A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 12
Encontrei o Caveira parado na porta da casa dele. Mochila jogada no chão, braços cruzados e uma cara não muito boa. Dei um suspiro e estacionei.
— Você sabe que horas são? — grunhiu ele quando entrou no carro, batendo a porta e jogando a mochila no banco de trás.
— Você está parecendo uma esposa ciumenta — resmunguei, acelerando o carro. Ele não gostou.
— Está tarde. Já perdemos metade do churrasco.
— Relaxa, Caveira, nem uma da tarde ainda e você já está de mau humor?
— O churrasco começou às dez da manhã.
— Não tenho culpa. Fiquei ajudando meu pai com as coisas do jantar, que, aliás, é pra sua mãe. Pensei que você também quisesse ver tudo perfeito.
Ele ficou quieto um tempo, olhando pela janela.
— Já não sei se esse jantar vai ser uma boa — ele falou, por fim, e eu virei os olhos.
— Nem queira pular fora agora. Já era, eles vão jantar e, se Deus quiser, se entender.
Ele ficou quieto novamente, com os braços cruzados. Tentei mudar de assunto.
— Como está seu pé?
— Melhor — disse ele, bem seco.
— Qual é, Caveira, vai ficar aí de cara amarrada? Se for, volto pra casa.
— Agora é você que está falando como uma esposa ciumenta — disse ele e começou a rir. Balancei a cabeça.
— Não se preocupe. Aposto que ainda tem mulher sozinha lá no churrasco.
Chegamos rápido à entrada de Rioazul, perto de onde ficava a chácara do Juca, mas levamos um pouco mais de tempo para encontrá-la, porque o Caveira não tinha feito um mapa decente. Depois de errar e entrar em algumas estradinhas sinistras, encontrei finalmente a chácara.
Um longo caminho, com ipês amarelos de ambos os lados, levava até a casa. A paisagem era muito bonita, dava uma sensação de paz.
Em frente à casa vimos vários carros estacionados. Deixei o meu em um canto, para não atrapalhar. Já que passaria a noite ali, não queria ter de ficar o tempo todo manobrando para que os outros pudessem sair.
— Sente só o cheirinho da carne — disse Caveira, fechando os olhos.
Peguei a minha mochila, ele pegou a dele e fomos andando para a parte de trás da casa, onde ficava a piscina e também a churrasqueira. Encontramos o Juca e a Walesca sentados em uma mesa.
— Demoraram. Achei que tinham desistido — disse ele, nos cumprimentando.
— Culpa do Cadu — disse Caveira.
— O Beto não quis vir?
— Beto agora é um homem casado — disse Caveira, servindo cerveja para nós dois.
Tentei ignorar o comentário olhando em volta para ver se achava algum rosto conhecido. Vi a Rosângela dentro da piscina e acenei.
— Ele podia ter deixado a Alice vir — reclamou Walesca.
— A Alice tem que ficar sob a vigilância dele. — Eu ri.
— Você que o diga. — Walesca piscou para mim e fingi não entender a indireta. Juca se levantou e se aproximou da gente.
— Deixa eu guardar isso aí.
Ele pegou nossas mochilas e levou para dentro da casa, enquanto Caveira avistava a garota que tinha ficado com ele na festa e me deixava ali.
— Esta é a minha prima, Samantha.
Walesca me apresentou a uma garota que estava sentada ao lado dela. Devia ter uns 20 anos, cabelos pretos lisos cortados na altura dos ombros. Não era bonita nem feia, uma garota normal.
— Carlos Eduardo, mas todo mundo me chama de Cadu — falei, me sentando ao lado de Samantha.
— Você é de Rio das Pitangas. — Samantha afirmou, não perguntou.
Ela parecia já me conhecer e eu franzi a sobrancelha, pensando de onde seria. Poderia ter passado do meu lado mil vezes e eu não ter visto ou então poderia ter visto essa garota uma vez e jurar que isso já tinha acontecido mil vezes. Um tipo de garota extremamente comum.
— Desculpe, não sou muito bom para reconhecer as pessoas — expliquei, sem graça, bebendo um pouco da cerveja. Ela sorriu.
— Na verdade esta é a primeira vez que estamos conversando.
Senti meu rosto arder de vergonha, mas mantive a pose, como se fosse algo normal, que escutasse sempre. Nunca fui bom com garotas.
— Você mora aqui em Rioazul? — Tentei mudar de assunto, para não dar mais foras.
— Não, meus pais que moram. Estou morando em Belo Horizonte, estudo Direito.
— Sério? Também estudo Direito, na Universidade Federal de Rio das Pitangas. — Dei um sorriso sincero para ela, que foi retribuído.
— Estudo na Milton Campos.
— Interessante. — Eu me virei um pouco para ela, para conversar melhor. — E gosta de Belo Horizonte?
— Sim. Vou pra lá daqui a pouco.
— E o churrasco?
— Vim aqui só pra prestigiar a Walesca. Hoje é o casamento da minha prima. Vim até Rioazul buscar meus pais. Meu pai já está mais velho e não gosta de pegar estrada, então vim ontem pra buscá-los.
— Entendi. — Balancei a cabeça. — Que pena!
Não sei de onde saiu a última frase, mas acho que a cerveja já me dava um pouco de coragem.
— Ah, mas você pode levar a Samantha em casa, assim continuam a conversa. — Walesca se intrometeu e eu fiquei com muita vergonha de ver que esse tempo todo ela estava prestando atenção na gente.
— Eu vim com o Juca — explicou Samantha.
Fiquei pensando no que devia fazer. Tinha decidido ir para Rioazul e aproveitar ao máximo o dia. O certo era deixar Juliana em Rio das Pitangas, e era isso que eu ia fazer.
— Claro, levo você com o maior prazer — respondi, tentando dar meu sorriso “conquistador” para Samantha.
— Na verdade, já está na hora de você ir — disse Walesca, e foi a vez de Samantha ficar sem graça. — Você não quer chegar tarde em Belo Horizonte, né?
— É... Ainda tenho que me arrumar para o casamento — disse ela, embaraçada com a atitude da prima.
— Sem problemas. — Eu me levantei e segurei sua mão. — Vamos?
Samantha me seguiu até meu carro e eu me surpreendi com aquela iniciativa toda. Sempre fui muito tímido em se tratando de paquera, mas a conversa com o Caveira ainda ecoava na minha cabeça, e eu sabia que precisava esquecer toda a confusão em que estava metido. Principalmente me desligar do aniversário da Juliana.
Ela foi me guiando até chegarmos à casa de seus pais. Estacionei e a olhei.
— Bom casamento e boa viagem. Dirija com cuidado.
Ficamos nos encarando um tempo.
— Você é um cara legal. Obrigada pela carona e desculpe por tirar você do churrasco.
— Que é isso? E disponha — disse e continuei encarando Samantha até levar minha mão à sua nuca e trazê-la para perto de mim. — Até qualquer dia desses — comentei, aproximando meus lábios dos dela e dando um beijo demorado.
Voltei para a chácara e encontrei Juca sentado na mesma mesa de antes, acompanhado da Walesca e do Caveira.
— Achei que tinha ido embora. — Caveira riu.
— Não. Digamos que tive apenas um pequeno atraso — disse, me sentando e sorrindo também.
Walesca e Juca deram uma gargalhada, enquanto eu me servia um copo de cerveja e pegava um pedaço de carne.
— Gostou da Samantha? — perguntou Walesca, maliciosamente, e fiquei sem graça, mas não deixei que todos percebessem.
— Ela é legal.
— Ela já queria ficar com você desde o ano passado — comentou Juca, e Walesca deu um tapa em seu braço.
— Seu dedo-duro! — Ela deu uma bronca nele.
— Achei que não tinha problema contar. — Ele deu de ombros e se virou para mim. — Acho que ela te viu em uma festa ou algo assim.
— Foi em uma festa lá em Rio das Pitangas; você namorava a Talita — explicou Walesca, ainda olhando feio para o namorado.
Eu apenas sorri. Juca tentou se redimir mudando de assunto.
— Você está cinco doses atrasado. — Ele colocou na minha frente um copo pequeno e uma garrafa de cachaça.
— Vocês já beberam cinco doses enquanto eu fui até a cidade? — Tentei me espantar, mas, vindo do Caveira, não era de admirar. — Não sabia que você bebia, Juca.
— Não costumo beber, mas hoje decidi encher a cara.
— Ah, não! — protestou Walesca, e Juca a abraçou.
— Vamos, Cadu, pode começar a beber. — Caveira serviu cachaça no copo, derramando mais fora do que dentro.
— Calma, deixa eu molhar a garganta antes — falei, dando um gole na minha cerveja.
— Você está fugindo da cachaça. — Juca empurrou o copinho para mim. — Pode virar.
Virei rapidamente e senti uma queimação surgir conforme a bebida descia pela minha garganta. Fiz uma leve careta e apertei os olhos. Todos riram.
— Não estou fugindo; só estou aquecendo.
Uma garota se aproximou e se sentou ao lado do Caveira, me olhando.
— Oi, Cadu.
— Oi... — Eu a olhei, sabia que era a garota com quem o Caveira tinha ficado na festa em Rioazul, mas não lembrava seu nome.
— Martinha. — Ela me ajudou, rindo ao perceber que eu havia esquecido o seu nome.
— Desculpe, sou péssimo para nomes.
Walesca começou a rir, provavelmente porque lembrou que eu havia dado uma desculpa parecida para sua prima.
— Não é o dela que você tem que guardar — disse Caveira, olhando para Rosângela, que estava saindo da piscina.
— Ela nem deve mais querer me ver — comentei, virando minha segunda dose de cachaça. Estava mesmo disposto a esquecer todos os problemas naquele dia.
— Imagina! — Martinha olhou para Rosângela e a chamou. Virei a terceira dose enquanto ela se aproximava.
— Lembra do Cadu? — perguntou Martinha.
— Lembro. Resta saber se ele lembra de mim — alfinetou Rosângela. Eu a encarei e dei meu sorriso “cafajeste”. Estava testando todos os tipos de sorriso que uma pessoa podia dar, e, por incrível que pareça, acho que estava funcionando.
— É claro que sim. — Segurei sua mão e ela veio para perto, ficando atrás de mim. Rosângela começou a massagear minhas costas e meus ombros.
— Vamos, Cadu, você só está enrolando. — Juca empurrou mais um copo de cachaça na minha direção.
— Ei, calma aí. Isso é para ser degustado, e não entornado — protestei.
— Falou o apreciador de bebidas. Parece até um entendido do assunto — disse Caveira, dando um beijo em Martinha.
Bebi um pouco da cerveja e depois virei a quarta dose de cachaça. Peguei a mão de Rosângela e a puxei, fazendo-a se sentar no meu colo. Ela me molhou com a água da piscina que ainda estava em seu biquíni, mas não me importei.
— Você nem conversou comigo direito no baile. — Rosângela falou, com voz manhosa, enquanto colocava os braços em volta do meu pescoço.
— Estava com a namorada do meu amigo. Ele me pediu pra tomar conta dela no baile — disse, dando um beijo em seu ombro. Minha mão deslizou ao longo de sua coxa e ela não se importou. — E também ela é amiga da minha ex. Terminei um namoro faz pouco tempo. — Menti descaradamente. — Não queria uma situação embaraçosa, já que minha ex também estava no baile.
Enfiei meu rosto no pescoço de Rosângela, dando um beijo em sua nuca. Ela estremeceu e eu a puxei ainda mais para perto, beijando seus lábios.
— O que vocês acham de uma competição de cachaça? — propôs Caveira.
— Do tipo quem é o último a ficar de pé? — perguntou Juca, já visivelmente alterado.
— Não, vocês não vão beber até cair — protestou Walesca novamente.
— Desculpem — falei, virando a quinta e última dose. — Acabei com minha cota do dia. Hoje quero ficar bem acordado.
Eu me levantei e puxei Rosângela, enquanto na mesa todos ficaram falando gracinhas e besteiras para nós.
Fui até a frente da casa, que estava mais sossegada, apenas com alguns casais se agarrando escondidos entre um carro e outro. Eu me sentei em um sofá que havia ali e puxei Rosângela novamente para o meu colo.
— Você vai dormir aqui? — perguntou ela, dando vários beijos pelo meu rosto.
— Vou. E você?
— Também. — Ela aproximou a boca da minha orelha, deu uma leve mordida e sussurrou. — Tenho um quarto só pra mim aqui.
Senti um arrepio percorrer o corpo e a encarei.
— O que acha de irmos pra lá? Podemos ficar mais à vontade — convidei.
Rosângela sorriu maliciosamente e me levou pela casa até o quarto que seria somente dela naquela noite.