A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 40
As férias de julho chegaram, e eu e Beto continuávamos na mesma. Algumas vezes tentei ir atrás, conversar depois das aulas, mas foi tudo em vão. Então desisti. Simplesmente deixei que ficasse com a raiva toda, pensando. Um dia teria que passar, e eu sabia que não adiantava ficar indo atrás; só iria piorar a situação, então era melhor deixá-lo quieto.
Eu e a Juliana conversávamos por telefone, poucas vezes nos víamos.
Tentava segurar a vontade de ir atrás dela, porque sabia que não resistiria se isso acontecesse. Mas não queria encontrá-la enquanto não resolvesse tudo. Se a gente ficasse, seria muito pior com relação ao Beto, então era melhor manter distância.
Assim que as aulas terminaram, viajei para Florianópolis. Todos os dias pensava em Juliana e no Beto. Ligava para Rio das Pitangas, para saber do Caveira em que pé estava a raiva do Beto, que parecia não diminuir nunca, e ficava um tempão na internet conversando com a Juju. Posso dizer que não foram as melhores férias da minha vida, mas deu para curtir minha mãe e meu irmãozinho. Saí alguns dias com uns primos, mas nem pensei em me envolver com alguma garota. A minha garota era a Juliana, e eu esperava tê-la em breve nos braços, sem culpa.
Voltei para Rio das Pitangas duas semanas depois e tudo continuou como estava antes. Já estava desistindo de voltar a ser amigo do Beto. Sabia que ele estava saindo direto com o Caveira, que, por sua vez, terminou seu namorico com a Rafa antes do final das aulas, e que os dois eram atualmente os solteiros mais desejados da cidade. Senti um pouco de alívio pelo Beto estar se divertindo, mas ao mesmo tempo o coração apertava porque eu não fazia mais parte do grupo. Não queria mulheres, só queria meus amigos. E Juliana, claro, mas isso teria que esperar. Tentava me conformar com essa situação, embora meu coração doesse só de pensar em tudo que estava acontecendo na minha vida.
— Nem acredito que as aulas recomeçam amanhã — disse, desanimado.
Era um domingo, a Matilde havia feito um daqueles almoços deliciosos em sua casa e ela estava na cozinha com meu pai, enquanto Caveira e eu assistíamos TV.
— Não parece animado — comentou ele.
— Não estou. Voltar para a UFRP sem ter o Beto ali, para conversar durante as aulas, estudar depois, correr... Não tem graça. Este semestre vai ser uma droga.
Eu havia voltado de Florianópolis uns dias atrás e ainda não tinha encontrado a Juliana. Só conversamos por telefone e combinei de nos vermos depois da primeira semana de aula, dependendo da reação do Beto.
— Bom, você vai ter que se acostumar.
— Se acostumar com o quê? — perguntou meu pai.
Ele e a Matilde vinham para a sala. Caveira ia responder, mas foi interrompido pela campainha.
— Deixa que eu atendo — disse Matilde, enquanto meu pai veio se sentar ao meu lado.
Continuei vendo TV, mas não enxergava nada na minha frente. Nesse momento, escutei uma voz familiar.
— O Cadu está?
Eu me levantei na mesma hora, acompanhado de meu pai. Caveira olhou para a porta com os olhos arregalados. O Beto estava ali, parado na nossa frente.
— Oi — cumprimentei, com um sorriso nos lábios.
Caveira me olhou, também feliz.
— Oi. — Ele olhou para todos na sala. — Podemos conversar?
— O que você quer? Bater novamente no meu filho? — Meu pai foi grosso, posso até entender, mas essa reação me deu um pouco de desespero, afinal de contas meu melhor amigo (ou ex-melhor amigo?) estava ali, me procurando, e isso provavelmente era uma coisa boa.
— Calma, pai. Ele só quer conversar — respondi, e me aproximei do Beto.
Ficamos um encarando o outro, enquanto eu sentia todos nos olhando.
— Podem ir para o meu quarto — o Caveira sugeriu, percebendo que ali não haveria clima para conversas.
Olhei para o Beto, como quem pergunta se está bom, e ele entendeu. A amizade não estava totalmente perdida.
— Talvez na sua casa seja mais tranquilo. — sugeriu ele.
— Claro. — Olhei para todos na sala. — Já voltamos.
— Deixe a porta aberta. Se não voltar dentro de dez minutos, vou até lá — disse meu pai, tentando colocar autoridade na voz.
— Não se preocupe, senhor Campos. Não vai rolar violência — explicou Beto, calmamente. Talvez calmo até demais, e não sei se isso me agradou.
— Assim espero.
Meu pai se sentou, após olhar feio para o Beto. Virei os olhos e saí, em direção à minha casa.
Fomos calados o caminho todo. Tudo bem que era pertinho, mas pareceu uma eternidade para mim, e fiquei me perguntando se para ele também. Entramos e ficamos parados na sala.
— Você disse que queria conversar.
— Sim... Soube que foi para Floripa nas férias — comentou ele, um pouco sem graça.
Eu me sentei no sofá e fiz sinal para ele se sentar. Ele foi para o outro.
— É. Você sabe que sempre vou pra lá.
— Legal.
— Você ficou aqui?
— Fui passar uma semana com a Alice em São Paulo. Ela mandou um beijo.
— Obrigado.
Eu já sabia de tudo o que ele havia feito nas férias, e provavelmente ele sabia disso, mas não tinha o que falar. Caveira me contou da viagem dele para São Paulo, das festas a que eles foram em Rio das Pitangas e Rioazul e das inúmeras garotas com quem ele ficou. Beto galinha estava de volta.
Ficamos em silêncio, ele me olhando às vezes, outras ficava mexendo em uma almofada que estava ao seu lado. Permaneci mudo, tentando decifrar o que ele queria. Até que ele resolveu falar.
— Soube que não tem se encontrado com a Juliana.
— É, ainda não a vi desde que voltei.
Beto balançou a cabeça e me encarou.
— Por que isso?
— Isso o quê?
— Isso. — Ele levantou a mão na minha direção, como se espantasse uma mosca. — De não a encontrar. Agora ela é livre, pode ficar com você a hora que quiser.
Senti um leve sarcasmo em sua voz. Balancei a cabeça, mordi a parte interna da bochecha e respirei fundo.
— Não consigo ficar com a Juju enquanto não resolver nossa situação. Gosto muito dela, mas não dá, gosto de você também, da amizade que tínhamos.
— Sei. — Ele riu, como se o que eu havia falado fosse uma ironia ou algo parecido.
— É verdade. Você pode não acreditar, mas não tem como. A sua amizade é muito importante pra mim e não vale uma garota, mesmo que seja a Juliana.
— Engraçado que você não pensou nisso quando foi até a minha casa falar que a amava.
Soltei o ar com calma. Não queria entrar na provocação dele.
— Eu a amo. Fui até a sua casa porque não aguentava mais. Precisava falar, você precisava saber. Mas não é por isso que agora vou sair com a Juliana pra baixo e pra cima. Não posso, não quero e não tenho como ficar junto dela se não tiver resolvido antes a situação com você.
Mesmo que isso leve anos ou que nunca volte a acontecer. Não tem como.
Ele ficou quieto por um longo tempo, ainda mexendo na almofada. Não levantou a cabeça, mas percebi que havia lágrimas em seus olhos.
— Sinto falta da nossa amizade também. Sinto falta de conversar com você. Todas as vezes que estou com o Caveira, fica faltando algo...
— Sei como é.
Fiquei feliz ouvindo aquilo.
— Só que não consigo pensar em vocês dois juntos.
Ele tentou enxugar uma lágrima, disfarçadamente. Eu me levantei e fui até ele, ficando em pé na sua frente.
— Nós não vamos ficar juntos enquanto isso não tiver sido resolvido.
— E tudo vai se resolver?
— Não sei, Beto. Sei que não depende só de você ou só de mim, mas acho que vai. Eu tenho a vida toda pra ficar com a Juliana, não precisa ser agora. Quando acertarmos a nossa situação, eu converso com ela. No momento, o que mais importa pra mim é acabarmos de vez com essa briga entre nós. A amizade é mais importante do que tudo.
Ele me encarou, com os olhos úmidos. Eu também estava quase chorando.
— E como vai ser?
— Eu não sei. — Dei de ombros. — Um dia vai passar, eu acho. Um dia você não vai mais sentir raiva quando pensar na Juliana comigo.
Ele sorriu e balançou a cabeça, concordando.
— Também acho que vai passar. Um dia. Mas ainda não sei quando.
Nós dois sorrimos e nos abraçamos. Esse dia pouco importava naquele momento, porque percebi que ele chegaria.
Você terminou A Namorada do Meu Amigo
Graciela Mayrink