Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 11 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 9

 

 

Naquela noite, faltaram dois assistentes de palco para a estreia do espetáculo. Jack substituiu-os, sempre a resmungar, pondo os trajes nos sítios devidos, verificando as lamparinas na extremidade do palco. Gostava de estar no seu lugar à hora certa, no alto da armação, pronto para abrir o pano quando o senhor Antony mandasse.

Isabella estava numa das alas, a fazer alongamentos, com o rosto já coberto de pó e vestida com o fato esvoaçante de musselina. Estava deslumbrante, pensou Jack, com o cabelo louro preso no alto da cabeça e as maçãs do rosto pintadas com rouge. Mas Jack achava-a sempre deslumbrante. Passava todos os espetáculos na armação, bem acima do palco, a vê-la – a observar a forma como parecia deslizar pelo ar como um peixe debaixo de água. Sem qualquer esforço. Isabella voltou-se para o ver a olhar para ela e sorriu-lhe. Jack retribuiu.

– Ei! Pinga-amor! – chamou o senhor Anthony. Estava a segurar uma corda e a equilibrar um cigarro no lábio inferior. – Vê lá se tens a árvore pronta para o Segundo Ato. O Carafree não está cá, por isso tens de fazer o trabalho dele. – Deu um suspiro profundo. – Consegues dar conta disso, não consegues, Jack? – O senhor Anthony ficara sem um braço na guerra contra os franceses nas Índias Ocidentais, e no lugar dele tinha um braço de couro cheio com o que poderia ter sido crina de cavalo, que saía pelas costuras entre os dedos falsos, embora Jack sempre tivesse consciência de que não devia fazer perguntas.

O rapaz afastou o cabelo dos olhos.

– Claro que consigo. Mas onde está o Carafree? E o John Nickels? Não é habitual eles não aparecerem.

– Então, não ouviste?

– Não, claro que não. Ouvi o quê?

O senhor Anthony olhou em redor e aproximou-se mais de Jack, voltando-se de costas para um grupo de meninas do coro às risadinhas.

– Morreram.

– O quê? Os dois?

– Como tordos. Dizem que é outra vez a peste. Que levou o Carafree ainda antes de ele sequer ter febre e o John Nickels ainda mais depressa.

– Não – exclamou rapidamente Jack. – Não, os tipos que param no King’s Arms gostam de falar e de meter medo uns aos outros. Aposto que o Carafree e o John Nickels estão numa carruagem a caminho de Glasgow, a rirem-se que nem perdidos das dívidas de jogo que deixaram para trás. E também aposto que não pensaram nem por um minuto no trabalho extra que me iam deixar.

O senhor Anthony encolheu os ombros.

– Não foi isso que ouvi, companheiro. Ouvi que é a febre outra vez a atacar. No mês passado, levou uma família inteira em Canongate.

– Não é a febre romana – reagiu Jack, confiante. – Não pode ser. Se fosse, fechavam os teatros. Ficávamos sem trabalho.

O senhor Anthony deu uma gargalhada sincera e infeliz que se transformou num ataque de tosse.

– Se for a febre, meu rapaz, vamos ter muito mais com que nos preocupar do que com o trabalho. – A coreógrafa tocou a campainha para o espetáculo começar. Jack deitou um olhar esperançoso a Isabella, para o caso de ainda estar a olhar para ele, mas ela estava distraída, a puxar as meias para cima. E então Jack acenou com a cabeça para Thomas, o ator principal, e subiu a escada encostada à parede do fundo, de forma a chegar às traves sobre o palco.

Jack via aquelas traves do Le Grand Leon como um grande navio – havia cordas e barrotes de madeira, grandes velas de lona para os cenários pintados e, por entre tudo aquilo, a descer e a subir, a torcer-se e a puxar e a largar, estava Jack. Não sabia onde tinha nascido – imaginava que teria sido algures em Canongate –, mas o teatro era aquilo que sentia como casa.

Tinha na memória alguns anos nebulosos de miséria, depois de ter fugido da mãe, que trabalhava e bebia de mais; anos que passara a mendigar na High Street e a fazer truques de cartas para as senhoras nos Jardins de Princes Street e a lutar com os outros rapazes escanzelados como ele pelos ossos deitados fora nas traseiras do talho. Vivera durante algum tempo com um grupo de ladrões em Fleshmarket Close, onde o cheiro do sangue coalhado que corria do talho para a rua ficava no nariz de Jack quer estivesse acordado, quer estivesse a dormir. Munro também lá morava – um rapaz uns anos mais velho do que Jack, que usava calças de pescador até para dormir e a quem tinham partido o nariz tantas vezes que o que lhe restava na cara estava torcido para todos os lados. Foi Munro quem ensinou Jack a tornar-se ladrão de corpos.

– Estás a ver aquilo? – disse Munro a Jack, numa tarde, enquanto assistiam a um enforcamento em Grassmarket. O infeliz assassino tinha as mãos atadas atrás das costas e teve de pedir ao carrasco que lhe tirasse o boné, deixando à vista o cabelo encharcado de suor. O homem estava a ser enforcado por ter batido com tanta violência na mulher que ela morrera, assim como o bebé que tinha na barriga. Durante semanas, tinham andado pelas ruas rapazes a vender jornais com desenhos do homem e pormenores do crime.

Jack e Munro ficaram a ver até o corpo cair no chão de madeira, até que as horríveis contorções parassem e a multidão se calasse. Quando finalmente o corpo caído ficou imóvel, uma horda de homens acotovelou-se para abrir caminho para ficar com o cadáver.

– Estás a ver aqueles homens todos a quererem ficar com o corpo? – disse Munro. – Estás a ver?

Jack deu uma dentada numa maçã farinhenta.

– Quem é que quer os ossos de um assassino morto?

– Não sejas burro – retorquiu Munro, tirando a maçã a Jack e dando-lhe uma dentada. Fez uma careta, mas deu mais uma dentada. – Querem ficar com o corpo para o venderem aos médicos. Aos estudantes lá de cima da universidade. Precisam de corpos para estudarem e outras coisas. Um corpo vale dois guinéus e uma coroa. Se for uma grávida, sobe para três guinéus, mas é mais difícil, porque raramente enforcam mulheres grávidas. – Munro inclinou a cabeça para a forca, onde quatro ou cinco homens tentavam furiosamente cortar pedaços do nó com canivetes. – Vendem aqueles pedaços de corda como recordação. Devem dizer que afastam os espíritos malignos. Ou os assassinos. Ou se calhar é para afastar o azar de se ser enforcado. Mas o dinheiro a sério está no cadáver – continuou Munro, chupando o caroço da maçã. – O problema é que toda a gente sabe quando é que vai haver um enforcamento, por isso todos lutam pelo corpo. Mas um corpo é um corpo, quer esteja enforcado ou não, e os médicos não se preocupam tanto com as leis como se possa pensar.

E foi assim que Jack Currer se tornou ladrão de corpos. Tinha uma pá e esgueirava-se para dentro dos cemitérios durante noite para desenterrar cadáveres frescos – às vezes, sozinho, outras vezes, com Munro e qualquer outro pobre rapaz que aparecesse no Fleshmarket a precisar de uma boa refeição.

Iam meter-se em sarilhos? Não mais do que os que já tinham por serem pobres e viverem nas ruas de Edimburgo. Os ladrões de corpos eram um órgão vital da própria cidade. Era algo nojento, e as pessoas finas gostavam de voltar a cara, mas essencial. Toda a gente sabia o que eles estavam a fazer; a polícia não se interessava, desde que não levassem roupas ou joias das sepulturas. As famílias mais ricas tinham caixões de ferro ou enormes lajes por cima das sepulturas para as protegerem de pessoas como Jack. As famílias mais pobres punham, por vezes, uma pessoa sentada a vigiar, uma sentinela que ficava ao lado da campa durante três ou quatro dias, até a decomposição do corpo ser já tão avançada que deixava de ter valor para os médicos estudarem. (Ambos os casos eram facilmente contornados por um profissional como Jack – que começava a escavar um túnel a 20 metros de distância para chegar até lá. Tirava o corpo e ninguém sabia.)

Mas era sobretudo com os que não tinham entes queridos que Jack ganhava a vida, aqueles cujos corpos eram enterrados em campas rasas e esquecidos. Eram valiosos para Jack, assim como para os médicos a quem ele os vendia. Por muito pouco que essas pobres almas tivessem feito em vida, fizeram muito na morte. Ele tinha pensado que começar a trabalhar no Le Grand Leon significaria desistir daquela vida, das longas noites a escavar até lhe doerem os ombros, a puxar corpos inchados de gás e merda, cheios de vermes que se enfiavam nos sapatos. Tinha um sítio para dormir, aninhado na lona estendida sobre as tábuas por cima do palco, e o senhor Arthur fazia guisados para os trabalhadores com couves, cascas de batata e qualquer outra coisa que arranjassem.

Jack gostava de pensar que tinha uma visão melhor ali em cima do que as pessoas chiques nas cadeiras chiques dos camarotes, e a única coisa que tinha de fazer era garantir que o pano se abria e os cenários se desenrolavam na altura certa. Aquelas pessoas do público estavam presas às cadeiras, com as sedas – que ficariam enrugadas se a postura não fosse a correta, quanto mais se saltassem uma cerca de jardim – e sapatos que lhes beliscavam os pés. Mas a fome de dinheiro rastejava sobre ele como uma raposa na escuridão.

E havia Isabella. Sempre Isabella, a dançar no palco lá em baixo noite após noite. Como poderia alguém não se apaixonar por ela depois de ver o modo como se movia, a forma como as luzes no palco faziam o seu cabelo louro brilhar – a faziam brilhar por inteiro? Era a coisa mais parecida com um anjo que Jack alguma vez vira em Edimburgo.

Após dois meses como ajudante de palco no Le Grand Leon, o rapaz começou novamente a roubar corpos de noite.

– Tudo bem? – perguntou Thomas, o ator principal, a Jack, durante um intervalo de aplausos. Thomas já estava vestido com o traje para a cena seguinte, quando aparecia como o Diabo, disfarçado como o antigo amor da senhora. Jack assentiu. Thomas era de Birmingham – só Deus sabia como tinha chegado ao Le Grand Leon, mas gostava de dizer a qualquer pessoa que o ouvisse que havia de poupar dinheiro suficiente de forma a ir para Londres representar Shakespeare para o rei. Era bonito, naquela espécie de beleza de um ator de ombros largos, o tipo de bonitão que punha as senhoras que faziam os trajes a darem risadinhas escondidas com as mãos. Jack tinha tendência a desaparecer nas sombras, mas isso era por natureza. Como um animal noturno, a melhor forma de Jack se manter em segurança era permanecer invisível.

A vida no Le Grand Leon era como viver dentro de uma caixa de música.

O teto com as bordas douradas estava pintado em quatro secções destinadas a representar as quatro estações do ano, cada uma com a sua própria coleção de querubins em forma de batata com as faces da cor das rosas e pele cor do marfim. E como numa caixa de música, havia a bailarina, no palco central, Isabella Turner. Jack conseguia imaginá-la como uma daquelas bailarinas de porcelana que via na montra da loja de antiguidades em Holyrood Street, uma bailarina a equilibrar-se num só pé, com a outra perna estendida atrás, o braço levantado e todo o corpo esticado como uma corda de arco puxada. A rodar lentamente no palco, ao som de música de corda.

Quando vivia em Fleshmarket Close, passava todos os dias por aquela loja de antiguidades. Mas, finalmente, arranjara coragem para entrar, na semana anterior. A mulher atrás do balcão olhara para ele com um ar ameaçador, que se tornou ainda mais ameaçador quando o viu pegar na caixa de música na montra.

– Quanto custa isto?

– Mais do que tu podes pagar, acho eu – respondeu a mulher, mas com uma voz não tão antipática como seria de esperar.

– Tenho trabalho. Juro. Trabalho no Le Grand Leon. Quanto quer por isto? – A bailarina da caixa de música era loura, como Isabella.

A dona da loja suspirou e tamborilou com os dedos no balcão.

– Já te vi aí fora, não vi? A olhar para a montra. – Jack assentiu. – O mínimo que posso fazer é dez xelins.

Os olhos de Jack quase lhe saltaram da cabeça. Era tanto como ele recebia por um mês de trabalho. Mas já tinha decidido, quando entrara. Meteu a mão no bolso e tirou as moedas.

– Então, tome lá – disse. E saiu da loja antes de se poder convencer a mudar de ideias. Era para Isabella e era perfeita. Significaria apenas mais uma noite no cemitério, e era capaz de roubar e vender mil cadáveres para poder comprar a Isabella as coisas que lhe demonstrariam o quanto ele a adorava. Não se importava de passar as noites a escavar terra se isso significasse passar as manhãs com ela.

O espetáculo terminou com os habituais aplausos, e Jack a baixar o pesado pano de veludo verde, encolhendo-se à medida que a corda rangia ao descer. Isabella sorria para o público, estendia os braços como se estivesse prestes a dar um mergulho e baixava-se numa vénia que qualquer pessoa podia confundir com a de uma senhora. E depois passou para o espaço seguro atrás do pano, e o sorriso desapareceu. O feitiço mágico acabara, eram todos outra vez humanos e o público estava a fazer fila para entrar nas carruagens, a queixar-se do tempo.

Jack teria de ser rápido se queria apanhar Isabella antes de ela sair pela porta das traseiras e fosse para casa. Tirou a caixa de música de debaixo do sobretudo, onde a tinha embrulhado para estar em segurança, e desceu a escada, agarrando-se só com uma mão, mantendo-a direita.

Conseguia ouvir Isabella no camarim – os sons dos movimentos, o arranhar de uma vela a ser acesa, o farfalhar de uma saia –, mas não conseguiu obrigar-se a bater à porta. Ainda não. Pela centésima vez, passou os dedos pelas bordas lisas da caixa de música. E então Jack respirou fundo e bateu com força, duas vezes, na porta.

A porta abriu-se antes mesmo de ele terminar de bater. Não era Isabella – era a filha da coreógrafa, Mary-Anne, uma menina de 8 ou 9 anos, de olhos esbugalhados, que arrumava e fazia as bainhas dos fatos.

– Ela não está aqui – disse categoricamente, olhando para Jack de cima a baixo. Os olhos pararam na caixa de música.

– Sabes para onde é que ela foi? – perguntou-lhe o rapaz, tentando o seu melhor para contorcer a boca no que esperava ser um sorriso travesso.

Mary-Anne limitou-se a encolher os ombros.

– Que eu visse, não voltou para cá depois de o pano fechar.

Jack suspirou. E depois ouviu o riso de Isabella. Tê-lo-ia reconhecido em qualquer lugar, a mil quilómetros de distância, pela forma como aquela voz tocava como um sino. Vinha através da janela do beco. Jack empurrou um caixote contra a parede e pôs-se em cima dele, de forma a olhar pela janela. Porque o fez? Porque não entrou? Porque não foi simplesmente para a cama, percebendo que o facto de Isabella não estar no camarim era uma gentileza do destino e que a devia esquecer? Mas passar metade da vida nas traves do teto dera a Jack o instinto de olhar silenciosamente para as outras pessoas em baixo. E quando Jack se encostou à janela, viu Isabella do lado de fora, a abraçar o ator principal, e o ator principal a puxá-la para a beijar.

A caixa de música escorregou-lhe da mão e caiu ao chão. Jack caiu do caixote, derrubando duas árvores falsas.

– Estou bem! – gritou para as pessoas que estavam a olhar, embora ninguém tivesse perguntado.

Quando bateu no chão, a caixa de música abriu-se e começou a tocar baixinho uma melodia metálica. Quando Jack a apanhou, viu que a bailarina se partira. Tinha ficado sem os braços, a cabeça, o pescoço e o tronco. Restava-lhe apenas a perna, ancorando-a ao pequeno palco, e o tutu cor-de-rosa do vestido. Mas continuava a girar, até que Jack a fechou, atirando com a tampa.

Voltou a subir para as traves, onde tinha feito a cama e escondido os poucos pertences insignificantes. Empurrou novamente a caixa de música para baixo do seu casaco de reserva. Não a queria ver mais; só de olhar, sentia-se a arder de humilhação. Isabella tinha sido uma fantasia, sempre o fora. Onde é que ele tinha a cabeça para lhe comprar uma estúpida caixa de música e pensar que ela lhe cairia nos braços? Nem sequer sabia se ela gostava de caixas de música! Era um idiota. Não, pior do que um idiota. Era um idiota romântico.

Jack embrulhou-se num pano abandonado e puxou o vinho que escondera sob umas cordas, bebendo profundamente até o teatro ficar escuro e ele permanecer sozinho no silêncio – eram só os ratos nas paredes, as ratazanas nas cadeiras e um coração solitário a bater.

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Vespertino de Edimburgo

11 de novembro de 1817

MAIS SEIS MORTES CAUSADAS

POR DOENÇA MISTERIOSA

Nos últimos quinze dias, seis mortes ocorridas na Cidade Velha de Edimburgo levam as autoridades oficiais a temer outro surto da devastadora febre romana. Quatro dos corpos continuam por identificar – três homens e uma mulher –, mas as restantes vítimas foram identificadas como Davey Jaspar, de 12 anos, engraxador, e Penelope Marianne Harkness, de 31 anos.

A senhora Penelope Harkness trabalhava como estalajadeira na Deer and Stag, tendo sido descrita pelos clientes como uma mulher simpática e de riso fácil. Disse que se sentia febril na sexta-feira. O senhorio encontrou-a morta no domingo de manhã, quando ela não desceu para ir à igreja.

“É uma situação terrível”, declarou William Beecham III, presidente da Sociedade Real de Anatomistas de Edimburgo e Cirurgião Chefe no Hospital Universitário do Rei. “Eu próprio examinei o corpo e fiquei horrorizado quando descobri nas costas da senhora Harkness lesões consistentes com a febre romana. Esperamos, obviamente, que a doença não tenha voltado à nossa cidade, mas não posso deixar de aconselhar precaução e vigilância.”

A febre romana assolou Edimburgo há dois anos, no verão de 1815, causando mais de 2 mil mortes.

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