A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 28
Caveira entrou de supetão no meu quarto no domingo, abrindo a cortina e me sacudindo.
— Você está doido? Isso é jeito de acordar um ser humano? — perguntei, me sentando na cama e esfregando os olhos.
— Você me paga!
— O que foi que eu fiz?
Eu o encarei espantado e senti muita raiva em seus olhos. Tentei pensar em algo que poderia ter feito a ele, mas não consegui me lembrar de nada.
— Você sabe quem veio falar comigo hoje na igreja?
— Igreja? Desde quando você vai à igreja?
Tudo isso era confuso demais, e cheguei a pensar que estava sonhando.
— Isso não vem ao caso.
— Espera aí, não estou entendendo nada. O que eu te fiz? E, afinal de contas, o que você foi fazer na igreja domingo de manhã?
— Fui buscar minha mãe, ela foi à missa de manhã. E sabe quem eu encontrei? A Juliana.
— Sim, e daí?
— E daí que ela veio falar comigo. Veio falar de você.
Senti meu coração disparar dentro do peito.
— O que ela disse? — perguntei, feliz.
— Ela não falou nada que te interesse. Ela veio desabafar comigo, você pode acreditar nisso?
— Desabafar? O que ela falou?
Minha curiosidade tinha sido aguçada. Me acomodei melhor na cama de tanta ansiedade para saber o que Juliana havia contado.
— Já falei, não interessa. O que vem ao caso é a atitude dela. Ela veio desabafar comigo, você está entendendo?
— Na verdade, não.
— Eu não sou amigo dela pra ela vir desabafar. Eu sou amigo do Beto, o namorado dela! — disse ele, bem alto. — Eu já falei mil vezes que não quero ser seu cúmplice nessa história e agora ela me transforma em cúmplice dela também.
— Vai ver ela sentiu segurança de te falar porque você sabe de tudo.
— Aí que está o problema — disse ele com firmeza, apontando o dedo indicador para mim. — Não quero saber. Prefiro não saber. Eu não quero me envolver nessa história mais do que você já me envolveu.
— Ei, não te envolvi em nada, você descobriu tudo por conta própria.
— Maldita hora. — Ele se sentou na beira da cama, ficando de costas para mim. Baixou a cabeça entre as mãos. — Beto não merece isso.
— Eu sei. Mais do que qualquer um, eu sei. — Eu me levantei e fui para a frente dele. — Não pense que fico feliz com isso tudo.
— Você. — Ele se levantou, com o dedo novamente apontado para mim. — A culpa é sua, sabia? Você não faz nada para isso acabar. Você não tenta gostar da Alice e ainda fica perseguindo a Juliana.
— Eu não estou perseguindo a Juliana.
— Dei um passo para trás, com as mãos levantadas em defesa.
— Eu sei que você foi atrás dela ontem.
— Eu não fui atrás dela ontem! Só disse que a gente precisava conversar.
— Está vendo? Você não tem mais nada pra conversar com ela.
Fiquei quieto, pensando no que Caveira falou.
— Ela disse que eu fui atrás dela? O que mais ela falou?
— Não interessa. Só posso te falar duas coisas: primeiro, ela pediu pra você não ficar atrás dela. Esquece a menina que ela está em outra. Segundo, eu não quero mais ninguém vindo desabafar no meu ouvido, e isso se aplica a ela e a você. Entendido?
— Entendido — eu disse, bem desanimado.
— Bom, bom. Agora se arruma que o almoço pra sua namorada... — Ele se aproximou. — Sim, você tem uma namorada, caso tenha esquecido. O almoço está quase pronto.
— Falou, papai. — Debochei. — Vou tomar um banho e buscar a Alice.
Nosso almoço foi mais agradável do que o da casa da Alice, e o fato de lá em casa todos estarem felizes por ela ser minha namorada ajudou. Matilde a tratou como nora, e meu pai ficou encantado por ela. Ele nunca tivera muita convivência com a Alice, mas deixou claro que estava muito contente com o nosso namoro.
Alice estava muito feliz com aquela receptividade toda, e eu fiquei contente por ela, mas não conseguia tirar a conversa com o Caveira da cabeça. Principalmente quando eu o olhava, e aí me vinha a Juliana à cabeça.
Depois do almoço, meu pai e a Matilde ajeitaram as coisas na cozinha e ficaram na sala vendo TV, esperando Ivone e Manuel chegarem para o tradicional jogo de cartas. Eu, Alice e Caveira fomos para o meu quarto.
Caveira colocou um CD do Aerosmith e se sentou na cadeira da minha mesa de estudos. Alice ficou olhando os livros da minha estante, aparentemente um pouco sem graça. Eu a puxei e a fiz se sentar na cama, me encostei em um travesseiro na cabeceira e ajeitei Alice para que ela ficasse deitada com as costas em meu peito, abraçando-a.
— No fim de semana depois da Semana Santa vou fazer um desfile em Belo Horizonte — comentou ela. — Vocês vão, não é?
— Um monte de mulher bonita é comigo mesmo — disse Caveira, todo empolgado.
— Eu vou, com certeza — disse, abraçando ainda mais Alice.
— Vai ser no sábado, com uma festa depois. É o lançamento da nova coleção de uma estilista de lá que conheci nos desfiles e concursos de que já participei, e ela ligou hoje cedo pra confirmar a minha presença.
— Hum, desfile, festinha, mulheres. Que paraíso!
— Caveira, você só pensa nisso? — perguntei, jogando uma almofada nele.
— Tem coisa melhor?
— Não, tenho que concordar.
— Então está combinado — falou Alice, empolgada, se levantando e ficando sentada no meio da cama. — O Beto, a Ju, a Emília e o Otávio também vão.
— Só casal? Vou segurar vela de três casais? — Caveira começou a desanimar.
— Você arruma uma garota lá. — Dei de ombros.
— Ou uma aqui. — Vi os olhos de Alice brilharem quando ela fez esse comentário.
— Ah, sim, claro, em duas semanas vou arrumar uma garota que os pais deixem ir para Belo Horizonte comigo. Esse não é o tipo de garota que quero arrumar.
— Hum, então você quer arrumar alguém? — Provoquei.
— Eu não disse isso. Só quis dizer que o tipo de garota que iria sem pensar duas vezes mal me conhecendo eu não tenho interesse em levar. Não é quem você leva para uma viagem com os amigos e sim com quem você se diverte aqui na cidade mesmo.
— Ou em Rioazul. — Eu ri e ele me lançou um olhar sério. — Estou só te enchendo, entendi o que você quis dizer.
— Ei, Caveira, não tem ninguém que você gostaria de levar? Ninguém em quem você esteja de olho? — perguntou Alice, com cara de quem já tramava algo.
Caveira ficou alguns instantes quieto, parecendo decidir se contava ou não para nós seus planos de conquistas amorosas.
— Tem a Rafa, acho que você conhece, ela estuda no seu colégio.
— A Rafa loirinha?
— Ela mesma.
— Sim, ela é da outra turma, mas eu a conheço.
— Já andei jogando meu charme pra ela — disse Caveira, com voz de sedutor.
— Não acredito que você já foi fazer drama de órfão pra menina! — disse.
— Você ainda usa essa cantada? — Alice se espantou. — Cuidado que daqui a pouco todas as meninas de Rio das Pitangas já vão saber dessa história e ninguém mais vai cair nela.
— Enquanto der certo, vou usando. — Ele deu de ombros.
— Bom, se você conseguir fazer a Rafa cair na sua lábia, posso conseguir que ela vá conosco.
— Como? — perguntou Caveira, todo eufórico, e trouxe a cadeira para mais perto de Alice.
— Peço para meus pais conversarem com os pais dela. Se eles falarem que só o meu irmão está indo, não deve ter problema.
— Mas seus pais não vão saber que nós vamos? — perguntei.
— Ainda não decidimos sobre isso. Talvez saibam de você e do Caveira, mas não do Otávio.
— Mas seu irmão vai estar lá — disse o Caveira.
— É, é nisso que estamos apostando. Acho que meu pai não vai se importar de ir um monte de casal sabendo que o Beto vai estar lá. Mas ainda não estamos convencidos disso.
— Ele sabe que em mim pode confiar — eu disse, puxando Alice novamente para meus braços.
— É... Como eu falei, o problema é o Otávio.
— Quem mandou a Emília namorar aquele carinha? Se ela tivesse me escolhido, não teria problema — eu disse Caveira, se levantando.
— Falou, gostosão. — Alice riu dele. Caveira ficou um tempo quieto nos olhando.
— Quem sabe não é uma boa mesmo?
— Ei, Caveira, a menina vai na boa, não pense besteira! — Eu o alertei.
— Não estou pensando besteira. Sei que a Rafa não é esse tipo de garota, e foi isso que me chamou atenção nela.
— Então veja se ela curte você e eu começo a mexer os pauzinhos para ela ir para BH conosco.
— Falou. — Caveira se aproximou e beijou Alice na testa. — Vou lá jogar basquete.
Ele foi saindo, mas Alice o chamou.
— Nós vamos na sexta, viu?
— Melhor ainda. — Ele saiu do quarto.
— Esse Caveira... — disse e abracei Alice mais forte. — Aproveitando essa história de ficar sozinho... Semana que vem meu pai vai para Congonhas com a Matilde e eu pensei em fazer um jantar para você aqui.
— Um jantar? — perguntou ela, e eu a virei de frente para mim, fazendo-a ficar deitada com o queixo no meu peito.
— É. Não sou um expert na cozinha, mas sei me virar e quero fazer algo para você. Aproveitar também para ficarmos um tempo a sós, só você e eu.
— Sem o Beto junto.
Ri e a puxei para mais perto do meu rosto.
— Não apenas o Beto, mas todo mundo. São raros os momentos em que estamos a sós, como agora. Mas é só mesmo um jantar, sem maldade alguma. Não sei se o Beto vai encrencar. — Fiz uma careta.
— Ei, ele não precisa saber de todos os meus passos.
Levantei as sobrancelhas.
— Como não?
— Não vou ficar pedindo permissão toda vez que quiser te encontrar, não rola! Eu invento algo, falo que a gente vai sair. Provavelmente ele vai estar com a Ju, nem vai saber mesmo.
— Então combinado?
— Sim — sussurrou ela, e eu a deitei na cama e fiquei por cima dela, beijando-a.
Era a primeira vez que eu ficava sozinho com a Alice no meu quarto. Na verdade, era a primeira vez que ficávamos sozinhos em um lugar tranquilo e confortável que não fosse o meu carro, embora eu nunca tenha agarrado Alice lá dentro.
Comecei beijando-a calmamente, não queria apressar nada. Estávamos juntos havia pouco tempo e eu ainda tinha a cobrança do Beto e do pai dela. Ficamos um tempo apenas nos beijando, até que os beijos ficaram mais intensos e eu senti um arrepio percorrer minha espinha. Estávamos os dois ofegantes, e a atração que eu sentia por Alice estava mexendo comigo, mas sabia que precisava me controlar.
Passei uma das mãos em sua barriga por baixo da blusa que ela usava, sentindo a maciez de sua pele, enquanto com a outra segurava sua nuca. Ela estremeceu e eu sorri. Olhei seus olhos, que brilhavam, e ela sorriu de volta.
— Eu vou com calma, para nos conhecermos aos poucos — sussurrei, e ela balançou a cabeça, segurando a respiração.
Dei um beijo em seus lábios e desci meu rosto para a barriga, levantando um pouco a blusa e beijando em volta do seu umbigo. Ela se contorceu e soltou uma risada nervosa.
— Cócegas? — perguntei, maliciosamente, levantando o rosto. Ela apenas negou com a cabeça, um pouco constrangida. Voltei a me deitar sobre seu corpo, agora com a cabeça perto da dela. Apoiei os dois cotovelos na cama, um de cada lado de seu corpo. — Alice... — Eu a encarei. — Você já fez isso antes?
Ela me olhou e mordeu o lábio inferior.
— Não — sussurrou.
Dei um beijo em seus lábios e deitei de lado na cama, virando-a de frente para mim. Ficamos os dois nos olhando.
— Eu imaginei. — Uma de minhas mãos percorria o braço de Alice que estava esticado, e a outra estava na cama, segurando sua mão. — Por isso quero ir com calma.
— Você está com medo do Beto.
— Não é só isso. — Eu a olhava e via amor em seus olhos, e me sentia culpado. — Nós temos pouco tempo de namoro, não quero precipitar nada. Acho que tem que ser com calma pra que tudo seja especial pra você. E, como eu disse, para nos conhecermos melhor e aos poucos.
— Eu sei. — Ela ficou com as bochechas vermelhas. — Mas sei também que o Beto atrapalha.
— Não vou negar que sim. Tento não ficar pensando nele quando estamos juntos, mas respeito seu irmão, sua família e você. Eu também te desejo, e muito. — Fui sincero. Segurei seu queixo. — Você me atrai demais, mas não vou ser cafajeste e desrespeitar sua família.
— Entendi. — Ela sorriu. — E fico feliz de ver que não podia ter encontrado alguém melhor.
Sorri de volta e a abracei. Ficamos o resto da tarde curtindo a companhia um do outro, namorando inocentemente e conversando sobre nossas vidas. Naquela tarde, eu não me lembrei da Juliana.