A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 11
Na sexta-feira, depois de correr, Beto e eu fomos encontrar o Caveira na lanchonete que ficava perto do complexo esportivo da UFRP. Caveira estava de mau humor porque havia levado um empurrão no jogo e torcido o pé, o que o impediria de ir à boate naquela noite. Foi atendido no centro médico da universidade e estava com o pé enfaixado.
— Aquele babaca do Fernando vai ver só. Vou acabar com a raça dele no próximo jogo — disse Caveira, bebendo um gole de água.
— Jogo é diversão, ele não fez por mal — disse Beto.
— Claro que fez, ele me detesta.
— Caveira, não vai arrumar confusão, né?
— Beto, não se mete.
Caveira estava uma fera. Beto me olhou e fiz um sinal para ele como quem pedia para mudar de assunto. Ele ficou um tempo quieto e sorriu para nós.
— É aniversário da Ju daqui a duas semanas. Cai num sábado — disse Beto, e eu parei com o copo encostado nos lábios. Olhei para ele.
— Opa, festinha! — Caveira se empolgou, já se esquecendo da rixa com Fernando.
— Não vai rolar festa. Os pais dela gastaram muito com a mudança. — Beto cortou a alegria do Caveira.
— Mas a gente comemora assim mesmo. Podemos fazer uma festa pra ela lá em casa — sugeri.
Não sei de onde surgiu a ideia, mas nem tive tempo de pensar no assunto. Sabia que Juliana ia ficar feliz se eu oferecesse minha casa para comemorar seu aniversário. Restava saber se meu pai concordaria.
— Grande ideia, Cadu! Lá em casa nem rola de tanta gente que tem. — Beto estava realmente agradecido.
— Vou convidar a galera toda, muitas gatas... — Caveira já fazia planos e eu senti que precisava intervir.
— Calma lá! Também não é pra chamar a cidade toda. Nem falei com o meu pai ainda.
— É, Caveira, sossega. Conhecendo a Ju como eu conheço, ela vai querer algo pequeno, íntimo, só para os amigos mais chegados.
— Vocês dois sabem cortar o barato. — Caveira ameaçou ficar com raiva, mas de repente deu um sorriso malicioso. — Gostei dessa parte de íntimo. Pode rolar mais coisa do que com muita gente.
— Ei, lá é uma casa de família! — protestei, já imaginando a esbórnia que Caveira poderia promover na minha casa.
Beto me olhou sério, como se eu tivesse falado aquilo para ele. Não gostei disso. Pior ainda, não gostei do que senti por dentro. Minha mãe sempre falou que as mulheres têm um sexto sentido apurado, ao contrário dos homens, que nunca sentem nada, mas acho que naquele instante entendi o que ela queria dizer sobre essa sensação.
— É... Quero falar sobre isso com você.
Pelo tom de voz do Beto, senti que boa coisa não viria e estremeci.
— O que foi?
— Quero te pedir um favor. Mas é um favor daqueles que só se pede para um grande amigo como você, que é quase um irmão.
Definitivamente eu não ia gostar do que estava prestes a ouvir, e minha mão começou a suar.
— O que foi, Beto? — perguntei, temeroso.
— A Ju vai fazer 17 anos, e quero que esse aniversário seja especial, quero dar algo que ela nunca vai esquecer. Eu já queria que rolasse no dia, mas não sabia onde, porque lá em casa não tem como.
Do que ele estava falando? Minha cabeça dava mil voltas. Beto ficou calado por um longo tempo e eu apenas o observei, com medo de perguntar. Pude sentir a expectativa do Caveira, que parecia saber o que Beto ia pedir.
— O que você quer, Beto? — perguntei, hesitante.
— Seu quarto emprestado — sussurrou ele.
— O quê? — Achei que não tinha escutado direito.
— Seu quarto. Você sabe... — Beto deu um sorriso sem graça.
— Não, não sei. Você quer meu quarto emprestado na festa da Ju? Mas pra qu... — Não terminei a pergunta. Na hora saquei o que ele queria. — Ai, meu Deus! — Foi a única coisa que consegui falar. Encostei na cadeira completamente zonzo, transtornado com o pedido.
— Já falei, quero que seja especial com a Ju — explicou Beto mais uma vez, como se precisasse. Eu já podia imaginar os dois entrando no meu quarto e fazendo sabe-se lá o quê. Bem, eu sabia o quê.
— Aê, grande Beto! — Caveira deu um tapinha nas costas dele. Eu ainda estava atônito com o pedido.
— Você está louco? — perguntei.
— Por quê? Já falei com ela.
— E ela aceitou? — Acho que gritei, porque todos na lanchonete olharam para nós.
— Ela ainda não se decidiu completamente, mas vai aceitar.
— E ela sabe que vai ser no meu quarto, no meio da festa?
— Não. Só pensei no seu quarto agora que você ofereceu a casa. Mas não vai ser durante a festa, e sim mais pro final, né? — Beto deu uma piscada. — Se tiver problema, eu arrumo outro lugar.
O que eu iria falar? É claro que tinha problema, mas também não poderia negar isso ao meu amigo.
— Vocês têm pouco tempo de namoro.
— Mas é como se tivesse mais tempo. Afinal, já nos conhecíamos antes. — Beto deu de ombros.
— Ela é nova demais. — Tentei argumentar. Estava decidido a fazer o Beto mudar de ideia.
— Ela sabe o que faz, Cadu.
— E se fosse sua irmã?
— Ela não é minha irmã.
— Mas e se fosse a Alice? — Insisti.
— Alice não tem nada a ver com isso. — Senti que Beto ficou desconfortável.
— Mas elas são da mesma idade.
— Mas não são a mesma pessoa! — Beto suspirou, e Caveira tinha os olhos arregalados. Percebi que ele sacou o motivo de eu não querer emprestar meu quarto, porque balançava a cabeça negativamente. — Olha, sei que é um pedido muito sério. Se você não quiser ceder o quarto, não tem problema, vou entender.
Fiquei um tempo quieto pensando naquilo. Eu não tinha escolha.
— Não, eu empresto — respondi, com dor no coração, mas, se era o que Juliana queria no seu aniversário, era o que ela teria.
— Valeu, Cadu. — Beto deu um sorriso que partiu ainda mais meu coração.
— Não, não, está tudo errado! — Caveira andava de um lado para o outro dentro do meu quarto. Ele insistiu em vir comigo depois da aula para ter uma conversa séria. — Você não pode estar apaixonado por ela.
— Aconteceu. Não fiz de propósito. — Levantei os ombros. Estava sentado na cadeira em frente ao meu computador.
— Mas vai desfazer. — Ele me olhou sério.
— Como? A gente não manda no coração.
— Manda sim. Nesse caso, manda. — Ele chegou perto de mim. — Isso não está certo. Ele é seu amigo. Seu melhor amigo! — Caveira levou as duas mãos à cabeça.
— Eu tentei, mas não consigo. Não consigo esquecer a Juju. Foi amor à primeira vista, não dá, é mais forte do que eu.
— Não é. Nós vamos dar um jeito, não sei como, mas vamos dar. Vamos arrumar alguém, vamos te mandar pra Nova Zelândia, alguma coisa. Isso tem que acabar. — Ele me olhou. — Amanhã nós vamos pra Rioazul e você vai ter que ficar com alguém lá, com mais de uma, com todas as meninas da festa, mas vai fazer alguma coisa pra esquecer a Ju.
Respirei fundo, me levantei e fiz o Caveira se sentar na minha cama. Agora foi minha vez de ficar parado diante dele.
— Eu tentei, juro. Tentei não pensar nela, mas aconteceu. Não consegui impedir, mesmo tentando. Foi rápido... Quando dei por mim já estava gostando dela. Você acha que eu gosto de ficar vendo os dois juntos? Que tipo de masoquista eu sou? E agora essa, meu Deus! Meu quarto para os dois passarem a noite. Para ela perder a virgindade com ele! Como você acha que estou me sentindo? — disse.
Ele me olhou, pela primeira vez se colocando no meu lugar, e vi um pouco de pena em seus olhos.
— Foi mal. Imagino que deva estar sendo difícil. Mas isso não pode continuar. Imagina quando o Beto descobrir?
— Ele não vai descobrir. — Eu me sentei ao lado do Caveira. — Pelo amor de Deus, ele não pode descobrir.
Caveira colocou a mão no meu ombro e balançou a cabeça.
— Eu sei, pode ficar tranquilo, não vou contar nada. Deus, o que a gente faz?
— Não faz nada. — Dei de ombros de novo. — Não tem o que fazer.