A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 14
A semana correu maravilhosamente bem para mim. Todos os dias meu pai chegava do trabalho, tomava um banho, se arrumava e ia até a casa da tia Matilde. Ele dizia que ia tratar de negócios, já que ela era gerente do banco onde estava aberta a conta do Instituto Escolar. Ele fingia que me enganava e eu fingia que acreditava, mas sabia, junto com Caveira, que estava mesmo nascendo um romance ali.
Eu não poderia estar mais feliz. Na verdade poderia, mas o fato de meu pai ter esquecido de implicar comigo já me deixava bastante aliviado. Eu não era mais o centro de suas atenções, e ele já não se importava mais com o que eu fazia.
— Eu e a Matilde vamos sair para jantar. Vamos... Hum... Ver alguns negócios — disse meu pai, colocando a cabeça dentro do meu quarto naquela noite de quinta-feira. Sorri.
— Pai, chega de me enganar. Vocês estão namorando? — perguntei, fechando o livro de Direito Civil. Já era hora de ele parar de fingir.
— Que é isso, Cadu?!
— Vamos parar com desculpas esfarrapadas. Sei que está acontecendo algo e estou muito feliz. Vai fundo, velho.
Sorri mais uma vez e voltei ao livro, para ele perceber que eu o apoiava e não ia ficar fazendo perguntas. Ele se despediu e saiu.
Terminei de ler um capítulo e fui tomar banho para ir com o Caveira até o Bar do Tavares encontrar o Beto. Meu coração pulava só de pensar na possibilidade de Juliana ir também. Desde domingo que eu não a via, e, como bom cafajeste que era, já estava com saudades.
Caveira me pegou depois de meia hora. Chegamos rapidamente ao Bar do Tavares, e o Beto já estava lá, sozinho. Senti um vazio por não ver Juliana, mas também estava aliviado por ela não estar ali. Não seria obrigado a assistir demonstrações de amor entre os dois e poderia ficar mais à vontade com meus amigos.
— Cadê a Juju? — perguntei, cumprimentando Beto e me sentando de frente para ele.
— Está em casa. Minhas irmãs foram encontrá-la, acho que vão dormir por lá.
— Opa, festinha de mulheres? — perguntou Caveira, e eu comecei a rir, mas Beto não gostou muito.
— O que é, Caveira? — disse ele, com a cara fechada.
— Sei lá, três mulheres na casa da Ju, três homens aqui. — Caveira deu de ombros e tomou um gole da cerveja que o Tavares tinha acabado de deixar na mesa.
— Você está falando da minha namorada e das minhas irmãs! — Beto foi taxativo.
Virei os olhos. Não aguentava mais aquelas brigas dos dois.
— Chega dessa discussão — reclamei, já sem paciência. Os dois se olharam, mas não falaram nada. — Você já encomendou a bebida pra festa da Juju? — perguntei ao Beto, tentando mudar de assunto.
Não era sobre isso que eu queria falar, mas não consegui pensar em nada melhor para acabar com aquele clima que pairava sobre a mesa.
— Já — respondeu Beto, secamente.
— Convidou as pessoas?
— Já. — Ele manteve a resposta curta. Virei os olhos novamente.
— Eu chamei uma gatinha por quem estou interessado. — Caveira se pronunciou. Beto olhou para ele quieto durante um tempo e depois começou a rir.
— O Caveira não tem jeito — disse ele, batendo seu copo de leve no do Caveira, como se fosse um brinde.
Respirei aliviado ao perceber que não havia mais resquício da pequena briga.
— Olha quem fala! Vai ter uma noite com a Ju no quarto do Cadu e fica falando de mim.
Olhei feio para o Caveira, mas Beto não percebeu porque seu celular tocou nesse momento.
— É a Ju — explicou ele, se levantando e indo para fora do bar, provavelmente para falar mais reservadamente. Encarei o Caveira.
— Tem que ficar colocando pilha, né? — briguei.
— Ih, sem estresse. Vai acontecer, é inevitável, então não enche.
Ele deu um gole na cerveja. Eu ia dar uma resposta, mas respirei fundo e também bebi um pouco da minha, para me acalmar.
— Sei disso, mas também não precisa pisar, né?
— Não estou pisando em você, apenas te trazendo pra realidade. Achei que já tivesse percebido que é uma canoa furada.
— Eu percebi, mas você também não ajuda.
Caveira apertou os olhos e apontou o dedo para mim.
— Errado. Eu ajudo, você que não se ajuda. Um monte de mulher atrás e você quer a do seu amigo. Grande homem você é.
Fiquei quieto. Sabia que ele tinha razão, mas não ia ceder.
— Não tem tanta mulher atrás de mim.
— Dei de ombros.
— Ah, pobre Cadu. Tem sim. Tem a Rosângela, a prima da Walesca, a Talita, a Alice.
— Nossa, que pretendentes — disse, com deboche.
— Ei, a Alice é uma excelente pretendente. É a garota mais bonita da cidade.
— E irmã do Beto, que jamais admitiria qualquer coisa entre a gente. E com o detalhe de que eu gosto dela como se fosse minha própria irmã. Alice não conta.
— Ok, mas tem outras.
— Ah é, claro que tem. A Rosângela, uma garota fácil, de uma noite apenas, não aquela para levar a sério. A Talita, minha ex. Grande pretendente. E a Samantha, prima da Walesca, que mora em Belo Horizonte, por sinal outra cidade que não Rio das Pitangas.
— Ok, ok, não está mais aqui quem falou. — Ele levantou as mãos, como se se rendesse. Fiquei com remorso, afinal de contas ele estava tentando me ajudar.
— Desculpa. Não estou sendo uma boa companhia.
— Você tem que tentar tirar a Juliana da cabeça. Não dá pra pensar nela, esquece, já era.
— Estou tentando.
— Tente mais, ou pelo menos disfarce, antes que o Beto perceba. — Caveira olhou para a porta. — Ele está vindo, vamos mudar de assunto. — E começou a falar sobre o começo do namoro entre sua mãe e meu pai.