A Namorada do Meu Amigo
Capítulo 26
A prova de Direito Tributário foi marcada para quinta-feira, entre uma e seis da tarde. O professor decidiu fazer fora do horário do curso porque seria uma prova longa. E foi.
Deixei a sala por volta de cinco e meia com a cabeça estourando. Encontrei o Beto no corredor, sentado em um banco, folheando seu caderno. Assim que me viu, ele se levantou.
— E aí? Como foi?
— Um desastre. — Eu e ele nos sentamos.
— Sério?
— Acho que sim. — Esfreguei meu rosto com as duas mãos. — Vamos correr, preciso esquecer essa prova.
Eu me levantei e ele acompanhou.
— Liguei pra Juliana, ela e a Alice vão vir nos encontrar para sairmos depois.
Concordei com a cabeça e senti um medo percorrer meu corpo. Iria rever Juliana, e na presença da Alice. Desde domingo não a via, e desde segunda não encontrava Alice, tentando me dedicar aos estudos para a fatídica prova.
— Hoje é dia do Bar do Tavares — comentei, já sonhando com a picanha na chapa e uma cerveja estupidamente gelada.
— Elas vão conosco. — Beto deu de ombros.
Corremos durante uma hora e tentei não pensar em nada, apenas me concentrar nas músicas do meu iPod, mas Juliana não saía da minha cabeça, e, conforme a hora ia passando, a expectativa aumentava. Nosso último encontro não foi dos melhores, e eu esperava que ela não estivesse ressentida.
Mas que diabos, eu tenho que esquecê-la, e, afinal de contas, estou com raiva por ela não ter me deixado lutar para ficarmos juntos.
Todos os pensamentos foram embora quando vi Juliana se sentar ao lado das nossas coisas, acompanhada da Alice. Acenei de longe, com o coração disparado. Pelo menos agora tinha a desculpa da corrida para isso. Tentei olhar a Juliana com raiva, mas era impossível. Percebi que ela ficou com os olhos voltados para o Beto o tempo todo, como se me evitasse. Talvez fosse melhor assim.
Terminei de correr e comecei a andar até onde as meninas estavam, quando reparei que o Caveira já havia se juntado a elas.
— Oi. Vou tomar um banho e conversamos melhor — disse para Alice, após dar um selinho nela.
— E aí, meninas, vamos para o Tavares? — perguntou Beto, enquanto beijava Juliana.
Virei o rosto para não ver aquela cena, mas isso não impediu meu coração de arder.
— Como assim? — disse Caveira, bem alto. — O Tavares é uma coisa nossa, encontro de homens!
Beto e eu o olhamos, espantados com aquela reação, e as meninas ficaram um pouco constrangidas.
— Qual é, Caveira? É apenas a Ju e a Alice.
— Isso não tem nada a ver, Beto. — Ele olhou as duas. — Desculpa aí, mas é que não dá pra ficar levando mulher sempre, quinta é o nosso dia.
— Não tem problema — disse Juliana, sem graça.
— Viu? Ela entende — disse Caveira, e saiu na direção do vestiário.
— O que deu nele? — perguntei, sem entender.
— Acho que está com ciúme — respondeu Alice, rindo.
— Ciúme? — Ainda estava espantado.
— É, vai ver ele pensa que estamos roubando vocês dele. Temos que arrumar uma namorada pra ele — sussurrou Alice, ainda rindo.
— Uma namorada para o Caveira? Essa é boa. — Comecei a rir.
— Se Beto arrumou uma, por que o Caveira não pode arrumar? — comentou Alice, deixando o irmão sem graça. Ele ignorou o comentário.
— Era só o que faltava, o Caveira tendo ataque de ciúme. — Beto virou os olhos.
— Não tem problema, de verdade. Vão lá com ele — disse Juliana, e nossos olhos se encontraram. Esbocei um sorriso, mas ela virou o rosto para o Beto. Essa atitude despertou um pouco de raiva em mim.
— Mas vocês são nossas namoradas. Eu quero sair com você — disse o Beto, se aproximando um pouco da Juliana, mas sem encostar nela por causa do suor.
— Nós vamos para outro lugar, certo, Ju? — disse Alice, decidida.
— Ei, ei, ninguém vai a lugar algum. Vocês vão pra casa. — Beto começou a ficar furioso.
— Ah, qual é? Não vai ficar dando uma de ditador. — Alice também se mostrou furiosa.
— Espera, gente. — Tentei acalmar os ânimos. — Vocês podem sair, sem problemas.
— Que é isso, Cadu? Está maluco?
— Beto, eu confio na minha namorada.
Ele me olhou, espantado. Depois se virou para Juliana, um pouco sem graça.
— Você também devia confiar em mim. — Ela estava magoada. — Ou você acha que vou te trair na frente da sua irmã?
Ele não soube o que responder. Eu o puxei para o vestiário, imaginando que a conversa não terminaria bem.
— Esperem para nos despedirmos direito, então — eu disse, puxando Beto pelo braço.
Choveu demais na sexta-feira à noite e acabei ficando em casa. Alice não gostou muito, mas eu estava adorando e torcendo para que o dilúvio continuasse no sábado e o almoço fosse adiado infinitamente. É claro que meu desejo não foi realizado.
O sábado amanheceu com o céu nublado, mas nenhuma gotinha caía dele. Para minha falta de sorte, o almoço estava de pé.
Fui para a cozinha tomar o café da manhã e encontrei meu pai, que tinha acabado de chegar da rua com pão francês quentinho para mim. Ele raramente comia de manhã.
— Bom dia — disse, ao me sentar à mesa.
— Bom dia, Carlos Eduardo. A Matilde nos convidou para almoçarmos na casa dela hoje.
— Vou almoçar na casa do Beto — respondi, enquanto servia café em uma xícara. — A mãe da Alice vai fazer algo especial e vou ser apresentado à família como namorado dela.
— Hum... E por que você diz casa do Beto e não casa da Alice?
— Força do hábito. — Dei de ombros e peguei um pão e a manteiga.
— Fica muito estranho, sendo a Alice sua namorada.
— Só tem você aqui. — Eu ri.
— Como está o namoro?
— Só faz uma semana, não dá pra tirar nenhuma conclusão.
— E a Juliana? — Ele ficou me olhando sério, e eu sabia o que ele estava perguntando.
— Como falei, estou com a Alice faz uma semana. — Dei uma mordida no pão, tentando parecer indiferente.
— Você ainda gosta da Juliana — comentou ele, balançando a cabeça.
— Impossível esquecer alguém em uma semana.
— Mas você está tentando?
Eu o encarei. Parecia o Caveira falando. Virei os olhos.
— Pai, o que é isso? Um interrogatório?
— Só estou preocupado com você, meu filho.
— Não precisa se preocupar. Estou bem, meu namoro está bem e tudo vai ficar bem.
— Assim espero. — Ele se levantou. — Convide a Alice para almoçar aqui amanhã. É o mínimo de retribuição pela gentileza de hoje.
Concordei com a cabeça e fiquei feliz por ele ter saído da cozinha. Parecia que meu velho pai estava de volta, me aporrinhando com mil perguntas.
Depois do café, fui para o meu quarto. Fiquei navegando na internet até meio-dia, quando fui tomar um banho e me arrumar para o almoço. Meu estômago revirava, mas não tinha como fugir. Embora eu conhecesse toda a família da Alice desde pequeno, agora era uma situação diferente e, para completar, o encontro com o pai dela na segunda não tinha sido muito bom.
Estacionei em frente à casa da família Gomes e respirei fundo. Saí do carro e andei lentamente até a porta da casa, na esperança de acordar na minha cama e ver que tudo não passava de um sonho. Corrigindo: um pesadelo. Mas sabia que uma hora teria de enfrentar todos ali e decidi me conformar com a ideia de que o melhor era fazer isso logo.
Toquei a campainha, me sentindo estranhamente nervoso. Emília atendeu e deu um sorriso, que não serviu para me tranquilizar.
— Olá. Preparado? — perguntou ela.
— Nunca. — Dei um beijo em seu rosto e entrei.
Ficamos ali no hall em frente à escada. A casa deles era bem grande e tinha várias salas embaixo, além da cozinha e um lavabo, e cinco quartos em cima.
— O Otávio ainda não chegou.
— Ele vem? — O comentário da Emília me surpreendeu.
— Vem. Aproveitei o almoço para oficializar seu namoro com a Alice, ou o que quer que seja isso hoje, para apresentá-lo à família, assim ele não sofre sozinho.
— E você me diz isso só agora? Se soubesse teria chegado junto com o Otávio. Ou depois dele!
— Eu fiquei de avisá-lo quando você chegasse. Achei melhor você chegar antes, pois a família já te conhece.
— Ah, que beleza! — Levantei as mãos. — Onde está a Alice? E o Beto?
— Alice está lá em cima, vou avisá-la que você chegou. O Beto acho que está no quarto, mas ele não vai te ajudar muito. Meu pai está na sala te esperando.
Arregalei os olhos e senti meu coração disparar de nervosismo.
— Ele está me esperando? — perguntei, espantado.
— Sim, ele disse que quer conversar com você antes de a Alice aparecer — comentou Emília, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
— O que ele quer conversar?
— Sei lá. Vai até a sala e descobre sozinho.
Ela deu de ombros e depois vi um sorriso em seu rosto, indicando que estava gostando do meu sofrimento. Minha vingança era saber que a conversa com o Otávio certamente seria pior.
Respirei fundo novamente, tentando me encher de coragem, e fui até a sala para encontrar o pai de Alice sentado, lendo jornal. Assim que me viu, ele dobrou o jornal e se levantou, me cumprimentando com um aperto de mão. Ele se sentou novamente na poltrona que ocupava e eu me acomodei no sofá, que no momento parecia me engolir de tão grande.
— Como vai?
— Vou bem, e o senhor?
— Bem, bem. — Ele tamborilou os dedos no braço de madeira da poltrona. — Então você e Alice estão juntos. — Ele não perguntou e eu fiquei sem saber o que falar. — Quais são as suas intenções com minha filha?
Eu já havia escutado a mesma pergunta, mas da boca do Beto.
— Eu gosto muito da Alice e tenho o maior respeito por ela e por toda a sua família.
Resolvi ir com calma, me defendendo. Afinal, a defesa é o melhor ataque, e eu queria que ele me visse como alguém em quem podia confiar, e não como um inimigo. Esse papel eu podia deixar muito bem para o Otávio.
— É bom mesmo, meu rapaz. Alice ainda é muito nova para essas coisas de namoro, mas sabe como são os jovens de hoje.
Ele começou um discurso sobre a juventude querer parecer moderna e os perigos disso, e mais um monte de coisa que eu não registrei porque estava nervoso demais.
— Alice é uma boa menina — comentei, quando ele terminou de discursar, apenas para falar algo porque não sabia exatamente o que dizer.
— Sim. E eu sei que você também é um bom rapaz. Confesso que fiquei um pouco espantado e temeroso quando soube que Alice havia arrumado um namorado, mas ao saber que era você meu coração se acalmou um pouco. Não tenho nada contra você, meu rapaz, muito pelo contrário, sempre foi amigo do meu filho, vi você crescer. Acredito que a Alice estará bem ao seu lado e você saberá respeitá-la.
— Sim, sim, claro — respondi logo.
— Sei que vai. Do contrário, terá algumas contas a acertar comigo e com o meu filho.
Ele levantou os olhos e eu me virei na direção em que ele olhava para encontrar o Beto parado, encostado e nos observando.
— Ele sabe muito bem disso. — Beto se aproximou e me cumprimentou com aquele sorriso vitorioso no rosto.
— Você sabe que não tem com o que se preocupar — eu disse para o Beto, mas foi o pai dele quem respondeu.
— Sim, sabemos disso. Sabemos que podemos confiar em você e que irá respeitar minha filha. Minha preocupação é com o outro, o da Emília.
— Otávio é um cara legal — eu disse, com pena do Otávio. Imaginei que a conversa dele não seria das mais agradáveis.
Alice apareceu na sala, interrompendo o que seu pai iria falar.
— Oi. — Ela se aproximou de mim e me deu um beijo rápido na boca. Meu rosto deve ter ficado muito vermelho, porque senti as bochechas arderem. — Vem — disse ela, me puxando pela mão.
— Aonde vocês vão? — A voz grossa do pai fez Alice parar.
— Vamos apenas para a sala de TV. O guarda-costas pode ir junto — disse ela, apontando o Beto.
Eu poderia rir, se a situação ainda não estivesse um pouco tensa.
— Sem brincadeiras, Alice — disse seu pai, sério. — Podem ir.