A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 16
Acordei tarde e não encontrei meu pai em casa, apenas um bilhete falando que tinha ido almoçar na casa da tia Matilde e para eu ir lá quando acordasse. Como já passava de três da tarde e meu estômago não aceitaria comida depois da bebedeira em Rioazul, decidi ficar em casa mesmo.
Fiquei sentado na cozinha, olhando para o nada. Minha cabeça doía por causa da festa do dia anterior, mas também rodava com tudo o que estava acontecendo... Eu pensava como tinha chegado àquele ponto. Estava apaixonado pela namorada do meu melhor amigo, não fazia nada para que esse sentimento acabasse, não tinha a mínima chance com a Juju e agora tinha cedido o meu quarto — MEU QUARTO — para que os dois tivessem uma noite de amor, a primeira delas.
Eu era um idiota e me odiava cada dia mais. Caveira tinha razão: o certo era esquecer a Juliana. Mas como, se cada dia eu a amava mais?
Meus pensamentos foram interrompidos pelo barulho na porta. Estiquei o pescoço para ver meu pai entrar acompanhado da mãe do Caveira. Pelo menos alguém naquela casa estava se dando bem; fiquei feliz pelo velho.
— Olá, Carlos Eduardo — disse meu pai, entrando na cozinha. Tia Matilde entrou também e me deu um beijo na testa.
— Oi, tia, tudo bom?
— Tudo. — Ela se sentou na minha frente. — Acho que fica um pouco estranho você me chamar de tia agora que eu e seu pai estamos juntos.
— Eu sei, tia, é o costume. — Sorri, vendo que ela não tinha problemas em assumir o namoro. Reparei que meu pai ficou sem graça com o comentário, mas não falei nada sobre isso. — Vou tentar chamá-la de Matilde.
Ela sorriu de volta e olhou para o meu pai. Os dois se comunicaram um pouco com o olhar e ele saiu da cozinha, nos deixando a sós.
— Qual é a reclamação do velho desta vez? — Percebi que ele havia pedido a ela para falar comigo sobre alguma coisa.
— Você conhece mesmo o seu pai. — Ela manteve o sorriso no rosto e isso me tranquilizou. Matilde tinha uma aparência calma e uma fala mansa que parecia dizer tudo vai ficar bem. — Ele só está preocupado com você.
— Ele sempre está preocupado comigo, mas eu nunca dou motivos.
— Não é com isso que ele está preocupado. Ele disse que você tem enfrentado problemas do coração e não sabe como ajudar. Achou que, por eu ser mulher, talvez fosse mais fácil.
Arregalei os olhos. O que meu pai teria dito? Matilde percebeu e se adiantou.
— Se você não quiser conversar comigo, não tem problema, eu entendo. Imagino que prefira falar com o Murilo ou com o Beto.
Com o Beto seria impossível, com o Murilo... Levei alguns segundos para me tocar de que Murilo e Caveira eram a mesma pessoa.
— O que ele te falou? — Quis saber, temeroso do que poderia ouvir.
— Não me falou nada; apenas que você está sofrendo por um amor não correspondido. Mais nada. — Ela estenteu as mãos e segurou as minhas com ternura. — Pelo fato de eu ser mulher, posso tentar ajudar.
Suspirei e baixei a cabeça. Talvez fosse melhor mesmo conversar com alguém de fora, uma mulher, que poderia se colocar no lugar da Juliana e me ajudar. Respirei fundo e resolvi falar logo.
— Eu gosto de uma garota. Mas ela namora um amigo meu, um grande amigo meu. — É claro que na hora a Matilde sacou que era a Juliana, mas não falou nada, apenas balançou a cabeça, concordando e me incentivando a falar mais. — Só que eu acho que ela gosta de mim apenas como amigo. Já tentei esquecê-la, mas não consigo. E esta semana é aniversário dela e... Bem, o namorado vai dar a ela algo especial, que só ele pode dar. Estou com inveja, ciúmes. Queria que o dia dela fosse especial, mas comigo. Queria dar algo especial também, para ela se lembrar pelo resto da vida, mas sou apenas seu amigo.
Matilde ficou um tempo quieta, pensando. Ela deve ter sacado o presente do Beto para a Juliana, mas não fez nenhum comentário quanto a isso.
— Você quer algo especial, para ela se lembrar de você. Algo que possa superar o que o namorado vai dar?
— Quem sou eu para competir com o presente dele? — disse, com franqueza.
— Olha, Cadu, as mulheres não são apenas umas bobas que gostam de flores, bombons, jantares românticos e uma linda noite de amor. É claro que gostamos disso, mas gostamos também que os homens nos deem atenção.
Franzi a testa, não entendendo uma vírgula do que ela tentava me explicar. Definitivamente as mulheres adoram falar em código.
— Não entendi — disse, com sinceridade. Ela apenas sorriu.
— O que estou tentando explicar é que as mulheres gostam que os homens prestem atenção ao que elas falam, fazem, saibam do que elas gostam. Se você prestar atenção nessa garota, se você tentar conhecê-la, pode saber do que ela gosta, pelo que ela se interessa, o que é importante, e pode encontrar um presente que a agrade tanto ou mais do que o que o namorado dela vai dar. Ele pode dar algo especial, mas isso não é a única coisa que ela pode receber. Você conseguiu entender?
Balancei lentamente a cabeça. Acho que entendi. O que ela gosta... O que ela gosta? O que é tão ou mais importante para a Juliana do que uma noite nos braços do namorado que ela ama? O que a deixaria alegre? O que a faria a pessoa mais feliz do mundo?
De repente, dei um pulo e me levantei.
— Meu Deus, é claro! — Dei um largo sorriso e beijei a bochecha da tia Matilde. — É isso, é isso que vou fazer, muito obrigado! — E saí correndo da cozinha em direção à rua.
Fiquei com o dedo insistentemente na campainha da casa do Caveira. Estava parado ali um tempo, esperando que alguém atendesse à porta, e não ia desistir porque sabia que ele estava em casa.
— Jesus, que é isso? — perguntou ele, abrindo a porta enquanto enxugava o cabelo com uma toalha. — Estava saindo do banho, me vesti correndo achando que alguém tinha morrido.
Entrei e fechei a porta.
— Sua mãe é um gênio, sabia?
— Sabia, mas não fala isso na frente dela; vai se achar. — Caveira foi para o banheiro pendurar a toalha na porta do box. Fui atrás.
— Você ainda tem aquela fantasia de Carnaval?
— Que fantasia? — Ele se virou para me olhar e na mesma hora foi para o quarto. Ele se sentou na cama e começou a calçar o tênis.
— Aquela que eu, você e o Beto usávamos.
Caveira ficou pensativo.
— Cara, pra dizer a verdade não faço a mínima ideia. — Ele se levantou e colocou as mãos na cintura. — Eu acho que devo ter, mas não sei onde está.
— Pelo amor de Deus, Caveira! É muito importante.
— Para quê você quer isso? — perguntou, indo em direção aos fundos da casa, eu atrás.
— Não posso falar.
— Hum, quanto mistério. — Caveira destrancou a porta de um depósito de tralhas que tinha no fundo do quintal. — Se eu tiver ainda, deve estar guardada aqui, em algum lugar.
Ele acendeu a luz do depósito e ficou olhando as milhares de caixas que estavam lá dentro. Desanimei só de ver aquilo tudo. Levaria um bom tempo para encontrar, isso se a gente encontrasse.
— Será que sua mãe sabe onde está?
— Putz, se eu não sei, muito menos ela. — Ele olhou em volta. — Deixa eu ver aqui. — E começou a pegar várias caixas onde estava escrito Murilo.
Caveira ficou um longo tempo mexendo em algumas, e eu já estava desistindo quando ele gritou.
— Achei!
Olhei para aquele saco plástico embrulhando um monte de panos e forcei a vista. Era a fantasia que eu queria.
— Você pode me emprestar?
— Claro, pode levar. Não esquece os acessórios. — Ele me entregou uma caixa grande com o resto da fantasia. — Você não tem mais a sua?
— A minha não serve mais em mim.
— Entendi. Não vai mesmo me contar pra que você quer isso?
— Não, não posso contar. Você jamais entenderia.
Se contasse a verdade, o Caveira começaria um sermão sem fim e me repreenderia por querer agradar a Juliana.
— Já vi que vai fazer besteira. — Ele balançou a cabeça negativamente e suspirou. — Precisa lavar.
— Deixa comigo. — Acenei para ele e fui para casa feliz, terminar de elaborar meu plano para o presente da Juliana.