A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 28 de 44

Páginas do PDF

A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 24

 

Na segunda-feira, após a aula, encontrei Ruth na cozinha ao entrar em casa.

— Oi, que cheiro bom é esse? — perguntei, dando um abraço em minha antiga babá.

— Estou assando lombo com batata.

— Uau, lombo com batata em plena segunda-feira?

Espantei-me porque durante a semana a Ruth costumava fazer comidas simples e deixava os lombos para o fim de semana.

— Pedi para seu pai convidar dona Matilde e o filho dela para almoçarem aqui.

— Ah, agora entendi.

Fiquei feliz em saber que o Caveira iria na minha casa. Queria falar com ele logo, mas ia estudar com o Beto durante a tarde e encontrar Alice à noite, então aquele almoço foi providencial. Eu me sentei em uma das cadeiras ali da cozinha e fiquei vendo Ruth arrumar as coisas.

— Fico feliz pelo seu pai. Desde que sua mãe ainda morava aqui que não o via tão animado.

— É, o velho está apaixonado.

Ela parou de fazer o que estava fazendo na pia e me olhou.

— E você? Como está?

— Não poderia estar mais feliz com esse namoro. Ele esqueceu de implicar comigo, como imaginava que aconteceria se ele arrumasse alguém.

— Ele merece ser feliz.

— Concordo. — Levantei e peguei meus cadernos. — Lembra da Alice, irmã do Beto?

— Sim, aquela bonequinha?

Ri do modo como Ruth se referiu a Alice. Ela sempre gostou de todos da casa do Beto.

— Estamos namorando.

Ruth me olhou com os olhos arregalados e a boca aberta de espanto, para depois virar um sorriso imenso.

— Não acredito, que notícia ótima! Alice é uma bela garota, e vocês fazem um casal tão bonito.

— É, vamos ver se dá certo. — Fui para a porta da cozinha. — Vou lá pra cima. Quando o Caveira chegar, fala pra ele ir lá no meu quarto.

 

Caveira entrou no meu quarto um tempo depois que subi. Eu estava em pé em frente à mesa do computador, separando o material de Direito Tributário para estudar com o Beto.

— Vamos, desembucha logo que o almoço está quase pronto — disse ele, se sentando na minha cama.

Ergui uma sobrancelha e o encarei.

— Você quer saber mesmo?

Fiz suspense para deixá-lo curioso e parei de mexer no material de Direito.

— Ih, acho melhor eu ir embora. — Ele ameaçou se levantar, mas parou. — O que você fez desta vez?

— Por que você sempre acha que eu fiz algo?

— Porque você sempre faz. Qual foi a besteira agora?

Dei um longo suspiro e me encostei na mesa do computador, cruzando os braços.

— Ontem, quando fui ao Trem Bão, descobri que a Juliana é apaixonada por mim.

Caveira levou alguns segundos processando a informação enquanto ia abrindo a boca em câmera lenta, espantado.

— Você o quê? Meu Deus, essa história está cada vez pior — disse ele, se levantando rapidamente.

— Calma. Está tudo bem.

— Como tudo bem? Que droga, o que o Beto falou?

— Ele não sabe.

— Não sabe? — Caveira cerrou os olhos. — Como assim?

— Ele foi dançar com a Alice, e a Juliana acabou confessando tudo. Que é apaixonada por mim desde pequena, que voltou com a esperança de me reencontrar, mas que soube da Talita e da Valéria, lá de Floripa, e encontrou o Beto e decidiu me esquecer. Mas que depois da tarde de sábado ela decidiu terminar o namoro. Não aconteceu nada entre eles na festa, mas ontem ela descobriu sobre meu namoro com a Alice — disse de uma vez, mas tentando dar tempo pro Caveira assimilar tudo.

— Sei. — Ele parecia desconfiado. —

E o que foi que você fez? Não, não me diga, não quero saber.

— Fiquei atordoado, claro. Vim embora na mesma hora.

— Eu disse que não queria saber.

— Aí de noite fui conversar com a Juju com calma, sem o Beto e a Alice por perto. — Ignorei seu comentário.

— Já disse que não quero saber. — Caveira se aproximou de mim, apontando um dedo para o meu peito. — Não quero me envolver nessa história mais do que já estou envolvido. Não quero ser seu cúmplice.

— Não existe isso de ser cúmplice.

— Claro que existe. — Ele levantou as mãos para o alto. — Quando o Beto ficar sabendo de tudo, ele não vai me perdoar por ter sido seu cúmplice. Isso sem contar o que ele vai fazer com você quando souber o que anda fazendo com a namorada dele.

— Caveira, calma. Está tudo resolvido.

Ele se sentou na cama.

— Acho que não quero ouvir mais nada. — Ele colocou a cabeça entre as mãos.

— Eu vou continuar com a Alice e ela vai continuar com o Beto.

Caveira levantou rapidamente a cabeça e me olhou, atordoado.

— Não entendi. Ela não te ama? A

Juliana?

Suspirei novamente e puxei a cadeira para me sentar em frente a ele.

— Ela disse que gosta de mim, mas que não vai terminar com o Beto. Vai tentar me esquecer e quer que eu faça o mesmo com a Alice.

— Garota sensata — disse ele, apontando para mim.

— Estou com muita raiva dela.

— Opa, estamos progredindo. — Ele deu um sorriso de zombaria.

— Estou falando sério. Ela não quer que eu lute por ela.

— Ela está certa.

— Claro que não, Caveira! Eu amo a Juliana, e ela me ama. Por que não podemos ficar juntos?

— Acho que você sabe a resposta.

— Ela disse que, se eu falar pro Beto que ela gosta de mim, vai negar tudo.

— Cada vez gosto mais dela.

— Eu quero lutar por ela, estou disposto a enfrentar tudo.

— Está mesmo?

Quando o Caveira disse isso, parei de falar e o encarei.

— O quê?

— Você está mesmo disposto a lutar pela Juliana? Está disposto a arriscar sua amizade de anos com o Beto por causa de uma garota?

As perguntas dele me deixaram mudo, foram quase as mesmas palavras de Juliana na noite anterior. Eu realmente não sabia a resposta.

— Não sei. Quando estou com a Juliana, não penso em outra coisa. Mas, quando encontro o Beto, parece que a coragem vai embora.

— É o que estou dizendo. Não vale a pena estragar uma amizade dessas por ninguém.

— Mas eu gosto demais dela.

— Você aprende a esquecê-la.

— Será?

— Você vê outra solução?

— No momento, não. — Fiquei um tempo olhando para a frente. — Estou com raiva dessa situação toda porque agora ainda tem a Alice no meio.

— Olha, Juliana está certa. — Ele colocou a mão no meu ombro. — Com o tempo você vai esquecê-la e ela também vai te esquecer.

— Será? E se eu não conseguir?

— Você está namorando a Alice!

— Beleza não é tudo.

— Eu sei, mas ajuda.

— Tenho medo de não conseguir.

— Cadu, não complica. Você primeiro tem que tentar, e não estou sentindo muita firmeza nisso.

— Porque talvez eu não queira esquecer a Juliana — sussurrei.

— O quê? Eu não ouvi isso. Você não falou que estava com raiva dela?

— Mas nem por isso deixei de gostar da Juju.

Caveira se levantou, um pouco impaciente.

— Você está me irritando, sabia? Faz o seguinte, alimente essa raiva, encontre a Alice mais vezes e se apaixone por ela. Não tem como não se apaixonar pela Alice. Esquece a Juliana e todos vamos viver felizes pra sempre. — Ele foi andando em direção à porta do quarto. — É por isso que não me apaixono. Amor só serve para sofrermos e agirmos como idiotas.

Ele saiu do quarto sem deixar que eu falasse algo. Fiquei pensando em suas palavras até Ruth me chamar para o almoço.

 

Durante o almoço, meu pai e Matilde nos comunicaram que iam passar a Semana Santa, que seria na semana seguinte, em Congonhas, onde a irmã dela tinha uma pousada. Eu e o Caveira olhamos para eles e depois nos olhamos, e vi um sorriso no canto da boca dele que já dizia tudo: festa nas nossas casas durante o feriado.

Nossos pais fizeram mil recomendações, pediram que ficássemos os dois em uma das casas, que decidíssemos em qual delas, e ainda tentaram nos convencer a ir com eles. Sem chance.

— Não posso acreditar que vamos ter quatro dias de casa livre! — comemorou Caveira, entrando no meu quarto depois do almoço.

— Fala baixo — eu disse, fechando a porta rapidamente. — Ou você quer estragar tudo?

— E aí, como vai ser a divisão? Que dia a festinha vai ser aqui e que dia será na minha casa?

— Não sei, você acha que já tive tempo de pensar nisso? — Eu me sentei na cama, e o Caveira ficou andando de um lado para o outro, todo empolgado. — Eles vão viajar quinta de manhã e voltam domingo.

— Temos três noites...

Fiquei um tempo pensativo enquanto Caveira ia falando quem convidar, quantas latinhas de cerveja comprar, se ia fazer uma reunião para poucas pessoas ou uma festa de arromba.

— Acho que vou querer uma das noites com a casa livre só pra mim — disse. Ele me olhou espantado.

— Opa! É o que estou pensando?

— Não sei o que você está pensando. Mas acho que vou aproveitar e chamar a Alice pra vir um dia aqui, ver um filme, ficarmos a sós.

— Ah, eu sabia. Aê, Cadu!

— Para de pensar besteira. — Franzi a sobrancelha. — Você acha que quero trazer a Alice aqui pra quê?

— Quer mesmo que eu diga?

— Você acha que eu sou maluco? Se eu avançar o sinal com a Alice, o Beto me mata.

— Vocês são namorados agora, não vão ficar apenas de mãozinhas dadas namorando no sofá da casa dela, com o pai sentado em uma poltrona olhando pra vocês.

Comecei a rir e balançar a cabeça.

— Só estou pensando no que você falou e acho que vai ser bom ficar um tempo sozinho com a Alice, sem o Beto por perto.

— Certo, como se o Beto fosse deixar você carregar a irmã dele pro seu covil.

Eu não tinha pensado nisso.

— Uma coisa de cada vez, Caveira. Primeiro eu convenço a Alice a vir ficar comigo aqui, depois vejo como disfarçar isso para o Beto.

— E você acha que ela vai vir?

— Não sei. — Dei de ombros. — Alice sabe que eu não tentaria nada que ela não quisesse.

— O problema é se ela quiser.

Eu ia falar alguma coisa, mas fui interrompido por uma batida na porta e o Beto entrando no quarto.

— Reunião aqui? — perguntou ele, jogando os cadernos em cima da cama.

— Beto, você não sabe da novidade! — Caveira começou a contar sobre os planos para a Semana Santa.

— No sábado da Semana Santa vai ter o Baile Garota Pitangueiras, lá no clube — disse o Beto.

— E daí? — perguntou Caveira.

— E daí que a Alice ganhou no ano passado e este ano vai ter que ir para entregar a faixa à nova vencedora. Na verdade eu também vou com a Ju, já compramos uma mesa. — Ele olhou para mim. — E já reservamos o seu lugar.

— Claro, eu vou — disse.

Eu lembrava do baile do ano passado, quando namorava a Talita e ela concorreu. Ficou com muita raiva por Alice ter vencido e não ela.

— Hum, não tem problema, a gente vai ao baile no sábado. Esse baile no Pitangueiras é sempre bom, várias gatinhas competindo para ver quem é a mais bonita — comentou Caveira, com os olhos brilhando, e eu e o Beto rimos.

— Então fica assim: festa na sua casa na quinta e na do Cadu na sexta, ou vice-versa.

Caveira me olhou, segurando um sorriso.

— Ainda não sei se vou fazer festa aqui — falei, um pouco sem graça.

— Por mim, tanto faz. A gente sempre arruma algo pra fazer.

— É isso aí, Beto. — Caveira foi para a porta. — Deixa eu ir jogar meu basquete enquanto vocês estudam. Vão correr hoje?

— Vamos.