A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 25 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 21

 

Eu estava sentado na cozinha com o Caveira, tomando um café horrível que ele havia preparado e pensando na conversa com o Beto.

— Não acredito que isso esteja acontecendo.

— É melhor assim.

— É um sonho, não é? Não, é um pesadelo. É isso, um pesadelo, e eu vou acordar a qualquer momento.

— Cadu... — Caveira deu um longo suspiro. — Cara, é melhor que isso tenha acontecido.

— Melhor como? Pra quem?

— Pra você.

— Não vejo como.

Dei um gole no café, mas estava intragável. Empurrei a xícara para longe e encostei a cabeça na parede, fechando os olhos.

— Agora você não enxerga que pode ser bom, mas é. Veja bem, você tem uma motivação para esquecer a Juliana.

— Motivação?

— Sim, a Alice Gomes! Cara, ela é uma gata, isso você não pode negar.

— Eu sei que ela é bonita, mas eu não amo a Alice.

— Claro que não. Você começou a namorá-la tem o quê? Trinta minutos? É claro que você não ama a garota, mas daqui a um tempo você vai olhar pra trás e vai me agradecer.

— Tenho minhas dúvidas. — Esfreguei o rosto com as duas mãos. — Olha, sei que estou sendo um chato, mas é que tudo aconteceu rápido demais.

— Nem tão rápido. A Alice tem dado mole pra você há muito tempo.

— Se isso tivesse acontecido uns meses atrás talvez eu não achasse ruim.

— Claro que não. Quem em Rio das Pitangas não quer namorar Alice?

— Eu. — Suspirei. — O único que ela quer namorar.

— Você acha que não quer por causa da Ju, mas você pode esquecê-la com a Alice.

— Espero que você esteja certo.

— Estou, vai por mim. Além do mais, você queria o quê? Ficar esperando eternamente pela Juliana?

Fiquei quieto pensando nas palavras do Caveira, enquanto tamborilava os dedos na mesa.

— Você está certo. — Balancei a cabeça. — Só preciso organizar minhas ideias.

— Não tem que organizar nada, seja prático. A Juliana ama o Beto, o Beto ama a Juliana. Não tem lugar para você nessa história. A Alice ama você, então tente corresponder.

— Nossa, você sabe ser sutil.

— Você não precisa de sutileza neste momento. — O Caveira se levantou. — Acho melhor você tomar um banho, porque os nossos pais vão passar aqui daqui a pouco para almoçarmos.

 

Estava parado em frente à casa do Beto fazia mais de quinze minutos. Ele combinou de irmos ao Trem Bão, um encontro de casais: ele, Juliana, eu e Alice.

Estava com a cabeça encostada no volante, olhos fechados, e toda hora me perguntava o que fazia ali até escutar uma batida na janela do lado do passageiro. Levantei a cabeça assustado e vi Alice. Abri a porta e ela entrou, se sentando ao meu lado.

— Você está bem?

— Estou um pouco cansado.

— Eu vi você parado aqui fora há um tempão, mas achei que ia entrar.

— Não tive coragem.

Eu suspirei e passei uma das mãos no cabelo. Não estava com vontade de enfrentar o pai da Alice, ainda não sabia o que ele achava do meu envolvimento com a sua filha, se é que ele já estava sabendo.

Ficamos quietos, eu olhando para a frente, mas com o canto do olho percebi que ela olhava firmemente para mim. Não sabia o que falar, embora muita coisa precisasse ser dita.

— Alice, acho que seria bom conversarmos sobre ontem. — Consegui dizer, com grande esforço.

Alice sorriu maliciosamente.

— Você não se lembra de ter ficado comigo, não é mesmo?

Virei o rosto em sua direção,

espantado.

— O quê? Não, eu me lembro.

— Duvido um pouco, mas tudo bem. Você estava muito bêbado, Cadu. Nunca te vi daquele jeito, o que aconteceu?

— Nada. Eu não sei... Acho que misturei, não percebi a hora de parar. Desculpa se fui grosseiro ou se fiz alguma coisa que te chateou.

— Não fez nada, não. Na verdade, você não estava em condições de fazer muita coisa.

— Imagino que sim. — Baixei os olhos, completamente envergonhado. — Não sei o que dizer.

Ela ficou um tempo em silêncio, como se pensasse em algo para falar.

— Cadu, tenho que pedir desculpas por ter te metido nisso. Não imaginei que o Beto ficaria tão furioso, afinal de contas, a gente só ficou.

— Eu tinha um pacto com ele. — Eu me encostei no banco, com a mão esquerda na cabeça e os olhos fechados. — Traí a confiança do meu melhor amigo.

— Mas você não fez sozinho. E foram só uns beijos, nada demais.

Gostei de ouvir aquilo, porque até aquele momento eu não sabia o que realmente havia acontecido entre a gente. Continuei com os olhos fechados.

— Não é questão de ser um beijo ou algo mais. A questão é que ele confiava em mim.

— Ele ainda confia.

— Será?

— O Beto gosta demais de você.

— Eu também gosto dele pra caramba. É como se fosse meu irmão de verdade.

— Então ninguém melhor do que você pra ser meu namorado.

Tive que rir do comentário da Alice.

— É sério. Eu falei isso para o Beto — disse ela.

— E ele?

— Acho que foi aí que começou a aceitar. Mas pensei que acabaria com você, só que fiz ele prometer que não.

— Também pensei que ele ia quebrar a minha cara. Acho que se o Caveira não estivesse lá ele teria feito isso, porque eu não saberia o que dizer.

— Ele me contou a conversa de vocês.

Abri os olhos e virei novamente o rosto para a Alice.

— Ele te falou tudo? — Ela balançou a cabeça e eu suspirei. — Alice, desculpa. Não devia ter mentido.

— Eu sei, não precisa falar nada. Sei que você nunca foi apaixonado por mim. Sei que o Caveira que falou isso e sei que foi pra te ajudar.

— O Beto percebeu?

— Acho que não.

— Desculpa. — Estava realmente me sentindo mal porque gostava da Alice, era uma garota legal.

— Não tem que pedir desculpas, a gente não fez nada demais, já disse. Eu queria ficar com você e me aproveitei do fato de estar bêbado. Eu que tenho que te pedir desculpas.

Fiquei um instante pensando, tentando me lembrar da noite anterior, mas, como poucos flashes vinham à minha cabeça, eu não sabia o que era real.

— Você fez de propósito? Quero dizer, não fui eu que te agarrei?

— Sim, fiz de propósito — disse ela, como se fosse uma confissão. — Já queria ficar com você faz um tempão e você sabe disso. Sabia que nunca ficaria comigo sóbrio, então tive que aproveitar a oportunidade. Afinal, um beijo só não mata.

— Sempre achei que você fazia isso como um joguinho.

— Não é joguinho. Eu gosto de você.

Fechei os olhos novamente e parecia que minha cabeça ia começar a rodar. Agora eu começava a entender tudo. Alice tinha planejado direitinho seu ataque e conseguiu o que queria. Mesmo assim eu não sentia raiva dela.

— Não sei o que falar. Não sei o que fazer sobre tudo isso.

— Você está com raiva de mim? — perguntou ela em um tom de voz tão meigo que era impossível sentir raiva naquele momento.

— Não, não estou. — Virei o corpo de frente para a Alice, encostando meu ombro direito no banco. Peguei suas mãos. — Não estou com raiva de você, de verdade. Talvez esteja um pouco atordoado com tudo o que aconteceu, um pouco surpreso com o que você fez, mas não com raiva. Eu gosto de você, Alice, gosto muito. Não da maneira que você queria, mas eu gosto.

— Eu sei. — Ela baixou os olhos e eu levantei seu rosto, segurando seu queixo.

— Não quero te ver triste. E vou manter a minha palavra, nós estamos juntos.

— Não quero que você fique comigo apenas por causa do Beto.

— Eu não estou com você por causa do Beto. — Parei de falar e suspirei. — Bom, acabei aceitando o namoro mais por causa do Beto, não tem como negar. Mas acho que pode dar certo.

— Você está falando sério? — Alice deu um sorriso e percebi o brilho em seus olhos.

— Estou. Acho que não será difícil me apaixonar por você.

Eu realmente queria me apaixonar por ela, porque gostar da Juliana estava me fazendo muito mal. Precisava esquecer a namorada do meu melhor amigo.

Alice voou no meu pescoço e me deu um forte abraço. Retribuí, rindo, e a afastei um pouco. Olhei fundo em seus olhos e coloquei uma das mãos em sua nuca, trazendo lentamente seu rosto para perto do meu. Fechei os olhos e a beijei intensamente.