A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 7 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 3

 

Não dormi muito bem naquela noite, nem na seguinte. Evitei encontrar a Juliana e vi pouco o Beto, mesmo assim não conseguia tirá-la da cabeça. Sei que era isso que eu tinha que fazer, mas realmente não conseguia. Quanto mais eu tentava não pensar nela, mais pensava.

No dia seguinte, Caveira foi lá em casa e mostrei as fotos da viagem. Não fiz nada nos outros dias da semana e não parava de pensar em Juliana. Cada vez que a imagem dela vinha à minha cabeça, aquela dor aguda no peito aparecia e eu sempre terminava me sentindo o pior dos amigos.

Na quinta-feira, fui com meu pai almoçar no Senzala, um restaurante rústico que serve a melhor comida mineira de Rio das Pitangas. Costumávamos almoçar ali quando a Ruth, minha babá e agora uma espécie de governanta lá de casa, não fazia almoço. Ela ia até nossa casa três vezes por semana, para saber se está tudo bem, como dizia. Com a ausência da minha mãe e dois homens em casa, temia que aquilo virasse um caos.

Eu me servi do buffet completo e sentei de frente para o meu pai.

— Animado para a volta às aulas?

— É, pode-se dizer que sim. — Forcei um sorriso.

Ficamos em silêncio, comendo por alguns minutos até ele franzir a testa, pousar o garfo no prato e me olhar sério.

— O que aconteceu em Florianópolis?

Eu o encarei um pouco espantado.

— Como assim?

— Você voltou estranho.

— Não aconteceu nada.

Tentei ignorá-lo e voltei a comer, mas ele continuava parado me olhando. Essa mania de querer saber tudo da minha vida e se intrometer nos meus assuntos particulares me irritava. Sempre nos demos bem, mas nunca fui aberto a ponto de trocar confidências com meus pais. Com o Beto e o Caveira já era difícil. Nunca fui de falar muito, principalmente dos meus sentimentos.

— Alguma coisa aconteceu com você, Carlos Eduardo. Esta semana você esteve muito quieto.

— Eu sou quieto. — Dei de ombros.

— Sim, é verdade, mas estes dias esteve mais. Não o vi encontrar seus amigos; geralmente quando você volta das férias quase não para em casa.

— Pai, não aconteceu nada, OK? Vamos almoçar.

Ele balançou a cabeça, um pouco inconformado, e eu fiz cara de quem não queria prolongar o assunto. Ele voltou a comer para logo depois abrir um sorriso.

— Olha quem está entrando.

Antes que eu visse quem era, meu pai já havia se levantado e cumprimentava um casal. Olhei e reconheci na hora os velhos amigos dos meus pais, Ivone e Manuel, pais da Juliana.

— Meu Deus, Cadu? Como você cresceu! — comentou Ivone.

Eu me levantei e a abracei, cumprimentei Manuel e olhei para trás. Ela estava ali parada, linda em um vestido amarelo. Era Juliana, sorrindo para mim. Senti meu peito pegar fogo e ao mesmo tempo gelar, enquanto minhas pernas ficavam bambas. Eu era um perfeito imbecil, não parava de babar pela namorada do meu amigo.

— Vamos, sentem-se conosco — convidou meu pai.

Ivone e Manuel não fizeram a menor cerimônia e foram logo juntando outra mesa à nossa. Meu pai cedeu o lugar dele para Juliana e começou um papo animado com os pais dela. Eu continuava em pé, feito um bobalhão, olhando para Juliana, que se aproximou da mesa. Rapidamente, sem saber por quê, corri e puxei a cadeira para que ela se sentasse.

— Que cavalheiro. — Ela sorriu. — Um perfeito mosqueteiro.

Arregalei os olhos e comecei a rir. Eu me sentei em frente a ela. O gelo havia sido quebrado.

— Então você se lembra das nossas brincadeiras de criança.

— Como poderia esquecer? Saí daqui com o título de D’Artagnan, não foi?

Senti como se uma espada tivesse atravessado meu peito. Aquilo soou como uma provocação, e eu quase engasguei com o suco. Juliana sorriu e foi para o buffet. Como eu tinha sido idiota; e, pior, ela se lembrava de tudo. Devia me odiar.

Quando Juliana voltou, eu ainda pensava em algo para falar, mas ela foi mais rápida.

— Não precisa me olhar assim, Cadu. Não ligo que não tenha contado para os meninos.

Eu a encarei, espantado. Como ela sabia que eu não havia falado nada na época?

— Juju, eu... — Estava muito sem graça.

— Você não tem que explicar nada. — Ela continuava sorrindo. — Eu que era uma boba e idolatrava você. Vocês. — Ela parou de sorrir. — Quando voltei, em dezembro, encontrei o Beto e conversamos sobre aquela época. Aí surgiu o assunto e eu fiquei sabendo que você não tinha comentado com eles sobre meu último pedido. — Ela deu de ombros.

— Eu era uma criança idiota. — O que iria falar? Que a detestava mais do que tudo naquela época?

— Todos nós éramos. — Ela sorriu de novo, tornando o clima mais ameno. — Imagino que minha volta tenha sido uma surpresa.

— Sim, foi.

— Só a Alice sabia que isso poderia acontecer. Nunca perdemos o contato e sempre trocamos e-mails. Ela me mandou algumas fotos de vocês durante esses anos. Foi legal acompanhar o crescimento de todos, mesmo que de longe.

— E foi a Alice que jogou você nos braços do irmão dela — eu disse, com um pouco de raiva na voz. Se ela percebeu, não demonstrou, apenas deu uma gargalhada.

— Não. Como falei, reencontrei o Beto assim que cheguei aqui, por causa da minha amizade com a Alice. Começamos a sair sempre juntos e acabou rolando.

Senti uma raiva tremenda de ter ido logo para Florianópolis. Se esperasse até o Natal, como meu pai queria, talvez os dois não estivessem namorando. Meu Deus, como eu podia pensar isso? Eles estavam juntos e felizes, e eu queria ser o quê? O babaca que estraga o namoro do amigo? Precisava tirar esses pensamentos da cabeça urgente!

Fiquei um tempo quieto, apenas a observando almoçar. Era toda linda, delicada. Estava perdido em meus pensamentos quando ela me olhou.

— O que foi? — Parecia um pouco constrangida com meus olhares, e eu me senti embaraçado.

— Nada... Só estava vendo como você mudou.

— Eu tinha 8 anos quando saí daqui, Cadu! Estou com 16 agora, quase 17, é claro que mudei.

— Eu sei. — Dei um sorriso sem graça. — É estranho te rever depois de tanto tempo.

— É. — Ela balançou a cabeça, mas não tive muita certeza sobre a parte com a qual ela concordava. Depois foi a sua vez de ficar quieta. Mal percebíamos nossos pais ao lado, conversando animadamente. — Você tem que ir lá em casa ver as fotos de Porto Alegre. Saber como foi minha vida até hoje.

— Vou adorar.

Meu rosto deve ter ficado vermelho depois de ter falado aquilo. Ela sorriu, um sorriso de quem gostou do que ouviu, o que me deixou menos desconfortável.

— Quero muito ser sua amiga. — Ela tocou minha mão, que estava em cima da mesa, e um arrepio percorreu meu corpo. Eu me senti um tolo. — Quero ser sua amiga.

— Também quero ser seu amigo — respondi, engasgando, não demonstrando convicção. Antes que ela pensasse alguma coisa, tentei corrigir. — Afinal, você é a namorada do meu melhor amigo.

Ela balançou novamente a cabeça e me encarou.

— Não é disso que estou falando. Sempre gostei de vocês todos, mas você era diferente, talvez por ter sido o mais próximo de mim, talvez por eu ter morado em frente à sua casa. Sei que nunca fomos amigos, mas sempre quis isso e agora podemos tentar.

— Claro.

Eu tentaria tudo o que ela quisesse. É claro que iria querer ser amigo dela, mesmo que só isso. Não hesitaria nem um instante para ter Juliana ao meu lado. Novamente me senti um tolo, um idiota. E fiquei com raiva por sentir aquilo tudo. Muita raiva, porque naquele momento percebi o que estava acontecendo comigo: estava começando a me apaixonar pela namorada do meu amigo e não conseguia evitar que isso acontecesse. Por mais que eu tentasse, não conseguia parar de pensar em Juliana desde que a revi.

 

Cheguei em casa e fui para o quarto. Fiquei com medo de que meu pai viesse atrás, mas graças a Deus ele não veio. Fechei a porta e me deitei na cama, pensando no almoço. Adormeci e acordei com alguém batendo na porta. Abri os olhos e vi o Beto colocar a cabeça dentro do quarto.

— Posso entrar? — perguntou ele, já entrando. Eu me sentei na cama e esfreguei os olhos.

— Acho que peguei no sono. Que horas são?

—Umas cinco da tarde. — Ele ficou me olhando, como se tivesse algo importante para falar e hesitasse. — Você está estranho, Cadu.

— Eu? Imagina, impressão sua. — É claro que ele não acreditou. Nunca fui bom com mentiras.

— Aconteceu alguma coisa? Algo em Floripa? Ou aqui?

— Não aconteceu nada. — Menti novamente, olhando para baixo. Não conseguia encará-lo.

Beto se sentou na outra extremidade da minha cama e ficou me olhando. Eu podia sentir o peso do olhar dele.

— Você está estranho. O Caveira disse que não notou nada; ele às vezes é desligado, mas eu notei. Desde que você voltou de viagem está distante. A gente quase não se encontra.

Ele ficou quieto, esperando uma resposta, que não veio. O que eu podia falar? Ele era a única pessoa com quem não poderia me abrir. Suspirei e esfreguei o rosto com as mãos.

— Não foi nada, Beto, juro. Acho que é só cansaço, sei lá. Talvez esteja cansado de passar três meses longe, do meu pai pegando no meu pé.

— Entendo. — Ele continuava me olhando. — Cara, se eu tiver feito alguma coisa, me fala. Você sabe que nossa amizade é importante demais pra mim. Gosto muito do Caveira, mas sempre me dei melhor com você.

— Eu sei. — Balancei a cabeça, sentindo meu coração apertar.

— Só fiquei preocupado. — Ele se levantou e olhou em volta. Parecia um pouco desconfortável.

— Senta aí. — Eu sorri, tentando voltar a ser o velho Cadu de sempre. — Conta como foram as férias.

— Você já sabe. — Ele riu e se sentou. — Tenho que confessar algo. Reencontrar a Juliana foi uma das melhores coisas que me aconteceram. Sei que sempre fui um safado com as meninas daqui, mas ela é diferente. Estou gostando dela de verdade.

— Fico feliz por saber. — Dei um sorriso forçado, me sentindo ainda pior do que já vinha me sentindo.

— Nunca imaginei que ficar apaixonado fosse tão bom.

— É. — Menti. Aí já não podia concordar. Estava odiando me sentir apaixonado.

— Ela é tão doce! Tão interessante...

Beto começou a descrever todas as qualidades da Juliana e eu fiquei ali, ouvindo tudo como se fosse o melhor dos amigos. Se ele soubesse...

— Ela parece gostar de você — disse. Não sei de onde tirei isso, nem por que falei.

— Espero que sim. — Ele riu. — Aliás, também vim falar uma coisa. Sábado cedinho vou com a Alice pra Belo Horizonte. Ela vai participar de um concurso de beleza lá e só voltamos no domingo. E sábado tem o baile no Clube Pitangueiras, você vai?

— O Caveira já comprou os convites. Não tenho muita escolha.

— É, o Caveira não perde um baile. Mas, voltando ao assunto, a Ju vai também, e você sabe como são os caras daqui.

Do que ele estava falando? Seria uma indireta? Minha mente deu mil voltas e eu franzi a testa.

— Você acha que ela pode te trair? — perguntei, espantado. Pelo pouco que a conhecia, Juliana não parecia esse tipo de garota.

— Não. Acho que não, mas nunca se sabe. — Ele me olhou um pouco sem graça. — Não estou acostumado a namorar. Na verdade, estou acostumado a trair e a me divertir com as garotas, isso sim.

— Sei... E você acha que pode pagar por isso agora? — Tive de rir.

— Claro que não! — Ele parecia indignado, mas me olhou pensativo. — Você acha?

— Sei lá. Nunca ouviu falar em carma? Aqui se faz, aqui se paga?

— Você está me deixando pior do que eu já estava.

Dei uma gargalhada e fiquei com pena do meu amigo.

— Desculpa, mas foi divertido ver a sua cara. Olha, Beto, se você namora a Juju, tem que confiar nela do mesmo jeito que ela confia em você.

— Eu sei... Mas não custa evitar.

— E o que você quer que eu faça? Que impeça que ela vá ao baile?

— Não. Nem tem como, né? Não vou ser o tipo de namorado ciumento, que não deixa a namorada se divertir. Mas você pode ficar perto dela a noite toda... Meio que vigiando.

— Você quer que eu grude na Juliana e fique de guarda-costas dela? — Arregalei os olhos.

— Mais ou menos. Sei que você não gostava muito dela quando era criança, mas agora ela mudou. Isso se você não estiver interessado em nenhuma garota que vai estar no baile, claro...

Estou sim, na sua namorada, pensei.

Fiquei quieto. Não seria má ideia ter uma desculpa para ficar a noite toda com a Juliana. Afinal de contas, ela era minha amiga também.

— Tudo bem, posso fazer companhia pra Juju no baile — respondi, como se fosse um grande sacrifício para mim.

— Valeu, Cadu. Vou falar pra ela. O que acha de irmos agora lá no Bar do Tavares?

Olhei para o Beto e concordei. Apesar de tudo, queria que ele fosse feliz, queria que desse certo. Gosto demais desse cara para querer que o namoro termine. Embora deseja muito a garota dele. Chegamos rapidamente ao Bar do Tavares, um lugar simples, perto de casa, que frequentamos desde o início da adolescência, geralmente às quintas-feiras. O Caveira estava sentado em uma mesa no canto e acenou para nós.

— Que demora, Beto! Você disse que só ia chamar o Cadu.

— Para de reclamar!

Beto se sentou de frente para o Caveira e de costas para a rua. Eu me sentei ao lado do Caveira, enquanto Tavares, um bonachão de 60 anos, se aproximava com uma cerveja e três copos.

— Os Três Mosqueteiros estão de volta. — Ele me cumprimentou.

— Um dia eu tinha que voltar.

— Você fez falta, Aramis.

Tavares foi a primeira e única pessoa que sempre nos chamou pelos nomes dos mosqueteiros. Beto era Athos, o conquistador, Caveira era Porthos, o beberrão e farrista, e eu era Aramis, mais pela timidez do que por ser religioso como esse espadachim. Ou talvez porque era o que me sobrou.

Ele se afastou sem precisar anotar os pedidos. Sempre que vamos lá é cerveja e picanha na chapa com fritas.

— Cadu, tem festa amanhã em Rioazul; já peguei nossos convites.

— Então não tenho como falar não — disse para o Caveira.

Rioazul fica a uns dez quilômetros de Rio das Pitangas, e, embora seja uma cidade bem pequena, tem festas excelentes.

— Ei, e eu? — protestou Beto.

— Você tem namorada. — Caveira fez uma careta. — É uma festa para solteiros.

— Nossa, excluído na cara dura. — Beto tentou se fazer de coitado, mas não funcionou com a gente.

— Acostume-se à nova vida — respondi.

— À vida de preso.

— Agora serei excluído de tudo?

— De tudo não, você está aqui com a gente. — Quase falei que trocava de lugar com ele de bom grado, mas seria uma piada de mau gosto.

— Você só vai ser excluído de coisas destinadas aos solteiros — completou Caveira.

— Não vejo nada demais em ir com a Ju nessa festa. — Beto deu de ombros.

— Se toca, vamos lá pra beber e pegar mulher, Beto! A Ju vai... constranger a gente. — Caveira olhou para mim. — Já combinei com o Juca de irmos juntos. — Juca era um cara da rua do Beto que raramente bebia e era nosso “motorista” oficial em algumas festas.

Tavares chegou com a picanha, e o Beto ficou lá de cara amarrada, enquanto eu e o Caveira fazíamos planos para a noite seguinte. Seria bom para distrair e tirar um pouco a Juliana da minha cabeça.