A Namorada do Meu Amigo

Graciela Mayrink · Capítulo 29 de 44

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A Namorada do Meu Amigo

Capítulo 25

 

Eram cinco e meia da tarde e meu cérebro estava moído.

— Não aguento mais — disse, fechando o caderno e baixando a cabeça.

Estava sentado no chão com o caderno apoiado na cama, e Beto estava em uma cadeira.

— Falta pouco para terminar esse capítulo. — Beto tentou me animar, em vão.

— Chega por hoje. Não entra mais nada aqui — repliquei, batendo de leve na testa com o dedo indicador.

— Você que sabe. — Ele fechou o caderno. — Eu já sei a matéria mesmo.

— Bem que você podia fazer a prova por mim.

— Ah, sim, claro, e você faz a minha e eu sou reprovado.

— Obrigado pelo incentivo.

Ele levantou e se aproximou.

— Olha, não é difícil. É apenas uma questão de entendimento.

— Eu sei que não é difícil. O problema é que não gosto e aí fica complicado aprender sobre Direito Tributário.

— Amanhã a gente estuda mais. — Ele deu de ombros. — Aí na quarta eu vejo onde você está tendo mais dúvidas.

— Ok. — Eu me levantei do chão. — Vamos correr agora?

— Já? — Ele olhou para o relógio.

— Está na hora de sempre. Além do mais, vou comer uma pizza com a Alice depois.

— Hum, boa ideia, vou avisar a Ju. — Ele tirou o celular do bolso, mas eu o impedi de ligar.

— Sabe o que é? É que eu quero ir sozinho com a Alice.

Beto estranhou.

— Por quê?

— Porque sim. — Dei de ombros. — Porque quero ficar sozinho com a minha namorada.

— Sei... Você sabe que se tentar qualquer coisa com ela é um homem morto, não sabe?

— Você está doido? Estou namorando a Alice faz um dia, não estou pensando nisso!

— Não? E por quê? Não acha a Alice atraente?

Dei um longo suspiro e o encarei.

— Não é isso, Beto. Alice é muito atraente, mas nós estamos juntos há pouco mais de vinte e quatro horas. Apenas quero curtir um tempo sozinho com ela, precisamos disso, todo namoro precisa. Não dá pra você estar junto toda vez que eu encontrá-la. Precisamos ir nos conhecendo.

— Vocês já se conhecem.

— Como amigos. Como namorados é diferente. Precisamos de intimidade e liberdade.

— Intimidade para quê?

Eu já estava ficando sem paciência com o interrogatório, mas mantive a calma.

— Beto, se coloca no meu lugar. Imagina se a Juju tivesse um irmão e toda vez que vocês fossem sair o cara fosse junto.

Ele ficou quieto, pensativo. Depois de um tempo, concordou.

— É, é um pé no saco.

Ergui a sobrancelha e balancei a cabeça.

— Você sabe que eu tenho o maior respeito e carinho pela Alice e por toda a sua família. Não faria nada para magoar todos vocês.

— Ai de você! Se você fizer Alice sofrer, se terminar o namoro, se der uma de engraçadinho e levar minha irmã pra cama, eu te mato!

— Definitivamente, acho melhor nossas conversas agora serem apenas sobre Direito e coisas banais. Não dá mais pra falar sobre namoradas com você.

Beto se espantou com meu comentário.

— O que você está insinuando?

— Beto, por favor, né? Poucos dias atrás você pediu meu quarto pra passar a noite com a Juliana e agora vem com esse moralismo com a Alice? Por que a sua namorada pode e a sua irmã não?

Terminei de falar e só vi o Beto voar para cima de mim, segurando a gola da minha camisa.

— Não se atreva.

Eu o empurrei com força e o olhei sério.

— Não estou pensando em levar sua irmã pra cama. Como falei, mal comecei o namoro. Não precisa se preocupar com isso. — Peguei minhas coisas e olhei para ele. — Se quiser correr, estou indo pra universidade.

 

Saímos da minha casa e fomos até a pista da universidade calados. Beto ligou o iPod e começou a correr, enquanto eu pegava meu celular.

— Oi, Alice, sou eu.

— Oi, Cadu, onde você está?

— Na universidade, vou começar a correr. — Olhei em direção ao Beto, mas ele estava longe, concentrado na corrida. Eu me virei de costas para ele. — Devo passar aí umas sete horas, vou correr uns quarenta minutos e depois tomar banho aqui.

— Sem problemas, estarei pronta.

— Tem mais uma coisa. — Suspirei, esfregando a testa. — Tem como você me esperar do lado de fora? Quero evitar um encontro com seu pai.

Alice começou a rir.

— Está com medo dele?

— Não. — Menti. — Depois eu o encontro, não hoje.

— Tudo bem, estarei lá fora às sete.

Desliguei o celular, cronometrei quarenta minutos no relógio, apertei o play do iPod e comecei a correr.

Beto só voltou a falar comigo quando terminamos a corrida. Enquanto eu bebia um pouco de água, ele se aproximou.

— Desculpa pelo ataque.

— Não esquenta.

Percebi que ele estava realmente arrependido.

— Estou atravessando uma fase difícil, meus nervos estão à flor da pele. Foi tudo de uma vez, o namoro da Emília com o Otávio e agora o seu com a Alice. Não estou acostumado a ver minhas irmãs namorando e é tudo muito estranho.

Eu sabia do que ele falava, mas quis provocar um pouco.

— É, você conhece bem as intenções dos homens com as mulheres.

Ele me olhou com uma leve pontada de raiva.

— Não estou falando disso.

— Espero que não mesmo, afinal, pensei que você me conhecesse.

Beto respirou fundo, bebeu um pouco de água e depois me olhou.

— Sei que não devia agir assim com você. Eu que sempre fui o sacana com as meninas, não você.

— Eu não magoaria Alice, você sabe disso.

— Sim, sei.

— E por que age dessa forma?

— Não sei. — Ele deu de ombros. — É difícil ter duas irmãs.

— Imagino que sim, mas você também tem que pensar que nem todos são como você é.

— Como eu era, corrigindo.

— Que seja. — Agora foi minha vez de dar de ombros.

Caveira apareceu próximo das arquibancadas e gritou nos chamando. Fomos até ele.

— E aí, correram muito?

— Quarenta minutos — respondeu Beto. — Vou lá tomar banho.

Beto saiu e o Caveira ficou observando-o.

— O que ele tem?

— Está um pouco estressado com os namoros das irmãs.

— Sério?

— Não gostou nem um pouco quando eu disse que queria sair sozinho com a Alice hoje pra comer uma pizza.

Caveira soltou uma gargalhada e o Beto olhou para trás.

— Ele acha que as irmãs dele vão continuar virgens o resto da vida? Isso se elas ainda forem.

— Fala baixo! — eu disse alto, percebendo que Beto ainda nos olhava.

— Você anda muito estressado também. — Ele deu um tapinha no meu ombro e foi atrás do Beto.

Peguei minha mochila e também fui para o vestiário.

 

Estacionei em frente à casa do Beto e quase tive um ataque cardíaco ao ver Alice parada na porta ao lado do pai.

— O que seu pai está fazendo aqui fora? — perguntei para o Beto, que olhou em direção à porta da sua casa e começou a rir.

— Deve ter vindo conhecer o novo namorado da filha.

Saímos do carro e eu parei em frente a Alice, com o Beto se posicionando atrás de seu pai. Percebi que ele queria ver minha reação do melhor ângulo possível.

— Boa noite, Carlos Eduardo Campos.

— Boa noite, senhor Gomes. — Quase gaguejei.

— O que aconteceu com o tio?

Arregalei meus olhos com essa pergunta e dei um sorriso sem graça.

— Acho que agora fica um pouco estranho te chamar de tio.

— Como quiser. — Ele balançou a mão, em descaso. — Vim aqui fora para duas coisas. A primeira é dizer que não quero mais minha filha esperando pelo namorado do lado de fora de casa. Alice é uma menina de família, de respeito, e não qualquer uma para ficar se esgueirando no escuro como se estivesse saindo escondida.

— Pai! — berrou Alice.

Gelei com esse comentário e vi o Beto ali atrás, sorrindo de satisfação.

— Desculpa, senhor Gomes. Eu realmente não tive essa intenção. Como o Beto veio comigo, pensei que não haveria problema. Mas isso não vai se repetir.

Ele ficou um tempo quieto me

analisando.

— Bom, o segundo assunto é que você está convidado para almoçar aqui no sábado. Minha esposa vai fazer algo especial e contamos com a sua presença. — Não soou como um convite, e sim como uma intimação.

— Sim, claro, estarei aqui — disse, sentindo meu estômago revirar com aquele péssimo primeiro encontro como namorado da Alice.

— Não voltem tarde — disse ele, e entrou.

Beto continuou sorrindo para mim.

— E você pensou que eu fosse o problema. — Ele sorriu mais uma vez e entrou.

Fiquei ali, olhando para a porta que estava sendo fechada.

— Vamos logo, Cadu, antes que meu pai resolva voltar. — Alice me puxou para o carro.

 

Entramos no Pizzaiolo, um restaurante em Rio das Pitangas bastante encantador e acolhedor. Estávamos mudos desde o episódio na porta da casa de Alice.

Sentamos em uma mesa na varanda, com as folhas das árvores fazendo uma rômantica cobertura sobre a gente. O banco formava uma espécie de U em volta da mesa, de modo que Alice e eu ficamos sentados bem próximos, lado a lado.

Pedi uma pizza de calabresa e refrigerante para nós dois. Quando o garçom se afastou, Alice me olhou.

— Desculpa pelo meu pai. — Ela estava completamente sem graça.

— Você não tem que pedir desculpas. Eu que preciso pedir, ele está certo.

— Ele foi muito seco com você.

— Ele está agindo como pai amoroso. Só está pensando no seu bem.

Eu a puxei para perto de mim e beijei sua testa. O garçom trouxe os refrigerantes e se afastou.

— Estou envergonhada com a atitude dele.

— Que é isso? Não fique. Como disse, ele está certo. Foi péssimo da minha parte pedir que você me esperasse do lado de fora. — Eu me afastei um pouco, para olhar seu rosto. — Agora esqueça isso.

— E o almoço de sábado? Se você não quiser ir, não precisa.

Eu sorri para ela.

— Eu quero ir. Vou ficar feliz por estar com a sua família.

Ela sorriu de volta e pareceu relaxar. Tirei uma mecha do cabelo cor de areia que caía sobre seu rosto e levantei seu queixo para beijá-la. O beijo da Alice não despertava em mim as mesmas sensações que o da Juliana, eu não sentia um calafrio percorrer a espinha nem meu coração disparar. Mas eu gostava de beijá-la, era diferente quando ela estava em meus braços. Não tinha como negar que sentia uma forte atração por Alice.

— O que o Beto quis dizer sobre ele ser o problema? — perguntou ela, quando nos afastamos.

— Nada demais. — Dei um gole no refrigerante, tentando ganhar tempo. — Beto ainda não se acostumou com o fato de você ter um namorado.

Alice virou os olhos.

— Ele está te perturbando?

— Não sei se perturbar seria a palavra certa. Ele só está tentando te proteger.

— Ai, meu Deus, o que ele falou?

Alice tinha os olhos arregalados para mim e uma expressão aflita.

— Calma, ele não falou nada. Apenas coisas que um irmão mais velho falaria.

— Ele não pode agir assim!

— Ele só está tentando te proteger.

— Eu já sou bem grandinha.

— Beto e eu somos amigos há muito tempo. Não se preocupe, eu sei lidar com ele.

— Por isso mesmo, ele te conhece, sabe como você é.

— Ele só tem medo de você se machucar. — Dei de ombros, bebendo mais um pouco de refrigerante.

— Ele tem medo de você fazer comigo o que ele fazia com as meninas antes de a Ju aparecer.

Concordei.

— Em parte, mas ele sabe que eu não sou assim.

— Já vi que o Beto vai encher nossa paciência sempre. Vou ter que falar com a Ju.

Levantei a sobrancelha.

— Falar com a Ju?

— É, pra conversar com meu irmão, dar um jeito nele.

— Fica calma. Ainda estamos no começo do namoro, daqui a pouco ele se acostuma.

Ela suspirou e ficou olhando para seu copo na mesa, ainda intocado.

— E você? Já se acostumou?

Eu não esperava aquela pergunta. Fiquei alguns segundos quieto. A verdade é que namorar a Alice não era tão difícil quanto eu imaginava que seria.

— Já. — Puxei Alice de modo que ficamos abraçados, seu rosto encostado no meu peito. — Já me acostumei e estou gostando de ser seu namorado. Agora desencana de tudo, viu?

Ela me encarou sorrindo, com um brilho diferente nos olhos.

— Espero que você possa gostar de mim um dia.

— Eu gosto de você.

— Você entendeu o que eu quis dizer.

A pizza chegou, interrompendo nosso namoro.