A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 39 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 35

 

Eu tentava elaborar o recurso de apelação para o caso fictício que o professor de Direito Civil havia pedido. O trabalho não estava tão bom quanto eu gostaria, mas minha criatividade no momento era ruim. Uma batida de leve na porta me fez acordar dos meus pensamentos.

— Pode entrar — disse.

— Oi. — Alice pôs a cabeça dentro do quarto. — Atrapalho?

— Não, entra aí. — Eu me levantei da cama, onde estava cercado por papéis. Alice entrou e eu fechei a porta. — Estava tentando terminar um trabalho pra faculdade, mas não estou conseguindo — disse, tomando Alice em meus braços e beijando-a.

— Então estou atrapalhando.

— Claro que não. Agora tenho uma desculpa pra não fazer o trabalho.

Ela me deu outro beijo.

— Vou ficar na internet enquanto você termina.

Alice se sentou em frente à minha escrivaninha, ficando de costas para mim. Eu voltei para a cama e recomecei a escrever, mas logo parei e a observei. Ela estava sentada em cima da perna esquerda, com as pontas dos dedos da direita enconstando no chão. Fui olhando cada centímetro de sua perna bem torneada, até chegar aos quadris, cintura, corpo todo. Alice era perfeita. Eu a queria demais, e isso me deixava assustado.

— Como você entrou? — perguntei, me aproximando dela.

— A Ruth estava saindo.

— Pensei que ela já tivesse ido. Faz um tempinho que ela veio aqui se despedir. — Eu passei a mão no cabelo de Alice, tirando uma mecha do rosto.

— Não, ela saiu só agora.

Nesse momento percebi que estava a sós com Alice. Comecei a beijá-la novamente e ela me puxou para a cama, jogando meus papéis para o chão.

O beijo e os amassos foram ficando mais intensos, e Alice tirou minha camisa. Ela usava uma saia jeans, e o toque da minha mão em suas coxas me levou à loucura. Comecei a desabotoar sua blusa, mas de repente parei e me afastei.

— O que foi? — perguntou ela, espantada.

— Não posso fazer isso.

Fiquei olhando para ela ali, sentada na minha cama com a blusa aberta. Podia ver todo o sutiã dela e o contorno dos seus seios.

— Pensei que você me quisesse — disse ela, com a voz um pouco chorosa, e percebi que estava se sentindo rejeitada.

Eu me senti mal com isso e me sentei em frente a ela, segurando suas mãos.

— Eu quero. Mas o Beto me mata se acontecer.

— Beto, Beto, Beto. Você só pensa nele quando está comigo? — perguntou ela, um pouco brava.

— Não tem como não pensar. Apesar de já aceitar nosso namoro, todo dia que o encontro ele me lembra que pode me matar a qualquer momento se eu tocar em você na região entre o pescoço e o tornozelo.

— O Beto não está aqui, nem precisa ficar sabendo. — Ela se aproximou de mim.

— Você sabe que, se eu tirar a sua virgindade, o Beto vai me esfolar vivo, não sabe? E seu pai também.

— Senta aqui. — Ela me puxou. — Nós dois estamos namorando, eles te conhecem. E eu gosto de você, sei o que faço.

Eu me senti um pouco mal. Dei um longo suspiro, fechei os olhos e resolvi ser sincero com Alice.

— A gente precisa conversar antes. Não quero fazer nada no impulso porque não quero que você se arrependa.

— Eu não vou me arrepender.

— Escuta primeiro. — Meus olhos foram novamente para a blusa aberta dela e eu comecei a abotoar para não me distrair. — Eu sei que você gosta de mim. Mas sei também que a primeira vez para uma garota é especial e eu preciso ser sincero com você. — Respirei fundo e não consegui mais encará-la. As palavras não saíam.

— Sei o que você vai me dizer. Que não me ama, não é mesmo?

Eu a olhei, espantado.

— O quê?

— Eu sei que você não me ama. Não como eu te amo.

— Alice, gosto muito de você. Gosto mesmo. Mas amar? Desculpa, não posso te enganar.

— Não está me enganando. Eu sei que você não me ama. Sei que gosta de mim sim, que me deseja, mas não me ama.

Eu ia falar, mas ela me impediu.

— Não se preocupe. Não estou com raiva de você; eu provoquei isso. Sabia que você estava muito bêbado na festa da Ju e me aproveitei da situação. Sabia que, se acontecesse, o Beto ia acabar com essa bobagem de pacto. Eu te puxei para isso.

Suspirei. Aquilo tudo não era segredo para mim, já havíamos conversado depois da festa da Juliana. Eu a olhei completamente sem graça e toquei seu rosto.

— Mas eu não me arrependo. Estou gostando de ficar com você.

— Eu sei. — Ela sorriu. — E eu já fiz a minha escolha. Gosto de você e quero que você seja o primeiro.

— Você tem certeza?

— Tenho, conversei bastante com a Emília sobre isso e ela me deu vários conselhos. Não decidi agora, neste momento. Já venho pensando nisso faz algum tempo. — Ela ficou me olhando durante alguns segundos. — Agora é a minha vez de ser sincera. Quero logo porque no mês que vem estou indo para São Paulo.

Franzi a testa.

— São Paulo?

— Consegui alguns trabalhos de modelo lá enquanto termino o colégio. É bom pra ir conhecendo o pessoal da área antes de fazer faculdade de moda.

Eu estava atônito.

— Não imaginava.

— Ninguém sabe, só o pessoal lá de casa, mas pedi para o Beto não te contar porque eu mesma queria te falar. No desfile que fiz em BH no fim de semana passado conheci um estilista famoso de São Paulo. Por isso quis tanto ir ao desfile: eu sabia que ele estaria lá e que tinha chances de conseguir algo, só não falei nada antes porque não era certeza. — Ela parou de falar por uns segundos, talvez para deixar eu assimilar tudo. — Então quero isso como um presente seu, para levar de lembrança. Uma recordação marcante do meu primeiro namorado. — Ela sorriu novamente. — Meu primeiro namorado que vai virar ex. Porque é claro que a gente vai ter que terminar. Não vou deixar de ir por sua causa, por mais que te ame. E não vou manter um namoro a distância porque não sei com que frequência vou vir aqui.

Eu estava espantado com tudo que ela me falou e com o quanto Alice era prática. Não consegui pensar em nada.

— Mesmo assim, Alice. Você tem certeza?

Estava temeroso pelo Beto. Sabia que se ele pensasse sobre a irmã dele e eu juntos, daquele jeito, como uma despedida, nossa amizade estaria acabada. E, ao mesmo tempo, não queria que acontecesse porque Juliana ficaria sabendo. Ela não iria aceitar, afinal de contas era a melhor amiga de Alice. Mesmo assim eu a desejava demais.

— Cadu... — Alice se aproximou e eu senti seu corpo encostado ao meu. — Eu quero e você quer. Ninguém precisa saber — sussurrou ela em meu ouvido, como se lesse meus pensamentos.

Fiquei de frente para ela, com uma das mãos em seu queixo.

— Não vou negar, eu quero muito você. Mas não quero estragar a minha amizade com seu irmão.

— Ele não vai ficar sabendo.

— E a Juliana? — perguntei.

— O que tem ela? — Alice franziu a sobrancelha.

— Ela namora seu irmão e é sua melhor amiga.

— Eu disse que ninguém ficaria sabendo. Só você e eu.

— Tem certeza?

Ela balançou a cabeça com um sorriso travesso nos lábios.

Passei uma das mãos em seus cabelos e a puxei delicadamente para perto de mim. Comecei beijando-a de leve até ficar mais intenso, e dessa vez nenhum dos dois estava com pressa e fomos tirando a roupa devagar, os dois curtindo cada movimento e cada momento.

 

— Você e Alice o quê???? — gritou Caveira. Estávamos os dois no quarto dele.

— Fala baixo, sua mãe pode escutar.

— Você ficou maluco? O Beto vai te matar.

— Ele não vai ficar sabendo.

Caveira me olhou, censurando.

— Ei, pensei que você tinha dito que era pra eu me apaixonar por ela, levar a sério esse namoro.

— Você se apaixonou por ela? — perguntou ele, com uma expressão de dar medo. Ele sabia a resposta e eu também.

— Não, mas...

— Então, pronto! — Ele não deixou eu terminar de falar. — Você não a ama, apenas a deseja. Foi sacanagem sua, com o Beto e com a Alice.

— Eu não fiz nada sozinho! Ela queria.

— Claro, ela te ama. É uma burra.

— Caveira, senta e me escuta. — Eu o fiz se sentar na cama. — Alice está indo para São Paulo. Ela me procurou, ela queria. O que você faria no meu lugar? Tentei resistir, mas não dá pra resistir quando se tem uma garota maravilhosa como a Alice no meu quarto, me querendo. E ela é minha namorada.

Ele respirou fundo, talvez organizando o pensamento.

— Mesmo assim...

— Olha, estou te contando porque você é meu amigo, sabe de tudo. Precisava falar isso pra alguém.

— E você acha mesmo que ela não vai falar com ninguém? Se você está me contando, é claro que ela vai contar pra uma amiga. Juliana, talvez... — Ele fez uma voz maliciosa, como quem dizia que eu tinha me ferrado. Realmente, não havia pensado naquilo.

— Não. Ela não vai contar pra Juliana. Talvez pra Emília... — Assim eu esperava.

— Vamos ser práticos. Você realmente acha que o Beto não vai descobrir nada?

— A Alice está indo embora. Não vai descobrir, pode ficar calmo.

— Você só faz besteira, viu?

 

Beto e eu estávamos trabalhando no projeto de Direito Penal, que deveríamos apresentar em breve. Na verdade, apenas eu fazia o trabalho; Beto estava sentado ao meu lado, só olhando para o teto e pensando na vida.

— Essa matéria é chata demais — reclamou ele.

— Eu gosto.

— Sorte a minha. — Ele pegou um papel, aleatoriamente.

— Posso fazer tudo sozinho, já te falei. Mas você tem que decorar sua parte, porque os dois têm que apresentar o trabalho.

— Ok, só me passa as minhas falas.

— Isso não é uma apresentação de teatro — eu disse, enquanto dava a parte dele.

— Pra mim, é como se fosse. Vou decorar tudo, falar e esperar os aplausos do professor.

Ele pegou os papéis da minha mão e deu uma olhada por alto.

— Você fica com a apresentação do caso e eu faço a defesa, assim fica mais fácil. Só falta terminar uma pequena parte e pronto.

Continuei escrevendo, enquanto o Beto passava as mãos no rosto. Senti que ele estava inquieto, mas não falei nada. Por um momento, pensei que ele havia descoberto tudo o que aconteceu entre Alice e eu.

— Estou pensando em convidar a Juliana para passar um fim de semana comigo em uma cidadezinha aqui perto.

— O quê? — Pensei não ter escutado direito.

— Passar o fim de semana juntos. Só nós dois, curtindo um pouco, você sabe. — Ele deu um sorriso que eu conhecia bem. — Você acha que ela aceita?

— Hã?

— Se ela aceita ir comigo. Ficar sozinha comigo.

— Como eu vou saber? — Estava espantado, sem saber o que falar. A vontade era esmurrar a cara do Beto.

— Vocês são amigos. Pode saber alguma coisa, vocês conversam, ela pode ter falado algo.

— A Juliana não conta as intimidades dela pra mim. Você perguntou para a pessoa errada — respondi, com um pouco de raiva na voz. Se ele percebeu, não falou nada.

— Ela está me deixando doido. — Ele suspirou. — Preciso ter a Ju, sabe... Preciso... Ah, você sabe.

Sim, eu sabia, mas só de pensar naquilo acontecendo meu coração já começava a apertar. Não tinha como impedir, era questão de tempo, sempre soube disso. Mas não precisava ficar ali, escutando aquelas coisas. Bom, na verdade não tinha como escapar, ele era meu melhor amigo. E eu sabia o que ele estava passando, pois aconteceu o mesmo comigo e com a irmã dele, com a única diferença de que eu não amava Alice, mas ele amava Juliana. Como EU amava a Juliana.

— O que ela vai falar pros pais dela? — Tentei pensar em algo para estragar os planos do Beto.

— Não sei, não pensei nisso. Mas a gente resolve. Se ela quiser ir, isso será o de menos.

— Não acho legal vocês irem escondido.

— Quem disse que vamos escondido? A mãe dela pode saber, acho que elas são amigas, pelo que a Ju fala. Ela conta tudo pra mãe.

— Sério? — Eu ergui uma sobrancelha. Será que a tia Ivone sabia de mim?

— Comentei com a Alice desse meu plano. Sabe o que ela falou?

— Não — respondi, um pouco receoso. Alice era impulsiva e podia ter dito qualquer coisa.

— Disse que queria ir junto, com você. Veja bem, acredita nisso? Alice e você, passando o fim de semana juntos, sozinhos em um quarto. Onde já se viu? — Ele riu.

— Se a Ju pode...

Ele me olhou sério, com um pouco de raiva, e eu me arrependi de ter falado aquilo.

— O que você quer dizer com isso?

— Nada. Esquece. Não quero voltar a discutir com você. Vamos continuar nosso trabalho que é melhor.

Tentei me concentrar nos papéis, mas a cada instante o Beto me fuzilava com o olhar, muito provavelmente tentando adivinhar o que acontecia entre a Alice e eu quando ele não estava por perto.