A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 14 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 10

 

Estava terminando de escrever um e-mail enorme para a minha mãe, contando sobre o início das aulas, o reencontro com meus amigos e a volta de Juliana quando aconteceu um blackout em Rio das Pitangas. Olhei a bateria do notebook, que já estava quase acabando, e me xinguei por não ter colocado para carregar antes, amaldiçoando a tecnologia, que dependia da energia.

Fiquei um tempo no escuro olhando o computador e decidi salvar o resto do e-mail antes que a bateria acabasse. Enquanto fazia isso, o celular tocou, me assustando no silêncio sepulcral do meu quarto.

— Tudo escuro aí, Cadu? — Era o Beto.

— Que raiva, viu? Estava terminando um e-mail gigantesco pra minha mãe quando acabou a energia, e agora a bateria do notebook também está quase acabando.

Beto soltou uma gargalhada, mas não achei graça. Detesto quando acontece isso porque não há muito o que fazer, principalmente se o notebook e o celular estão quase sem bateria.

— Bom, acho que hoje não vai rolar o Bar do Tavares.

— É mesmo, tinha esquecido que era quinta-feira.

— Pelo visto, você ia furar.

— Não, ia acabar lembrando. — Não estava muito certo, mas era bem provável que me lembrasse. — Você não apareceu hoje de tarde pra correr.

— Fui encontrar a Ju e me esqueci.

— Ah. — Eu podia ter ficado sem essa, mas tudo bem.

— Vamos combinar assim: se a energia voltar até umas nove horas, a gente vai pro Tavares.

— Combinado. Vou avisar o Caveira. — Desliguei e já emendei na ligação para o Caveira. — Fala, Caveira, só pra combinar o Tavares hoje.

— Tavares? Com esse breu todo?

— O Beto combinou que se a luz voltar até as nove a gente vai lá.

— São oito e pouco da noite, você acha que volta?

— Duvido muito, mas fica combinado. — Ia desligar quando o Caveira começou a falar.

— O que você acha de irmos no sábado pra Rioazul? O Juca disse que vai ficar com a chácara dele livre.

— Não sei...

— Vamos, cara. Ele vai dar uma festinha, você sabe, chamar umas gatas, cerveja adoidado, quartos livres.

Fiquei alguns segundos em silêncio, tentando decidir se era uma boa ou não. Provavelmente sim, já que a única coisa que fazia nos últimos dias era pensar na Juliana.

— Vou pensar. Meu pai deve me encher o saco como se eu ainda tivesse 12 anos, mas vou ver.

— Ok, amanhã a gente combina direito.

Desliguei o telefone e peguei meu celular para usar de lanterna enquanto ia até a cozinha procurar uma vela.

Desci a escada com cuidado e vi uma pequena claridade vindo da sala. Fui até lá e encontrei meu pai sentado no sofá, com uma vela acesa na mesinha de centro.

— Oi, pai. Pensei que não estava em casa.

— Cheguei tem pouco tempo. — Ele olhou para mim. — Vai sair?

— Com essa escuridão? Não. — Eu me sentei no outro sofá e ficamos em silêncio durante alguns minutos.

— O que acha de um vinho? — perguntou ele, já se levantando, e eu sabia que vinha uma conversa séria pela frente.

Sempre que estávamos só os dois em casa e ele decidia abrir um vinho era sinal de conversa séria. Meu pai era totalmente previsível.

Ele voltou da cozinha com uma garrafa de vinho tinto aberta e duas taças. Serviu a minha e eu dei um longo gole, sentindo o gosto amargo da bebida na boca. Ele se sentou novamente e ficou observando sua taça.

— Vinho, velas... Uma cena romântica se não estivéssemos nós dois aqui — brinquei.

— Sim... Romântico. — Ele deu um gole e me olhou. — Por falar em romântico, como vai sua história com a Juliana?

Sorri com o canto da boca. Então era sobre isso que ele queria falar.

— Não vai. Não tem história.

— Como você está, meu filho? Estou preocupado com você.

— Estou bem, na medida do possível.

Não estava me sentindo muito confortável com aquele papo. Sempre tive dificuldade para falar sobre meus sentimentos e para me abrir com alguém. Instintivamente, me afundei no sofá, como se isso fosse me salvar.

— Tenho medo que essa história possa te machucar.

— Não vai. — Menti, porque na verdade já estava machucando.

— E ela?

— O que tem ela?

— O que ela sente por você?

Suspirei e olhei para baixo, mexendo na minha taça.

— Não sei. Acho que ela gosta de mim só como amigo. — Levantei os ombros, me sentindo derrotado.

— Ela sabe?

— Deus queira que não — sussurrei.

— E o que você pretende fazer?

Meu pai falava calmamente, como se conversássemos sobre algo banal, tipo a previsão do tempo.

— Como assim? — Cerrei os olhos.

— Você pretende esquecê-la ou lutar por ela?

— Não sei. — Fiquei mudo por um tempo, pensando naquilo. — Acho que nunca passou pela minha cabeça lutar por ela... Não sei se vale a pena lutar.

— Não custa tentar, Carlos Eduardo.

— Pai, ela namora o Beto! — Arregalei os olhos.

— Eu sei. Mas você tem que tentar. Não se pode deixar nada nesta vida sem tentar, para depois não se arrepender.

— Lutar pela Juliana significa o fim da minha amizade com o Beto. — Não consegui acreditar que ele estava me incentivando a brigar pelo amor de Juliana.

— Não necessariamente.

— É claro que sim. Ele nunca mais vai falar comigo se souber que estou tentando roubar a namorada dele.

— Você não vai roubar a namorada dele. Vai apenas deixar que ela se decida.

— É basicamente a mesma coisa.

Eu estava temeroso com essa possibilidade, mas ao mesmo tempo havia um fio de esperança dentro de mim que desejava mais do que tudo que a Juliana preferisse ficar comigo e não com o Beto.

— Escuta, você não é o primeiro homem a se apaixonar pela mulher do melhor amigo. Não é o fim do mundo nem precisa ser o fim da amizade. Apenas jogue limpo.

— Não posso me abrir com o Beto.

— Não, receio que não. Pelo menos no momento.

Encostei a cabeça no sofá e fechei os olhos, sentindo minhas bochechas corarem.

— Acho que não quero falar mais sobre isso.

— Tudo bem. Também não sei dar conselhos nesse sentido. Talvez sua mãe seja melhor.

Levantei a cabeça na mesma hora e o encarei.

— Não conta pra ela!

— Não vou contar, não se preocupe. Mas uma opinião feminina poderia ajudar. — Ele parou e esperou uma resposta minha, que não veio. Bebeu mais um pouco de vinho e olhou para baixo. — A Matilde é uma boa mulher.

Eu balancei ligeiramente a cabeça e pisquei os olhos. Havia cochilado por alguns instantes ou ele mudou mesmo de assunto?

— Eu gosto muito dela — respondi, sem saber aonde ele queria chegar.

— É... Estava pensando... Eu estou sozinho... Ela também...

Ele não prosseguiu e eu percebi que estava um pouco sem graça para falar sobre aquilo comigo, mas me levantei do sofá com um sorriso estampado no rosto. Era bom demais para ser verdade que nosso plano tivesse dado certo, e — melhor — tão rápido.

— Você está falando sério? — Eu não acreditava no que ouvia.

— Sim. Não quero passar o resto dos meus dias sozinho, e ela é uma boa companhia, além de ser uma mulher muito atraente.

— Pai, que legal! — comemorei, me abaixando e dando um abraço nele. Acho que minha atitude o espantou um pouco, pegando-o desprevenido. — Eu quis isso por muito tempo, que o senhor encontrasse alguém.

— Fico feliz por saber que você aprova.

— Claro que aprovo! E acho que o Caveira também vai aprovar! Ele vive falando que a mãe precisa de companhia.

— Que bom. — Mesmo com a escuridão, percebi que meu pai estava envergonhado.

— Agora é minha vez de perguntar: o que você pretende fazer?

— Não sei... Pensei em convidá-la pra jantar aqui no sábado, mas não sei se vai ter muito clima.

— Sábado é perfeito! Eu vou em uma festa com o Caveira em Rioazul e devemos dormir por lá — disse, mesmo ainda não tendo certeza. — Qualquer coisa eu durmo na casa do Caveira.

— Bom, bom. Então amanhã vou convidá-la para jantar aqui no sábado.

Mal pude acreditar que meu pai estava com segundas intenções com a tia Matilde, muito menos que ele não deu sermão sobre eu ir para Rioazul. Definitivamente, uma namorada para ele era a solução para os meus problemas.

Quando o vinho terminou, deixei meu pai na sala e subi correndo para o meu quarto. Fechei a porta e peguei o telefone.

— Caveira, você não vai acreditar! — E comecei a contar a conversa com meu pai, claro que só a parte da tia Matilde.