A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 41 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 37

 

Os momentos de decisão são importantes em nossa vida, mas nem sempre significam algo bom ou fácil. Era o que eu pensava parado em frente à casa do Beto, onde fiquei por alguns minutos. Tentava acalmar minha respiração, mas estava nervoso demais. Sabia que precisava entrar e terminar logo com isso, até porque alguém podia aparecer ali, mas não conseguia. Aquele encontro causaria uma grande mudança na minha vida, e eu tinha a impressão de que não seria uma boa coisa. Eu até poderia ficar com a Juliana, mas a que preço? Bem, o preço seria a amizade com o Beto.

Era inevitável, eu vinha me enganando, pensando que nunca precisaria revelar meu segredo para o Beto, só que agora não podia mais, precisava contar a verdade e conviver com a consequência desse amor proibido. Finalmente, depois de fechar os olhos e inspirar profundamente, toquei a campainha. Para minha surpresa, Alice atendeu.

— Cadu? O que houve?

— Vim falar com o Beto — disse, de uma vez.

— Nossa! — Ela arregalou os olhos. — Não imaginei que seria tão rápido... Bom, já não era sem tempo. É melhor acabar logo com isso.

Concordei, a Alice tinha razão.

Ela saiu da frente e eu entrei.

— Estou com medo, confesso.

— O Beto te adora. É claro que ele vai ficar abalado quando você contar tudo, mas aos poucos vai entender.

— Assim espero. — Forcei um sorriso.

— Ele está lá no quarto.

Olhei para as escadas e fui subindo degrau por degrau, bem devagar. Alice deve ter ficado rindo de mim, daquele jeito dela, mas não olhei para trás para conferir.

Parei em frente à porta do quarto do Beto e senti meu corpo todo gelar. O coração parecia que ia parar de bater e meu estômago revirava. A vontade era sair correndo dali e deixar pra lá, mas a imagem de Juliana no meu quarto me fez seguir adiante. Não tinha mais como adiar.

Dei uma batida de leve e escutei o Beto gritar lá de dentro para eu entrar. Abri a porta, sorri para ele, ou pelo menos tentei sorrir, e entrei no quarto.

— E aí, Cadu? Veio repassar o julgamento de sexta? — perguntou ele. Estava sentado na cama, mexendo no notebook.

Sei que estava brincando, porque não precisava repassar nada. Naquele momento, eu nem lembrava mais da nossa apresentação.

— Não. Vim conversar com você.

Ele deve ter percebido meu tom de voz estranho, porque ficou sério no mesmo instante.

— O que foi? Aconteceu algo?

— Sim e não. — Respirei fundo e passei a mão no cabelo. — Não sei por onde começar...

— O que você fez com a Alice? — perguntou ele, se levantando, enquanto deixava o notebook de lado.

— Calma, não fiz nada. Não é sobre a Alice. — Dei de ombros. — Em parte envolve a Alice também.

— O que é? Você está me deixando nervoso.

— Calma... Eu preciso que você me deixe falar tudo porque é difícil e não sei por onde começar. — Fiz o Beto se sentar na cama, mas eu estava nervoso demais e fiquei em pé, em frente a ele. — Beto, o que eu vou te falar vai fazer você me odiar muito, não querer mais ser meu amigo, mas você precisa entender que não tive culpa, foi mais forte do que eu, tentei resistir, mas não tive como.

— Você está me assustando. O que foi? Fala de uma vez!

Eu o olhei e prendi a respiração.

— Eu me apaixonei pela Juliana — confessei, rapidamente.

— O quê? — Ele franziu a sobrancelha, com uma expressão de confusão e raiva surgindo no rosto.

— Deixa eu explicar... Eu não quis que acontecesse, mas aconteceu. No dia em que voltei de viagem, quando vi a Juliana no Bebe Aqui. Foi mais forte do que eu, foi paixão à primeira vista, e eu me senti mal por isso, por você. Tentei resistir esse tempo todo, tentei esquecê-la por sua causa, porque gosto demais de você e não queria que isso atrapalhasse nossa amizade, mas não consegui. Tentei gostar da Alice, mas não deu. A única coisa que posso pedir é que me perdoe, mas não posso mais guardar isso comigo.

Fiquei quieto e deixei Beto digerir tudo o que eu havia falado. Ele ficou calado. Depois de um tempo, balançou a cabeça, me olhou com raiva, se levantou e veio para perto de mim.

— Você está dizendo que esse tempo todo usou a minha irmã? Que nunca gostou dela? Que na verdade você sempre quis a minha namorada? É isso? — A voz dele soava com uma raiva que eu nunca havia visto.

— Não é bem assim. Eu gosto da Alice, mas não a amo, e ela sempre soube disso. Eu tentei gostar dela, tentei esquecer a Juliana, mas não consegui.

Beto segurou minha camisa pela gola.

— Você é um traíra. Um cretino! Um babaca idiota e eu te odeio! — gritou ele, quase espumando de tanto ódio que sentia naquele momento por mim.

— Beto... Eu gosto muito de você, é como se fôssemos irmãos. Não queria que isso acontecesse, mas não tive culpa... não mando no meu coração.

— Sai daqui, seu traíra. Sai daqui agora! Não quero ver a sua cara nunca mais! — Ele me deu um soco na boca, me empurrou para fora do quarto e bateu a porta, com um forte estrondo percorrendo a casa toda.

Alice chegou rapidamente, subindo as escadas e me encontrando jogado no chão.

— Foi tão ruim assim?

Eu a olhei. Tinha lágrimas nos meus olhos e apenas consegui balançar a cabeça afirmativamente. Ela veio em minha direção, tocou onde o Beto havia batido e me abraçou. Senti gosto de sangue na boca e percebi que havia um corte ali.

— Ele me odeia.

— Ele te odeia agora, mas daqui a pouco, quando conseguir assimilar tudo, vai se acalmar.

— Não sei...

— Vou tentar falar com ele.

— Valeu. — Eu me afastei dela e me levantei. — Você é uma garota legal. Queria ter me apaixonado por você.

— Eu também queria, mas não deu. — Ela olhou para mim e vi tristeza em seu rosto. Embora estivesse se fazendo de durona, eu sabia que Alice estava sofrendo. Pensei em abraçá-la, dizer alguma coisa, mas isso só iria piorar a situação. Se ela queria fingir que não estava sentindo nada, eu não ia atrapalhar. — Vai pra casa agora, porque daí não vai conseguir mais nada hoje — disse, apontando para o quarto do Beto.

 

Era um daqueles momentos nos quais sua vida passa diante de seus olhos. Sentado em minha cama, olhando para o nada, eu me perguntei por que isso tudo tinha que acontecer comigo.

Eu me sentia a pior pessoa do mundo, e, toda vez que me lembrava do olhar de raiva do Beto para mim, meu coração ficava apertado e eu começava a chorar. Sei que parecia um canalha, mas tentei resistir. Tentei não gostar da Juliana, tentei esquecê-la. Ok, posso não ter tentado com vontade, mas queria que meu amigo fosse feliz e tentei me apaixonar pela Alice, de verdade, infelizmente não escolhemos quem vamos amar.

Meu celular tocou e eu hesitei em atender, mas peguei o aparelho na esperança de ser o Beto. Era o Caveira.

— E aí, vamos tomar uma hoje?

— Desculpa, não vai dar — respondi, com uma voz desanimada, e ele ficou um instante mudo, como se tivesse percebido algo errado.

— O que aconteceu?

— Eu contei tudo pro Beto.

— Tudo o quê?

— Tudo. Da Juju. Falei tudo que sinto por ela.

— Merda. — Caveira desligou e eu sabia que ele estava vindo para minha casa.

Não deu dez minutos e ele entrou no meu quarto.

— Que merda, Cadu! — disse ele, se aproximando.

— O Beto me odeia — falei, aos prantos.

Caveira se aproximou da cama onde eu estava sentado e colocou a mão no meu ombro.

— Não odeia. Ele só está chateado, magoado, mas não te odeia — disse ele, mais para se convencer do que para me convencer.

— Acho que ele nunca mais vai falar comigo.

Caveira se sentou ao meu lado. Ele deve ter percebido meu lábio inchado e o pequeno corte, mas não falou nada. Não precisava; devia imaginar que o Beto havia me batido.

— Dê tempo ao tempo. — Ele tirou a mão do meu ombro. — Como isso aconteceu? Por que você decidiu abrir o jogo pra ele?

Contei sobre o flagrante que Alice armou, minha conversa com a Juliana e o encontro com o Beto.

— Sabe, apesar de tudo, agora estou me sentindo aliviado.

— Imagino que sim.

— Só que não sei o que fazer.

— Deixa o Beto um pouco sozinho. Ele precisa pensar no que você falou, porque deve ter sido um choque pra ele.

— É, você tem razão. A Alice falou mais ou menos a mesma coisa.

— Vamos fazer o seguinte: eu vou até lá e vejo como ele está.

— Será que ele vai te atender?

— Não sei, mas finjo que não sei de nada, que não falei com você ainda.