A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 31 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 27

 

O almoço correu melhor do que eu esperava, pois as atenções ficaram voltadas para o Otávio. Tinha sofrido à toa, mas eu não sabia que ele estaria por lá, e me senti vingado pelo fato de a Emília não ter me contado antes. Juliana não apareceu em momento algum da tarde. Ficamos na sala vendo TV até o começo da noite.

Deixei Alice e fui para casa me arrumar para voltar a encontrá-la algumas horas depois no Trem Bão. Eu me ofereci para buscá-la, mas ela ia antes encontrar Juliana, e Beto pegaria as duas.

Cheguei ao Trem Bão e já estava lotado. Uma banda tocava sucessos do rock nacional e internacional e várias pessoas se acotovelavam na pista de dança interna do bar. Avistei Beto, Juliana e Alice em uma mesa no fundo na varanda, onde sempre sentávamos.

Eu me sentei ao lado de Alice e olhei para Juliana, que desviou o olhar na mesma hora.

Logo depois, Emília e Otávio chegaram. Enquanto eles se ajeitavam, Alice aproveitou para ir falar com algumas amigas que estavam em uma mesa próxima. Beto e Otávio saíram para buscar duas cadeiras, e Emília falava distraidamente ao celular. Eu estava sozinho em pé ao lado de Juliana, para ajeitarmos as cadeiras, e não perdi a oportunidade. Segurei sua mão delicadamente, mas impedindo que ela se soltasse.

— Precisamos conversar — disse, sério.

— Você está maluco? Alguém pode ver. — Ela olhava para os lados.

— Precisamos conversar — repeti.

— Nós já conversamos — sussurrou ela, vigiando Emília, que não prestava a mínima atenção em nós.

— Não aceito aquilo como conversa.

— Para com isso, Cadu. Chega, eu quero ficar com o Beto.

— Quer mesmo? — Cerrei os olhos.

Ela hesitou por um momento, mas viu o namorado se aproximando.

— Quero. Eu gosto dele e já estou te esquecendo.

Aquelas palavras feriram meu coração. Não sei se ela falou da boca pra fora ou se era verdade. Eu não queria nem podia aceitar que Juliana estivesse me esquecendo.

Fiquei encarando-a até o Beto se sentar e ela se jogar nos braços dele, dando um beijo longo e, aparentemente, apaixonado. Eu me controlei e fiquei feliz quando Alice voltou. Embora não a amasse, quando estava ao seu lado me sentia calmo. E, não posso negar, sentia uma forte atração física por ela. Tinha todo o pacote para me apaixonar, mas não conseguia. Dizia o tempo todo para mim mesmo que ainda era cedo demais, mas a verdade é que não queria esquecer Juliana, não podia, nem conseguia. Era mais forte que tudo. Só que, ao ver as demonstrações de amor dela para o Beto, minha raiva voltou com força total.

— Vamos dançar? — perguntou Alice, com os olhos brilhando.

— Eu não danço muito bem — respondi, dando um longo gole na cerveja e desviando o olhar da Juliana.

— Não me importo com isso. Só quero dançar com você. — Seu jeito era meigo e seus olhos brilhavam. Não tinha como falar não.

Eu me levantei, e a Alice me acompanhou até a pista de dança. A banda tocava uma música não muito rápida, o que me ajudou. Alice dançava com uma leveza que me deixou com inveja. Ela se mexia de um jeito sensual, e os homens em volta começaram a olhá-la. Eu me senti orgulhoso da minha namorada e a puxei para perto, beijando-a para mostrar a todos que ela já estava comprometida. Ficamos um tempo dançando abraçados até que a levei para longe da pista. Eu me encostei na parede e a abracei pela cintura, enquanto ela colocou os braços em volta do meu pescoço.

— Meu pai pediu pra eu te convidar pra almoçar amanhã lá em casa — disse em seu ouvido por causa do barulho da banda.

— Eu vou sim — sussurrou ela. — Foi ruim hoje?

— Não. Eu gostei. — Fui sincero.

Eu a abracei forte e comecei a beijar seu pescoço. Senti Alice estremecer e meu coração acelerou. Deixei me perder em seus beijos, em uma tentativa de esquecer Juliana.

Já não pensava mais no meu grande amor quando senti um toque no meu ombro. Abri os olhos e vi o Beto parado atrás da Alice, de braços cruzados.

— Muito bonito — disse ele, sério, mas depois sorriu e eu relaxei um pouco. Fiquei com medo de ele fazer uma cena ali por eu estar agarrando sua irmã.

Alice o olhou com raiva.

— O que foi? — perguntou ela, sem paciência. — Vai falar que não posso beijar meu namorado?

— Não vim aqui pra brigar. Quero falar com o Cadu.

Alice levantou uma das sobrancelhas e me olhou.

— Ei, não é nada sobre você! — Beto se defendeu.

— Eu vou pra nossa mesa — disse ela, e me deu um beijo rápido.

Fiquei observando Alice desaparecer entre as pessoas que dançavam ali perto.

— Vamos lá pra fora. Aqui não dá pra conversar direito. — Beto indicou a saída e eu fui na frente, tentando imaginar o que ele queria.

— E aí? — perguntei, quando cheguei do lado de fora do bar.

— Você pode levar a Alice pra casa?

— Claro. — Estranhei a pergunta. — Você já está pensando em ir embora?

— É... Não vou direto pra casa. — Ele olhou para os lados, deu um sorriso malicioso e falou mais baixo. — Vou com a Ju até o Mirante.

Gelei por dentro. O Mirante é um lugar fora de Rio das Pitangas, em uma montanha onde se vê toda a cidade. É mesmo um mirante, mas muito grande, com uma vista linda. À noite vários carros de namorados estacionam ali pra ficar mais à vontade. Senti raiva por dentro só de pensar no Beto e na Juliana a sós lá.

— A Juju não é garota de ir para o Mirante — disse, em tom ríspido.

— Ah, qual é, Cadu? Toda garota de Rio das Pitangas vai para o Mirante ficar com o namorado. E não vai acontecer nada, só quero ficar sozinho com minha namorada sem ninguém por perto. Ela não quer ir lá pra casa, o que eu posso fazer?

Fiquei calado; não havia nada que pudesse falar. Ela era namorada dele e queria ir, quem era eu para impedir? Fiquei um tempo tentando pensar qual seria a reação do Beto se eu falasse que iria levar a irmã dele para o Mirante. Mas a verdade é que eu não precisava ir até lá: eu tinha minha casa. Agora, com meu pai ficando às vezes na casa da Matilde, tinha a casa toda só para mim. E, mesmo que ele estivesse lá, meu pai tem o sono tão pesado que posso entrar com uma garota, levá-la ao meu quarto e ele nem vai perceber. Já na casa do Beto havia tanta gente que era difícil ser discreto.

— Sem problemas. Levo Alice pra casa — disse, desanimado. Ainda bem que ele não percebeu.

— Valeu.

Voltamos para a mesa, e Beto logo disse alguma coisa no ouvido de Juliana, que ficou ruborizada com o que quer que ele tenha falado. Não gosto nem de pensar.

Eu me sentei ao lado de Alice e me virei para que ela ficasse de costas para mim. Eu a puxei, abraçando sua cintura, e afundei meu rosto em seu pescoço, tentando me distrair no seu perfume. Mas com o canto do olho eu observava cada movimento do casal ao meu lado.

Não demorou muito para que Juliana e Beto se levantassem e se despedissem de nós. Meu coração se despedaçou conforme ela foi se afastando.

— Você está bem? — perguntou Otávio. Eu o encarei um pouco espantado.

— Como?

— Você está um pouco pálido.

— Estou bem, sim. — Esbocei um sorriso e abracei Alice mais forte.

— O Beto é engraçado. Ele pode ir para o Mirante com a Juliana, mas eu não posso dar um beijo mais acalorado no meu namorado que ele já reclama — comentou Alice, fazendo uma careta.

Eu, Emília e Otávio começamos a rir do modo como ela falou.

— Ele só fica preocupado com vocês — disse.

— Poxa, você é o melhor amigo dele, deveria confiar mais. Você não é um qualquer que eu conheci numa festa.

— Hum, isso foi uma indireta pra mim? — perguntou Otávio, e Alice ficou um pouco sem graça.

— Não, que é isso? Desculpa.

Ela estava envergonhada e eu senti a necessidade de abraçá-la, para reconfortá-la. Ela me agradeceu com o olhar.

— Estou só implicando. — Otávio riu.

— Ei, irmãzinha, ele não pode nos vigiar sempre — disse Emília, piscando. — Nas horas em que ele está com a Juliana, não tem como saber onde estamos.

— Opa, vamos com calma. Eu pretendo andar na linha — falei, e Alice me olhou.

— Eu sei. — Ela olhou para Emília e Otávio. — Com o Cadu eu estou em segurança, como diz o Beto.

— O problema sou eu — disse Otávio, achando graça da situação. — Mas, depois daquele almoço à tarde, também pretendo andar na linha.

— E você vai conseguir? — perguntou Emília, de um jeito malicioso, dando um beijo atrás da orelha do namorado, que fechou os olhos por um breve momento.

— Vocês estão vendo. Ela é uma tentação e fica provocando — disse Otávio, para mim e para Alice.

— É, o nosso problema é esse. Não temos culpa se o Beto foi arrumar duas irmãs atraentes e maravilhosas — comentei, e percebi que Alice gostou do que falei.

Ficamos mais um tempo no Trem Bão e depois fui levar Alice em casa. Otávio se ofereceu para levá-la, mas neguei porque percebi que ele e a Emília pretendiam dar uma esticada não se sabe para onde. Bem, eu iria levar a Alice para casa mesmo se o Otávio fosse no mesmo horário deixar a Emília.

Estacionei em frente à casa e dei uma olhada. Estava tudo escuro.

— Acho melhor você entrar logo.

— Está com medo do meu pai? — Ela riu.

— Não é medo. É precaução.

— Sei.

— Não quero que ele comece a colocar empecilhos no nosso namoro.

— Você está certo. — Ela me deu um beijo e abriu a porta, mas segurei seu braço.

— Amanhã eu passo aqui pra te pegar ao meio-dia.

— Não precisa.

— Claro que precisa!

— Alguém aqui de casa pode me levar. — Ela deu de ombros.

— Eu faço questão de vir te buscar. — Sorri, segurei Alice pela nuca e a puxei para perto de mim, dando-lhe um intenso beijo de boa-noite. — Durma bem e sonhe comigo.

— Você também — sussurrou ela, e saiu do carro.

Fiquei observando Alice subir os poucos degraus que havia em frente à sua casa, abrir a porta, acenar e entrar. Suspirei e fui para casa, sabendo que não sonharia com ela, mas sim com Juliana e Beto no Mirante.