A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 13
Voltamos para Rio das Pitangas domingo à tarde. Deixei Caveira na casa dele e fui para a minha, já imaginando o sermão que ouviria do meu pai por não ter voltado mais cedo. Estacionei e olhei para minha casa, pensando que deveria fazer algo, mas não queria brigar com ele.
Entrei e não o vi na sala, mas senti um cheiro ótimo vindo da cozinha. Fui até lá e encontrei meu pai e tia Matilde conversando de maneira suspeita.
— Olá — cumprimentei, encostando na porta. Os dois me olharam com cara de quem fazia algo errado. — O cheiro está bom — comentei, tentando quebrar o silêncio constrangedor que pairou no ar.
— Estou fazendo quiche para comermos hoje no torneio de baralho — explicou tia Matilde, engasgando um pouco.
— Ah. — Eu havia me esquecido do torneio.
— Você já almoçou? — perguntou meu pai, se afastando um pouco de Matilde.
— Já. — Sorri e fui até a geladeira pegar um copo de água. Eu me lembrei da festa de Juliana e aproveitei para falar com meu pai na presença da tia Matilde, assim ele não ia encher minha paciência. — Pai, o Beto veio falar que daqui a duas semanas é aniversário da Juju. Pensei em fazer uma reuniãozinha aqui em casa pra comemorar. — Usei a palavra reuniãozinha porque soava melhor do que festa. — Vai ser só para os amigos mais chegados, umas dez pessoas.
Ele ficou um tempo balançando levemente a cabeça, enquanto pensava.
— Tudo bem — disse ele, calmamente, e eu fiquei feliz.
— Valeu. Vou lá pro meu quarto tomar um banho, desfazer a mala e descansar um pouco. — Fiz questão de mostrar que não voltaria tão cedo para a sala.
Deixei a cozinha sorrindo, mas senti meu pai me segurar antes de eu subir a escada.
— Como foi a festa? — Ele estava visivelmente constrangido.
— Foi boa. — Balancei a cabeça. — O jantar também parece ter sido bom.
— É. — Ele sorriu, sem graça.
— Pai, fico feliz por você, e vou gostar muito se a tia Matilde virar minha madastra.
— Fala baixo. — Ele me repreendeu, olhando para trás.
— Desencana, pai. Vai lá e curte sua namorada.
— Ela não é minha namorada.
— Não mesmo?
— Ainda estamos nos conhecendo — disse ele, dando de ombros. Eu virei os olhos.
— Vocês já se conhecem há anos!
— Não nesse sentido. E fala baixo!
— Pai, não demora muito porque a tia Matilde não é mulher de se ficar cozinhando em banho-maria.
Dei um tapinha no ombro dele, sem saber se tinha entendido minha indireta, e fui para o meu quarto.
Fiquei o resto do dia no quarto, sentado na cama e vendo TV. Na verdade, a televisão estava ligada, mas eu não prestava a mínima atenção. Apenas viajava nos meus pensamentos, me lembrando da noite anterior na chácara do Juca e tentando não trazer Juliana para minha mente, quando Beto entrou no quarto.
— E aí, Cadu? Como foi o churrasco? — Ele me cumprimentou e se sentou na cadeira em frente ao computador. Levantei o controle remoto e desliguei a televisão.
— Foi bom. — Dei de ombros.
— Hum, não foi bem o que o Caveira me contou.
Rolei os olhos, imaginando as besteiras que Caveira tinha inventado para o Beto.
— Nada demais. Sabe como são os churrascos na chácara do Juca.
— Sei. — Ele balançou a cabeça. — Foram duas ontem, não é mesmo?
Dei uma gargalhada e ele começou a rir.
— Só estava tentando me divertir. Eu sabia que a Rosângela estaria lá, só não sabia se estaria disponível.
— E a outra? Quem é?
— Prima da Walesca. Mas com ela foi só um beijo, uns amassos.
— Esse Cadu está cada dia pior.
— Aprendi com o melhor professor no assunto — disse, apontando para ele. Beto concordou com a cabeça e parou de rir por um momento.
— E a festa da Ju? Está confirmada?
— Confirmadíssima. Falei com o velho hoje e ele não brecou. Acho que a tia Matilde está fazendo bem pra ele.
Beto levantou a sobrancelha e sorriu.
— Então o plano de vocês deu certo?
— Parece que sim. Eles estão se entendendo.
— Que bom! — Ele ficou um tempo quieto, balançando a cadeira para a frente e para trás. Percebi que queria falar algo e sabia o que era, por isso não estava com vontade de seguir adiante com aquela conversa, mas era inevitável. — Sobre o que eu te pedi...
Fiquei quieto esperando que ele continuasse, mas Beto permaneceu mudo.
— Meu quarto...
— É. Isso está confirmado também?
Respirei fundo, baixei os olhos e depois o encarei. Passei uma das mãos pelo cabelo e mordi o lábio inferior.
— Se é o que você e ela querem...
Um largo sorriso se abriu em seu rosto.
— Já andei conversando com a Ju sobre o assunto. Não exatamente quando, nem onde, mas estamos em processo de entendimento. Ela é maravilhosa, Cadu. Estou cada dia mais apaixonado e quero ficar com a Ju por muito tempo. Nem consigo acreditar que galinhei esses anos todos e nunca havia pensado em namorar antes. É tão bom!
Sorri, ou tentei sorrir, fingindo estar interessado nas confidências do meu amigo, mas na verdade queria voar no pescoço dele. Não, isso não. Só queria estar no lugar dele.
Beto continuou descrevendo como era maravilhoso estar com Juliana e listando suas qualidades. Fiquei ali ouvindo tudo, como um bom amigo, e me roendo de ciúmes e inveja, como um bom traíra. Me senti totalmente desprezível naquele momento e decidi mudar de assunto.
— Sobre a festa... O que você pensa em fazer?
Beto ia responder quando alguém bateu na porta, abrindo-a em seguida. Era Juliana, e meu coração disparou ao vê-la. Ela sorriu para mim e entrou no quarto, vendo Beto pela primeira vez. Juliana ficou um pouco sem graça e percebi que ela não esperava encontrar o namorado ali. Ele se levantou e foi abraçá-la.
— Estávamos falando sobre a sua festa de aniversário.
— Festa? — Ela cerrou os olhos para Beto.
— Meu pai liberou a casa — eu disse, tentando não sentir raiva dos dois abraçados.
Juliana pareceu entender e se sentou na cama abraçada ao Beto, os dois de frente para mim.
— Mas não vai ser uma festa, por favor! Nada muito grande.
— Não, apenas a gente, minhas irmãs, alguns poucos amigos. — Beto foi explicando e ela pareceu ficar aliviada.
— Vai ser tudo como você quiser. Você é a aniversariante, só queremos te deixar feliz no dia — falei, mais como uma alfinetada pelo que sabia que aconteceria ali no meu quarto. E então me dei conta de que estávamos no meu quarto, na minha cama e me senti sobrando, como sempre me sentia quando estávamos os três juntos.
— Quero só uma reunião com os amigos, para conversarmos, bebermos, comermos. Nada demais.
Nada demais... Nada demais? E o que aconteceria no meu quarto?, eu quis perguntar, mas segurei a vontade.
— Tinha acabado de perguntar pro Beto o que vocês planejavam para a festa, digo, reunião.
Ela me olhou e mordeu o interior da bochecha.
— Não sei... Posso ver com minha mãe se ela faz algo para servir. Ou comprar alguns salgadinhos, talvez seja mais prático.
— A bebida será por minha conta — disse o Beto. — Você traz a comida, eu trago a bebida e o Cadu entra com a casa.
E com o quarto, quis falar também, mas novamente fiquei na minha e guardei meus comentários. Tentava me acostumar com aquilo, mas não tinha como.
— O que acham de descermos e assaltarmos a cozinha? Deve ter um monte de coisa gostosa preparada para o torneio de baralho — sugeri.
Queria sair dali do quarto antes que me sufocasse com aqueles pensamentos todos rodando pela minha cabeça.
— Opa, é pra já! — comentou Beto, puxando Juliana pela mão.
Eu os segui, como um bom amigo.