hora. Tentei me acalmar. — Estávamos apenas conversando.

— Não quero saber — disse ele, e tirou o celular do bolso, que estava tocando. — Alô? Oi, Alice. — Caveira me olhou com um sorriso sarcástico no rosto. — Sim, estou com seu namorado. Um momento.

Ele me jogou o celular e não falou nada, mas não precisava. Naquele momento, ele me recriminava por tudo que acreditava que eu queria fazer com Juliana se ele não tivesse chegado a tempo.

— Oi, Alice.

— Oi, onde você está?

— Estou em casa. E você? Está tudo bem?

— Mais ou menos. Estou com a Emília no hospital, o Beto quebrou o braço.

— Como ele está? — perguntei, preocupado, o que fez Juliana e Caveira se aproximarem de mim.

— Está bem, só mesmo com o braço quebrado.

— Eu vou aí.

— Não precisa. Estamos indo pra casa daqui a pouco.

— Vou encontrar vocês lá.

— Ok. — Alice ficou um tempo quieta. — Eu tentei falar com você.

— Meu celular voou longe na confusão. Não tinha como ligar, Juliana não está com o celular dela e só encontrei o Caveira agora.

— Ah...

— Eu vou pra sua casa daqui a pouco e a gente se vê lá.

— Ok.

Desliguei o celular e os dois começaram a me bombardear com perguntas.

— Calma, gente. Beto quebrou o braço, mas está bem.

— Meu Deus! — disse Juliana, levando uma das mãos à boca. — Eu devia ter voltado pra lá e procurado por ele.

— Claro que não, ou então poderia estar no hospital agora.

— O Cadu está certo — disse Caveira, e me surpreendi. — Vocês fizeram bem em sair de lá logo. — Ele me olhou e desconfiei que estava perdoado pelo que fiz.

— Vou até a casa deles, vocês vêm?

Estacionei em frente à casa do Beto e saí do carro, seguido por Juliana e Caveira. Ficamos uns dez minutos na porta, esperando, os três mudos.

— Eles chegaram — comentou Juliana, e eu olhei na direção que ela mostrava.

Emília estacionou o carro e logo ela e Alice ajudavam o Beto a sair, com o braço esquerdo engessado. Juliana foi correndo ao seu encontro.

— Ei — disse ele, e deu um beijo nela.

— Como você está? — Ela estava visivelmente preocupada, e acho que isso deve ter feito o Beto se sentir melhor.

— Bem. Apenas com o braço dolorido. — Ele nos olhou. — Que droga, hein?

— O importante foi não ter acontecido nada pior — disse Caveira, se aproximando dele.

— Precisa de alguma coisa? — perguntei.

— Não. Apenas dormir. Estou cansado...

— O médico deu muito remédio pra ele — explicou Emília, mas nem precisava, porque Beto estava visivelmente dopado.

Alice parou um pouco afastada de mim e eu sorri para ela.

— A chave da minha casa está no seu carro —Juliana disse para o Beto, que parecia não prestar atenção ao que acontecia ao seu redor.

— Eu pego lá pra você — ofereceu Emília.

— Você precisa dormir —Caveira aconselhou Beto.

— Sim — respondeu ele, sonolento. — Vou dormir.

Emília voltou, entregou a chave para Juliana e levou Beto para dentro de casa. Olhei para Alice.

— Amanhã passo aqui para conversarmos.

— Ok. — Ela sorriu e me aproximei para dar um beijo, mas ela me impediu. — Beto pensa que estamos brigados.

Olhei Emília ajudando Beto a entrar em casa.

— Não creio que ele esteja prestando atenção. — Sorri e Alice retribuiu, mas não me beijou.

— Amanhã a gente se fala — disse ela, e se despediu.

Ficamos vendo a porta se fechar.

— Vem, eu te deixo em casa — disse para Juliana.

Entramos no carro, com o Caveira no banco de trás, e deixei Juliana rapidamente em sua casa. Ao chegar à minha, Caveira me olhou com ar de reprovação.

— Que coisa feia.

— Ah, nem começa! Pensei que já tinha esquecido.

— Nem quero pensar no que você planejava fazer com a Juliana. E eu que vim dormir aqui pra te impedir de fazer besteiras com a Alice.

Ele se jogou no sofá e eu me sentei no outro.

— Não é nada disso. Deixa eu explicar.

E comecei a contar para ele a conversa que tive com o Beto à tarde e o que falei para Juliana depois.