A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 23
Fiquei feliz ao ver que estava sozinho quando entrei em casa. Provavelmente meu pai estava com a Matilde, e foi bom encontrar a casa vazia. O que eu menos precisava naquele momento era meu pai me enchendo de perguntas. Fui para a cozinha, peguei um copo de água, mas não consegui beber. Minha garganta estava travada, parecia que eu tinha levado uma surra, e minha cabeça estava a ponto de explodir. Sentia um aperto no peito, e meu coração estava totalmente partido. Juliana me amava. Esperei muito tempo para ouvir isso da sua boca e agora era tarde demais. Mal podia acreditar.
Deixei o copo em cima da pia e fui para o meu quarto. Eu me sentei na cama, agora aliviado ao saber que nada havia acontecido ali entre o Beto e a Juliana. Precisava fazer algo, tomar uma atitude, mas não tinha muito o que fazer. Pensei em ligar para o Caveira, mas sabia que ele me mandaria esquecer a Juliana e ficar com a Alice.
Fiquei um tempo sentado, depois me levantei e andei de um lado para o outro. Não conseguia ficar parado, mas ao mesmo tempo não tinha nada para fazer, não estava aguentando aquela angústia. Olhei para o telefone e tomei uma decisão. Liguei para a casa da Juliana, achando que teria uma pequena chance de ela já ter voltado. E acertei: por sorte ela mesma atendeu o telefone.
— Juju, sou eu.
— Você ficou doido? — sussurrou ela.
— Ele está aí?
— Está na sala conversando com o meu pai. — Ela ficou um tempo muda e depois voltou a falar com a voz normal. — Pronto, vim para a cozinha. O que você quer?
— Você sabe o que eu quero — falei, com determinação. — Nós precisamos conversar.
— Você só pode estar maluco.
— Maluco? Depois de você me falar aquilo tudo quer que eu fique quieto?
— Cadu, já disse, esquece.
— Preciso conversar com você ou então vou realmente enlouquecer.
Juliana ficou um tempo quieta, provavelmente decidindo o que fazer. Eu apertava o telefone contra a orelha, como se isso me ajudasse a ficar mais perto dela.
— Ok. Vem aqui em casa daqui a meia hora.
— Estarei aí. — Desliguei e fiquei naquela meia hora andando de um lado para o outro no meu quarto.
Encontrei Juliana sentada na varanda. Ela estava no escuro, em um sofá de bambu com almofadas que sua mãe havia comprado quando voltou para Rio das Pitangas. Fiquei parado na sua frente.
— Você quer conversar aqui?
— Não sei. — Ela se levantou. — Acho melhor no meu quarto. Meus pais estão no quarto deles; pedi que minha mãe levasse meu pai pra lá.
Concordei com a cabeça, sem querer saber o quanto sua mãe estava por dentro dos últimos acontecimentos.
Juliana entrou e eu a segui. Ela não acendeu nenhuma luz e pediu que eu tomasse cuidado com os móveis. Entramos em seu quarto e, assim que acendeu a luz, avistei a fantasia de mosqueteiro em cima de sua escrivaninha. Não falei nada.
Ela fechou a porta e me olhou. A vontade era de envolvê-la nos braços e beijá-la, mas me controlei.
— Nem sei por onde começar — disse, para quebrar o gelo. Dei um passo para a frente e ela se afastou. — Na verdade, sei sim. O que não sei é como resolver essa situação.
— Não tem nada para ser resolvido. Já está tudo resolvido.
— Não está, não.
— Está sim. Eu estou com o Beto, você está com a Alice.
— O que você quer dizer com isso? Que devo desistir de você?
— Você tem alguma ideia melhor? — Ela me olhou com cara de quem me desafiava a resolver aquela situação.
Dei uma longa respirada, passei as mãos pelo meu cabelo. Ela estava certa, não tinha como resolver, mas eu não podia ficar quieto, sem tentar algo. Devia existir uma solução; eu só precisava encontrá-la.
— Eu gosto de você e você gosta de mim. Nós não podemos ficar separados.
— O que você quer, Cadu? Terminar com a Alice? Chegar para o Beto e falar para ele cair fora porque você é apaixonado por mim e eu por você e que ele está sobrando?
A ideia era essa, mas é claro que não soava bem escutar isso tudo da boca de Juliana.
— Eles vão entender — eu disse, sem muita convicção, dando de ombros.
— Vão mesmo? Você vai realmente arriscar sua amizade com o Beto por minha causa? — Ela me lançou outro olhar desafiador que fez um frio percorrer pela minha espinha. É óbvio que eu não estava preparado para responder a essa pergunta. — Eu não quero que você faça isso. Não quero que você estrague sua amizade com ele por minha causa.
— Mas eu gosto de você. Ele vai ter que entender.
— Ele não vai entender, e você sabe disso. — Ela tomou coragem e se aproximou de mim. Pegou delicadamente minha mão. — Eu jamais vou me perdoar se vocês brigarem por minha causa, não quero isso. Não quero ficar entre vocês.
— Juju, eu gosto de você, eu quero você. Não tem outra coisa que eu pense desde que te vi.
Eu a puxei para perto, mas ela ficou com as mãos no meu peito, tentando me empurrar. Eu tinha mais força que ela e eu a prendi pela cintura.
— Cadu, me escuta. Não faça nenhuma besteira. Eu posso te esquecer e você pode me esquecer.
— Pode mesmo? Porque eu não posso. Já tentei e não consegui. Estou tentando desde que te vi pela primeira vez, e cada dia que passa te amo mais.
Ela mordeu o lábio inferior e olhou para baixo.
— Eu quero que você me esqueça. Quero que tente gostar da Alice — ela sussurou.
Eu afrouxei meus braços, mas não a soltei.
— Quer mesmo? — perguntei, franzindo a testa. Ela apenas balançou a cabeça, concordando. — Não estou sentindo firmeza nesse seu desejo.
Ela olhou para mim.
— O que você quer? Eu não vou terminar o namoro. E não quero que você termine. Quero gostar do Beto e quero que você goste da Alice.
Ela falou tudo muito rápido, com a voz carregada de tristeza. Eu sabia que não era o que ela queria de verdade, mas não havia escolha. Mesmo sabendo que era o que devíamos fazer, ainda tinha esperança de que a Juliana corresse para os meus braços.
— Você está me pedindo para desistir de você. — Eu a soltei e ela deu um passo para trás. — Não tenho como desistir de você, Juju. Não vou desistir de você.
Eu a puxei de uma vez e a beijei, mas, diferente de ontem, dessa vez Juliana conseguiu me afastar antes de ceder ao beijo.
— Por favor, não torne tudo mais difícil. Eu não vou terminar meu namoro, e se você falar para o Beto que eu gosto de você, vou negar.
Ela virou o rosto para longe de mim e percebi que tentava esconder as lágrimas.
— Você não pode estar falando sério.
— Eu já disse, Cadu. Me esquece que eu vou fazer o mesmo.
— É isso que você quer?
Juliana não respondeu com palavras, apenas balançou a cabeça. Tive vontade de beijá-la de novo, mas desisti. Uma raiva começou a crescer dentro de mim, raiva por ela desistir tão fácil e não me deixar lutar por ela. Saí do quarto, deixando a porta aberta, e não olhei para trás. A partir daquele momento eu estava decidido a esquecer Juliana.
Cheguei em casa e encontrei meu pai na sala assistindo televisão.
— A irmã do Beto te ligou — disse ele. Parei e o olhei.
— Alice?
— Sim.
— O que você falou?
— Que você não estava em casa. Por quê? Era para ter falado algo diferente?
— Não. — Suspirei. Alice devia estar preocupada e provavelmente agora estava ainda mais, sabendo que eu tinha saído. — Acho que esqueci meu celular aqui — disse, colocando as mãos por cima dos bolsos.
— Esqueceu sim, eu o ouvi tocar lá em cima.
Ameacei subir a escada quando meu pai me chamou. Virei para trás e o encarei.
— Alice me chamou de sogrinho.
Segurei o riso.
— Estou namorando a Alice — disse.
— Hum. Ela não é amiga da Juliana?
— É. — Dei de ombros.
— Não estou entendendo.
— Pai, a Juju está com o Beto. A Alice gosta de mim, então resolvi dar uma chance a ela.
— E desistiu da Juliana?
— Não tinha outra opção.
— Bom, fico feliz por você. Espero que essa menina te ajude a esquecer a Juliana.
Concordei e fui para o meu quarto. Peguei o celular e vi algumas chamadas não atendidas da Alice, do Beto e do Caveira. Liguei primeiro para a Alice.
— Você saiu?
— Não. Fiquei em casa — menti.
— Mas seu pai falou que você não estava aí.
— Ele se enganou. Tinha acabado de voltar da rua e não me viu no quarto, então achou que eu tivesse saído, mas na verdade estava tomando banho.
— Ah. — Não consegui perceber se ela acreditou na mentira. — Está melhor?
— Estou sim, obrigado pela preocupação.
— Ok — disse ela, e percebi que minha mentira não havia colado.
— Quero te ver amanhã — eu disse, tentando me redimir. — Mas não sei como você está de provas.
— Vou estudar à tarde, mas à noite estarei livre.
Percebi a empolgação na sua voz e fiquei feliz.
— Então à noite a gente sai pra comer uma pizza.
— Combinado — disse ela.
— Um beijo.
— Outro.
Desliguei e liguei para o celular do Beto.
— E aí, sumido, onde se enfiou? — perguntou ele, e eu me senti um crápula.
— Lugar algum. Estava tomando banho.
— Ah, entendi. Era só pra saber se você estava melhor.
— Estou sim.
— A gente se vê amanhã, então.
— Ok, eu passo aí pra te pegar antes da aula.
— E não esquece que temos que estudar Direito Tributário à tarde.
Revirei os olhos.
— Esqueci que tem prova na quinta.
— Eu já estudei um pouco na semana passada.
— Melhor, assim você me ensina tudo.
Nós nos despedimos e fiz uma careta pensando na prova de quinta. Detestava Direito Tributário tanto quanto Beto amava a matéria. Resolvi ligar para o Caveira.
— Fala, Caduzão, soube que você passou mal hoje.
— Não passei mal; apenas não estava me sentindo bem.
— Foi o peso de ter uma namorada como Alice Gomes? — perguntou Caveira, e soltou uma gargalhada.
Comecei a rir. Só mesmo o Caveira para me fazer rir em um momento desses.
— Não, preciso conversar com você, mas não hoje.
— Ih, lá vem bomba.
— Mais ou menos, mas você vai ficar feliz com as decisões.
Nunca fui de me abrir muito, mas precisava compartilhar tudo que me aconteceu com alguém.
— Sei não, vindo de você, boa coisa não pode ser.
— Amanhã a gente se fala e você tira suas próprias conclusões.