Anatomia: uma história de amor
Capítulo 37
Não eram permitidas visitas na prisão, mas Hazel deslizou uma libra para a mão do guarda, que assentiu e a deixou entrar.
– Cinco minutos – avisou, e depois voltou as costas. O veredicto fora rápido. Tinham bastado quatro horas para que uma tribuna de lordes declarasse que Jack Currer era culpado e devia ser enforcado. Pela sua parte na compra dos corpos, o Dr. Straine perdeu a licença médica e foi expulso da Sociedade de Anatomistas, embora durante dias uma multidão nas ruas tivesse gritado que Straine também devia ser enforcado.
Hazel ouvira a indignação enquanto caminhava pela Cidade Velha, mas assim que entrou na prisão, as paredes grossas de pedra amorteceram todos os sons do exterior. Apenas gemidos silenciosos de loucura e tristeza ecoavam através dos corredores da prisão, a par da chiadeira dos ratos. Eram os gemidos de quem sabia que não restava ninguém para os ouvir.
Jack não testemunhara em sua defesa no julgamento. Não dera desculpas nem explicações. Mais valia ser considerado um assassino do que um assassino e um louco. Hazel esperava lágrimas ao vê-lo novamente, mas não as houve. Todas a tinham abandonado nos últimos dias. Não lhe restava alegria nem tristeza; estava completamente entorpecida e vazia.
Jack parecia mais magro do que Hazel alguma vez o vira, sentado contra a parede com as costas curvadas, a rolar no chão um dado que se haviam esquecido de lhe tirar após o julgamento. Tinha o cabelo comprido e lânguido, e os olhos estavam vermelhos de exaustão.
Assim que a viu, Jack levantou-se e caminhou até às barras, estendendo os braços para poder segurar as mãos dela.
– Hazel – disse. – Hazel, meu amor. – Prendeu-lhe uma madeixa de cabelo atrás das orelhas. Estava tão perto que ela conseguia ver-lhe as sardas na cana do nariz e sentir o calor da respiração.
Hazel tinha qualquer coisa fechada na mão, um pequeno frasco de vidro. A estranha luminescência era visível entre os dedos. Jack olhou fixamente para ele. Ouviu-a atentamente enquanto ela descrevia exatamente o que continha e o poder que lhe daria. Fez-lhe algumas perguntas em voz baixa. Hazel respondeu.
Ela estendeu o frasco através das barras e Jack aceitou-o e rolou-o na palma da mão.
– Então, é real? – perguntou simplesmente.
Hazel assentiu.
Segurou o frasco contra a luz fraca da pequena janela para o examinar. Uma minúscula galáxia rodopiou dentro do vidro.
– Tomá-lo-ias? – perguntou em voz baixa. – Se estivesses no meu lugar?
– Jack, tens de o tomar. Por favor. Aceita-o e volta para mim. Vai ter comigo a Hawthornden o mais depressa possível. Isto é para podermos ficar juntos. Para que possamos fugir para algum lado. Para o continente. Para recomeçarmos.
Nessa altura, Jack deu uma gargalhada, um som belo e brilhante, cheio de toda a alegria e dor e amor que sentira por Hazel no breve tempo em que a conhecera. Foi aquela gargalhada que fez Hazel finalmente chorar.
– Porque ris? – perguntou-lhe, e depois começou a rir com ele.
Através das barras enferrujadas, Jack pressionou os lábios contra os dela e ambos provaram o sal das lágrimas.
– Não. Não, não, não, não, não. Hazel, se decidir tomar isto, serei um homem em fuga para o resto da vida. Ou, pelo menos, durante muito tempo. A minha primeira vida e parte da minha segunda. Tu… – Beijou-a de novo. – Tu… – E mais uma vez. – Tu, linda… – E de novo. – E perfeita, tu… – E mais uma vez. – Mereces uma vida real. Vais tornar-te uma médica brilhante. Vais ajudar tantas pessoas e mudar tantas vidas. Vais incendiar o mundo e não podes fazer isso a partir das sombras. Não podes criar medicamentos e curas em fuga. Nenhuma das nossas maiores mentes teve de lutar para comer todos os dias antes de estudar. Não, Hazel. Não. Não posso fazer-te isso.
– Essa decisão não é tua, Jack. Posso escolher onde e como viver. Não é uma razão suficientemente boa.
Jack ergueu as sobrancelhas.
– A discutir comigo? Estou prestes a ser enforcado e não consigo levar a minha avante? – Sorriu. – Acho que tens razão. Não é uma razão suficientemente boa. Estava a fazer com que parecesse um herói quando, na realidade, eu é que estou a ser egoísta.
– O que queres dizer com isso? Como é que estás a ser egoísta?
– Hazel, não há inferno pior do que um mundo em que te veria envelhecer e te perderia e depois seria forçado a viver mais um dia. – As lágrimas continuavam a cair silenciosamente pelas faces dela. – Para mim, terás sempre 17 anos, Hazel Sinnett. Serás sempre bela e forte e brilhante. Serás o último rosto que vejo quando fecho os olhos e o primeiro que imagino quando acordo.
– Então, vais tomá-lo? – perguntou Hazel. – Vais tomar o tónico?
– Ainda não sei – respondeu Jack. – Tenho tanto medo.
Uma porta ecoou algures atrás de Hazel e seguiram-se os passos pesados das botas de um guarda.
– É isso mesmo, Menina. A visita terminou.
Hazel inclinou-se para a frente para beijar Jack novamente.
– Vou amar-te toda a minha vida, Jack Currer – disse. Hazel enfiou a mão através das barras para pousar a palma da mão sobre o coração dele, sentindo os pontos que tinha cosido no meio do peito.
– O meu coração é teu, Hazel Sinnett – despediu-se Jack. – Para sempre. A bater ou parado.
– A bater ou parado – repetiu Hazel.
Enforcaram Jack Currer no Grassmarket na manhã seguinte, às 10h00. Disseram que nunca tinha havido tamanha multidão a assistir a um enforcamento público em Edimburgo, mas Hazel não esteve presente. Disseram que o corpo dele foi comprado e levado para o hospital universitário.
Mas não disseram se lá ficou.
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38
Depois chegou a primavera e a geada derreteu e o riacho abaixo de Hawthornden saltou as margens, e Iona e Charles casaram-se no jardim. A noiva tinha um vestido cor-de-rosa que Hazel encomendara a uma costureira da New Town e na trança estavam entretecidas pequenas flores brancas e verdejantes.
– Vai ficar bem? – perguntou Iona a Hazel, depois da cerimónia e do baile, enquanto Charles esperava ao lado da carruagem. Foram passar a lua de mel a Inverness e, quando regressassem a Hawthornden, daí a um mês, não ficariam a viver no castelo com Hazel. Charles e Iona viveriam numa pequena casa na aldeia, como marido e mulher. Com o pai em Santa Helena e a mãe e Percy a escolherem ficar em Londres, Hazel ficaria a viver sozinha no Castelo de Hawthornden pela primeira vez na vida.
Bem, não propriamente sozinha. Durante todo o inverno, o primeiro andar de Hawthornden serviu como hospital, onde Hazel tratou doentes que sofriam de febre romana e de doenças piores. O uso da raiz de hipericão fez com que nenhum dos doentes morresse, e Hazel estava a trabalhar arduamente numa inoculação que acreditava poder impedir o contágio da doença. O Dr. Beecham tê-la-ia, certamente, descoberto ele próprio, se a crescente pilha de corpos da febre romana e o medo que suscitava não constituíssem um disfarce tão conveniente para as mutilações e homicídios que executava.
– Ficarei mais do que bem – replicou Hazel. Na verdade, estava ansiosa por isso, pelas manhãs de passeios solitários e pelo tempo de leitura sozinha à noite com um livro no parapeito da janela enquanto a chuva caía do outro lado do vidro.
– E tem a certeza de que não se importa que eu e o Charles levemos a carruagem?
– Claro que não, Iona. Tenho a Miss Rosalind, se precisar de ir a algum lado. Talvez devesse arranjar outro cavalo para o estábulo – disse Hazel. – Para o caso de ela se sentir sozinha.
Na semana após a execução de Jack, Betelgeuse desaparecera. Aparentemente, o cavalo fora roubado durante a noite. Mas Hazel não tinha ouvido nada dos estábulos – era como se Betelgeuse se tivesse ido embora sozinho.
Iona abraçou Hazel.
– Por favor, cuide de si.
– Cuida de ti! Agora és uma mulher casada. Isso significa que se acabaram as tolices – brincou Hazel, endireitando a trança de Iona.
Iona fez um sorriso radiante.
– Eu, uma senhora casada! Consegue acreditar?
– Claro que consigo – respondeu Hazel. – Mereces tudo o que desejares neste mundo… e ainda mais.
Iona voltou-se para olhar com orgulho para Charles, que estava a sacudir terra das calças, encostado à porta da carruagem, e depois olhou de novo para Hazel.
– Também a Menina. Merece tudo o que quiser neste mundo.
Hazel descobriu que tinha um nó na garganta que lhe dificultava a fala. Só conseguiu abraçar Iona uma última vez e ver a carruagem a afastar-se ao longo do caminho do jardim até à estrada principal.
Por vezes, Jack ia ter com ela em sonhos, com os olhos ternos e carentes. Durante os primeiros meses, as almofadas estavam molhadas pelas lágrimas, mas mesmo quando as lágrimas paravam, a dor continuava no coração, pesada como uma pedra, uma sensação de afundamento que chegava no momento antes de abrir os olhos, e tinha de se lembrar que vivia num mundo sem ele. Por vezes, imaginava-o a navegar para França ou para as Américas, de pé, orgulhoso, junto ao mastro de um navio algures no mar com as ondas a rebentar em redor, o rapaz que permaneceria jovem e belo para sempre, o rapaz que ela ensinara a montar e beijara numa sepultura. Por vezes, ele falava com Hazel nos sonhos, inclinando-se para lhe dizer coisas calmas e ternas que ela nunca conseguia recordar quando acordava. Hazel tentava permanecer lá o máximo de tempo possível, no sono semiacordado na escuridão, com as sombras a transformarem-se no perfil orgulhoso de Jack, nos contornos da face dele. Conseguia vê-lo: a inclinação das maçãs do rosto, as pestanas escuras e compridas, o rosto severo – os cem pequenos lugares em que ela tocara com os lábios na pele dele.
Mas depois a luz amarelo-pálido da manhã entrava para os cantos do quarto de Hazel, e ela levantava-se para começar o dia de trabalho, curando os vivos.
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