Anatomia: uma história de amor
Capítulo 6
Ele tinha ajudado a menina bonita. Não sabia porquê. Ela era rica, do tipo que devia ter-se desenvencilhado sozinha. Mas Jack estava lá. Já roubara indo pelas passagens traseiras do teatro da Sociedade de Anatomistas vezes sem conta. Talvez tivesse tido pena dela, vendo-a ali no beco, parecendo mais só do que era possível, com as faces vermelhas de vergonha ou de frio. Da última vez que a vira, ela tinha sangue na luva. Fora na New Town, onde os edifícios eram direitos e polidos como moedas, e a relva crescia confinada a pequenos quadrados perfeitos. Ela estava fora do seu ambiente, ali na Cidade Velha.
Jack nem sequer devia andar a rondar a Sociedade de Anatomistas àquela hora da manhã. Já tinha feito a sua venda a Straine. Os ladrões de corpos deviam desaparecer com a luz do dia – os vampiros que alimentavam os estudantes de medicina da cidade. A entrega demorara mais tempo do que ele pensara – Straine recusara-se a pagar o último guinéu porque o cadáver já tinha uma semana. Era verdade, mas a culpa não era de Jack. Era cada vez mais difícil arranjar corpos: os vigilantes da noite andavam a apertar o cerco aos cemitérios de Edimburgo. Mas não valia a pena regatear com Straine, a revirar aquele olho negro, com uma pele que parecia de cera e o cabelo gorduroso. Não era de admirar que a Sociedade o tivesse escolhido para comprar cadáveres; ele próprio parecia praticamente um cadáver.
Enfim, tinha ajudado a rapariga – nada a fazer. Não demorara muito tempo, e Jack não ia ficar por ali. Já tinha feito a venda do dia – no final, o ajudante resmungou, mas pagou por inteiro – e as moedas de prata tilintavam-lhe alegremente no bolso. De qualquer forma, tinha de voltar para o seu trabalho no Le Grand Leon – o teatro no coração da cidade onde varria o palco e lavava os fatos dos atores e construía os cenários e fazia tudo o que senhor Anthony lhe pedia. Naquela noite, depois da sessão noturna, depois de Isabella sair do palco e limpar o pó branco da maquilhagem, ia convidá-la para ir tomar uma cerveja com ele – e, quem sabe, talvez desta vez ela aceitasse.
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