Anatomia: uma história de amor

Dana Schwartz · Capítulo 23 de 40

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Anatomia: uma história de amor

Capítulo 21

 

 

No laboratório improvisado, Hazel já tirara tudo de cima da mesa, preparara uma página em branco do caderno e substituíra todas as velas por outras novas enquanto esperava pela chegada de Jack Currer com outra entrega, às 10h00. Estava de mau humor. Os acontecimentos no Baile dos Almont estavam sempre a repetir-se no cérebro, por mais que os tentasse afastar e concentrar-se na próxima observação, que exigiria todo o seu tempo e atenção. A situação com Bernard podia esperar.

Mas a espera por Jack Currer deixou Hazel demasiado inquieta para estudar. Por volta das 10h30, Hazel já afiara todas as penas e dispusera-as sobre a mesa, da mais pequena para a maior.

Às 11h00, as velas já estavam, na maioria, reduzidas a cotos de cera. Por fim, antes de o sino bater as doze badaladas do meio-dia, Hazel ouviu alguém a bater à porta da masmorra.

– Até que enfim – murmurou para si própria. – Entra! Está destrancada.

A porta rangeu ao abrir-se, deixando entrever uma nesga de céu cinzento e Jack, sozinho.

– Aqui estás tu. Deixaste o corpo na frente? O carrinho de mão partido, imagino. Fantástico, mesmo fantástico. Se precisarmos de mais alguém para carregar o cadáver, posso ir chamar o Charles, mas preferia que isto ficasse entre nós.

Jack não tirou os olhos do chão de terra.

– O que foi?

– Não há cadáver. Não fui ontem à noite.

– Como?

Os ombros de Jack subiram até às orelhas. Pela cara dele, dir-se-ia que preferia estar em qualquer outro lugar menos ali. Hazel reparou nas olheiras escuras e fundas sob os olhos dele.

– Não há cadáver – repetiu, simplesmente.

Hazel juntou as sobrancelhas, mas obrigou-se a manter a compostura.

– Então, quando é que poderei contar com um corpo? Um que tenha morrido com a febre.

– Não vai haver mais cadáveres. – Voltou a cara e mostrou uma terrível nódoa negra na face esquerda.

Antes de poder pensar no que quer que fosse, Hazel deu um passo em frente e levantou a cara de Jack com as mãos. O cabelo dele estava mais escorrido do que o habitual, e os olhos tinham uma expressão vazia.

O trabalho como ladrão de corpos fazia-o passar muitas noites em claro; estava habituado a passar várias horas sem dormir. Mas a noite anterior fora diferente. A exaustão começara na alma e arrastara-se de dentro para fora. Tinha contado todos os segundos até ao nascer do sol na sua cama improvisada nas traves do Le Grand Leon, desejando que os olhos fechassem, mas sem ser capaz de os obrigar a isso.

O teatro fechara temporariamente ao público, devido ao surto de febre romana, mas o senhor Anthony continuava a deixar que Jack morasse no quarto que ele havia feito no sótão do edifício. “Não tenho nada que ver com onde tens uma boa noite de sono”, dissera o senhor Anthony, e depois, com surpreendente ternura, entregara a Jack um punhado de moedas antes de sair, trancando a entrada principal do teatro atrás dele.

Jack tirou o queixo das mãos de Hazel e levantou ainda mais o casaco amarrotado nos ombros.

– Não percebo – disse Hazel, num tom resoluto. – Paguei adiantado. Só me entregaste um corpo até agora. Para descobrir a cura para a febre, já para não falar do Exame Médico, vou precisar, pelo menos, de vários…

– Bom, pode arranjar outro ladrão de corpos, não pode?

Hazel deu uma gargalhada zangada.

– Bom, não é algo para o qual se ponha um anúncio nos vespertinos.

Jack não sorriu.

– Olhe, peço desculpa. Lamento muito e tenho aqui o seu dinheiro para lhe devolver, se quiser. – Tirou umas moedas do fundo do bolso, olhou-as de relance e depositou-as em cima da mesa de madeira, onde Hazel esperara ter um cadáver. – Mas não consigo arranjar-lhe mais corpos, pelo menos até… – Jack não sabia como devia terminar a frase.

– Até o quê?

Jack suspirou.

– O meu sócio… hum, quer dizer, não é propriamente um sócio, é mais um colega. O Munro. Ele, quer dizer, desapareceu. Foi cavar uma sepultura, há umas noites, sozinho, pensei eu, mas talvez não tenha sido assim. Seja como for, não voltou.

Hazel olhou para ele, sem perceber.

– Se calhar tinha outros planos. Saiu da cidade. Foi visitar familiares.

– Ele não fazia isso sem se despedir. E não é o primeiro, esse é que é o problema. Os ladrões de corpos andam a desaparecer cada vez mais.

– Achas que anda alguém a matá-los?

– Não, acho que não… Se calhar são os polícias. Um de nós pode ter roubado acidentalmente o cadáver de um ricaço qualquer ou da mulher dele, e agora a polícia quer apanhar todos para o deixar satisfeito. Isto dura uns tempos, os polícias ficam muito escrupulosos. Mas daqui a pouco tempo já não querem saber de nós.

Esteve quase para falar da história que Munro lhe contara, dos três desconhecidos que o tinham abordado depois de desenterrar um corpo. Na altura, Jack pensou que era mais uma das histórias de Munro, uma daquelas de fantasmas que ele contava para parecer muito forte e mais importante do que os outros. Como quando dizia que conseguia matar um pardal com uma pistola a 60 passos de distância. Jack troçara dele por causa disso, e Munro ficara envergonhado e pagara a rodada seguinte.

– Seja como for – continuou Jack –, é demasiado arriscado ir sozinho e não tenho quem fique de vigia, por isso, a menos que eu queira ir parar a uma cela juntamente com o Munro, ou lá onde ele estiver, por agora acabou-se.

Hazel pegou nas moedas que Jack lhe devolvera. Passou os dedos pelas bordas de metal.

– E se não tivesses de ir sozinho? – perguntou, num tom cauteloso. – Ias escavar outra sepultura e roubar outro corpo, se tivesses alguém que te ajudasse?

– Acho que sim – respondeu Jack.

– Então, está combinado. Esta noite, vamos os dois. – Hazel passou por ele para fora da masmorra. – E serei uma ajudante muito generosa; vou deixar-te ficar com o dinheiro todo. Mas, por acaso, devia pedir-te metade.

Hazel estava no caminho do jardim que levava ao castelo quando Jack despertou do torpor com que ficara, de tão admirado, e apanhou-a.

– Espere! Espere aí, espere aí. Isso é uma loucura. Não vou escavar uma sepultura com uma senhora.

– E não vais mesmo – reagiu Hazel. – Vais comigo. Tenho para aí muitas botas velhas e sinto-me muito confortável em andar com as calças do meu irmão. Não sei se serei grande ajuda a escavar, mas a vigiar, garanto-te que não há igual.

Jack tinha a cabeça à roda com tudo o que a rapariga estava a dizer.

– Espere – repetiu. – Espere, espere. Não. Se os guardas nos apanharem, vão pensar que a raptei. Vão pensar que estou a tomar liberdades com uma… com a filha de um… disso que o seu pai é.

– Capitão da Armada Real. Por acaso, a minha mãe é que tem o título, é filha… irmã, agora, acho eu, de um visconde.

Jack resmungou.

– Esquece isso – disse Hazel. – Vou estar vestida de homem.

– Ah, vai? Tenho a certeza de que deve ser muito convincente.

– Mais do que pensas. E, de qualquer forma, não vamos ser apanhados.

– Não podemos fazer isso.

– Podemos, pois. Eu preciso de um cadáver. Tu precisas do dinheiro de um cadáver, mas precisas ainda mais de alguém que te ajude. E aqui estou eu. Já identificaste algum corpo? De alguém que tenha morrido com a febre?

Jack assentiu, relutante. Tinha descoberto o enterro no cemitério de Saint Dwynwen, longe do centro de Edimburgo. Era um morto sem família, só com dois ajudantes de Saint Anthony, o hospital dos pobres, que tinham atirado o corpo embrulhado num lençol para uma caixa de madeira barata, e um padre que murmurara umas quantas orações. Nem sequer tinha uma lápide, só uma simples cruz de madeira. Jack ouvira o padre a dizer em voz baixa ao encarregado do cemitério, enquanto abanava a cabeça: a febre tinha-o levado depressa.

– É perigoso – alertou Jack. – Não é só o risco de sermos apanhados. Os mortos estão sempre a pegar a doença às pessoas.

– Eu já a tive – replicou simplesmente Hazel. – E tu?

Jack encolheu os ombros.

– Faço isto há muito tempo e ainda não a apanhei. Há qualquer coisa no meu sangue que me dá sorte, acho eu.

– Então, está combinado – disse Hazel. – Vamos os dois buscar esse cadáver.

– Está a ver? É esse o problema dos ricos. Pensam que podem fazer tudo o que querem, quando querem e que, de alguma forma, vai dar tudo certo para vocês!

Entretanto, Hazel já chegara à pesada porta de madeira de Hawthornden. Voltou-se para Jack antes de entrar.

– Às vezes, há coisas que podemos fazer. E quem te deu autorização para roubares corpos das sepulturas?

– Ninguém! – retorquiu Jack. – É um crime. O problema é mesmo esse.

– E agora é um crime que vamos cometer juntos.

Jack não conseguiu fazer mais nada a não ser rir-se, e Hazel sorriu para ele.

Cruzaram o olhar, e Hazel corou.

– Bem – disse –, devias dormir um pouco. Temos quartos de hóspedes, se… – Apontou para o castelo atrás de si.

Jack abanou a cabeça. Não conseguia imaginar qual seria a sensação de ser convidado para uma daquelas casas grandiosas. Duvidava até que toda a exaustão lhe permitisse dormir num sítio tão estranho.

– A casa de hóspedes lá à frente também está vazia, se preferires. Ao fundo do caminho.

– Nã, é melhor ir para a minha casa e dormir um bocado na minha cama.

– Então, está bem. Encontramo-nos aqui à meia-noite? – perguntou Hazel.

– Vista roupa escura – avisou Jack, à laia de resposta.

– Não sou uma idiota, Jack Currer, independentemente do que pensas de mim.

– Garanto-lhe uma coisa, Menina Sinnett, já pensei muitas coisas de si, mas nunca que fosse idiota.

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