A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 13 de 44

Páginas do PDF

A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 9

 

O professor de Direito Penal ainda não havia passado todo o histórico do caso para o trabalho, mas eu estava empolgado demais para ficar parado. Por isso, quase todo meu tempo livre eu passava no computador fazendo pesquisas. E era exatamente o que eu fazia naquele domingo quando o Caveira ligou depois do almoço me chamando para ir à sede do Pitangueiras jogar basquete. Minha coordenação motora não era muito boa para o esporte, a bola era grande demais e a cesta, muito pequena, jamais consegui fazer um ponto que fosse em alguma partida, então recusei o convite.

Eu navegava pela internet, mas, com poucos detalhes sobre o caso, ficava difícil pesquisar. Esfreguei o rosto, olhei de relance para a estante que ficava ao lado da mesa do computador e vi minha coleção de livros de ficção. Nunca fui muito de ler, mas alguns daqueles títulos envolviam advogados, tribunais, causas perdidas. Eu me lembrei que um dos livros contava a história de homens acusados sem provas concretas e comecei a folheá-lo. Já o tinha lido, mas apenas por lazer, e agora decidi ler com outra visão, como se fosse um advogado. Talvez tivesse alguma coisa útil para o meu trabalho. Peguei um caderno e uma caneta e coloquei junto com o livro em cima do meu criado-mudo. Anotações durante a leitura ajudariam muito.

Decidi esticar as pernas e fui até a cozinha. Lá, encontrei meu pai e tia Matilde em uma conversa animada.

— Oi, tia — cumprimentei, e percebi que ela colocava petiscos em travessas.

— Olá, Cadu. Estamos arrumando algumas comidinhas para o torneio de baralho. Quer alguma coisa?

— Se não for desfalcar o lanche de vocês, eu aceito — disse, olhando aquelas travessas maravilhosas.

Tia Matilde arrumou em uma bandeja alguns minissanduíches, pastinhas de vários sabores, torradas, biscoitos, tudo para mim.

— Ei, tia, vamos com calma. Só um pouco está bom — brinquei, tirando um refrigerante da geladeira.

— Você não ia sair hoje? — meu pai perguntou e eu me espantei, porque o tom não era de repreensão, e sim como quem fala vai lá, sai, está tudo bem.

— O Caveira me chamou pra jogar basquete, mas não me animei. Devo aparecer mais tarde lá no Bebe Aqui.

Peguei minha bandeja e saí da cozinha para deixar os dois a sós. Fazia um bom tempo que não via meu pai tão descontraído e feliz.

Voltei para o meu quarto, coloquei a bandeja em cima da cama e desliguei o computador. Em seguida liguei o rádio e me sentei para comer. Não sabia nem por onde começar de tanta coisa gostosa que tinha ali.

Peguei um minissanduíche, que era muito míni, e comi de uma vez. Estava perdido em meus pensamentos quando ouvi uma batida na porta.

— Entra — disse, imaginando ser meu pai, e me surpreendi ao ver Juliana.

— Oi. — Ela sorriu e entrou, fechando a porta.

— Que surpresa. — Eu me levantei da cama e dei um beijo em seu rosto.

— Vim com meus pais te fazer uma visita. Como nos velhos tempos. — Ela sorriu e eu fiquei sem graça, lembrando o quanto detestava que ela viesse até minha casa com seus pais aos domingos, quando éramos crianças.

— Senta aí. Lancha comigo? — perguntei, indicando a cama.

— Sim. — Ela se sentou na cama, encostando na cabeceira. Eu me sentei no chão, ao lado dela. — Você está mal-acomodado, roubei seu lugar.

— Que é isso? Fica aí. Estou ótimo. — E estava mesmo. A visão dela ali na minha cama me deixou muito feliz. — Seu namorado sabe que você está aqui? — Não sei por que fiz essa pergunta estúpida. Acho que é um defeito dos apaixonados, falar besteiras sem pensar.

— Sabe. Ele vem pra cá depois.

— Ah. — Apesar de adorar o Beto, não gostei muito do que ouvi. Pensei que teria uma tarde inteira sozinho com a Juliana.

— O que você estava fazendo antes de eu chegar? Não quero te atrapalhar.

— De modo algum. — Sorri e ela retribuiu. — Estava só lanchando. Antes, estava fazendo uma pesquisa para um trabalho da faculdade.

— Trabalho de quê? — perguntou ela, com real interesse.

— De Direito Penal. É em dupla, vou fazer com o Beto, mas já vi que vou fazer o trabalho sozinho.

— Não sabia que o Beto era de deixar tudo nas suas costas.

— Não, não. É que ele não tem interesse nessa área, e é justamente a que eu mais gosto. Então, não vou me importar de fazer sozinho. Pra dizer a verdade, acho até que prefiro.

— Entendi. — Juliana ficou quieta, comendo o minissanduíche. Ao contrário de mim, ela dava algumas mordidas a mais na microcomida.

— E você? Está gostando de estudar no Instituto novamente?

— Claro. Sempre adorei aquela escola. E é bom ter a Alice comigo. — Ela começou a rir enquanto me encarava.

— O que foi?

— A Alice me contou de ontem no churrasco.

Balancei a cabeça e passei uma das mãos no cabelo.

— A Alice fica fazendo joguinhos e isso ainda vai dar confusão.

— Eu te falei que ela gosta de você; você não quis acreditar.

— Não quero pensar nisso. Beto me mata só de eu pensar, imagina se fizer alguma coisa!

Juliana parou de rir e deu um suspiro. Pegou outro minissanduíche, mas não comeu. Ficou olhando para a comida e depois para mim.

— E você quer fazer alguma coisa?

— Não, claro que não! Já te falei — disse, com veemência.

— Eu sei. Mas é que todos os garotos da cidade parecem gostar dela.

— Tem garotos aqui que não gostam dela.

— O Beto, né? — Ela riu.

— O Beto não conta. — Ri também. — O Caveira, eu.

— Mas você mesmo já disse que teve vontade de ficar com ela uma vez.

— Tive vontade, não tenho mais. Como dizem, vontade é uma coisa que dá e passa. Você nunca teve vontade de ficar com um carinha bonito lá de Porto Alegre e depois passou?

Ela levantou os ombros, sem responder. Depois de um tempo, mudou de assunto.

— E a sua mãe? Como está?

— Está bem. Ela se casou novamente e está feliz.

— Que bom.

— É. Gosto de vê-la feliz. Ah, tenho um irmãozinho, acredita? Três anos. — Juliana deu uma risada gostosa e eu me levantei para pegar um porta-retrato na estante. — Este é o meu irmão.

Ela pegou o porta-retrato das minhas mãos e nossos dedos se tocaram levemente. Senti meu coração disparar, mas ela pareceu não ter reparado no toque.

— Ele é muito fofo. Parece com você quando era menor.

— Não diga isso perto do meu pai que ele é capaz de morrer. — Eu me sentei.

— Ele não aceitou a separação, né?

— Não. Já tem o quê? Uns cinco anos? Ele não consegue esquecer minha mãe. Ou não se acostumou a ficar sozinho, sei lá.

— Por isso agora você quer arrumar uma namorada pra ele.

— É, e também pra ele me esquecer um pouco. Está pegando demais no meu pé ultimamente. Não sei se essa ideia do Caveira vai dar certo, ainda tenho minhas dúvidas, mas seria bom se desse.

Juliana se inclinou e passou a mão no meu cabelo. Fechei os olhos, sentindo o toque de seus dedos descer até meu rosto. Meu coração disparou ainda mais e eu fiquei um pouco ofegante. Abri os olhos e a vi ali, um pouco inclinada e com um leve sorriso nos lábios. Tive vontade de me levantar, creio que cheguei a me inclinar um pouco em sua direção, mas fomos interrompidos pelo Beto, que entrou no quarto.

— O que você faz com a minha namorada no seu quarto? — perguntou ele, rindo, me cumprimentando e dando um beijo em Juliana. Mal sabia ele, em sua inocência, que se demorasse mais um pouco alguma coisa muito errada poderia ter acontecido.

— Estamos lanchando, aceita? — perguntei, tentando demonstrar naturalidade e olhando para a bandeja, que já estava quase vazia. — Posso pegar mais lá embaixo.

— E estragar o clima dos casais lá? Nem pensar — disse ele, se sentando ao lado de Juliana, com um braço em volta dos ombros dela. Olhei aquele casal perfeito ali e senti que estava sobrando, literalmente.

— Então temos um clima lá embaixo? — perguntou Juliana.

— Não, estava só enchendo. — Beto pegou um minissanduíche e comeu. — Isto aqui está delicioso.

— A tia Matilde que fez.

— E o Caveira, por onde anda?

— Foi jogar basquete no Pitangueiras. De noite vai pro Bebe Aqui.

— E nós vamos também, claro — disse o Beto.

— Claro. — Eu sorri para ele e depois para Juliana, que sorria de volta para mim.

 

Depois de passar a tarde com o Beto contando os casos da nossa adolescência para Juliana, fomos para o Bebe Aqui encontrar o Caveira.

Chegando lá, Beto e Juliana se sentaram em uma mesa na calçada e eu fui falar com o Juca, que estava em pé um pouco mais atrás.

— E aí, Cadu? — Juca me cumprimentou com um aperto de mão. — Lembra da Walesca?

— Lembro sim — disse, dando um beijo no rosto da namorada dele.

— Você é o carinha que ficou com a Rosângela? — perguntou ela.

— Eu mesmo.

— Ela fala demais em você. —

Walesca piscou para mim.

— Deixou a menina apaixonada? — perguntou Juca.

— Eu não fiz nada. — Tentei me defender.

— Volto pra Rioazul ainda hoje. Quer que eu leve algum recado pra ela? — perguntou Walesca.

— Manda um alô — disse.

— Não faz isso. Se der corda, a Rosângela não vai largar do seu pé.

— Eu consigo me defender, Juca. — Dei um tapinha nas costas dele e vi de longe Alice chegando. Linda, como sempre.

— Ah, vou falar com a Alice. — Walesca saiu e deixou o Juca comigo.

— Alice Gomes... Se me desse mole, eu não deixava passar — comentou Juca.

— Cara, fala baixo que se o Beto escuta ele te mata.

— Fica frio que ela não quer nada comigo. Sabemos muito bem de quem ela gosta.

Olhei espantado para o Juca e depois chequei se alguém próximo havia escutado o que ele falou, mas as pessoas pareciam não dar a mínima para nós.

— Você está maluco? De onde tirou isso?

— Ora, Cadu. Toda a cidade sabe.

— Você não pode estar falando sério!!

Juca deu uma gargalhada.

— Relaxa. Eu sei porque Alice contou pra Walesca, e ela me contou.

Soltei a respiração, aliviado.

— A Alice fica mexendo com isso e um dia o Beto ainda vai acabar comigo.

— Mas falando sério. Vai dizer que você não tem vontade nenhuma de beijar aquela deusa? A Alice é a maior gata, gostosa demais.

— Olha o respeito! Eu vejo a Alice como minha irmã mais nova.

— Sei. — Juca olhou para Alice e Walesca, que vinham em nossa direção.

— Com a diferença de que ela não é sua irmã de verdade.

Dei um murro no braço do Juca para ele mudar de assunto quando as meninas chegaram. Ele, então, puxou a Walesca para longe enquanto ria maliciosamente.

— Oi, Cadu —Alice me cumprimentou e eu a beijei.

— Oi. Precisamos conversar — falei, enquanto verificava se o Beto nos observava, mas ele estava mais interessado nos beijos de Juliana.

— Até que enfim! Pensei que você jamais tomaria uma atitude. — Ela sorriu para mim.

— Estou falando sério. — Puxei Alice um pouco mais pra longe, onde o Beto não nos veria. — Você tem que parar de falar pras pessoas que gosta de mim.

— Mas eu gosto de você.

Dei um longo suspiro e esfreguei meu rosto com as mãos.

— Deus do céu, o que eu faço com você?

— Que tal um beijo? — Ela se aproximou, mas coloquei uma de minhas mãos na frente, entre nós.

— É sério. Se eu te beijar, seu irmão é capaz de nunca mais falar comigo.

— Não seja tão radical.

— Eu conheço o Beto.

— Eu também.

Fiquei quieto, encarando Alice. Cocei minha testa.

— Vamos falar sério. Você faz esse joguinho porque sabe que nunca vai rolar nada entre a gente.

— Nunca diga nunca. E não é joguinho, é a verdade.

— Você não pode gostar de mim.

— Eu não mando no meu coração.

Aquela frase ecoou pela minha cabeça como se fosse minha própria voz. Suspirei novamente e fiquei pensando no que falar.

— Olha, você é uma garota bonita, atraente. Pode escolher o cara que quiser.

— O que eu quero não posso ter. Sei disso.

— Então para de me atormentar! — pedi, um pouco mais alto, e algumas pessoas olharam na nossa direção. Eu me virei para Alice e diminuí o tom de voz. — Eu gosto muito do Beto, ele é meu melhor amigo e não vou perder a amizade dele por nada, nem por garota alguma — disse, talvez para convencer a mim mesmo. Sabia que, se fosse para brigar com Beto por causa de alguém, não seria por Alice, mas sim por Juliana.

Alice ficou me olhando seriamente e parecia um pouco magoada.

— Entendi. Não precisa se preocupar que não vou mais encher sua paciência. — Ela foi saindo, mas a segurei pelo braço.

— Você não enche a minha paciência, mas, como falei ontem, está brincando com fogo. Eu gosto do Beto, de você, da família toda. Não quero perder o que a gente tem. Gosto muito de você, mas não passa disso. Não quero que você fique com raiva de mim.

— Não estou com raiva. — Ela respirou fundo, parecendo segurar algumas lágrimas. — Só estou triste, mas vai passar. — Alice sorriu forçadamente, deu um beijo no meu rosto e saiu.

Fiquei um tempo ali parado, encostado em um carro e olhando o horizonte até ser acordado dos meus pensamentos pelo Caveira, que pulou na minha frente.

— Fala, Cadu, como foi tudo na sua casa hoje?

— O quê? — Eu o olhei, balançando a cabeça para espantar meus pensamentos.

— Opa, onde você estava?

— Alice, cara...

— Hum, o que eu perdi? — Caveira encostou no carro ao meu lado.

— Não perdeu nada, só tive uma conversa séria com ela. Espero que tenha entendido.

— Duvido muito.

— Eu também, mas tinha que tentar. Você acredita que ela falou pra namorada do Juca que gosta de mim?

— Ela é doida. — Caveira riu.

— Estou falando sério. Imagina se isso chega aos ouvidos do Beto.

— Mas você não tem culpa se ela gosta de você.

— Vai explicar pra ele.

— Sinistro... — Caveira ficou quieto ali comigo. Não sei o que ele pensava, mas na minha mente só vinha o trio Alice, Juliana e Beto. — Ei, me conta, seu pai já pediu minha mãe em namoro?

Dei uma gargalhada.

— Não imagino meu pai pedindo alguém em namoro.

— Nem eu... Mas me fala aí, como foi lá de tarde? Você sentiu algo entre eles?

— Claro que não! Ainda é cedo demais. — Olhei o Caveira. — Você está mais empolgado que eu com essa história.

— Digamos que eu adoro romances.

— Você? Conta outra!

— É sério. Não gosto disso na minha vida, mas na vida dos outros... Por falar em romance, temos que arrumar um pra você.

— Nem vem. Você só me arruma furada.

— Ei, eu tenho sentimentos, sabia?

Balancei a cabeça e fui com o Caveira encontrar o Beto.