A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 38 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 34

 

Estava me arrumando para a viagem quando escutei um barulho no andar de baixo. Fiquei quieto, tentando pensar no que podia ser. Desci as escadas e encontrei meu pai colocando sua pasta em cima da mesa da sala.

— Pensei que não viria almoçar aqui hoje.

— Resolvi vir pra me despedir de você. — Ele me olhou e ficou alguns instantes me analisando. — E como você está?

— Estou bem — respondi, sem entender muito a pergunta.

— Quero saber sobre seu namoro, a Juliana...

Virei os olhos e tentei ficar calmo, mas é claro que ele percebeu que o assunto não me agradou. Senti que ele também estava desconfortável em falar sobre isso comigo.

— Estou bem, meu namoro está bem e a Juju também está bem — disse, e não dei muito tempo para ele se intrometer novamente. — Bom, estou indo; o Otávio já deve estar chegando.

Fui até a porta, antes que ele começasse um sermão sobre eu ainda não ter esquecido Juliana. Já bastava o Caveira me enchendo.

 

A viagem para Belo Horizonte foi tranquila. Chegamos lá no meio da tarde. Como o Beto já havia determinado, fiquei com o Caveira em um dos quartos que tinha duas camas de solteiro, e ele ficou com o Otávio no outro, para vigiar o namorado da irmã. As meninas se acomodaram todas em uma das suítes e carregaram o outro colchão de casal para lá. Com todas juntas no mesmo lugar, Beto estava mais calmo.

Ficamos bebendo cerveja na espaçosa varanda do apartamento. Um vento fraco corria por ali e o clima estava agradável. À noite, íamos a uma boate da moda que ficava praticamente em frente ao prédio, então todos puderam relaxar e beber enquanto jogávamos conversa fora, sem a preocupação de dirigir de madrugada.

Decidimos que as meninas usariam os banheiros das duas suítes para se arrumar enquanto nós quatro dividiríamos o outro banheiro do apartamento. Mesmo assim, ainda ficamos prontos antes delas. Nunca entendi por que as mulheres demoram tanto para tomar banho e se arrumar. Basta colocar a roupa e pronto. Certo?

Eu estava no quarto terminando de calçar o sapato enquanto o Caveira abotoava a camisa, quando alguém bateu de leve na porta. Era Emília.

— Já está pronto? — ela perguntou para mim. — Quero te pedir um favor.

Franzi a testa, tentando imaginar o que ela poderia querer comigo.

— Pode falar — disse, receoso.

Ela ficou um instante quieta na porta, olhando para mim e para o Caveira, enquanto mordia o lábio inferior.

— Se quiser, eu saio — disse Caveira, percebendo a hesitação dela.

— Não. — Emília balançou a cabeça e se aproximou de mim, se sentando ao meu lado na cama. — É que eu quero dormir com o Otávio hoje. — Ela quase sussurrou.

Arregalei os olhos.

— Você está louca?

— Ah, Cadu!

— Como você vai fazer isso com seu irmão aqui?

— Não sei. — Ela deu de ombros. — Por isso vim falar com você.

— Não conte comigo. Não quero confusão com o Beto.

— Por favor... Não vai ter confusão! Você diz que quer dormir com ele lá no quarto, que o Caveira ronca, sei lá.

— Ei! — protestou Caveira, mas foi ignorado.

— Não vai dar certo, ele vai perceber que é armação. — Fiquei quieto e passei uma das mãos no meu cabelo. — Não, não quero confusão com o Beto. Finalmente consegui que ele parasse de pegar no meu pé por causa da Alice. Ele não vai cair nessa.

Emília ficou quieta, triste, mas conformada. Ela sabia que era um pedido absurdo.

— Eu ajudo — disse Caveira, e nós dois o olhamos, espantados. — Eu ajudo você.

— Agora você que ficou maluco. — Balancei a cabeça. Quem diria, o Caveira ajudando Emília a ficar com outro.

— Sério? — Ela sorriu.

— Sério. — Ele retribuiu o sorriso.

— Posso saber o que você pretende fazer? — perguntei.

— Ainda não sei. — Ele deu de ombros.

— Bom, melhor mesmo eu não saber. — Eu me aproximei do Caveira. — Não quero ser seu cúmplice — eu disse, dando ênfase à palavra cúmplice. É óbvio que ele entendeu por quê, mas não se importou.

— Nem sei como agradecer. — Emília se levantou e deu um beijo no rosto do Caveira. Os dois ficaram se olhando e ele apertou o queixo dela.

— Não tem que agradecer. Só preciso falar com a Rafa para ela não estranhar nenhuma atitude minha hoje.

— Já vi que a noite não vai prestar — eu disse, saindo do quarto.

 

E não prestou mesmo. Caveira deu um porre no Beto. No meio da noite, eu, Alice e Juliana o levamos de volta ao apartamento, quase carregado, enquanto os outros ficaram na boate por mais um tempo. Chegando ao apartamento, fomos para o quarto e colocamos Beto deitado na cama, e ele logo pegou no sono.

— Como vai ser a distribuição? — perguntei.

— Você dorme aqui com ele — respondeu Alice, enquanto ajudava Juliana a tirar os sapatos do Beto.

— E amanhã, quando ele acordar, eu falo o quê?

— Que ficou aqui para ajudar se fosse preciso. — Alice deu de ombros, olhando o irmão. — Ele vai acreditar que você preferiu dormir aqui com ele nesse estado a deixar o Otávio.

— Eu, a Alice e a Rafa vamos dormir juntas, e a Emília vai pra outra suíte. Já levamos o colchão pra lá — comentou Juliana, sem tirar os olhos do namorado, que dormia pesado. Eu não queria nem saber quando elas levariam o colchão sem o Beto perceber.

— Ok. — Eu olhei para o Beto e balancei a cabeça. — Bom, vou pegar minhas coisas e venho para cá, mas acho que tão cedo ele não acorda.

— Eu fico aqui até você voltar — disse Juliana, e se sentou ao lado do namorado.

— Eu vou dormir. Preciso descansar para o desfile de amanhã. — Alice me olhou e saímos do quarto. Encostei a porta. — Bem que podíamos dormir juntos também — propôs ela, maliciosamente, enquanto me beijava.

— Pensei que você tinha que descansar. — Eu a abracei e retribuí o beijo.

— E tenho. — Ela se afastou. — Além do mais, não tem clima nenhum dormir com você debaixo do mesmo teto que meu irmão e essa cambada de gente.

— Isso é verdade. Pelo seu irmão.

Eu sorri, dei mais um beijo em Alice e depois fiquei esperando até ela entrar no quarto.

Fui até o meu e peguei o pijama. Passei no banheiro para escovar os dentes e voltei para o quarto onde Beto dormia. Abri a porta e vi Juliana deitada ao lado dele, acariciando seu rosto. Sempre soube que a inveja é um dos piores sentimentos, mas desde que me apaixonei por Juliana eu sentia isso constantemente.

— Oi — eu disse, fechando a porta.

Ela se levantou.

— Você foi rápido.

— Só escovei os dentes e peguei meu pijama. Já pode ir dormir, se quiser.

Juliana ficou quieta, olhando o Beto. Eu senti um clima tenso enquanto estava ali parado, ao pé da cama em que eles estavam.

— Se quiser dormir aqui com ele, eu vou para o outro quarto.

— Não! — Ela me olhou assustada.

— É sério. Não acho que ele vá representar perigo para alguém hoje. — Tentei brincar para quebrar o gelo. Deu certo porque ela sorriu.

— Beto caiu direitinho na conversa do Caveira de fazer um duelo de bebidas. — Ela suspirou. — Espero que ele não descubra nada.

— Também espero.

Ficamos mais um tempo quietos, e eu ainda sentia a tensão no ar. Estava um silêncio um pouco desconfortável, daqueles quando ninguém sabe o que fazer e falar e, ao mesmo tempo, sabe que, se demorar muito, vai acabar acontecendo uma besteira. Ficar sozinho com a Juliana era sempre um perigo, ainda mais depois de ingerir um pouco de álcool. Bom, teoricamente não estávamos sozinhos, mas no momento o Beto e uma porta desempenhavam o mesmo papel.

De repente, Juliana se levantou, passou a mão na cabeça do Beto e olhou para mim.

— Vou dormir. Boa noite. — Ela esboçou um meio-sorriso e saiu do quarto.

Não sei o que me deu, mas, antes que ela fechasse a porta, fui atrás.

Segurei-a no corredor e bati a porta atrás de mim, embora soubesse que o Beto não acordaria nem que uma banda de música entrasse no quarto.

— Juju, espera.

— Você está maluco? — perguntou ela, olhando para os lados como se alguém pudesse aparecer ali.

— Só quero te dar boa-noite. — Eu ainda segurava o braço dela, e senti em seu olhar o pavor de que alguém nos visse.

— A Alice pode aparecer.

— Não estou fazendo nada demais. — Dei de ombros, mantendo meus olhos fixos em seu rosto.

— O que você quer? — Ela evitava me olhar.

— Já disse, dar boa-noite. — Finalmente a soltei. Senti meu coração disparado e minha respiração ofegante.

— Boa noite.

Ela levantou o rosto e tinha um olhar desafiador, como se duvidasse que eu fizesse algo bem ali, com Alice e Beto dentro do apartamento, o que a deixou ainda mais irresistível.

Acho que dei um sorriso com o canto da boca, não me lembro exatamente. Foi tudo muito rápido. Sem pensar muito, eu a puxei e beijei sua boca. Acho que o susto a pegou desprevenida, porque Juliana demorou a me empurrar.

— Você enlouqueceu? — perguntou ela, quando finalmente conseguiu se soltar. Não esperou por mais nada e entrou rapidamente no quarto onde dormiria com Alice e Rafaela.

— Sonhe comigo — sussurrei e voltei para meu quarto. Olhei o Beto estirado na cama. — Desculpa, amigo. É mais forte do que eu.

 

No dia seguinte, acordei e olhei para o lado. O Beto ainda dormia na mesma posição em que o deixamos na noite anterior. Escutei um burburinho do lado de fora e imaginei que o pessoal já estava de pé. Ia me levantar quando percebi a porta sendo aberta devagar.

Vi que era Juliana e rapidamente fechei os olhos, não sei por quê. Ela entrou, encostou a porta e ficou parada perto da cama do Beto. Com os olhos semiabertos, percebi certa hesitação e meu coração disparou, tentando descobrir o que ela ia fazer. Fiquei torcendo para que viesse para o meu lado, mas não tive sucesso. Juliana foi para a cama do Beto se sentar ao lado dele.

A raiva e a frustração me dominaram, ainda mais quando a vi acariciando seu rosto.

— Bom dia — disse, e vi Juliana levar a mão ao peito.

— Que susto!

Ela me olhou rapidamente, talvez pensando se eu já estaria acordado antes de ela entrar no quarto.

— Que horas são?

— Quase uma da tarde.

— Nossa, dormi demais. — Eu me sentei na cama e a olhei. — Todo mundo já acordou?

— Só o Caveira continua dormindo. — Ela olhou para o namorado. — E o Beto.

— Dá pra entender. — Passei as mãos no cabelo, tentando dar um jeito na minha aparência. Eu me levantei e fui até ela. — Juju, sobre ontem... — sussurrei, com um pouco de medo de o Beto acordar e escutar.

— Não aconteceu nada ontem. Além da bebedeira do Beto e do Caveira.

Ela me cortou e olhou para o namorado, me dando as costas. Fiquei um tempo ali parado até perceber o Beto se mexer na cama. Ele abriu os olhos e nos fitou, um pouco confuso.

— O que aconteceu? — perguntou com a voz embolada.

— Você tomou um porre ontem — disse.

— É, disso eu me lembro. — Ele levou uma das mãos à cabeça. — Estou com uma ressaca fenomenal.

— Não precisava ter bebido tanto — disse Juliana, mas sem censura na voz.

— Eu sei. Estou me sentindo um lixo.

— O Caveira não deve estar tão melhor. — Dei de ombros.

— Acho bom você descansar hoje à tarde para aguentar o desfile — disse Juliana, acariciando a testa do namorado. Beto fez uma careta e se aconchegou na cama, puxando-a para junto dele.

— É o que vou fazer.

Ele a abraçou e eu percebi que estava sobrando. Saí do quarto e deixei os dois sozinhos.

 

Fui para a sala e encontrei Alice e Rafaela na varanda. A mesa estava posta com as coisas do café da manhã, embora já fosse hora do almoço.

— Já era hora de acordar — brincou Alice.

Ela se levantou e me deu um beijo rápido. Notei que havia uma mochila ao seu lado.

— Vai viajar?

— Não, vou para o desfile.

— Já?

Fiquei espantado porque ainda era cedo, o desfile estava marcado para as sete da noite. Eu me sentei ao lado dela e peguei uma xícara de café.

— Tenho que chegar cedo pra ensaiar, fazer maquiagem, cabelo, experimentar as roupas.

Balancei a cabeça, concordando, como se entendesse do assunto.

— Vai como pra lá? Quer que eu te leve?

— Não precisa, a Emília e o Otávio vão me levar.

Nesse momento, Emília apareceu na sala.

— Vamos, Alice?

Alice me deu um beijo e se levantou.

— Vejo vocês lá.

— Com certeza. — Dei um sorriso para ela, que saiu acompanhada por Emília e Otávio. Olhei para a Rafaela, que estava calada. — Caveira ainda está dormindo? — Tentei puxar assunto.

— Sim.

— Ele deu muito trabalho ontem?

— Não. Ele não ficou tão ruim quanto o Beto.

— É, o Caveira é mais resistente.

— Não. Ele não bebia todas as doses que era pra virar. Beto que não percebeu isso.

Comecei a rir e ela me acompanhou.

— Então esse é o segredo do Caveira.

— Que segredo? — perguntou uma voz, e eu olhei para o lado para ver o Caveira chegando na varanda.

— A Rafa está me fazendo umas revelações interessantes aqui.

— Puxa, princesa, não é pra contar meus segredos — brincou ele, enquanto dava um beijo na testa dela. Caveira se sentou com a gente e começou a comer. — Que fome! O Beto já acordou?

— Já. Está no quarto com a Juju. Ele está detonado.

— Imagino que sim. A ressaca dele vai ser pesada. E o resto do povo?

— A Emília e o Otávio foram levar a Alice até o lugar onde vai ser o desfile. Ela precisa estar lá cedo.

— Ah. — Ele mordeu um pedaço de pão e me olhou. — Por falar em segredo... Você sabia que nós fazemos sucesso no Instituto?

Eu o olhei com cara de interrogação.

— Murilo! — Rafaela deu um tapa no braço dele, que deu de ombros.

— O que foi? Não tem problema o Cadu saber, ele não é metido.

— Não estou entendendo nada.

Caveira chegou um pouco para a frente, como se fosse falar algo confidencial.

— A Rafa me disse que nós somos famosos no Instituto. Que a mulherada é doida pelos Três Mosqueteiros.

— Eu não falei isso — disse Rafaela, e ficou ruborizada.

— Falou sim, nem adianta negar. — Ele olhou para ela e depois se virou para mim. — Parece que somos uma espécie de celebridade. Que elas enlouquecem, que são apaixonadas, esse tipo de coisa. Já pensou?

Eu ri, balançando a cabeça, e naquele momento percebi que o namoro do Caveira estava com os dias contados. Agora que ele sabia disso, não iria se prender a menina alguma.

— Eu já tenho a minha namorada, Caveira. Nenhuma outra garota me interessa.

— Aí é que está. Pelo que a Rafa falou, depois que você começou a namorar a Alice Gomes, sua cotação subiu.

Eu dei uma gargalhada.

— Quanta besteira!

— Besteira nada. Imagina se amanhã você termina com a Alice? Vai ter uma fila de mulher atrás de você.

— Não estou planejando terminar meu namoro amanhã. Estou bem, obrigado. É bom sossegar um pouco.

— Você sempre está namorando. Não curte a vida.

Caveira fez uma careta para mim e não sei se a Rafaela imaginou o perigo que seu recente namoro corria. Ela olhava para o Caveira como se o idolatrasse e não percebeu que aquela informação inocente poderia pôr um fim em seu relacionamento.

— Não estou sempre namorando. Apenas encontrei alguém com quem gosto de ficar. Não preciso procurar outra pessoa, não no momento.

Beto apareceu na sala acompanhado de Juliana. Estava com uma cara horrível.

— Bom dia, gente.

Ele se sentou ao meu lado e encheu uma xícara de café. Juliana se sentou ao lado dele.

— Beto, você não vai acreditar no que a Rafa me falou sobre as meninas do Instituto — disse Caveira, e começou a contar para o Beto tudo de novo.