A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 39
O Beto não apareceu na aula na semana seguinte. Eu queria conversar com ele, mas sabia que o melhor era deixá-lo quieto, organizando os pensamentos. Até porque não adiantaria nada conversar enquanto ele estivesse com muita raiva de mim.
Caveira ia lá em casa me dar notícias dele, mas era sempre a mesma coisa: Beto não queria ouvir falar de mim.
Só que no dia seguinte seria a apresentação do nosso trabalho, e ele precisava aparecer. Decidi ligar para o celular dele, mesmo sabendo que seria difícil ele atender. Achei seu nome nos contatos e cliquei. Fiquei escutando o telefone chamar e pensei que iria para a caixa postal, quando alguém atendeu. Era uma voz de mulher.
— Emília? — perguntei.
— Oi, Cadu. — Ela foi simpática.
— Preciso falar com o Beto.
Houve um momento de silêncio e imaginei que ela estava falando para ele quem era.
— Ele não quer falar com você...
— Eu sei, mas eu preciso falar.
Amanhã é a apresentação do nosso trabalho de Direito Penal e, se ele não for, vai ganhar zero e ser reprovado.
Mais um momento de silêncio.
— Ele realmente não quer falar com você. — Ela parecia um pouco incomodada pela situação.
— Só diz pra ele uma coisa. — Suspirei. — Diz que o professor falou que ele não precisa apresentar o trabalho, apenas ir lá. Que ele tem que estar presente, ao menos.
— Ok, vou dizer. Um beijo pra você.
— Outro.
Desliguei o telefone e fiquei ali, quieto, pensando na situação que estava enfrentando.
Na sexta-feira, quando entrei na sala, Beto já estava lá, sentado. Um frio percorreu minha espinha quando revi a cena da semana anterior. Fui caminhando até ele e me sentei ao seu lado, mas dessa vez não tive coragem de olhar para ele.
O professor entrou e analisou o Beto por um tempo. Depois balançou a cabeça e se sentou na frente da sala.
— Muito bem, que o julgamento comece — disse ele, nos encarando.
Não me lembro direito como foi a apresentação. Estava nervoso demais pela situação e fui falando tudo muito rápido, sem me importar com o que dizia. A sorte era que já havia treinado várias vezes.
Os jurados, nossos colegas de classe, analisaram a defesa e a acusação.
— O júri chegou a uma decisão? — perguntou o professor.
— Sim, meritíssimo. — O representante dos jurados se levantou. — O júri considera o réu inocente.
Não sei o que senti quando vi que tínhamos ganhado a causa, porque a única coisa de que me lembro é do Beto dando uma risada sarcástica. Sei que nossa apresentação não foi maravilhosa como havia planejado, só ganhamos porque a outra dupla era ruim demais.
— Declaro a sessão encerrada — disse o professor, e o Beto saiu logo da sala. Fui atrás dele.
— Beto, espera.
Ele não esperou. Corri mais um pouco e me coloquei na frente dele. Beto me olhou de modo frio.
— Que parte do eu não quero mais falar com você você não entendeu? — Ele foi seco.
— Nós precisamos conversar.
— Não acho que precisamos.
Ele começou a andar e eu fui atrás, sem tocá-lo. O medo de ele me bater novamente se eu encostasse a mão nele ainda era grande.
— Eu sinto falta da nossa amizade.
— Pensasse nisso antes de me trair.
— Eu não te traí! Não tive culpa.
Ele me lançou novamente aquele olhar frio.
— Já falei que não quero conversar com você. Vê se me deixa em paz — disse ele, e andou mais rápido.
Parei e fiquei ali no corredor, observando-o ir embora.
Na quinta-feira seguinte, o Caveira passou lá em casa e me levou quase à força para o Bar do Tavares. Eu não queria ir, não era drama nem pirraça, nem nada, era só aquele lugar que me lembrava demais o Beto, a nossa amizade, tudo.
— Os Três Mosqueteiros!— anunciou Tavares, para o bar todo, em alto e bom som. — Bom, só dois. Estão sumidos. — Ele sorriu e começou a limpar uma das mesas lá do fundo para nós.
— É... Muita prova — disse Caveira, como se isso justificasse nossa ausência. Nunca deixamos de ir lá por causa de provas, mas não dava para contar a verdade.
Tavares se afastou e eu me sentei de frente para o Caveira.
— Sua cara está me animando demais — disse ele.
— Eu disse que não queria vir.
— Mas veio, então vê se fica um pouco mais alegre.
Suspirei fundo e o encarei. Ele ergueu as mãos, como se estivesse se defendendo, e ficou quieto.
— Sabe, isso vai passar um dia — comentou, depois de alguns minutos de silêncio, interrompidos apenas pelo Tavares vindo trazer a cerveja.
— Espero.
— Você sabe que sim. Só precisa dar um tempo pra que ele assimile tudo.
— O Beto me odeia.
— Claro que te odeia. Você tirou a namorada dele. Mas isso passa.
— Realmente você é muito animador. — Eu o olhei e dei um gole na cerveja. — Só queria que não demorasse tanto.
Ficamos mais um tempo quietos. Na verdade foi tempo demais porque só voltamos a conversar quando a picanha na chapa estava sendo servida.
— Você tem encontrado a Ju?
— Não. — Eu me encostei na cadeira. — Não tem clima. Não quero ficar vendo a Juju enquanto não resolver isso tudo.
— E se não resolver?
— Pensei que você tivesse dito que era apenas uma questão de tempo.
— Só estou curioso. — Ele deu um sorriso nervoso. — Sabe, curiosidade.
— Já falei, não tenho como ficar junto dela enquanto não resolver isso com o Beto. Nós conversamos às vezes, mas ficar juntos mesmo, de verdade, só depois que o Beto me perdoar.
Caveira balançou a cabeça, encheu a boca de batata frita e ficou me olhando enquanto mastigava. Acho que ele não tinha muito o que dizer, estava apenas pensando e ganhando tempo.
— É uma barra... Mas vai passar.
— Você me trouxe aqui só pra ficar repetindo a mesma coisa?
— Eu não sei o que falar. — Ele deu de ombros. — Eu te trouxe aqui porque você não tem saído mais. Queria te animar um pouco.
— Valeu pela tentativa.
Ele continuou calado, comendo.
— Você vai pra Floripa nas férias?
— Vou.
— A Ju vai junto?
— Claro que não!
— Achei que sim.
— Não. Se eu não quero ficar com a Juju aqui, mesmo que ninguém veja, não vou levá-la pra lá.
— É, faz sentido...
Ficamos mais um tempo quietos, bebendo e comendo, até eu quebrar o silêncio.
— Você tem conversado com o Beto?
Caveira ficou em silêncio, pensativo. Eu sabia que ele estava escolhendo as melhores palavras para me dizer que o Beto continuava me odiando.
— Sim. A gente conversa às vezes.
— Ele ainda me odeia, não é?
— Ele não fala disso.
— Deixa de ser mentiroso, Caveira! — Eu ri e ele também.
— Se sabe a resposta, pra que pergunta então?
— Sei lá. Pra saber se a raiva diminuiu.
— Eu não sei. Tento falar, sabe, explicar que não é como ele pensa. Que não foi sacanagem, que você não o traiu. Claro que não conto as suas cachorradas de beijar a Ju enquanto ela ainda era namorada dele, porque aí só iria piorar.
— Foram poucas as vezes, você sabe.
— Acho que não faria diferença pra ele.
Passei a mão no rosto e dei um longo gole na cerveja.
— Eu realmente sou um traíra.
Ele não falou nada, mas eu sabia que concordava com a minha conclusão. Eu realmente era um traíra.