A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 36
Era uma quarta-feira à tarde e a Alice veio me procurar. Ela viajaria no fim de semana e queria uma despedida. Seria nossa última vez juntos, oficialmente, como namorados. Conhecendo Alice, acredito que seria nossa última vez juntos mesmo. Ela iria para São Paulo e, provavelmente, me esqueceria em breve. Mas devo confessar que essa foi a melhor de todas as vezes.
— Devíamos ter começado a nos despedir antes — brincou ela.
— Com certeza — disse e dei um beijo em sua testa.
Estava deitado na cama, abraçado a Alice, quando escutei uma batida na porta do meu quarto. Eu me assustei, porque sabia que estávamos sozinhos. Ruth já tinha ido embora e meu pai estava em uma reunião no Instituto.
Antes que pudesse me levantar e vestir algo, a porta se abriu.
— Cadu, você mandou me chamar?
Eu vi Juliana ali, parada na porta e olhando aquela cena: eu na cama com Alice. Juliana abriu a boca em uma expressão de espanto.
— Ah! — Ela saiu do quarto, deixando a porta aberta.
Eu me levantei na mesma hora, desesperado, puxando o lençol e enrolando-o na minha cintura. Saí pelo corredor atrás dela e consegui alcançá-la antes que descesse as escadas.
— Espera — disse, segurando seu braço com a mão que estava livre. A outra ainda mantinha o lençol enrolado na minha cintura. Vi algumas lágrimas escorrendo pelo seu rosto e isso partiu meu coração. Eu me senti um canalha. — Juju...
— Me deixa ir embora — sussurrou ela.
— Não, não nesse estado. A gente precisa conversar.
— Conversar o quê? — Ela me fuzilou com o olhar.
— Escuta o Cadu. — Alice chegou na porta do quarto. Ela já estava vestida e olhava aquela cena calmamente, como se não fosse nenhuma surpresa. — E me escute também.
Balancei a cabeça, sem entender nada, e percebi que algo estava errado. Olhei para Juliana.
— O que você veio fazer aqui? Como você entrou? — perguntei, pela primeira vez pensando sobre isso.
— Alice falou que você tinha pedido pra eu vir aqui exatamente neste horário, e que ia deixar a porta aberta.
Olhei para Alice, agora com um pouco de raiva.
— Você armou isso?
— Sim. — Alice foi direta, mas acho que senti sua voz falhar um pouco. Levantei a sobrancelha.
— Você está louca? — perguntei, começando a ficar com mais raiva.
— Vocês querem vir para o quarto conversar? Se o seu pai chegar, não vai ser uma cena muito interessante de ele ver — disse Alice, calmamente.
Eu ainda segurava Juliana com uma das mãos e o lençol com a outra, e fui obrigado a concordar. Olhei para Juliana.
— Vem?
Ela não se opôs e entrou no meu quarto. Parecia transtornada e sem entender o que estava acontecendo. Entrei e fiquei olhando as duas.
— Só um instante. — Peguei uma bermuda e fui até o banheiro me vestir. Voltei e encontrei as duas na mesma posição: Alice sentada na cama e Juliana em pé olhando para o nada. Ficamos os três em um silêncio profundo por um longo tempo até eu olhar para Alice. — Você pode explicar agora por que chamou a Juju aqui?
— Para ela me ver com você.
— Isso eu percebi.
Alice se levantou olhando para mim, e depois olhou para Juliana. Ela respirou fundo.
— Vocês não percebem o que precisa ser feito?
Nós dois olhamos para a Alice ainda sem entender o que ela falava.
— Meu Deus, vocês têm que contar para o Beto!
— Contar? — Eu me fiz de desentendido.
— Que vocês se amam, oras. — Alice deu uma risada nervosa. Ficou um instante quieta e depois passou ligeiramente a mão no olho esquerdo, como se enxugasse uma lágrima. — Está na cara que vocês se amam e que só não ficam juntos por causa do Beto. Ele tem que saber.
— Ele não tem que saber nada — eu disse, ainda confuso.
— Ah não? E vocês vão continuar assim? — Ela apontou para nós dois. — Juliana fica com o Beto, mas quer ficar com você. Você fica comigo ou com qualquer outra, mas quer ficar com ela. — Alice olhou para mim. — Eu te amo, te amo muito, mas você não me ama e eu não acho justo deixá-lo preso a mim. Estou indo embora, atrás dos meus sonhos, e sempre soube que você não faria parte deles. Não dos meus sonhos futuros. — Ela parou de falar e suspirou. — O que aconteceu aqui hoje é o que vai acontecer sempre na vida de vocês, se não tomarem uma atitude. — Ela olhou para Juliana. — Você não se entrega ao Beto porque quer o Cadu. Mas uma hora você vai desistir. — Ela olhou para mim. — E você não vai conseguir imaginar a Ju nos braços dele, nem vai aceitar isso.
O que Alice falava era verdade, mas nenhum de nós dois abriu a boca para dar qualquer opinião. Ela continuou.
— E com isso o Cadu vai procurar outras. Porque você sabe como são os homens — disse ela, olhando para a Juliana. — Eles não conseguem ficar sem uma mulher na cama.
— Ei! — Tentei protestar, mas Alice me calou.
— É verdade. Eu não joguei com você, quis mesmo que fosse o primeiro. Mesmo sabendo que a Juliana gostava de você. Mas eu também gosto. — Ela olhou para Juliana novamente. — Acabei me apaixonando pelo Cadu quando você estava em Porto Alegre, de tanto que me perguntava dele. Como sempre precisava dar informações para você, passei a reparar mais no Cadu. E aconteceu. Mesmo sabendo que você gostava dele, não consegui impedir, foi mais forte do que eu. Tentei controlar, mas não deu. Sinto muito, Ju... — Ela olhou para mim, se aproximou e pegou minha mão. — E você sabe como é essa sensação, afinal se apaixonou pela Ju quando ela já estava com o Beto. Eu percebi isso, uma garota sabe por quem o cara que ela gosta é apaixonado. Você não deu bandeira, não se preocupe; o Beto nem sonha com isso, mas eu consegui perceber.
Alice ficou quieta para tomar fôlego e ver se algum de nós falava algo. Eu olhava para Juliana, que olhava para baixo o tempo todo.
— No seu aniversário, Ju, vi minha chance de tentar fazer o Cadu gostar de mim. E eu tentei, só que era tarde demais, porque ele já te amava. Mas eu pude ter meus momentos com o cara que gosto e não ia deixar isso passar. O que aconteceu aqui hoje, o que eu fiz acontecer, foi mostrar isso, que vocês não podem continuar assim. Posso considerar um presente meu para vocês, mesmo que no momento não pareça, e tenho certeza que a Ju está morrendo de raiva de mim e de você, Cadu.
— Não estou — disse Juliana, finalmente, sem convicção na voz. Alice se aproximou dela, mas sem a tocar.
— Ju, tome uma atitude. Faça como eu: se é ele que você quer, lute. Não fique enrolando meu irmão, porque isso só vai ser pior para ele. E para vocês também. Ou você quer ver de novo essa cena, com outra garota nos braços do Cadu?
Juliana não respondeu e eu me aproximei das duas.
— Não é tão simples, Alice. O Beto jamais vai aceitar.
— Ele pode não aceitar agora, mas não vai ser o fim do mundo. Ele vai sobreviver. Eu sobrevivi e vou continuar sobrevivendo. Vou sofrer, mas vou te esquecer um dia. Vai restar um carinho grande e uma boa lembrança dos momentos que passamos juntos. Eu tentei, mas não consegui que você se apaixonasse por mim, então não há mais nada que eu possa fazer.
Alice pegou sua bolsa, ficou uns instantes quieta e depois foi até a porta do quarto.
— Era isso que eu tinha pra falar. Agora está nas mãos de vocês.
Ela saiu e eu fiquei ali parado olhando para Juliana, que ainda olhava para baixo. Eu não sabia o que fazer. Dei um passo para a frente, mas Juliana recuou e então eu parei. De repente, ela caiu em prantos e foi descendo lentamente até se sentar no chão.
— Juju. — Eu corri e a abracei.
— Por quê? Por quê?
— Desculpa — eu disse, dando um beijo na testa dela.
— Estou com raiva, mas ao mesmo tempo não posso cobrar nada de você.
— Desculpa. Eu não devia ter deixado acontecer, mas não consegui resistir. — Ela começou a chorar mais e me senti o pior dos mortais. — A Alice está certa, vou falar com o Beto. De hoje não passa.
Juliana me olhou assustada.
— O que você vai fazer?
— Vou falar a verdade. Que me apaixonei por você no primeiro instante em que te vi. Que te revi. Eu não fiz de propósito, aconteceu... e ele tem que aceitar.
Ela ficou calada, mordendo o lábio inferior.
— Você vai falar de mim?
— Não. Não vou falar nada de você, apenas de mim.
— Mas eu acho que também preciso conversar com ele.
— Você fala a hora que quiser, não vou te apressar. Se você decidir ficar com ele mais um tempo, vou entender. Mas eu não vou esperar mais porque não vou aguentar te ver assim de novo, então, antes que aconteça qualquer coisa, vou jogar limpo com o Beto. Se já tivesse feito isso antes, você não precisaria ter passado pelo que passou hoje.
Juliana não respondeu, apenas me deu um abraço forte e saiu do quarto. Eu me levantei e fui trocar de roupa para ter uma conversa decisiva com meu melhor amigo. O momento tão temido por mim havia chegado...