A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 15
Na sexta-feira, o professor de Direito Penal entregou a lista com as provas que precisaríamos analisar para expor nossa defesa no caso do cara acusado de matar o melhor amigo. Eu e o Beto olhamos tudo com calma, enquanto as outras duplas conversavam baixinho sobre seus argumentos.
— Vou lendo e você diz o que acha — disse Beto, pegando a lista da minha mão. — O crime foi na casa da vítima. Não houve arrombamento e aparentemente nada foi roubado.
— O que significa que muito provavelmente ele conhecia o assassino. Deixou que entrasse em sua casa. — Fiquei pensativo. — Com certeza a pessoa foi lá apenas para matá-lo.
— Ou para conversar ou resolver algum assunto pendente e acabou matando.
Concordei com a cabeça. Ele continuou lendo.
— A arma usada foi a do tal amigo, acusado de matar. Foi encontrada ao lado do corpo e só havia a impressão digital do dono e da vítima.
— Isso não prova a culpa total do cara. Ele pode ter emprestado sua arma para a vítima; eles eram amigos. Se ele tivesse matado, não deixaria a arma ali, ao lado do corpo. É óbvio que é uma armação para acusar nosso cliente. O assassino provavelmente usou luvas para não deixar sua impressão digital na arma.
Beto começou a rir e eu me espantei.
— O que foi? Falei alguma besteira?
— Não. — Ele balançou a cabeça, ainda rindo. — É que você está falando igual a um advogado mesmo. Nosso cliente.
— Estou tentando entrar no clima. O que mais?
— Impressões digitais do nosso cliente foram encontradas em toda a cena do crime, assim como fios de cabelo dele.
— Eram amigos, então nada mais normal do que ele ter ido lá algumas vezes e deixado as suas digitais.
— É. Na minha casa o que mais deve ter é impressão digital sua e do Caveira.
Concordei mais uma vez.
— Diz também que nosso cliente e a vítima estavam tendo problemas financeiros. — Beto foi explicando. — Eles tinham uma empresa de produtos químicos que no momento atravessava uma crise. O motivo do crime se baseia nisto: nosso cliente matou o amigo por causa dos problemas da empresa.
— Entendi. Bom, já dá pra começarmos a trabalhar.
Beto depositou o papel em cima de uma cadeira que estava ao seu lado.
— Isso tudo é besteira. Não vejo motivos pra alguém matar o melhor amigo.
Fiquei quieto alguns instantes.
— Não dá pra saber o que se passa na cabeça das pessoas.
Ele me olhou confuso.
— Pensei que fôssemos a defesa, e não a acusação.
Eu ia falar algo, mas o professor se postou diante da turma para dispensar todos. Beto se levantou rapidamente, me entregando o papel com as provas e acusações.
— Fique com isso, pra já ir estudando o caso. Provavelmente não vou fazer nada desse trabalho.
Concordei com a cabeça e guardei o papel dentro de um caderno. Deixei a sala atrás dele e fomos andando pelo corredor em direção ao estacionamento.
— Hoje não vai dar pra correr. Vou até Rioazul com a minha mãe depois do almoço, parece que um conhecido dela está hospitalizado. Nem sei que horas vamos voltar — disse Beto, entrando no meu carro.
— Não tem problema, a gente corre na segunda.
Dei carona para ele e fui para a minha casa. Encontrei a Ruth na cozinha, mexendo em uma panela no fogão.
— O cheiro está bom, como sempre — disse, dando um beijo na bochecha dela.
— Eu já terminei tudo por aqui. — Ela desligou o fogo e tampou a panela que estava mexendo. — Pode almoçar agora se quiser. Seu pai avisou que não vem pra casa tão cedo.
— Hum, ele foi almoçar com a tia Matilde?
— Não sei. Ele disse que ia comer algo perto do Instituto.
— Sei...
Ruth pegou sua bolsa e olhou para mim.
— Seu pai está mais feliz agora. É bom ele se envolver com alguém novamente.
— Eu que o diga, Ruthinha.
Ela balançou a cabeça e foi em direção à porta.
— Estou indo, Cadu. Bom fim de semana pra você.
Eu me despedi dela e me sentei para almoçar. Comi rapidamente, lavei o prato e fui para o quarto.
Joguei meus cadernos em cima da estante, me sentei na cama e fiquei parado, olhando para o nada e pensando na noite anterior no Bar do Tavares. O aniversário da Juliana se aproximava e com ele a noite que ela teria ali, no meu quarto, com o Beto. Tentava não pensar naquilo, para não sofrer, mas era impossível. Ao mesmo tempo, queria dar algo de presente para ela que fosse especial, algo que jamais esquecesse, mas não tinha a mínima ideia do quê. Apenas seu namorado poderia lhe dar algo que ela levaria para o resto da vida.
Meus pensamentos foram interrompidos pela campainha. Franzi a testa, tentando pensar em quem seria. Cheguei a pensar na possibilidade de não atender, não estava com vontade de receber visitas naquele momento, mas a insistência da pessoa apertando a campainha me fez levantar da cama e descer as escadas até a sala.
Olhei pelo olho mágico e meu coração disparou. Mal podia acreditar no que eu via do outro lado da porta. Rapidamente destranquei-a e abri com um sorriso no rosto.
— Oi, Juju — disse, dando um beijo em seu rosto e abrindo caminho para que entrasse.
— Oi, Cadu — disse ela, com aquele sotaque misturado que eu tanto gostava. Também me deu um beijo e entrou. — Vim te visitar, atrapalho?
— Claro que não! — Estava extasiado e acho que ela percebeu minha euforia. — Estava à toa lá no quarto, sem nada pra fazer. Entre aí. — Indiquei o sofá e ela foi até ele, mas não se sentou.
— Estava em casa e pensei que podíamos passar a tarde juntos, vendo um filme. — Ela mostrou um DVD que trazia nas mãos. Eu já podia imaginar do que se tratava.
— Qual é o filme agora? O Homem da Máscara de Ferro?
— Não. A Vingança do Mosqueteiro. — Ela deu um sorriso acanhado. — Mas também trouxe O Homem da Máscara de Ferro para vermos depois, se você aguentar.
— Por mim está ótimo. — Peguei o DVD das mãos dela. — Vai querer ver com pipoca?
— Acabei de almoçar.
— Eu também. Qualquer coisa a gente come depois, vendo o outro filme.
— Isso se você aguentar ver os dois.
— Claro que aguento!
Mal sabia ela que eu estava adorando ter uma desculpa para passarmos a tarde toda juntos. Não corria o risco de o Beto chegar, já que estava em Rioazul, e o Caveira provavelmente ficaria jogando basquete na universidade. Meu pai só chegaria no final do dia, como sempre, e eu teria a tarde toda sozinho com a Juliana.
Fui até o DVD e coloquei o primeiro filme. Eu me sentei na ponta esquerda do sofá maior, que ficava de frente para a TV, e Juliana se sentou ao meu lado, no meio do sofá. O filme começou, mas eu pouco prestava atenção. Com o canto do olho, observava Juliana, fascinada com as cenas que a televisão mostrava.
Ela fazia um ou outro comentário, e sua voz soava como música para meus ouvidos. Até que, depois de uns dez minutos de filme, ela pegou uma almofada no sofá e pôs no meu colo.
— Posso?
Balancei instintivamente a cabeça e levei alguns segundos para registrar o que ela queria, até que se deitou na almofada, enlaçando uma das minhas pernas com seu braço esquerdo enquanto segurava o controle do DVD na mão direita. Gelei, meu coração disparou e prendi a respiração. O frio no estômago me deixou completamente sem ação, e eu já não via mais nada do que se passava na TV. Meus olhos estavam fixos em sua cabeça, não sabia o que fazer. A sensação de tê-la ali era maravilhosa; fechei os olhos por longos minutos, tentando assimilar todo aquele turbilhão de sentimentos.
Juliana apertava bem de leve minha perna, e eu abri os olhos. Ela continuava com o olhar fixo na TV. Comecei a respirar devagar, tentando controlar o fôlego, e meu coração finalmente se acalmou. Minha mão esquerda estava apoiada no braço do sofá e a direita no encosto, mas a tirei dali e lentamente a coloquei em cima da cabeça da Juliana. Comecei a alisar seu cabelo e vi que ela fechou os olhos com meu gesto. Senti novamente o coração disparar e quase a puxei para perto, mas me controlei. Não podia fazer isso com o Beto.
Ela abriu os olhos e continuou vendo TV, mas eu passei o resto do filme observando a Ju, enquanto alisava seu cabelo.
Queria que o filme durasse eternamente, mas depois de um tempo ele terminou. Percebi isso quando Juliana ergueu o controle do DVD na direção da televisão. Ela baixou a mão e ficou alguns segundos quieta, eu ainda alisando seus cabelos, até que ela me encarou.
Ficamos olhando um para o outro durante um tempo, meu coração disparado dentro do peito. Vi que ia fazer alguma besteira se não levantasse dali imediatamente, mas era como se um ímã me prendesse ao sofá. Sem pensar em mais nada, resolvi que agiria como um amigo e não como um cafajeste.
— Melhor fazer a pipoca agora — comentei, parando de mexer em seus cabelos. Ela se levantou e concordou com a cabeça, sem falar nada.
Fui para a cozinha e parei em frente à pia. Apoiei minhas mãos na bancada de mármore e baixei a cabeça. Fiquei nessa posição por um momento enquanto me acalmava. Sabia que não conseguiria assistir a outro filme com Juliana sem fazer nada, e esse sentimento corroía meu peito. Levantei a cabeça, respirei fundo e me virei em direção à porta. Estava disposto a inventar alguma desculpa para que ela fosse embora antes que eu fizesse alguma bobagem, mas não foi preciso. Quando me virei, Juliana estava parada perto da porta, me olhando.
— Acho que vou indo. Está ficando tarde — disse ela. Não sei se percebeu minha angústia, mas não ia perguntar.
— Tudo bem. O filme fica pra outro dia — respondi, com a certeza de que tão cedo não assistiríamos a um filme juntos.
Juliana ficou parada me olhando até se virar e pegar sua bolsa e o DVD. Eu abri a porta e ela me deu um beijo rápido, indo embora. Quase me ofereci para levá-la em casa, mas não era uma boa ideia.
Fechei a porta, passei as mãos no cabelo e subi correndo para o meu quarto. Peguei o celular e liguei para o Caveira.
— Está podendo falar? — perguntei.
— Posso. Acabei de chegar na universidade para o basquete. Vai correr hoje?
— Não ia, mas estou pensando em ir. O Beto não vai, mas eu corro sozinho. — Correr seria uma boa forma de me acalmar. Fiquei em silêncio e o Caveira também. — Tem alguma festa aqui ou em Rioazul para irmos hoje? — perguntei e escutei uma gargalhada do outro lado.