A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 37 de 44

Páginas do PDF

A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 33

 

Fui até o quarto de hóspedes assim que me levantei. Caveira ainda dormia, e decidi não acordá-lo. Desci e fui para a cozinha. Matilde havia feito uma lasanha e deixado congelada para nós. Aproveitei e a coloquei no forno.

Fiquei ali, sentado em uma cadeira e tamborilando os dedos da mão direita na mesa, pensando na vida. Eu me lembrei das recriminações do Caveira, dos olhos e do cheiro da Juliana, do corpo da Alice e da amizade com o Beto. É claro que sempre me sentia mal pelo Beto, e queria muito que o Caveira entendesse isso. As nossas conversas eram sempre na base da repreensão, da briga. Eu precisava de um amigo nesse momento, para dividir minhas angústias e minhas dúvidas, mas não podia contar com o Beto, por motivos óbvios, e o Caveira não queria se meter. Cheguei à triste conclusão de que estava sozinho nesse momento e teria de lidar com meus problemas sem contar com ninguém. Sim, tinha meu pai, a Matilde, até minha mãe lá em Floripa, mas esse não era um assunto que queria compartilhar abertamente com eles.

Caveira chegou na porta, interrompendo meus pensamentos, e ficou me olhando.

— O cheiro está bom — disse ele, e se sentou.

— É a lasanha da sua mãe; deve estar quase pronta.

Eu me levantei e fui até o forno. O queijo já borbulhava na travessa, e senti meu estômago se manifestando diante daquela visão maravilhosa.

— Como você se livrou da Rosângela ontem? — perguntou ele, dando risada. Eu me virei para ele, encostando na pia.

— Sabia que eu devia parar de andar com você?

— O que eu fiz?

— Você só me mete em fria e depois cai fora.

— Opa! Eu não te obriguei a ficar com ela.

Desliguei o forno.

— Dei uma de Beto e fui extremamente grosso com a menina. Simplesmente deixei-a lá e saí andando.

Caveira começou a rir e depois de um tempo parou.

— Vai fazer o quê hoje? — perguntou ele, enquanto eu tirava a travessa do forno. Coloquei-a na mesa e começamos a nos servir.

— Vou até a casa do Beto “fazer as pazes” com a Alice — eu disse, fazendo sinal de aspas com as mãos.

— Tinha esquecido disso. — Ele começou a comer. — Ia te chamar pra tomar um banho de piscina no Pitangueiras.

— Até seria uma boa, com esse calor, mas vou dispensar. Tenho que ir até lá, ou então já viu... O Beto vai achar estranho eu não me preocupar em ficar bem com a irmã dele.

— Ok. Não tem problema, vou encontrar a Rafa.

— Hum, entendi — respondi, com uma voz maliciosa.

— Nada a ver, cara. — Ele desdenhou. — Nada a ver.

— Isso vai se transformar em namoro.

— Deus me livre! — Caveira fez o sinal da cruz. — Ela é gente boa, uma gracinha, mas ainda estou longe de me amarrar.

— Sim, sim, claro — concordei. — Igual ao Beto. Falava, falava e agora está aí, todo apaixonado.

— Não vou me amarrar. — Caveira ficou carrancudo. — Olhe pra vocês dois. Estão aí igual dois idiotas babando por uma menina. Sofrendo. Não, não, isso não é pra mim.

Decidi não comentar, porque não sabia se ele se referia ao meu amor por Juliana ou ao meu namoro com Alice. Provavelmente falava da Juliana, porque eu não estava sofrendo pela Alice. Como não queria recomeçar uma discussão, fiquei quieto.

 

Cheguei à casa do Beto e toquei a campainha. Lá de dentro ouvi uma voz gritar para entrar e segurei a maçaneta. A porta abriu e fui até a sala para encontrá-lo sentado no sofá, vendo TV.

— E aí, como está o braço? — perguntei, cumprimentando-o.

— Doendo um pouco. — Ele fez uma careta. Eu me sentei ao lado dele. — Pior que tem o baile hoje...

— É mesmo. — Balancei a cabeça. Já havia me esquecido do Baile Garota Pitangueiras.

— Como vou dançar? — Ele levantou o braço devagar, mostrando o gesso. — Minha noite está arruinada.

— Sem dramas. Sua noite não está arruinada. Você vai acompanhado de uma bela garota, vai ficar a noite toda ao lado dela e dançar na próxima festa que tiver.

— Pra você, que detesta dançar, é fácil ficar falando.

Ele fez cara de desiludido e tive um pouco de pena. Beto sempre gostou de dançar, o que o ajudava com as garotas. Incrível como as mulheres sempre se derretem por um cara que dança bem. Com o Caveira era a mesma coisa, embora ele não dançasse tão bem quanto o Beto. Já eu... Sempre fui um desastre e prefiro assistir a que arriscar.

— A Alice está em casa?

— Sim, está lá em cima, no quarto — disse ele calmamente, e continuou vendo TV. Fiquei sentado, olhando para o Beto, que se virou para mim. — Não vai lá? — Ele franziu a testa.

— Ir lá? No quarto dela? — Estranhei a atitude dele.

— Sim. Qual o problema?

— Qual o problema? — Acho que dei uma risada nervosa. — Você, VOCÊ, está me mandando para o quarto da sua irmã?

Ele riu e me olhou.

— Sei que você não vai fazer nada com a Alice aqui, na minha casa, comigo na sala.

Ele estava certo, eu sabia disso, mas ao mesmo tempo aquela atitude era inusitada.

— Sim, mas é um pouco estranho. Você só falta me matar quando dou um beijo na Alice.

Ele suspirou e abaixou um pouco o volume da televisão.

— Eu sei, estou tentando mudar. Não quero atrapalhar o namoro de vocês, como falei ontem. Não quero mais ver vocês brigando por minha causa.

— Mas nós não brigamos por sua casa.

— Você fala isso, mas acho que contribuí. Vou tentar pegar leve. Não adianta falar que confio em você se não mostrar essa confiança.

— Isso é verdade — disse e me levantei.

Fui andando em direção à escada e escutei Beto me chamar.

— Mas já sabe: se fizer qualquer coisa com minha irmã, você é um cara morto.

Virei os olhos. O Beto nunca ia mudar.

Subi até o quarto da Alice e bati de leve na porta. Ela me mandou entrar e tive uma visão perturbadora. Alice estava deitada na cama, de bruços, lendo um livro. As pernas estavam levantadas para trás na altura do joelho, com os pés cruzados. Ela usava uma blusa justa e um shortinho jeans. Fiquei ali parado, segurando a maçaneta, provavelmente com cara de bobo, enquanto ela me olhava e sorria.

— Não vai entrar? — perguntou ela, e se sentou na cama, colocando as pernas para baixo.

— Vou, claro. — Entrei e fui caminhando em sua direção, mas ela me fez parar.

— Feche a porta — sussurrou.

— Você está maluca? Uma coisa é o Beto me deixar vir aqui, outra é nós ficarmos com a porta fechada.

Ela se levantou, foi até a porta e posso jurar que escutei o barulho da chave virando na fechadura. Alice me puxou para a cama.

— Beto não vai subir, ele está vendo TV e dopado com os remédios. Meus pais foram até o Pitangueiras para um churrasco com os amigos e não vão voltar tão cedo. E a Emília está em algum lugar da cidade com o Otávio, mas ela seria a que menos nos incomodaria.

— Mesmo assim...

Não consegui terminar de falar. Alice me puxou, me beijou e me deitei por cima dela. Deveria ser um momento perfeito para mim, ali com aquela garota maravilhosa, mas não tinha clima. Só pensava no Beto lá embaixo.

— Alice, espera. — Eu me afastei dela. — Não dá pra ficar aqui com você assim.

— Uau, achei que você gostaria da produção — ela disse, mostrando a roupa, ou pouca roupa, que usava e fez cara de triste.

— É claro que gostei, só um louco não gostaria! Mas seu irmão está lá embaixo e não consigo esquecer isso.

— Você tem que parar de colocar o Beto entre a gente.

— Não dá. É claro que gosto de ficar com você, de te beijar, de dar uns amassos, mas não vou conseguir ficar na boa aqui sabendo que ele está lá. — Eu me encostei na cabeceira da cama e ela ficou parada, me olhando. Suspirei e a puxei para perto de mim. — Você tem que aparecer mais lá em casa — disse baixinho, e a beijei. — Aqui não dá.

— Já entendi. — Ela suspirou também e se deitou no meu peito, me abraçando forte. — Não estou falando pra você fazer nada, só ficar assim está bom.

Eu a abracei forte também e ficamos ali, curtindo um pouco a companhia um do outro.

 

Eu e o Caveira chegamos ao Pitangueiras e fomos procurar o Beto. O salão do clube já estava cheio, mas eu sabia onde ficava a mesa que ele havia comprado, então não foi difícil encontrá-lo. Ele estava sentado ao lado da Juliana, linda em um vestido preto de festa. Alice tinha ido mais cedo para os preparativos do desfile, quando ela entregaria a coroa e a faixa para a nova Garota Pitangueiras.

— Onde está a namorada? — perguntou Beto em tom provocativo ao Caveira.

— Não começa você também — disse ele, tentando fingir que estava irritado.

— O que ele tem? —Beto perguntou para mim.

— Acho que está com medo de se apaixonar. — Dei de ombros e me sentei ao lado dele, sem conseguir tirar os olhos da Juliana. Ela percebeu e desviou o olhar.

— Já vi que vão pegar no meu pé a noite toda — esbravejou Caveira, se sentando ao meu lado. — Onde está a Emília?

— Por aí com o Otávio — respondeu Beto, enquanto servia um pouco de uísque para nós.

— E você deixou? — Caveira arregalou os olhos.

— Eles só estão por aí. Não estão fazendo nada demais. Eu acho.

— Como eles vão fazer algo aqui? — disse Juliana para o namorado, visivelmente recriminando o modo controlador dele com as irmãs.

— Ei, estou tentando mudar! — Beto pareceu um pouco magoado, e Juliana deu um beijo nele.

— Eu sei — sussurrou ela, sorrindo, e, para variar, senti inveja daquele carinho todo.

Desviei o olhar; estava me sentindo muito masoquista. Percebi Caveira olhando em volta.

— Já volto. — Ele se levantou.

— Traz sua namorada aqui pra conhecermos — brinquei antes de ele sair, mas Caveira fingiu não me escutar.

— Você acha que isso é sério? — Beto quis saber.

— Não sei. — Dei de ombros. — Acho que não, você conhece o Caveira. Logo ele vai enjoar da menina.

— Ele pode se apaixonar — comentou Juliana.

— Difícil — eu disse e olhei os dois, me lembrando de como Beto era um galinha convicto. — Bom, tudo é possível.

— Espero que sim. Ela é muito legal, não merece sofrer. — Juliana olhava de longe o Caveira conversando com a Rafa.

— Quem dera se uma pessoa legal não sofresse — filosofei, mais para mim do que para eles.

— Ei, você está sofrendo? Achei que havia feito as pazes com a Alice — comentou Beto, e percebi minha mancada. Tentei consertar.

— Não estou falando disso. Estou falando de um modo geral.

Ele pareceu satisfeito com minha resposta, mas vi que Juliana percebeu a indireta, porque ficou um pouco incomodada.

— Animado pra ver sua namorada lá no palco? — perguntou Beto.

— Sim. Mas ela falou que só vai entrar no final e entregar faixa, coroa, essas coisas, pra quem vencer.

— Mesmo assim. Alice ainda é a mais bonita de todas.

— Quanto a isso, tenho que concordar — eu disse, sentindo uma pontada de orgulho pela namorada que eu tinha.

— Mas e aí? Animado para ir a Belo Horizonte na sexta?

— Sim. — Balancei a cabeça.

— Vamos sair depois do almoço, viu?

— Você já falou isso, Beto. Pode deixar que estarei pronto. Vamos no meu carro, certo?

— Acho que não vai precisar. Parece que o Otávio ofereceu o carro dele. — Beto fez uma careta.

— Se precisar, não tem problema.

— Deixa ele, está querendo se mostrar útil. — Beto novamente fez uma careta.

— Para de implicar com o Otávio. Ele é gente boa — disse Juliana, dando um tapa de leve no braço do Beto.

— Você e a Alice vão com a Emília e o Otávio no carro dele, a Ju e eu vamos com o Caveira e a Rafa no carro dele, já que ainda não posso dirigir — explicou Beto, mostrando o braço engessado.

— Hum, então o Caveira vai conseguir levar a Rafa?

— Meu pai conversou com os pais dela. Não sei se eles sabem que os dois estão namorando e o Caveira vai.

— Entendi.

— Mas lá no apartamento nada de casal dormindo junto! — Ele foi enfático, e Juliana virou os olhos e olhou para mim.

— Não falei nada. — Tentei me defender.

— Não confio no Otávio. — Beto bebeu um pouco mais de uísque e olhou para mim. — Por isso ele fica comigo no quarto que tem duas camas de solteiro. Você e o Caveira ficam no outro. As meninas vão ficar na suíte.

— Não são quatro quartos? — Estranhei.

— Sim, mas todas juntas fica mais fácil vigiar.

— Você está parecendo o meu pai — brinquei, mas me arrependi, porque Beto não riu.

— Eu falei com ele pra parar com essas neuroses — disse Juliana para mim, e fiquei feliz por estarmos tendo uma conversa normal.

— Concordo.

— Você fala isso porque não tem irmã.

— Relaxa. — Foi a única coisa que consegui falar. Vi um movimento no palco e mostrei para eles. — O desfile vai começar, vê se desestressa.

 

O desfile foi rápido. Várias garotas andaram na passarela e eu não conhecia nem a metade. Já o Caveira ia falando quem era quem, de qual família vinha, e isso não era de espantar. Nunca vi alguém que conhecesse tão bem a ala feminina de Rio das Pitangas como ele. E é claro que a cidade toda o conhecia também.

Ele trouxe a Rafa para nossa mesa e a menina ficou quase o tempo todo muda, às vezes conversando um pouco com Juliana. Era tímida e acho que estava com receio de não ser aprovada por mim e pelo Beto como namorada do nosso amigo. Senti um pouco de pena da coitada, porque dava para ver claramente que ela estava apaixonada pelo Caveira. Acho que ela o olhava do mesmo jeito bobo que eu olhava para a Juliana. Pelo menos era assim que o Beto a olhava também.

Alice entrou no final, para cumprimentar a nova Garota Pitangueiras. Estava estonteante em um vestido creme e foi muito aplaudida. Escutei vários assobios para ela e senti novamente aquela pontada de orgulho. Todos os homens de Rio das Pitangas sabiam que agora Alice era uma garota comprometida. Comigo, é claro.

Após o desfile, vi a Alice perto do palco. Ela tentava chegar à nossa mesa, mas toda hora era parada por alguém que queria cumprimentá-la. Até parecia que havia acabado de vencer o concurso.

— Com licença, vou buscar minha namorada — disse para todos na mesa e me levantei, indo em direção a Alice.

Quando estava quase chegando, senti alguém segurar meu braço. Virei e dei de cara com a Talita, minha ex-namorada.

— Não fala mais com os amigos?

Levantei a sobrancelha e quase falei que não éramos amigos, mas deixei passar.

— Oi, Talita. Quanto tempo — disse, como se fosse a coisa mais normal do mundo.

Ela ficou um pouco hesitante, esperando que eu a cumprimentasse com beijinhos, mas eu sabia que Alice sentia ciúme dela, então não quis arriscar.

— Como foi lá em Florianópolis?

— Foi tudo bem.

— Ah. — Ela balançou um pouco a cabeça e olhou para a Alice. Eu olhei também e ela estava nos encarando. — Quer dizer que você está namorando a Alice Gomes.

— Sim, estamos juntos. — Não sabia aonde ela queria chegar, mas não estava gostando do rumo daquela conversa.

— Sempre soube que ela gostava de você. Sempre soube que tinha algo aí.

— Opa, calma! O que você quer dizer com isso? — perguntei, cerrando os olhos, e percebi o semblante de Talita mudar.

— Eu sabia que ela gostava de você, mas você sempre disse que não tinha nada a ver.

— E não tinha mesmo — eu disse com a voz firme ao perceber que Talita estava prestes a chorar.

— E quem me garante?

Dei um longo suspiro.

— Olha, comecei a namorar a Alice há poucas semanas. Nunca tivemos nada.

— Sei... Nunca acreditei naquele pacto com o Beto.

— Eu não te devo explicação alguma, mas, já que você quer, aí vai: foi um custo para o Beto aceitar meu namoro, pode perguntar pra qualquer pessoa. Quando eu estava com você, estava com você e pronto. E foi você quem me largou.

— Claro, você ia ficar três meses fora!

— disse ela um pouco alto, e algumas pessoas olharam para nós.

— Sem escândalos — pedi, em voz baixa. — Eu ia te levar pra passar o mês de janeiro comigo lá.

— O quê? — perguntou ela com a voz engasgada, e me olhou assustada.

— Esse seria meu presente de Natal pra você. Mas o que aconteceu? Você nem quis me escutar quando fui conversar sobre as férias. Já veio me atacando, dizendo que eu não ia ficar três meses longe e que precisava escolher entre você e a viagem.

— Você não me deu opção!

Suspirei de novo e percebi Alice se aproximando. Queria encerrar logo aquela conversa.

— Quando voltou, você podia ter me procurado. A gente podia ter dado outra chance ao namoro. — A voz dela continuava falhando, como que sufocada por um choro preso.

— Pra quê? Já tinha acabado. E, do modo como acabou, não tinha como voltar.

Talita se aproximou mais de mim antes de Alice chegar, mas eu sabia que ela podia ouvir nossa conversa à distância em que estava.

— Quem sabe não dava certo? — sussurrou ela.

— Estou com a Alice. Eu gosto dela — disse, baixo.

Talita mordeu o lábio inferior, olhou para mim e depois para o lado, onde eu sabia que estava Alice. Deu um sorriso nervoso e saiu de perto. Passei a mão no cabelo e me virei.

— Obrigada — disse Alice, e chegou perto de mim. Eu a abracei.

— Eu gosto de você — respondi, dando um beijo em sua testa.