A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 34 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 30

 

Eu estava em um grande campo com uma grama curta e verde. Vestia minha fantasia de mosqueteiro e, ao longe, avistei uma jovem em um longo vestido rosa-claro. Era um vestido de época e ela estava de costas, mesmo assim eu soube quem era. Seus longos cabelos castanhos com cachos nas pontas não deixavam dúvida. Eu me aproximei devagar e parei perto dela, que não se mexeu.

— Juju — sussurrei.

Ela se virou lentamente e sorriu para mim. Deu um passo à frente e abraçou forte meu pescoço. Retribuí, sentindo meu coração acelerar. De repente, seus braços começaram a ficar quentes, cada vez mais, a ponto de me queimar.

Acordei suando e sentindo a luz do sol bater no meu rosto. Achei estranho, pois nunca dormi com a cortina aberta. Pisquei algumas vezes para me acostumar com a claridade, e percebi que suava por causa do edredom que me cobria. Nesse momento, notei que estava no quintal da minha casa. Olhei para o lado e vi Alice adormecida em meus braços.

— Alice, acorda! Você dormiu aqui!

— Ai, meu Deus! — Ela se levantou em um pulo, um pouco assustada e nervosa. — E agora?

— Calma — eu disse, me sentando no colchão. Peguei meu celular e vi a hora. — Ninguém deve ter percebido sua ausência, ainda não são nem sete horas.

— Meu pai já deve ter levantado. — Ela mordeu o lábio inferior.

— Hoje é Sexta-feira Santa!

— Ele acorda sempre antes das sete, não importa o dia. Provavelmente já viu minha cama vazia.

Cocei minha testa enquanto tentava pensar em algo, mas nada vinha à minha cabeça. Alice me olhou, entrou na minha casa e voltou com sua bolsa na mão. Tirou dali o celular.

— Não falei? Já tem algumas chamadas dele para o meu celular.

— E agora? Não tenho nenhuma ideia.

— Ele vai me matar — disse ela, desanimada, se sentando ao meu lado.

— Te matar? Ele vai me matar. Vai me trucidar. E depois o Beto vai terminar de me matar pra ter certeza de que estou bem morto.

— Mas não aconteceu nada entre nós!

— Eles vão acreditar nisso? — perguntei, já vendo o pai da Alice me obrigando a subir ao altar com sua querida filha.

Ficamos alguns instantes quietos, cada um pensando em um destino mais trágico para si mesmo, quando Alice deu um grito.

— Já sei! — disse ela, com um sorriso nos lábios. Pegou o celular e começou a ligar. — Vou pedir pra Ju falar que dormi lá.

Senti um nó na garganta. Não queria que a Juliana soubesse que Alice havia dormido na minha casa.

— Será que ela não vai contar pro Beto? — Quis tirar a ideia da cabeça da Alice, embora não tivesse muitas opções.

— Não, eu confio nela. — Alice fez um sinal para eu me calar e começou a conversar com a Juliana. — Ju, te acordei? Desculpa. Sim, está cedo, mas preciso de um grande favor seu. — Alice se levantou. — Posso inventar lá em casa que dormi aí? — Ela se afastou um pouco, mas eu continuava escutando a conversa. — É que peguei no sono e acabei dormindo na casa do Cadu. — Ela sorriu para mim e eu retribuí o sorriso, mas estava apreensivo. Alice franziu a testa. — Ju? Está aí? Ah, pensei que a ligação tivesse caído, você ficou muda. — Alice me olhou e se virou de costas, como se isso me impedisse de ouvir o que ela falava. — Não, não aconteceu nada. — Ela disse um pouco mais baixo, mesmo assim eu escutei. — É claro que tenho certeza que não aconteceu nada! — Ela me olhou e eu baixei o rosto e fiquei mexendo no meu celular, fingindo que não prestava atenção ao que ela falava. — E aí, posso inventar?

Meu celular começou a tocar e vi pelo visor que era o Beto.

— Seu irmão — avisei Alice.

Ela prendeu a respiração por alguns segundos e entrou em casa, para que eu pudesse atender à ligação. Demorei um pouco para que ele pensasse que eu estava dormindo.

— Alô? — Fiz voz de sono.

— Onde está minha irmã? — perguntou ele, bravo.

— Beto? — Tentei dar uma de desentendido, para ganhar tempo.

— Quem mais poderia ser? Onde ela está? Nem tente inventar nenhuma desculpa porque aqui ela não dormiu.

Nesse momento, Alice apareceu na porta da cozinha com o polegar para cima. Respirei aliviado.

— Nem aqui, se é isso que você está pensando. Ela dormiu na casa da Juju.

— Na casa da Ju? — Beto ficou quieto. — Mas ela não tinha combinado de dormir lá.

— Eu a levei pra lá ontem, ela pediu.

— Aconteceu alguma coisa? — Ele ainda estava bravo. Suspirei.

— Não vou conversar sobre meu namoro com você nervoso desse jeito.

— O que você fez com ela?

— Eu não fiz nada!

— Vou descobrir e, se você tiver magoado minha irmã, vai se ver comigo.

Ele desligou e Alice se aproximou.

— Como foi?

— Ele acha que eu fiz algo pra você.

— Bom, acho que em parte ele está certo — disse ela. — Combinei com a Ju de inventar que eu e você tivemos uma pequena briga, por isso eu quis ir para lá.

— Ele vai me interrogar pra saber o motivo.

— Você não precisa dizer nada.

Concordei, embora soubesse que seria difícil.

— Vou te levar na casa da Juju.

— Não precisa. Ela vai vir aqui me pegar e me levar pra casa. Provavelmente o Beto já ligou pra confirmar se estou lá.

Balancei a cabeça, concordando. Eu me levantei, peguei minha camisa e a vesti.

— Então hoje você não vai à festa na Chácara Celeiro comigo? — perguntei, abraçando Alice.

— Melhor não, nos encontramos lá.

Dei um beijo nela e a acompanhei até a porta. Juliana já havia chegado, mas eu não saí de casa. Não queria vê-la nessas condições.

Acordei assustado, com Caveira me sacudindo.

— Você está bem?

Eu me sentei na cama, pisquei os olhos e depois esfreguei meu rosto para acordar direito.

— Estou bem — disse, olhando o Caveira parado na minha frente. E me dei conta de que ele estava no meio do meu quarto. — Como você entrou aqui?

— Peguei a chave reserva que seu pai me emprestou — disse ele, levantando na mão um chaveiro com algumas chaves que reconheci sendo de casa. — O que aconteceu, cara? Estou tocando a campainha faz séculos.

— Longa história. — Suspirei. — Que horas são?

— Quase uma e vinte.

— Da tarde? — Arregalei os olhos, espantado por ter dormido tanto.

— Da madrugada que não é. Sério, o que aconteceu? Fiquei lá embaixo tocando a campainha e nada. Liguei pra cá e também no seu celular e você não atendeu, fiquei preocupado. Então me lembrei que seu pai tinha me dado uma cópia das chaves, pensando que neste fim de semana eu ficaria aqui.

Eu me encostei na cabeceira da cama. Caveira se sentou na cadeira da minha escrivaninha e ficou me olhando.

— Você não vai acreditar. Quase me meti em uma enrascada. — Dei um sorriso com o canto dos lábios para criar um suspense. — Alice dormiu aqui.

— O quê? — Caveira se levantou, espantado. — Você está falando sério? Vocês dois...?

— Não, não. Não aconteceu nada.

— Você é maluco! Como ela dormiu aqui? E o Beto?

— Calma, já está tudo resolvido. Estávamos lá no quintal e acabamos pegando no sono.

— Espera aí. — Ele se aproximou. — O que vocês faziam no quintal?

— Nada demais, só observávamos as estrelas.

— Sei, conta outra. Eu não sou burro.

— Isso não importa. — Balancei a mão para ele. — Como ia dizendo, pegamos no sono e fui acordar só hoje com o sol na minha cara.

— Vocês dormiram no quintal? — Ele estranhou.

— Eu tinha levado um colchão pra lá.

— Ahá! Sabia que vocês não estavam vendo estrelas coisa nenhuma. Ou então estavam, mas em outro sentido.

— Como você é engraçadinho.

Eu me levantei e fui para o banheiro lavar o rosto. Foi bom sentir a água gelada na minha pele.

— Mas e aí? Foi bom? — Ele me seguiu.

— Eu já disse que não aconteceu nada.

— Sim, sim, claro, vocês ficaram a noite toda um do lado do outro vendo estrelinhas no céu.

— Eu realmente não vou contar detalhe nenhum da minha noite; só posso dizer que não aconteceu o que você está pensando.

Voltei para o quarto e me sentei na cama. Caveira se sentou novamente na cadeira.

— Ok, ok. Mas e aí? Como a Alice escapou dessa?

— Bom, ela inventou que dormiu na casa da Juliana. Beto ligou pra cá cedinho, logo depois que acordamos.

— E ele acreditou?

— Alice pediu pra Juliana confirmar e ela confirmou.

— Coitado do Beto. Enganado direitinho.

— O que você queria que eu fizesse? Contasse a verdade?

— Não, ele não te perdoaria.

— Ele jamais acreditaria que não aconteceu nada.

— É, nem eu acredito.

Joguei um travesseiro no Caveira, que não parava de rir.

— Agora sério, vamos almoçar que as paredes do meu estômago já colaram umas nas outras.

— Você pensou em ir ao Senzala? — perguntei.

— Sim, por quê?

— Sobrou fettuccine que fiz pra Alice. Podemos almoçar por aqui mesmo.

— Beleza, assim vejo se você já pode casar — brincou ele.

— Deus me livre! — Desci para a cozinha e Caveira me acompanhou. — Ei, já ia me esquecendo. Como foi sua noite com a Rafa?

Ele ficou quieto por alguns instantes.

— Foi boa.

— Só boa?

— Se você não me conta o que aconteceu aqui, eu também não te conto da minha noite.

— Nossa, que comparação! — Tirei a travessa de fettuccine da geladeira e coloquei no micro-ondas. Peguei alguns pratos e me sentei à mesa, em frente ao Caveira. — Vamos lá, me conta como foi.

Ele deu um sorriso de orelha a orelha.

— Foi bom. Ela realmente é uma garota legal.

— Hum... Estão namorando?

— Calma lá! Acabei de sair com a menina.

Suspirei e balancei a cabeça.

— Pensei que você queria uma namorada para levar para Belo Horizonte.

— Não precisa ser necessariamente uma namorada. — Ele deu de ombros.

— Namorar não é tão ruim quanto parece.

— Ah, sim, sua cara sempre está boa quando fala da Alice.

— Meu namoro é complicado.

— Porque você quer.

— Você está mudando de assunto. Vamos, fale de ontem.

— Não tem muito o que falar. Fomos jantar, conversamos, depois fomos pro Trem Bão.

— E?

— E o quê?

— Não rolou nada?

— Nós ficamos, se é isso que você quer saber. — Ele fechou a cara.

— Também não precisa ficar bravo. Só quis saber o que aconteceu. — Eu me levantei e tirei a travessa do micro-ondas. — Você vai levá-la à festa hoje?

— Não, não marquei nada com a Rafa. — Ele me olhou. — Aliás, vou dormir aqui hoje, pra impedir que você faça alguma besteira.

Virei os olhos e o encarei.

— Você está parecendo meu pai.

— Não se discute mais isso: você me leva pra festa, assim posso beber à vontade, e depois venho dormir no quarto de hóspedes.

— Por mim, tudo bem, só vou encontrar a Alice lá. Tecnicamente, estamos brigados.

— Ai, ai. Cada vez menos eu aguento esse seu namoro.