A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 22 de 44

Páginas do PDF

A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 18

 

Era um sábado ensolarado, com poucas nuvens no céu e temperatura agradável. Dirigi até o bosque que ficava na entrada de Rio das Pitangas e estacionei o carro embaixo de uma árvore, bem longe das famílias que estavam lá fazendo piquenique. Não queria ser interrompido enquanto dava meu presente para a Juliana.

Desci do carro e ela me acompanhou.

— Que presente tão misterioso é esse que precisa sair da cidade para me entregar?

Não respondi, apenas sorri e abri o porta-mala. Tirei uma caixa grande e a entreguei.

Juliana pegou a caixa, que estava um pouco pesada, e a depositou na grama. Ficou olhando para mim.

— Abra e me diga se gosta — pedi, já sabendo que ela iria gostar.

Juliana desfez delicadamente o laço que envolvia a caixa, retirou a tampa e ficou olhando o tecido azul-escuro. Lentamente, ela foi tirando peça por peça de dentro da caixa e vi algumas lágrimas escorrendo pelo seu rosto.

— Meu Deus! — Ela olhou para mim. — É o que eu estou pensando?

Balancei a cabeça, concordando. Eu me abaixei e sequei as lágrimas dela com a minha mão.

— É a fantasia de mosqueteiro que usei durante anos no Carnaval. É sua agora. Acho que vai servir.

Ela me deu um beijo no rosto e me abraçou bem forte. Fechei os olhos com o contato dos lábios dela.

— Sempre quis ter uma. — Ela ficou alisando a roupa.

— Também tem isto. — Tirei uma espada no estilo esgrima de dentro da caixa. Era feita de uma borracha dura. Peguei o chapéu e o coloquei na cabeça da Juliana. — Por que você não experimenta?

— Aqui? — Ela olhou em volta, assustada.

— Não tem ninguém por perto e eu não vou olhar. Você veste dentro do carro, vou deixar a tampa do porta-mala levantada, para bloquear a visão. Também tenho uma coisa para fazer enquanto você veste a roupa.

Juliana mordeu o canto esquerdo do lábio inferior, hesitante. Olhou novamente em volta e, por fim, pegou toda a roupa e entrou no carro.

Fui até o porta-mala e tirei a fantasia do Caveira de dentro de um saco plástico e comecei a vestir. Quando a Juliana saiu do carro e me viu, arregalou os olhos. Ela estava linda, e a roupa tinha ficado quase perfeita, apenas um pouco folgada.

— O que acha de um duelo? — perguntei, pegando a espada do Caveira e jogando para ela a minha, que agora era dela.

— Você pensou em tudo! — Ela sorria igual criança solta em uma loja de doces, e aquele sorriso me fez ter a certeza de que havia acertado no presente.

— Um mosqueteiro de verdade tem que participar de um duelo antes de entrar para a guarda do rei.

— Você sabia que eu já fiz aula de esgrima? — disse ela, maliciosamente.

Eu arqueei as sobrancelhas e tentei dar um sorriso de deboche.

— Não tenho medo de você. — Eu me aproximei dela. — En garde — disse, me posicionando como os espadachins que via nos filmes.

Juliana veio com a espada para cima de mim e me acertou facilmente. Eu a olhei com a cara fechada e parti para o ataque, mas era desajeitado e ela se movimentava com uma leveza de dar inveja. Conseguia escapar das minhas estocadas e veio em minha direção como uma raposa. Depois de alguns minutos de luta eu já estava cansado, enquanto ela parecia não derramar uma gota de suor.

— Chega — exclamei, jogando a espada no chão e me sentando encostado na árvore que fazia sombra para o carro.

Ela se sentou ao meu lado, feliz. Ficamos um tempo em silêncio, olhando para a frente, até ela se virar para mim.

— Obrigada, Cadu. Foi o melhor presente que eu poderia ganhar.

Sorri com o canto da boca e a encarei.

— E o presente do Beto? Achei que seria seu melhor presente.

Eu a olhei no fundo dos olhos e vi que ela se espantou. Mas que raio de pergunta era aquela? Por que eu tinha de agir como um idiota?

— Do que você está falando?

— Do presente que ele vai te dar. No meu quarto.

Juliana prendeu a respiração e olhou para baixo. Ela ficou quieta e eu me senti mal.

— Desculpa. Não deveria ter tocado nesse assunto.

— Eu não achei que você soubesse — sussurrou ela, e imaginei que estivesse envergonhada.

— Desculpa, fui um idiota. Não queria te deixar sem graça.

Ela não respondeu de imediato, apenas ficou olhando para a frente. Peguei sua mão e apertei com força contra o meu peito.

— Juju, mil desculpas. Não sei o que me deu para falar disso.

Ela balançou a cabeça e me olhou, ainda sem graça.

— Tudo bem. — Ela ficou quieta me encarando. — Nada vai se comparar ao que aconteceu aqui. Eu jamais esperava que isso um dia pudesse acontecer — disse ela, mostrando a roupa. Decidi ficar quieto e não estragar aquele momento.

— Fico feliz em saber que você gostou.

— Como você pensou nisso?

— Não sei, apenas veio na minha cabeça. Quis te dar algo que fosse especial, que fosse importante pra você. Isso é o mais perto que eu poderia chegar de especial.

Ficamos um tempo nos encarando e senti um frio percorrer a espinha. Ela se aproximou de mim.

— Foi especial — sussurrou, enquanto encostava os lábios no meu rosto.

Eu estava envolvido pelo momento, pelo perfume dela, e não pensei duas vezes. Com uma das mãos, trouxe o rosto de Juliana para mais perto do meu. Ficamos nos olhando um tempo, a respiração dos dois estava ofegante e meu coração disparado. Fechei os olhos e puxei o corpo dela para perto do meu. Ela não relutou e colocou as mãos em volta do meu pescoço.

Foi um beijo calmo, suave, intenso, o melhor beijo da minha vida. Juliana correspondeu, e meu coração batia descompassado dentro do peito. Entendi perfeitamente a frase “o tempo parou naquele instante”. Eu era o cara mais feliz do mundo, e não queria que o momento acabasse jamais.

Depois de um tempo, Juliana me afastou, olhando para baixo.

— Acho melhor irmos embora — disse ela, se levantando.

Em me levantei e parei em frente a ela, segurando seu braço.

— Juju, eu...

— Não fale nada. — Ela fez sinal para que eu me calasse.

— Não, eu preciso falar — disse, ainda segurando seu braço. — Eu te amo. Te amo desde o dia em que te vi, desde que você voltou pra Rio das Pitangas.

— O quê? — Ela me olhou espantada.

— Sei que não devia dizer isso, não devia ter te beijado, mas venho segurando tudo faz muito tempo. Eu te amo, por isso dei esse presente pra você. Porque queria que fosse o melhor que você receberia. Porque estou morrendo de ciúme do Beto e do que vai acontecer hoje à noite no meu quarto. — Eu falava tudo rapidamente, de uma vez, pra não perder a coragem de continuar. — Eu te amo demais, mas não posso te amar porque você é a namorada do Beto. Tento tirar você da minha cabeça, mas não consigo. Só que não posso continuar te amando, porque o meu melhor amigo também te ama, e não quero machucar o Beto.

Ela abriu a boca para falar, mas desistiu. Caminhou até o carro e ficou encostada na porta. Eu me aproximei, mas não muito. Deixei-a quieta, processando o que eu havia falado. Depois de um longo tempo, ela me olhou.

— Foi tudo perfeito, especial, mas agora precisamos ir embora e voltar para a realidade.

 

Deixei a Juliana em casa. Fomos mudos até lá, e quando ela saiu do carro apenas acenou. Estávamos um pouco sem graça, e eu não sabia o que falar. Também não queria soltar alguma besteira e correr o risco de estragar o momento que tivemos, até porque o que eu tinha para dizer já havia sido dito. Mas, apesar de tudo, estava muito feliz.

Segui para a casa do Caveira, para devolver a fantasia e vertir minha roupa. Toquei a campainha e ele se assustou quando me viu parado na porta vestido de mosqueteiro.

— Desculpa, mas o Cardeal Richelieu não pode atender no momento — disse ele, em tom sarcástico.

— Quem? — Não entendi a piada.

— Cara, você parece ter saído de um livro dos Três Mosqueteiros.

— Seria porque estou usando uma roupa dessas? — brinquei e entrei.

— Onde diabos você estava?

Eu o olhei em silêncio. Fiquei um tempo pensando se contava ou não. Fui para o banheiro e ele me seguiu. Comecei a tirar a roupa quente e entreguei para ele.

— Isto está fedendo a suor. — Ele fez uma careta quando pegou a fantasia.

— É claro, o dia está quente demais.

— Você devia ter vergonha de me entregar uma roupa toda suja.

— Você me entregou a roupa com o maior cheiro de mofo!

— Você que quis a fantasia. — Ele deu de ombros.

Terminei de vestir minha roupa e peguei a fantasia das mãos dele.

— Vou lavar aqui, não se preocupe. Só não fui pra casa porque a Alice já deve estar lá.

— Fazendo o quê?

— Ela ia pra lá mais cedo arrumar algumas coisas da festa junto com a sua mãe.

— Ah. — Ele me seguiu até a área de serviço, joguei a fantasia dentro do tanque e abri a torneira. — Você não vai me contar aonde foi todo fantasiado?

Dei um sorriso com o canto da boca e o encarei. Minha felicidade era óbvia, porque ele deu um passo para trás.

— Fui dar meu presente pra Juju.

— Meu Deus! — Ele arregalou os olhos. — Não me diga que... Não, não diga nada. — Ele recuou mais ainda.

— Você perguntou.

— Você está maluco?

— Ei, nós somos amigos! — Fechei a torneira e peguei o sabão em pó, enquanto olhava para ele. — Não fiz nada demais. Bem...

— Ai, meu Deus, não fala nada. — Caveira tampou os ouvidos. — Eu não quero saber.

— Caveira, estou tão feliz! A Juju amou o presente.

— Não me interessa. — Ele continuava com as mãos nos ouvidos, mas eu sabia que me escutava.

— Eu dei um beijo nela. E me declarei — disse, como se fosse algo normal, que eu fazia todos os dias.

— Você o quê? — berrou Caveira. — Você está maluco?

— Ela me beijou também.

— Eu não quero saber, não me fala mais nada. Não quero me envolver nisso!

— Já falei tudo. E não estou te envolvendo em nada, estou apenas respondendo o que você perguntou.

— Você é maluco. Você é um imbecil! Como pôde fazer isso com o Beto?

— Eu não esperava que tomasse o rumo que tomou. Apenas queria dar algo especial pra ela.

— E por quê? Pra quê você precisa dar algo especial para a Juliana?

Fiquei mudo, olhando para ele. Não precisava explicar, ele sabia por que eu tinha a necessidade de dar um presente especial. Caveira ficou um tempo balançando a cabeça, como se reprovasse minha atitude, e, depois de um tempo quieto, arregalou os olhos.

— Meu Deus, diga que ela ainda é virgem!

— Você está doido? É claro que é, eu não fiz nada.

— Não fez nada? Você leva a menina sei lá onde, se enfia nessa fantasia ridícula, beija a garota, que por sinal é namorada do seu melhor amigo, caso tenha se esquecido, diz que queria dar algo especial, se declara e quer que eu não faça nenhuma dedução?

— Eu só a beijei, mais nada. Quem você pensa que eu sou?

— Eu pensava que você fosse um amigo confiável. Agora já não sei mais.

As palavras do Caveira foram duras para mim. Baixei a cabeça e fiquei fitando as bolhas de sabão que se formaram por cima da fantasia dentro do tanque. Senti um nó na garganta e também vontade de chorar. Encarei-o com os olhos já vermelhos e cheios de água.

— Eu ainda sou um amigo confiável. Só que foi mais forte do que eu. Também sou de carne e osso.

Passei pelo Caveira e fui em direção à porta da casa; não queria mais ficar ali. Ele segurou meu braço.

— Desculpa, cara. Foi mal.

— Eu não consegui resistir. Foi um beijo só!

— Você não devia ter ido atrás dela. Esquece, Cadu.

Não falei nada, apenas mordi minha bochecha e saí dali. Fui até o carro e dirigi para minha casa, que era praticamente ao lado da dele.

Cheguei em casa e encontrei Alice na cozinha com a Matilde.

— Onde é que você esteve? — perguntou Alice, se aproximando de mim. — Nós temos uma festa para organizar.

— Nós? — perguntei e dei um beijo em seu rosto.

Ela fez uma careta e me empurrou.

— Você está fedendo a suor! Vai tomar banho, antes que os convidados cheguem.

Eu ri do desespero dela.

— Alice, vêm umas dez pessoas só. Sem estresse.

Ela mostrou a língua. O timer do fogão alardeou pela cozinha, parecendo um despertador.

— As quiches estão prontas — disse Alice, indo até o fogão e abrindo a tampa do forno. Olhei para Matilde.

— Meu pai está em casa?

— No quarto.

— Hum. Alice te falou sobre hoje?

— Não se preocupe que não vamos atrapalhar a reuniãozinha de vocês. — Matilde tinha um sorriso tranquilizador nos lábios.

— Imagina, você não atrapalha. Só tenho medo que o velho desça e comece a dar sermão — expliquei, indicando a parte de cima da casa com a cabeça.

E era verdade; minha única preocupação aquela noite era meu pai, mas o fato de a Matilde estar ali me ajudava a ficar calmo.

— Fique tranquilo, seu pai não sairá do quarto. Qualquer coisa que precisar, estaremos lá em cima.

— Você é um amor — falei, dando um beijo na bochecha dela. Ia falar que a ideia sobre o presente para Juliana foi um sucesso, mas Alice estava na cozinha, então decidi agradecer Matilde outra hora. — Vou lá tomar banho.

Saí da cozinha e Alice veio atrás.

— Cadu, espera. — Ela se aproximou e olhou para a cozinha e depois para a escada, como se quisesse se certificar de que ninguém estava nos escutando. — Não se assuste quando entrar no quarto — recomendou e saiu. Franzi a testa, tentando entender o que ela queria dizer.

Balancei a cabeça e subi o lance de escada pulando os degraus de dois em dois. Parei em frente ao meu quarto e escutei um barulho de televisão vindo do quarto do meu pai. Pensei em ir lá dar um alô, mas desisti porque ele sentiria o cheiro de suor e ia querer saber onde estive.

Abri a porta do meu quarto e segurei um grito que veio até a boca. Arregalei os olhos, perplexo. Meu quarto estava coberto de pétalas de rosas por todos os lados, inclusive em cima da cama. Fiquei um tempo ali parado, com a mão na maçaneta e admirando aquele show de horror. Bom, horror para mim, mas eu tinha certeza de que a Juliana ia se derreter quando o Beto a levasse para lá.

Entrei, fechei a porta e fiquei encostado nela por um tempo. Estava desnorteado, totalmente sem rumo. Praguejei e senti muita raiva! Raiva de mim, por ter cedido o quarto; da Alice, por proporcionar aquele espetáculo de rosas; da Juliana, por ter aceitado passar a noite com o Beto ali no meu quarto, e, é claro, do Beto, simplesmente porque eu queria estar no lugar dele.

Fui até o armário controlando as lágrimas, que teimavam em se acumular nos meus olhos, e tentando engolir o nó na garganta antes que virasse um choro. Peguei uma roupa e fui para o meu banheiro, fechando a porta. Entrei embaixo do chuveiro, sentei no chão do box com a água caindo em cima de mim e chorei feito criança.