A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 23 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 19

 

Demorei a sair do banheiro porque meus olhos estavam vermelhos. Fiquei sentado ali no chão, com a cabeça encostada na parede, tentando me acalmar. Não tive coragem de ir para o quarto enquanto não me sentisse melhor.

Quando vi que já estava com uma aparência razoável, saí do banheiro e passei rapidamente pelo quarto, tentando não olhar ao redor. Desci as escadas e encontrei o Otávio sozinho na sala, sentado no sofá.

— Está abandonado aí? — brinquei, tentando esquecer a cena lá de cima.

— A Emília quis vir antes pra ajudar. — Ele se levantou e me cumprimentou com um aperto de mão.

— Bebe alguma coisa? — perguntei, notando que ele não segurava nenhum copo.

— Ah, uma cervejinha seria legal.

Fui até a cozinha e peguei duas latinhas. Pedi algo para comer, mas Alice me expulsou dali e voltei para a sala.

— As meninas estão levando a festinha a sério — comentei, entregando uma das latinhas para ele. Sentei no outro sofá.

— Pois é.

Ficamos um tempo calados e resolvi quebrar o silêncio.

— Legal você estar com a Emília.

— Ela é uma garota muito bacana.

— É, sim. E já vou avisando que é bom você cuidar dela com carinho.

— Percebi que o Beto é bravo.

— Sim. Mas não falo apenas por ele. A Emília é como uma irmã pra mim, então você terá que se ver comigo também. E provavelmente com o Caveira.

Otávio sorriu, bebeu um gole da cerveja e ficou pensativo.

— Vejo que ela tem muitos defensores.

— Ela é uma garota especial. É doce, meiga, carinhosa. Não merece sofrer.

Ele respirou fundo, mantendo o sorriso nos lábios.

— Não se preocupe, já estava de olho nela faz tempo, desde uma festa em que a vi com o Beto. Até pensei que fosse namorada dele, aí fui investigando e descobri que são irmãos. Nunca tive chance de me aproximar, até a semana passada, quando a vi com você na boate. Fiquei em dúvida, não sabia se havia algo entre vocês, mas decidi arriscar.

Ele foi falando tudo como uma confissão, mas também com certo orgulho por ter conseguido conquistar a Emília.

— Fico contente em saber. Ela merece ser feliz.

A campainha tocou e eu fui atender. Era o Caveira. Ele entrou e olhou em volta.

— Onde estão as gatas?

— Tem três na cozinha. O resto ainda não chegou — brinquei.

Ele olhou Otávio, cumprimentou-o com a cabeça e foi até a cozinha. Voltou em alguns segundos.

— Três gatas que para mim não valem, não é mesmo? Uma é minha mãe, outra é apaixonada por você e a terceira é a namorada desse aí — disse, sentando no sofá ao meu lado e abrindo uma latinha de cerveja. Otávio me olhou espantado.

— A Alice gosta de você? —

perguntou.

Censurei o Caveira com um olhar, mas ele não percebeu, ou fingiu que não.

— Besteira dele. E, por favor, não comente isso com o Beto.

— Não, jamais — disse Otávio.

 

A festa rolava fazia umas quatro horas, e eu já tinha bebido além da conta, mas continuava procurando algo que tivesse álcool.

Estava em pé em um canto da sala conversando com o Juca e a Walesca, quando vi a Juliana entrando na cozinha e fui atrás. Ainda não tínhamos tido a chance de conversar a sós.

— Está gostando da festa? — perguntei.

Ela abriu a geladeira e olhou em minha direção.

— Sim.

Depois sorriu, um pouco sem graça. Pegou uma garrafa de refrigerante e fechou a geladeira. Ficamos nos encarando.

— Juju, eu quero falar sobre hoje.

— Por favor, Cadu. — Ela olhou por cima do meu ombro, preocupada que alguém entrasse ali. — Não é o melhor momento.

Eu sabia que ela tinha razão, mas não me importei; apenas dei um passo à frente, me aproximando.

— Não me arrependo do que fiz. Mas, se você tiver ficado chateada, peço desculpas.

Ela ia responder algo, mas a Alice entrou na cozinha.

— Tem pouca gente, mas a festa está ótima!

Ela pegou a garrafa de refrigerante das mãos da Juliana e se serviu. Fui até a geladeira e peguei uma latinha de cerveja. Fiquei olhando as duas.

— Eu não queria algo muito grande — disse a Juliana, me olhando de canto de olho.

— Eu sei, mas está bom assim. — Alice sorriu. Juliana retribuiu o sorriso, me olhou e saiu da cozinha. Alice ficou parada de frente para mim. — Está gostando?

Apenas balancei a cabeça, vendo Juliana sair. Depois olhei para Alice, que estava linda, como sempre, em um vestido preto.

— E o seu namorado? Não vem?

— Namorado? Eu não tenho namorado. — Ela franziu a sobrancelha.

— O carinha da boate — eu disse, em tom sarcástico.

Percebi que já estava alterado pela bebida, mas não me importei e bebi metade da latinha. Alice deu uma gargalhada.

— Ele não é meu namorado. — Ela se aproximou mais de mim, encostando seu corpo ao meu. — Está com ciúme? — perguntou, sussurrando.

Fechei os olhos, respirei profundamente e aproximei minha boca de seu ouvido esquerdo.

— Não me provoque que hoje não respondo por mim — falei, baixinho.

Bebi o restante da latinha, fui até a geladeira e peguei outra. Olhei para Alice, que tinha um sorriso malicioso nos lábios. Sorri de volta e deixei a cozinha.

Quando entrei na sala, olhei ao redor, mas não vi o Beto, nem a Juliana. Encontrei Caveira vindo para a cozinha.

— Onde eles estão?

— Você já bebeu um bocado, hein? — Ele me ignorou. Segurei seu braço.

— Onde eles estão?

Caveira deu um longo suspiro.

— Por favor, não vai fazer um escândalo. — Ele olhou para cima. — Eles subiram.

Foi como se eu tivesse levado uma facada no peito. Senti lágrimas se formarem nos meus olhos.

— Eles subiram...

— Cadu, se controla — disse Caveira, olhando em volta.

— Eu não vou fazer nenhum escândalo, não se preocupe — respondi, virando goela abaixo o conteúdo da latinha que acabara de abrir.

Peguei o copo de uísque que estava na mão do Caveira e bebi de uma vez.

— Vai com calma.

— Estou calmo.

— Não foi isso que eu quis dizer.

Senti alguém bater nas minhas costas. Eu me virei e vi Alice ali, parada.

— Vocês podem dar licença?

Caveira saiu e foi para a cozinha.

Fiquei encarando Alice.

— Pode passar. — Saí da sua frente, mas ela continuou parada me olhando. — O que foi?

Alice se aproximou e colocou uma das mãos na minha cintura.

— Pensei que você cobraria pedágio — disse ela, em tom malicioso.